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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

NICOLINO CUPELLO
publicado em: 05/02/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 08/11/2003

Nascimento: 19/03/1932
Falecimento: 08/11/2009

CARTA A NICOLINO CUPPELO

Lino, hoje é dia de manhã nublada. Amanheceu assim o céu do Rio de Janeiro. Durante a noite choveu, espantando os dias azuis de calor que já estavam aborrecendo o verde e as flores. Hoje não poderia ser diferente. É a primeira vez que, para espanto da Vida, você não está. Nem os pardais que invadem minha cozinha e enchem o ar com sua alegria, tiveram vontade de fazer algazarra.

Há um ar de desencanto e de saudade em toda parte, eu sinto. Há qualquer coisa pungente que meche com a gente, que desarmoniza as horas, que desenha uma lágrima em nós. Sei que é justamente isso que você não gostaria. Mas fica difícil, meu irmão. Difícil imaginar um mundo despido de sua alegria , de seu amor, de sua voz. Você chegou a minha vida da mesma forma que na da maioria das pessoas que conheceu: pelos braços da Música. Ela veio junta e, como a Vida também me ama, mandou que você me trouxesse um grande amor. Meu grande amor.

Lembro bem a data, 29 de outubro de 1976. Havia muita música no ar naquele dia, era um festival de canções. Com o grande amor que veio com você, tive mais dois grandes amores: Juliana e Pedro. Os anos foram passando. Muitos foram nossos momentos juntos: e invariavelmente com a presença dela, da Música, que sempre foi o grande amor de sua vida e o presente sempre presente com que você nos brindava. Pois é, meu irmão, é mesmo da porra falar de você usando o pretérito. Mas é o trem da Vida que, um dia conversando, falei pra você que não parava nas estações. Não para mesmo. E fico muito puto em ocasiões como essa. Não fui ao seu velório, não vou ver cremarem seu corpo, não vou a nenhuma dessas missas que reúnem pessoas de tempos em tempos, essas ocasiões em que o defunto está lá e a maioria dos presentes nem tão presentes assim...

Aprendi com o Zelão, companheiro de algumas passagens, que velório bom é de inimigo. De quem se ama, não se vai. Poderia ir, ouvir conversa fiada, aquelas bobagens de sempre, expor minha lágrima, chorar publicamente minha saudade e a dor que todos os que te amam estão sentindo. Mas isso é coisa de quem tem sangue italiano como você (que nem pode usar seu passaporte vinho que Juliana conseguiu ao correr atrás de sua cidadania).

Pois é meu irmão, pior é que nem na Itália você pode ir, seu grande sonho. Agora pode, tem passaporte de alma, concedido por Deus em seu desembarque de ontem. Todos estão como você estaria nesse momento se perdesse um de nós: italianamente emocionados e incontidos. Todos choram em dor exposta. Todos te amam. Também te amo. Te amo muito, e você sabe, sempre soube.

Mas tenho sangue judeu. Prefiro colocar seu disco e escutar você cantar para mim, só para mim, o Sole Mio, e permitir minha lembrança deixar minha alma encontrá-lo para mais uma canção... Até , meu irmão. Um beijo.

Paulo.
Rio de Janeiro, 9 de novembro de 2009.

Ps. Uma semana antes você pediu para gravar a música do Gonzaguinha, para você. Gravei.

Autor: Paulo da Vida Athos

O grande tenor do Teatro Municipal Nicolino Cupello nasceu no dia 14 de março de 1932, mas só foi registrado no dia 19. Seus pais, Felisberto Cupello e Maria Cupello eram primos.

Apesar de não ser um "Chacrinha", sempre adorou uma boa confusão. Dentre mil e uma coisas que já fez - jogador de futebol, jornalista, ator, foi gerente em oficina de carro etc.

Ele é tenor e compositor e, em todos os lugares por onde passou, deixou a marca de suas "palhaçadas", como ele mesmo faz questão de dizer. É casado e apaixonado por Lídia há 41 anos. Os dois vieram a minha casa pra serem entrevistados e passamos bons momentos, com muita risada. Vocês vão adorar! E ainda nos brindou com suas músicas, numa belíssima voz.

NICOLINO: Sempre fui conhecido pelas 4 últimas letras do meu nome: Lino. Mas depois que fui pro colégio, passei a ser Nicolino.

Nasci no subúrbio da Central, Riachuelo, onde morei até os 25 anos. No último ano da Faculdade Gama Filho, é que eu fui morar no Flamengo, onde estou até hoje.

LOU: E quando foi que você se interessou pela música?
NICOLINO: Em 1944, ainda no Riachuelo. Com 13 anos, fui transferido pro Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói, e lá todos que entravam pro colégio eram selecionados pra formar o coral e eu fui escolhido como solista. Eram aquelas vozinhas femininas, fininhas e foi aí que comecei a cantar "Amapola", "O Sole Mio", "Torna a Sorriento", "Dicitencello Vuiei", "Mamma". Nas festas, eu tinha que cantar "Amapola". Aí, de tanto cantar, meu apelido era "Nicolino Amapola".(risos)

LOU: Na sua família já havia essa cultura musical?
NICOLINO: Ah, sim! Papai, em Mendes, vendia disco e nós ouvíamos muita música italiana. E, na nossa cultura italiana, calabresa, aos domingos, éramos obrigados a ouvir o programa do "Januário Ferrari", que tocava música italiana. Pegava Mário Lanza, Di Stéfano, Del Mônaco, Gigli, Schipa, quer dizer, isto num setor de tenores, e fui criando uma cultura, um conhecimento, que depois afloraria.

LOU: Seus pais eram italianos?
NICOLINO: Papai italiano, mamãe brasileira. Ela nasceu como eu, por acaso, no Brasil, porque a família veio pra cá. Mas pra trás é tudo italiano.

RECONHECIMENTO COMO PROFISSIONAL

LOU: Como você foi reconhecido como profissional?
NICOLINO: Em 1953, eu fui convidado por um primo para fazer parte do coral do "Stefanini". E, até 1959, nós fizemos um trabalho muito bonito com a sua orquestra de acordeões e a programação que era uma coisa fabulosa. E eu cantava as canções napolitanas. Primeiro, fui corista. Aí, me rebelei porque só cantava no coro. Um dia, ele me botou no Fluminense, pra cantar. Eu fiquei tão nervoso que larguei o microfone e comecei a cantar sem microfone mesmo. E dessa apresentação, o diretor social me convidou pra fazer o "Baile do Pó-de-Arroz", o maior baile do Fluminense. Aí, mais tarde, cantei lá também como solista de ópera, quando fizemos a "Madame Butterfly".

LOU: Como você se tornou cantor de ópera?
NICOLINO: Em 1956, dona Ana Mendes, poetisa cearense, ia gravar um filme "Contrabando" para o qual compus a música "Noite Escura"; ela fez a letra e botou no filme. É a música do filme brasileiro "Contrabando". Ela fez uma letra divina, teve uma inspiração fora do normal.

E por causa da "Noite Escura" é que eu virei cantor de ópera, porque não tinha ninguém pra cantar as minhas músicas; eu mesmo comecei a cantar e cantava com voz lírica, né? Até que um dia, uma professora de canto deu um concerto na casa dela e eu cantei "A Noite Escura".
- "Você vai estudar canto comigo, filhiiinha! Ela era alemã. (risos). Ela batia nos peitos: filhiiinha da mamã, vai estudar comigo. E comecei a estudar canto com ela.

LOU: E o seu pai, deu incentivo pra você escolher essa carreira?
NICOLINO: Não. Ele não queria que eu fosse jogador de futebol, não queria que eu fosse jornaleiro, que era a profissão dele, porque não queria que eu sofresse o que ele sofreu. Então, até certo momento, ele me manteve como estudante, pra que eu me tornasse doutor. Esses italianos do sul da Itália, quando vêm pro Brasil, como imigrantes, querem que o filho seja doutor. E eu fiz a vontade dele. Até fiz duas universidades e mais uma incompleta, que fazem três.

LOU: Quais?
NICOLINO: Sou bacharel em direito, bacharel em em canto. Me formei em canto depois de velho, depois de ter me formado pela Escola de Canto Lírico do Teatro Municipal e pelo Conservatório Villa-Lobos, mas como as duas não davam diploma, fui fazer a escola de música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cantei muito e bem na escola. Não fiz um curso só pra comer merenda. Eu participei mesmo.

LOU: Era sua vocação.
NICOLINO: Fui também um advogado relativamente com boa penetração no Fórum e ia pro Fórum, carregando duas pastas: uma de música e outra de processo. Tinha dias que eu chegava cantando. O juiz me chamava: - Nicolino! E eu começava a cantar pra ele: - "ô, ô, ô, ô.... As maiores ações do nosso escritório foram no papo do Nicolino. Com esse gênio brincalhão, me dava com o varredor, contínuo, até o juiz, todo mundo. Eu era, desculpe a expressão, um advogado brincalhão, porque me agarravam no colo, me levantavam... E os procuradores me tinham respeito, porque as minhas petições eram muito bem feitas e revisadas pelo Dr. Valdir Morgado, conhecedor profundo da língua portuguesa e eu era quem assinava, porque havia uma distribuição.

LOU: Você trocou a advocacia pela música?
NICOLINO: Troquei porque na revolução, nosso escritório foi modificado. Nós ganhávamos na 1ª, 2ª, 3ª e última instância, mas os homens do governo não pagavam. Então, o nosso escritório, que era de direito administrativo, porque nós defendíamos funcionários públicos, acabou tendo que ser alterado.

Aí, eu fiz concurso pro Teatro Municipal pra virar cantor lírico. De advogado a cantor lírico. O Valdir Morgado, recentemente, largou e foi ser cantor popular. Ele está na ativa, aos 82 anos e cantando. Ainda vou até a casa dele cantar; o Dalto fez concurso pra juiz e se aposentou como desembargador e o Garibaldi que era o mais velho, o cabeça da nossa turma em experiência, faleceu. Nós éramos 4 advogados nesse escritório. Quase ninguém sabe que eu sou advogado. Eu me formei há 47 anos.

LOU: Quando você começou a cantar ópera no Teatro Municipal?
NICOLINO: Em 1959. Resolvemos formar um grupo, com os elementos que eram as maravilhas da época, porque o Teatro Municipal não dava chance pros novos que surgiam. Éramos: Tito Bertini, o genial Mário de Bruno e o Senhor Arthur Fomm, que é o pai da Joanna Fomm e que era o diretor social do Automóvel Clube. Ele se encantou com o grupo e formou o Teatro de Ópera.

Então, fizemos "Madame Butterfly". Eu só fiz uma pontinha na peça, cantando somente no coro. Em março de 1960, fizemos uma temporada: I Pagliacci, Cavalleria, Butterfly, repetindo, e depois fizemos a Traviatta e fizemos L'Elisir D'Amore E o palhação aqui, desde aquela época, quando tinha ensaio, se destacava e quando apareceu o grupo do "My Fair Lady" fui escolhido logo pra fazê-la. Não fui porque estava advogando. Só participava no coro. Tinha um personagem na ópera I Pagliacci, que era o Arlequim, 2º tenor, porque tem o palhaço, que é o Canio.

Então, nesta ópera, eles testaram todos os tenores pra fazer o Arlequim, mas ninguém conseguiu porque era um papel muito alegre, com uma voz assim também muito leve. Mas eu era tão palhaço que o maestro disse: vamos estudar esse papel pra ver se você dá. E Bertini faria uma récita e eu a outra.

Mas Bertini ficou doente e, no dia da estréia choveu tanto, mas choveu tanto, que eu tive que substituí-lo. E o que aconteceu? Na primeira ópera, eu não era escalado, era escalado pra segunda. Como é que eu entrei? Dando salto mortal. Cantor de ópera, dando salto mortal, foi algo diferente.

LOU: Você já era ator?
NICOLINO: Não, eu era uma criança doida. Entrei dando salto mortal e na hora de abrir a voz, saía a voz. E era aquela voz! Na época eu tinha uma voz boa. Nesse mesmo ano, 1960, o maestro Pedro Mário de Bruno me chamou pra cantar no Municipal, numa festa em homenagem à Marinha e eu fui cantar com Lourival Braga, o tenor Alfredo Colósimo, Loretta Lacce, José Roque e Nicolino Cupello, vestido como arlequim. Então, minha estréia, na ópera do Municipal, foi em 1960. E vou te dizer, nunca pensei que seria cantor de ópera!

E vou declarar uma coisa aqui, que você vai ser a primeira a ouvir: fiz tudo e me dei bem em tudo que eu quis fazer; mas eu queria mesmo era ser compositor popular de sucesso.

LOU: Você ainda tem muito caminho pela frente!
NICOLINO: Daqui a uns 40 anos, depois de morto, é capaz de alguém pegar isso aí..(mostra as suas composições rindo)

LOU: Nada disso. Você vai vencer. Eu vou divulgar sua música.
NICOLINO: Eu fiz esse samba em 1952 e o título era "O Samba".

Essa "Pequena Notável", se ninguém rasgar ou sumir com ela, vai ser um sucesso. Precisa de alguém de nome para gravar. Aí, de 1952 pra cá, comecei a compor, compor; tenho perto de 250 músicas catalogadas. Agora tenho mais de 1000 músicas guardadas. Eu mesmo escrevo a melodia e vou guardando.

LOU: Então, você ainda não se sente realizado?
NICOLINO: Não, não mesmo.

LOU: Mas isso é muito bom. Quando a pessoa se sente realizada, acha que não tem mais nada pra fazer, deixa de sonhar, de fazer projetos...
NICOLINO: Eu não consegui. Lutei a minha vida toda. Participei de 25 filmes, daquela época da chanchada, pra conhecer os artistas, pra dar minhas músicas. Dessa música eu tirei mais de 10.000 partituras pra dar para os artistas. Inclusive dei música, pessoalmente, pro Tony Bennet (foto), Nat King Cole, Teddy Randazzo. Aqui do Brasil, Maysa quase gravou. Teve umas 3 ou 4 vezes que chegou a fazer o playback pra poder cantar, mas sempre vinha um outro...

LOU: Mas sempre "A Pequena Notável"?
NICOLINO: Não, não, outras. "Felicidade de Amar", "Sem mais Adeus", "Difícil é a Solidão", "Noite Escura". A que eu trabalhei mais foi "Noite Escura".

LOU: Você editou suas músicas?
NICOLINO: Minhas músicas foram editadas em 1961 e o meu editor Estevan Mangione mandou 3 músicas lá pra Itália, pra colocar versos em italiano: "Noite Escura", "Felicidade é Amar" e "Nicolino e o Macarrão". "O Nicolino e o Macarrão" é espetacular. O verso que o Danpa fez é uma coisa primorosa, perfeita! Ele é o autor de uma música que ganhou o festival de San Remo, chamada "Concerto D'autunno". Ele é o meu parceiro na Itália.

As minhas músicas são mais tocadas na Europa, porque o Danpa divulgou através de gravação do Jairo Aguiar, em toda a Europa. No hotel em Londres, pessoas conhecidas minhas ouviram minha música sem saber que eram minhas: "- Ué! 'Felicidade' é do Nicolino!?" A Marina, que foi minha chefe no teatro Municipal, ouviu no Scala de Milão, em concerto, duas Aves-Marias que eu mandei pra aqueles tenores famosos, que cantam aqui no Municipal.

E eles cantam lá, mas, infelizmente, eu não tenho uma gravação deles aqui. Se eu tivesse, ia mostrar pra todo mundo.

LOU: E você ganha os direitos autorais?
NICOLINO: Ganhei sim, veio da Europa três reais. (risos) Eu peguei esse dinheiro, grampeei junto com a fatura e tá guardado há mais de 40 anos ou 30 anos e o dinheiro que eu recebo eu grampeio, porque é tanto dinheiro... Um fato que eu vou contar: Eu gravei "Felicidade" com Jairo Aguiar e a Copacabana só pra poder fazer um outro disco, teria que ter vendido pelo menos 5 mil. Olha, se ele fez o segundo disco, é porque ele vendeu os 5 mil. Então, veio uma fatura dizendo que venderam três discos... Agora, cada um raciocine do jeito que quiser!

LOU: Lídia, a sua mulher é uma simpatia e é sua fã número um. Admira tudo que você diz e te aplaude quando você canta. Como foi que vocês se conheceram?
NICOLINO: Ela me foi apresentada por uma colega nossa, Neuza Infurna, que era minha colega de ópera, no Teatro de Ópera do Automóvel Clube. A Lídia andava meio baleada com o marido e eu era solteiro. E Neuza tentou convencer a Lídia a ter um colóquio comigo. Mas, quando ela me conheceu, foi uma decepção porque ela não gostou...

LOU: Não acredito. Fala a verdade!
NICOLINO: É sério mesmo. Não gostou, ela mesma falou.

LOU: Peraí, ela vai falar. Você não gostou dele?
LÍDIA: É verdade, não é mentira não.
NICOLINO: Mas a Neuza insistiu. Ela foi uma das melhores intérpretes da minha música "Felicidade". Ela, o Zé Roque, que quando cantava, as mulheres ficavam malucas. "A felicidade é amar alguém pela primeira vez...." Só essa frase já conquistava as mulheres, né? Começa por aí...

E aí, a Lídia se afastou. Até que um dia, ela caiu na besteira de dar uma ligada pra mim e quebrou a cara.

LOU: Como quebrou a cara? Pelo que vejo, se deu foi bem. Ela te curte, porque eu vejo pelo brilho do olhar dela, quando você fala.
NICOLINO: Mas brigamos pra caramba. Ih..... Até dormindo eu dou pontapé nela, ela dá em mim.
LÍDIA: Não fala isso!
NICOLINO: Eu sou espontâneo! E ela não me larga, não. E eu também não largo, por duas razões: primeiro porque gosto muito dela e segundo porque eu jamais gostaria de ter uma ex-mulher. Ex-mulher acaba com a vida da gente...

LOU: Algumas se tornam perigosas.(risos)
NICOLINO: Mas não é por causa disso, essa parte é só cômica. Mas ela tem sido companheira, uma pessoa fora do normal.

LOU: Vocês têm filhos?
NICOLINO: Não, ela tem do primeiro casamento. Mas eu não tive, não queria, porque o que eu fiz minha mãe sofrer, eu ia pagar tudo em dobro, triplo, então não quis. E na rua eu evitava fazer filho também porque eu ia pagar caro.

Agora, depois que completei 71 anos, fui tomar Viagra, né? Pensando que fosse melhorar minha situação. E sabe o que aconteceu? Aconteceu o inverso. A minha perna endureceu por 3 meses e o resto nada... (risos).

LOU: Isso é piada sua!
NICOLINO: Não, é sério... Fiquei duro (risos).

LOU: Fala a verdade. Aconteceu isso?
NICOLINO: Nada! Tô brincando (risos) É porque eu tive "Síndrome da Pedrada na Panturrilha"... (risos) Lou, isso é uma brincadeira: quando a conversa está muito séria, eu aproveito e me saio com essa... só pra relaxar.

LOU: E você já tomou viagra?
NICOLINO: Sabe o que é, Lou, o calabrês, do sul da Itália, é descendente e teve influência dos mouros, dos árabes, né? Você sabe que somos descendentes de árabes, de negros, ali do norte da África, da Grécia. E nós, descendentes de árabes, temos esse poder de ainda manter a nossa forma, nessa parte, graças a Deus. Não apelamos ainda. Nós sempre tivemos boa alimentação. E eu mamei leite de Cabra!!!...

LOU: Você mistura o clássico da ópera com o popular e você agora, está dando show com música popular.
NICOLINO: Isso eu sempre fiz. Na foto estou no centro de Francisco Carlos e Caubi Peixoto.
O cantor lírico - não sei se é defeito ou virtude - não sai do pedestal dele. É aquele negócio de cantar com o piano, uma casaca, ou um smoking e canta, de modo geral, pra ele e não pro público.
Eu faço o contrário, eu canto aquilo que o público gosta, aquilo que o público pode cantar e ainda me mexendo, me movimentando. Outro dia, eu larguei o microfone e fui pro meio do salão. Todo mundo foi obrigado a cantar porque eu ia na cara do sujeito e ele tinha que cantar, "O Sole Mio", "Torna a Sorriento" ...

LOU: "Sole Mio", todo mundo adora cantar.
NICOLINO: Você vai ver nessa gravação de "Caruso a Nicolino", o "Sole Mio", cantado por 20 cantores famosos. Agora a minha voz é uma minhoquinha, cantando no meio desses minhocões todos.

LOU: Ah! Não! Você se intitular minhoquinha?
NICOLINO: Aqui, tem o disco que eu já lhe ofereci. Eu consegui reunir, em 20 anos, esses cantores todos, que é difícil: Caruso, Mário Lanza, Andrea Bocelli, Zé Cura, Luciano Pavarotti, Plácido Domingues e no finalzinho... Nicolino Cupello.

Em Copacabana, em 1959, se não me falha a memória, tinha o Jacob que tocava no Bar OK, que fica na esquina com a Av. Atlântica, na Praça do Lido. Na sexta e no sábado, ele tocava pro público e nós nos reuníamos. Eu não tinha estudo de canto, mas cantava malandramente e agradava porque era uma voz selvagem. Um certo tempo, um senhor, fumando cachimbo, me ouviu e me chamou e perguntou se eu gostaria de viajar:
- Eu?
- Eu queria que você fosse pros Estados Unidos pra substituir o Mário Lanza.
Mário Lanza tinha morrido e eu era fã dele. Isso em 59 ou 60, por aí. Eu era bonitinho, mas era magrinho, baixinho.
- "Mas isso a gente dá um jeito porque a câmera faz isso, aquilo; a gente vai te dar aula de canto, professor de dança, expressão... davam tudo"! E eu tirei o corpo fora. Ele mandou representante na casa de papai pra me convencer. Eu já era advogado, estava empregado e resolvi não ir. Mas com o passar do tempo, cheguei à conclusão de que deveria ter ido. Não foi medo não, foi afetividade de família que me prendeu aqui.

LOU: Mas você conseguiu cantar a música do Mário Lanza?
NICOLINO: "O Sole Mio". Agora vou te contar porque que eu gravei "Nessum Dorma". Em 1982, Dante de Paola organizou um concerto com a banda sinfônica do Corpo de Bombeiro. Nos aniversários do Corpo de Bombeiro, sempre faziam manifestação. E no início, era na Sala Cecília Meireles. O Dante organizou esse concerto chamado "Jóias da Ópera", que reunia a Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros, com trechos de ópera, com os cantores que, na época, sobressaíam mais. E eu fui o "Brindisi da Traviatta". E cantei durante uns 4 ou 5 anos porque de 82 até 1997, ininterruptamente, eu fui o único, juntamente com o Dante, a participar de todos os concertos da Banda do Corpo de Bombeiros. Em 1997, ele organizou uma apoteose, com 800 vozes que seriam 34 corais. Ele conseguiu reunir 34 corais para fazer um concerto no Teatro Municipal e comemorar os cento e não sei quantos anos de aniversário da banda do Corpo de Bombeiros.

Eu estava fora dessa, porque eu ia fazer só o "Brindisi da Traviatta". Era muito justo, porque foi ele que preparou. Ele era tenor também e era o dono da bola, da brincadeira. Então, organizou o concerto com esse número de gente.

LOU: Como é que coube todo mundo, no palco?
NICOLINO: Não coube. Puseram duzentas vozes no palco e tivemos que botar todos os coristas no balcão nobre e no balcão simples do Teatro Municipal.

LOU: Deve ter sido uma coisa maravilhosa!
NICOLINO: O maestro regia rodando. "O Brindisi da Traviatta" que eu cantei e "Nessum Dorma", que ele ia fazer. Mas ele, nos últimos tempos, já estava me chamando pra cantar junto com ele ao invés de fazer 3 tenores, fazia 2 tenores. Nesse concerto grande, infelizmente, Dante faleceu e o concerto ficou suspenso. Mas o Corpo de Bombeiros sentiu uma falta danada, nos chamou e resolvemos fazer. A Glorita Pizzi reuniu o pessoal e me convidou pra fazer a parte do Dante de Paola, que ela achava que eu era o único que merecia fazer no lugar dele. Eu disse: - Meu Deus do céu, eu tô com 65 anos, e se eles quiserem um bis na Traviatta, como é que eu vou fazer pra cantar, depois o "Nessum Dorma"? A idade vai chegando, eu canto mesmo, não é brincadeira não. Fui cantar a "Traviatta" e no final, bis. Não queríamos dar e tivemos que dar bis. Eu disse, na brincadeira: - pega aí uma maca porque qualquer coisa vocês me levam direto pro hospital. Fui cantar o "Nessun Dorma". Quando eu entrei no palco, já na minha entrada, as palmas começaram com o coro dos Canarinhos e aí comecei a cantar. O final foi apoteótico; não foi como está na ópera. Ele incluiu essa parte que entrava o coro todo e o tenor, cantando, sem microfone.

LOU: Por que?
NICOLINO: Não tinha microfone. Era no palco direto. É banda, não é orquestra. É muito diferente. Tinha muitos metais. Cantei "Nessum Dorma", dei o agudo e no final botei minha voz no máximo e furou tudo, furou mesmo.

LOU: É de chorar de emoção.
NICOLINO: Agora, não fiz igual ao Pavarotti porque a orquestra não acompanha como eles cantam. Eles são famosos, cantam como eles querem cantar e a orquestra é que tem que acompanhar. Lá na banda, não; a gente tem que mais ou menos ficar dentro do padrão da orquestra. Quando acabou a ópera, eu fui na frente, porque eu sou um palhação mesmo e a turma batendo palma. Eu sempre fazia isso lá no Teatro.

Quando acabava a ópera eu ia pra frente e batia palmas, igual a uma criança. Quando eu entro, bato palmas. E a platéia pedindo bis, bis, eu saí, quase umas 10 vezes pra não cantar de novo, porque senão eu ia morrer naquele dia. Olha, eu tive que dar o bis, queriam o tris. Vocês querem me matar! Eu falava. Eu ia morrer! Era muito esforço, duas árias de ópera, com a idade que eu estava. Porque eu fui substituir; porque não era eu quem ia cantar, era o Dante.

Aí, gostaram tanto que foram fazer isso no Quintandinha, na mesma dose, com o Corpo de Bombeiros de lá. Quando eu chego lá, um frio desgraçado que me fazia tremer que nem vara verde. Já estava com 66 e disse: é aqui que eu vou morrer...

LOU: Você não devia falar assim.
NICOLINO: E aconteceu a mesma coisa: bis no "Brindisi" e tive que bisar outra vez Nessun Dorma!

LOU: Vem cá e como é que a pessoa chega assim a 1º Tenor?
NICOLINO: Tem concurso. O teatro, por exemplo, é dividido por vozes. O masculino é tenor, barítono e baixo. Agora, na subdivisão do tenor, tem 1º tenor e 2º tenor; no barítono, de modo geral, sempre é barítono, nunca tem 1º e 2º é muito difícil e baixo também é muito difícil. Tem o baixo cantante, baixo brilhante e o baixo profundo,'' É raro ter no mundo inteiro, só no Brasil, e é muito difícil. Como contralto, você não vai encontrar mais de 30 bons contraltos no mundo inteiro.

LOU: Contralto é voz de mulher. E quais são as vozes de mulher? Tô adorando essa aula.
NICOLINO: Mulher é soprano, meso-soprano e contralto. O meso-soprano equivale, na voz masculina, ao barítono; o contralto, que é a voz semelhante a de baixo, é a mais rara do mundo. A mulher com voz grave, tem voz masculina, parece um homem, daqueles bem machão. Na divisão de soprano tem soprano-lírico, soprano lírico-ligeiro. Só nos tenores e sopranos é que têm uma subdivisão maior.

LOU: Você deu uma aula perfeita.
NICOLINO: E ainda tem o contra-tenor que é a voz feminina no homem, que é raríssima, como a do Ney Matogrosso.

LOU: É um dom.
NICOLINO: É um dom. Agora existe uma Ymma Sumac, que é uma coisa do outro mundo.

LOU: Você tem algum projeto pra apresentar alguma ópera no teatro Municipal?
NICOLINO: Não. Quando eu já estava quase completando meus 70 anos, fui convidado pra participar do "Fantasma do Teatro", encenado pelo Charles Muller, que você conhece e o Cláudio Botelho, são dois fenômenos que estão surgindo aí pro musical do Brasil. E agora estão encenando a "Ópera do Malandro", do Chico Buarque, uma beleza.
Eles me selecionaram entre 8 coristas, mas todos rapazes altos, bonitos, com vozes lindas, aí me chamaram: eu fui o oitavo.

Eu disse: - pô, você chama um garoto de 18, 19, 20 anos e eu já indo completar 70, barrigudo, como eu vou acompanhar os passos desses garotos? Pode falar, escolher a mim? Ô Cláudio, o que é que há?
-Deixa comigo.
- Me escolheram por quê?
- Porque nós vimos o seu trabalho na "Sonâmbula" e te chamei. Deixa comigo.
Aí eu ensaiava, ensaiava, errava. Eles iam pra um lado eu ia pro outro, porque eu não tinha a agilidade que eles tinham; já estava perdendo um pouco a agilidade. Acho até que eles já estavam pensando: "esse cara, sei não." Você sabe né, eles cortam. Mas não quiseram cortar não.

No mês seguinte já ia fazer 70. E no funcionalismo público, com 70 anos é expulso, entra na compulsória, que eu chamo expulsória; mas na minha expulsória, eu ainda tava cantando no palco, com voz e tudo, porque tinha que cantar, ária de ópera, aquela brincadeira e etc, tinha que mostrar a voz.
Mas aconteceu um fenômeno, no ensaio geral.

Nós entrávamos e saíamos do palco, correndo e eu também seguia, não tinha problema, às vezes bufava, mas no ensaio geral, na hora, quase no final, saindo juntos, correndo do fantasma, o balé entrou na minha frente, todo mundo foi e eu fiquei. Eu digo: - ai, vou levar um esculacho aqui desgraçado. Entro ou não entro?" Entrei! Aí, fiz um passo sozinho, igual ao Carlitos, mas correndo. Foi um sucesso. Não cantei, mas, em compensação... (risos). Fizemos 11 recitais pra criança. Olha, como as crianças riam, era só eu entrar no palco que elas riam.

E foi aí que eu terminei minha carreira dentro do Teatro Municipal. Não sei se um dia poderão me chamar. É possível, porque a voz ainda está aqui, mais ou menos.

LOU: Maravilha, eu escutei você cantando. Não perde nada pro Pavarotti. É o nosso Pavarotti.
NICOLINO: Eu sou um enrolador (risos).

LOU: Manda um recado pros "VelhosAmigos".
NICOLINO: Não tirem o estímulo dos jovens quando eles escolhem uma profissão, porque se tiverem vocação pra serem artistas, que sofram fazendo o que gostam. A gente pensa que essa garotada de televisão está com tudo, mas não está. Financeiramente, não está, porque está começando.

Então a mensagem que eu dou ao jovem é esta: Quando você gostar de uma coisa, vá e faça, contrariando amigos, inimigos, familiares.

LOU: Arriscando.
NICOLINO: Arriscar a gente arrisca a vida toda. Você vê, eu tinha um tio que tinha 80 cinemas e morreu de leucemia, perdeu quase tudo.

LOU: Quem?
NICOLINO: Francisco Cupello, irmão de papai. Cinemas Cupello. Fez parte de uma história do Rio de Janeiro e, baseado nisso, pra que eu quero ser rico? Eu quero comer bem, viver bem, ter contato todo dia com pessoas diferentes. Tô sempre em restaurantes, em festas.

LOU: Tá vivendo!
NICOLINO: Tô vivendo, enquanto todo mundo sai de casa e chega 8, 8 e meia, 9 horas, a gente tá saindo 9 e meia, 11 horas, pra ir a um restaurante, pra ir pro teatro. Até teatro de meia noite, nós já fomos. Tem agora uma sessão à meia noite.

LOU: Mas também o amor, a união de vocês dois, isso também dá ânimo de saírem juntos...
NICOLINO: E uma das coisas que ela nunca diz é a palavra não; é muito difícil.
Sempre vamos ao teatro. Depois que me aposentei, eu não preciso mais daquela obrigação de trabalhar no teatro, que me eliminou muitas coisas que eu gostaria de fazer. Eu consegui entrar na Globo e fazer novela, cheguei a trabalhar em 6 novelas, inclusive na "Selva de Pedra", onde surgiu o Miguel Falabela; fomos companheiros da pensão de Tony Ramos, Miguel que estreou num papel grande, Nicete Bruno, André Valli...e durante 7 meses, trabalhamos juntos ali. Todo mundo que ficava na lona ia morar na pensão. Eu era fixo na pensão. Era o cantor lírico fracassado. Muitas dessas fotos aí foram da época da "Selva de Pedra".

E a mensagem que eu quero dar é a seguinte: Eu deixei de fazer muitas coisas na televisão, por causa do teatro, porque o teatro absorvia muito; a gente não podia faltar, porque estava arriscado a perder o emprego. Então, vou faltar ao emprego e aparecer lá na telinha? Deixei de fazer muitas coisas para as quais me chamavam.

Porque tudo que tinha canção italiana me chamavam. Porque eu tenho esse espírito, essa emoção que eu gosto de passar e acho que isso que é importante. Uma mensagem é essa: a emoção!

LOU: Como você entrou no Teatro Municipal?
NICOLINO: Eu fiz 5 concursos pra entrar pro Teatro Municipal; fui reprovado 4 vezes. Ao me aposentar, fui me despedir, mas o maestro quis falar primeiro. Ele não agüentou e começou a chorar. Eu também comecei a chorar.

Aí eu tive que falar, todo embargado. Eu citei uma frase latina que eu aprendi de Cícero -"Tantus scimus quantum memorian mandamus" - "quanto mais sabemos mais aprendemos." Comecei a expor esse pensamento e disse: olha, meus colegas, com a mesma alegria que eu entrei para esse teatro, eu hoje saio desse teatro (chora emocionado).

LOU: Você está emocionado com a lembrança da despedida. Respira, procura se acalmar.
NICOLINO: E eu disse essas palavras e outras sobre justamente o que você me pediu na mensagem: "Segura esse emprego, que esse é o maior emprego do mundo, vocês estão fazendo o que vocês gostam!" Os únicos profissionais do canto lírico no Brasil somos nós aqui do Teatro Municipal e do coro do Teatro Municipal de São Paulo. Nós vivemos o dia, a dia, com o ordenado do Estado, a gente sobrevive do nosso canto!

Ao falar isso, se levantaram, começaram a aplaudir. Ficaram quase 3 minutos aplaudindo. E um colega se levantou, um dos que era da diretoria da nossa associação pediu a palavra e disse: "- Nicolino, nesses 35 anos, ele nunca veio aqui na frente pra falar mal de ninguém, pra brigar, pra fazer alguma coisa; aí vieram aqueles aplausos, foi uma choradeira."

O TENOR PONTA-ESQUERDA

LOU: Além de ser tenor do Teatro Municipal, você também foi jogador futebol?
NICOLINO: No próprio Fluminense, em 1949, eu joguei no juvenil. Eu fazia tudo ao mesmo tempo. Era um doido. Eu tenho reportagens, na época que estudava na Gama Filho: "Nicolino, o homem dos 7 instrumentos". Escrevia pra jornal. Tanto que eu tenho aqui a 1ª reportagem documentada de 1953: "Stefanini, cantando no Clube Municipal".

Eu subia nas árvores, nos picos e passava de uma árvore pra outra; minha mãe sofreu muito comigo. E eu entrava na minha casa pelo muro, pulava pra cozinha, pro banheiro, mas nunca levei um tombo, nunca.

Você sabe que eu fui para o colégio interno, não para aprender, pra ser letrado, nem nada. Eu fui por causa da disciplina. Mas eu digo que fui pro reformatório. Pra mim o Colégio Salesiano foi reformatório. Eles me disciplinaram em todos os sentidos. Cinqüenta e poucos anos se passaram e eu ainda arrumo minha cama todo dia, não deixo a minha mulher arrumar, porque eu arrumo, pela disciplina.

E, eu me adaptei tão bem acabei sendo bom aluno e, incrivelmente, em 1946, ganhei medalha de ouro por comportamento, declamação, canto, esporte, comportamento sim, porque meu pai me colocou no colégio pra eu me consertar porque eu era maluquinho, maluquinho, levado demais.

Em 1945, quando eu entrei, comecei a jogar futebol no escrete da primeira divisão. E em 1948 fui pro escrete do Colégio Salesiano. Em 1947, nós disputamos as olimpíadas; eu era reserva, mas fomos campeões de futebol. Logo que eu saí do colégio, em 1949, fui pro juvenil do Fluminense.

Mas tive a falta de sorte de pegar um ponta-esquerda lá, que se chamava Quincas, que nunca ficou doente, nunca deu dor de barriga, nunca deu nada no miserável. E eu nunca pude jogar na posição efetiva. Mas fiquei dois anos lá, fui companheiro do Telê, do Pinheiro, do Adalberto, do Robson, do meu primo Nicola e outros que se projetaram.

E em 1950 saí. Não queria mais saber do futebol, mas, por influência do meu tio que tinha um contador, que era presidente do Clube Benfica de Valença, fui jogar profissionalmente em Valença, de 52 até 54. Aí eu consegui jogar mas era um sacrifício muito grande porque eu tinha que pegar o trem Maria Fumaça até Valença. Naquela época não tinha ônibus. Aí parei. Entrei pra faculdade.

LOU: E você serviu no exército?
NICOLINO: Servi no exército, cantei, joguei futebol, fiz escola, porque eu não parava. Eu ia ser dispensado, ia ser reprovado no exame físico. Mas um miserável de um rapazinho me reconheceu lá e disse: - Ih, Tenente ele jogou no Fluminense. Aí o cara me pegou no Exército por causa dessa frase. Eu fiquei com muita raiva. E acabei jogando no escrete da minha divisão.

Por azar, ganhamos do time da cavalaria. Quase mataram a gente...(risos)

Seguindo a minha trajetória esportiva: em 1954 eu era gerente de oficina de automóveis do meu pai. Morava ali por perto, um goleiro do juvenil da Portuguesa do Rio de Janeiro e disse: "- Aí, Nicolino, vamos lá bater uma bola." O time profissional da Portuguesa ia pra África. Mas sei lá, por coisa do destino, quando eu tô passando pelo vestiário, o roupeiro disse: "- Você joga futebol em qual posição?" - Eu jogo na ponta esquerda. "- Pô, vem cá então." Me deu uma chuteira porque o
ponta-esquerda faltou e o treino ia começar.

Toda a bola que eu pegava, driblava, levava pro gol e chutava. Isso umas 5 ou 6 vezes. Aí, depois de quase meia hora, chegou o titular, botou a roupa, me substituiu e o tenente, que era o técnico da Portuguesa, perguntou se eu gostaria de jogar lá, enquanto o time estivesse viajando pra África, teria algum empecilho?
- Tenho. Eu tô em Valença, o meu passe tá em Valença.
- Então, eu mando resolver esse problema. Enquanto você não vem, a gente manda fazer tua transferência aqui pra Portuguesa; o passe da Federação Fluminense pra Federação Carioca.

E assim aconteceu. Aí, fui estrear contra o Botafogo, no campo do Fluminense. Tinha um cara com quase 2 metros e eu, com 1,60m, era quase um anão perto dele. E ele me marcando. Mas eu era muito arisco, driblava feito um miserável; dei-lhe um drible e ele caiu naquela pista do Fluminense. Ele se levantou com ódio e disse: eu vou matar esse desgraçado desse Cupello. Eu, instintivamente, senti. E o que eu fiz? Corri até o gol, joguei a bola pra fora e saí correndo pro outro lado pra não levar uma pernada dele. O público ria que nem uma desgraça. Até nisso eu era um palhaço.

SOFRIMENTO COM MEU NOME CUPELLO

No Fluminense, por ter o Nicola, eu era Nicolau, já em Valença eu era Nicolino, e quando eu fui pra Portuguesa resolvi botar Cupello. Então o que aconteceu? Uns conhecidos meus foram assistir um treino no Fluminense e quando eu pegava a bola, eles gritavam: Cuuupello, Cuuupello, Cuuupello! Era uma risada!

LÍDIA: Ai, que bobagem!
NICOLINO: Mas isso é verdade! Eu tive que ser palhaço por causa desse nome. Meu pai botou Nicolino porque Nicolino era um diminutivo de Nicola, que era meu avô; mas, ele devia ter colocado o nome dos meus dois avós. Um era Giuseppe Cupello e o outro Nicola Cupello.

Era pra ele colocar Nicola Giuseppe ou Giuseppe Nicola, mas não botou. Ele queria fazer uma homenagem a um romeno Nicolesco Cupello. Pô, já tinha um Cu-pello ... Botar dois no Nicolês-co Cu-pello? Aí, ia arrasar com a minha vida (gargalhadas).

Você vê, na infância eu era Lino e ninguém sabia que eu era Nicolino Cupello, mas quando eu fui pro colégio interno, meu nome jurídico era Nicolino Cupello. Olha, o que eu sofri por causa desse Cupello (risos).

MEU NOME NO BANERJ

NICOLINO: Quando eu entrei pro teatro, abriram uma conta pra eu receber o pagamento no BANERJ, naquele sistema de computadores; no início só cabiam dez letras. Então tinha que ficar: Lídia Vi, o seu ficaria, Maria de Lou, e o meu sabe como é que ficou?

LOU: Não!! (risos)
NICOLINO: Nicolino Cu. Fiquei conhecido com esse nome no banco.

LOU: Mentira! (risos) Não é possível!!!!
NICOLINO: Mentira? Eu tenho gravado. E todo mundo, no Banerj: "- Ô Nicolino Cu, Nicolino Cu." E assim, encerro humoristicamente esta entrevista. Vocês desculpem eu ter nascido para incomodá-los e muito agradecido pela entrevista. E espero que aproveitem alguma coisa dela. Muito obrigado.

Eu era assim, fiquei assim! Falou, mostrando a foto ao lado da barriga...

LOU: Você nasceu pra nos agradar, pra nos encantar porque eu já vi seu show. É maravilha pura. Essa entrevista me emocionou, me fez chorar de rir.

E vocês formam um casal muito divertido, positivo, companheiros. É um prêmio ser amigo de vocês! Muito obrigada.

Revisão: Anna Eliza Fürich
 

 

 

 

 

AGORA CANTE COM NICOLINO CUPELLO

 

 

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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