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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

NORA TAUSZ RÓNAI
publicado em: 09/11/2016 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 24/08/2005

Nora Tausz Rónai tem os olhos da cor do mar, ora azuis, ora verdes, transparentes como transparente é o seu jeito de ser. Nora, campeã Master de natação, jovem, cheia de entusiasmo, vendendo alegria aos 81 anos, italiana, judia, fugitiva da Itália, veio parar no Rio de janeiro, onde se formou como
arquiteta e desenhista. Foi ela quem ilustrou o primeiro livro didático de seu marido, Paulo Rónai, para o ensino de francês.
Ela nos conta a sua história sem fazer drama da luta pela sobrevivência. Ao contrário, o brilho no olhar e a voz vibrante revelam a vencedora que é na vida e no esporte.

LOU: Qual o seu nome todo?
NORA: Nora Tausz Rónai. Em brasileiro falam Ronái, se eu não falar Ronái, não sabem escrever. A rigor seria Rónai porque meu marido era da Hungria.

LOU: Conte sua vida como foi desde criancinha.
NORA: "Conte sua vida desde criancinha, com 81 anos...? Vai ficar enorme ..." Risos

LOU: É rapidinho...
NORA: Eu morava em Fiume, onde nasci. Naquela época era Itália ainda, península à beira da Baía do Carnaro, aos pés da Cordilheira do Carso, que é toda feita de calcário, cheia de cavernas, linda! As estalactites eram lindas. E tinha os riachos subterrâneos. E deles, fosse no verão ou no verão ou inverno, sempre vinha uma água de 4º Celsius, de maneira que ninguém precisava de geladeira em Fiume, nada disso. E como vinha das montanhas, não existia isso de caixa d'água. Eu vim conhecer caixa d'água aqui no Rio de Janeiro. A água vinha direto e subia ao 5º andar.

LOU: E como você veio parar no Rio de Janeiro?
NORA: Eu vim por causa das perseguições raciais. Mas antes disso, já havia feito o jardim de infância e o primário na Itália. Depois meu pai foi mandado para Budapeste, Hungria, e a família toda se mudou pra lá. Com sete anos, eu fui pra Hungria, aí fiz do segundo primário ao primeiro ginasial,onde aprendi a falar húngaro, naturalmente.
Depois, juntos com papai, voltamos pra Itália.
E a partir do terceiro ginásio eu fui proibida de estudar. Assim como as outras crianças suspeitas de não serem arianas, não mais freqüentei a escola e tive que ficar em casa e estudar sozinha. Qualquer professor italiano era proibido de nos dar aula particular.
Como não existiam escolas particulares, todos esses professores dependiam do Estado.
Se eles fossem pegos dando uma aula pra uma criança judia, ou de raça judia, eles perdiam o emprego.
Então, a gente tinha que estudar rigorosamente sozinha em casa e só podia se apresentar no fim do ano e fazer o exame.

LOU: Por quê?
NORA: Digamos, a justificativa disso era que nós, crianças não arianas, tínhamos a mentalidade corrompida e corromperíamos as outras crianças. Resultado disso, quando saiu essa lei, todas as crianças de Fiume que tinham média acima de 7 tinham que ficar em casa. E as arianas que tinham média abaixo de 7 puderam ir pra escola. Essa foi a nossa história. Depois, naturalmente, meu pai e meu irmão foram presos de madrugada, levados para campos de concentração. Aí veio aquela coisa pra tirar papai e o Giorgio do campo de concentração. E depois veio mais uma trabalheira pra arranjar visto pra sair do país. A gente tentou pra Austrália, tentou pros Estados Unidos, pra Argentina e no final aportamos aqui. De Fiume, Fiume em italiano quer dizer rio, de lá aportamos no Rio de Janeiro, em 1941.

LOU: Que alívio! Vocês se sentiram livres pra viver.
NORA: Nossa! Entramos em Lisboa, quer dizer, meu irmão e eu fomos na frente, porque não havia lugar naqueles aviões teco-teco que saíam na última hora de Roma. Eles eram cheios de espiões que a Itália mandava pra fora. Os ingleses sabiam disso e caçavam esses aviões. Os aviões saíam aleatoriamente e só levavam duas ou três pessoas, não espiões, e a chance era de 50% de sobreviver, porque os ingleses pegavam e derrubavam os aviões. Então, meus pais acharam que se alguém tivesse que se salvar era meu irmão e eu. E insistiram que nós fôssemos na frente. E nós voamos de Roma pra Lisboa, onde ficamos uns 3 ou 4 dias, aguardando os meus pais.

Você pode imaginar com que ânimo, pois havia ainda 50% de possibilidade de ficarmos órfãos no final. E quando chegamos de madrugada, entramos na Av. Liberdade, toda iluminada. Porque saímos de Fiume com blecaute, tudo escuro, triste e opressivo. E aí chegamos em Lisboa, tudo iluminado, e aquelas casas e edifícios beirando a Av. Liberdade, todos azulejados, azulejo português, um mais lindo que o outro. Aquilo refletia a luz, foi uma coisa emocionante.

LOU: Como era o nome do seu pai?
NORA: Edoardo.

LOU: E sua mãe?
NORA: Iolanda.

LOU: Como foi sua chegada ao Rio?
NORA: Nós chegamos ao Rio, literalmente, com uma mão na frente, outra atrás, porque todo dinheiro que tínhamos tivemos que gastar em viagem. Em Lisboa tivemos que esperar um navio comercial. Aliás, o último que saiu de lá, cheio de mercadorias, emigrantes... Mas cada dia que a gente passava em Lisboa, sem embarcar, tínhamos que pagar um pedágio. E com esse negócio de pedágio, passagem, visto e não sei o quê, foi embora nosso dinheiro todo. Nós chegamos aqui, não sei se era segunda ou terça-feira, e mal tínhamos dinheiro para pagar uma pensão, digamos, não muito boa, na Rua Cândido Mendes. Chamava-se pensão Majestade e de majestoso não tinha nada. Era aturável e mal tínhamos o dinheiro para pagar essa pensão até sábado. Se a gente não se virasse até sábado, a gente iria dormir embaixo da ponte.

LOU: Aposto que vocês se viraram.
NORA: Nos viramos. Isso é outra história. Minha mãe antes de sair, lá em Budapeste, comentou com o dermatologista dela, Dr.Chartoricky, que nós devíamos emigrar, e aí ele disse: - O que vocês vão fazer lá fora? Ela disse: - Não sei.
Lavar pratos, ser babá de criança, enfim, o que cair pra fazer, a gente vai fazer. Pra gente salvar a vida, faz qualquer coisa. Aí ele falou: - Olha, eu não dei isso pra ninguém, pra absolutamente ninguém, mas eu vou dar todas as receitas dos meus cremes. Porque creme é o maior negócio do mundo, porque você investe uma moeda e vende por vinte. Os ingredientes, mesmo os mais finos, são super baratos em relação àquilo que você vende. Então você compra os ingredientes, os potinhos, faz os cremes, pode vender de porta em porta, você se sustenta até encontrar alguma coisa melhor. Aí quando nós chegamos, lembrei logo das receitas do Dr. Chartoricky, e o último dinheiro que sobrava nós nos atrevemos a gastá-lo com material.
Eu comprei uma espiriteira (aquecedor a álcool). E no nosso quarto da pensão havia uma daquelas cômodas antigas, que tinha uma pedra de mármore em cima, e tinha um lavatório. Fiz os cremes, embrulhei direitinho e fui vender de porta em porta. Olha, no primeiro dia que eu saí pra vender de porta em porta, eu recuperei o dinheiro que tinha investido. E no segundo, terceiro e quarto dias, eu já fui ganhando a segunda semana, a terceira semana...

LOU: E você era uma menina ainda.
NORA: Eu tinha dezessete anos. Acontece que eu sou e sempre fui uma pessoa de pele muito seca. Agora, você imagina uma adolescente de 17 anos com pele seca. Naturalmente não tinha acne. Eu tinha uma pele maravilhosamente bonita, fora de brincadeira, modéstia à parte.

LOU: Dá pra ver.
NORA: Agora não tenho mais. Quando velha, a pele seca é uma desvantagem, porque ela fica muito enrugada, mas quando a gente tem 17 anos, parece um pêssego, sei lá. Então, eu ia lá vender os cremes e as pessoas perguntavam se eu usava. Eu dizia que todo dia, de noite era um, de manhã outro. Jamais botei creme algum na minha cara. Mas eu tinha que mentir. As mulheres olhavam e eu estava com aquela pele. Eu era a própria garota propaganda dos cremes. Mas eu tenho a consciência limpa, porque os cremes realmente eram maravilhosos. O creme de amêndoas, eu fazia com amêndoa mesmo. De eucerina, eu fazia com eucerina mesmo e tal. Então eram realmente cremes muito bons, feitos com muito cuidado.

LOU: E como foi que você entrou na natação?
NORA: Bom. A nossa família sempre foi muito esportiva. Minha mãe jogava tênis, meu pai lutava esgrima, e ela era diretora esportiva de um clube de regatas. Meu irmão treinava regata com meu pai. Eu e meu irmão fazíamos esqui e eu fazia slalom. Quando eu cheguei aqui, eu senti falta de esquiar, de patinar no gelo, essas coisas. Então, logo que eu pude, eu entrei no Clube Ginástico Português e lá estava eu nadando às sete e meia da noite, oito horas, é claro. Primeiro eu entrei na esgrima. Tinha o professor Jairo que ensinava, e eu fiz florete no Ginástico Português. Depois da esgrima, toda a turma se mandava pra piscina e ficava brincando, nadando, mergulhando.
E tinha um senhor Eduardo Guidão da Cruz, que foi eneacampeão carioca de saltos ornamentais e que tinha feito a universidade em Michigan. Aí eu comecei, como você

faz isto? Ele dizia: - você vai lá em cima, faz isso e isso. Eu ia lá em cima e plaft: caía que nem um saco de batatas! Aí ele achou que eu tinha coragem e tudo mais, e começou a me treinar. Ele era do Fluminense e me perguntou: - você não quer saltar pelo Fluminense? Tem campeonatos. Eu disse: tá bom. Eu gosto de campeonatos de tudo. Eu já fui de slalom...

LOU: O que é isso?
NORA: Um esqui. Você pode ter dois tipos de competição: de velocidade, você anda 30, 40 km, ou aquela que tem as bandeirinhas que a pessoa tem que ziguezaguear por elas. Isso se chama slalom. Eu cheguei até a saltar de trampolinzinho com esqui, mas eu era sempre posta pra fora, porque era proibido pras mulheres. Eu parecia menino, com aquela touca. E tinha um treinador pra todo mundo. As crianças faziam fila, ele ensinava e a gente saltava. Eu adorava aquilo. Então eu saltava, corria de novo pra fila e saltava de novo. Até que um ou outro garoto que me conhecia, me dedurava. Ele dizia: professor esse aqui não é menino não, é menina. Aí ele me olhava com aqueles olhos severos: é verdade que você é menina? Sou. Ponha-se fora daqui, você não sabe que menina não pode?

LOU: As meninas já eram discriminadas...
NORA: Aí eu ficava esperando que mudasse o treinador. Quando vinha um novo treinador eu me metia na fila de novo pra saltar. Eu sempre gostei de esporte, de tudo.

LOU: E foi sempre de meter a cara e conseguir o que queria...
NORA: Pois é. Também. A gente tenta sobreviver. Olha, eu tive irmão e quatro primos. Eu não tinha amiguinha pra brincar. Naquela época toda a sociedade era assim. Não tinha essa que eu vou dormir na casa da minha amiga. Às 8 horas eu tinha que estar em casa, deitada. Era supercontrolada, escola, as atividades extracurriculares da escola e tudo mais. Eventualmente, uma festa de aniversário a cada 6 meses de uma coleguinha, e tinha que rigorosamente voltar pra casa. Não tinha amiga, assim amiga do peito, que não dava tempo de você desenvolver essa amizade. Então, eu brincava com quem? Brincava com meu irmão, com os colegas de turma do meu irmão e com meus primos, tudo garoto. Eu tinha que ser melhor que os garotos pra eles não me botarem de lá pra fora. Mesmo assim, como eu era mais nova, por exemplo, quando brincávamos de forte apache, eu tinha que ser o cavalo. Eles me colocavam a corda de pular no pescoço e me faziam de cavalo. Mas nas competições a gente começava: quem pula mais alto? Primeiro degrau, segundo degrau da escada, terceiro, quinto, sexto... Eu sempre pulava do mais alto do que eles. Não me machucava e eles morriam de raiva. Ali na Europa tem estabelecimentos balneários, não tem praia. E um deles tinha uns pilotis, um corredor e as cabines. E esse corredor tava dentro de uma área, então tinha o parapeito, depois tinha uma coluna e o telhado. Então, primeiro a gente pulava da sacada e caía no mar; depois a gente pulava de cima do parapeito; depois a gente subia pela coluna e pulava de cima do telhado pra dentro do mar. Eu sempre conseguia e os garotos não conseguiam porque tinham medo. Então, quer dizer, eu nem sempre era melhor do que eles. Havia uma única competição que eu tinha que ser juiz, porque eu não podia competir: era quem fazia xixi mais longe. (rsrsrs)

LOU: (rsrsrs)
NORA: Eles faziam uma fila e mijavam.

LOU: Mas se fosse cuspe à distância, você podia ganhar.
NORA: Ah, cuspe à distância eu fazia, e, muitas vezes, ganhava também. Não tinha bobagem que a gente não fizesse. A gente morava no quarto andar e a gente descia pelo corrimão.

LOU: Eu também era muito moleca. A sua infância foi tão rica e você queria omitir isso tudo! Você conquistou muitas vitórias na natação...
NORA: Iniciei nos saltos ornamentais e tudo mais. Depois me casei e, mesmo depois de casada, por 1 ou 2 anos, fiz saltos ornamentais. Cheguei a ser heptacampeã carioca de saltos em trampolim, plataforma. Eu saltava de plataforma de 10 metros. Mas depois nasceram as crianças: Cora e Laura. Eu tinha que tomar conta da família, do meu marido. Parei durante muito tempo, mas só de competir. Porque onde eu descolasse uma piscina, eu ia no mínimo nadar. Depois de aposentados, a gente se mudou pra Nova Friburgo e lá não tem nem poço de saltos. Porque poço de saltos é diferente de piscina, tem que ter 5 metros de profundidade, então, não tem poço de saltos, não tem treinador de saltos. Você não pode treinar saltos sem ter lá um cara te vigiando, porque você pode desmaiar dentro d'água, 10 metros é muita coisa. Então, eu não pude continuar saltando e aí comecei a nadar. E tinha lá uma academia chamada "Pulo Na Água". Eu tava lá nadando numa boa e chegou um grupo de nadadores do "Clube de Regatas Icaraí", fazendo demonstração e explicando o que é natação Master.
Aí, o chefe daquele grupo era o senhor Gastão Figueiredo (foto).
Ele me viu nadando e disse que eu nadava direitinho e perguntou se eu não queria nadar em competições. Mas competições, como? Competições de Master. A gente compete em faixas etárias de 5 em 5 anos. Isso quer dizer, por exemplo: uma pessoa de 35 anos vai competir de 35 a 39, só com pessoas que têm de 35 a 39 anos. Quando fizer 40, muda de faixa etária e vai competir de 40 a 44 anos. Depois de 45 a 49, e assim vai. Eu agora estou na faixa de 80 a 84. Agora, voltando ao revezamento, quando você faz revezamento, são 4 nadadores. A soma das idades dos quatro nadadores tem que ser 200 ou mais anos, 240 ou mais, 280 ou mais, 320 ou mais, 360 ou mais. Eu ultimamente tenho nadado 280 ou mais. Como? Eu dou idade pros outros. A média. Se você olhar 4 nadadores que têm que fazer 280 anos, cada um teria direito até 70 anos. Mas eu tenho 81, então os outros podem ter 3, 4 anos a menos, cada um. O importante é que a soma seja 280 ou 320 e, enfim, de acordo com a proposta do revezamento. Os revezamentos 320 mais, só competem com outros revezamentos 320 mais. Nunca vão competir com um 280 ou 240.

LOU: É justo. E agora você vai fazer essa competição no Fluminense...
NORA: Agora vou competir no Fluminense. Mas é uma competição, digamos assim, menor, porque é a terceira etapa do circuito estadual e cada ano tem 4 competições. De 3 em 3 meses, uma competição. Duas em piscinas de 25, duas em piscinas de 50. Esta agora vai ser no Fluminense, que é uma piscina de 50. Mas é circuito estadual, praticamente não tem muita concorrência. Pra mim, digamos, é uma competição leve. Até pode ser que eu não tire 1º lugar. Mas, seguramente, não vou tirar 16º, porque não existem 16 pessoas de 80 anos nadando igual a mim. (rsrsrs)

LOU: Isso é uma maravilha, porque a pessoa que pratica esporte obtém uma vida muito saudável, fisicamente e mentalmente.
NORA: É verdade, mas antes de competir eu sempre gostei de me mexer, eu tô lhe dizendo que onde tem uma piscina, eu me enfio na piscina, eu nado, não quero nem saber. Eu já estive com o Paulo, eu me lembro, uma vez, no Rio Grande do Sul, em Canelas e foi um grande Simpósio de Escritores. E estava tudo cheio de escritores, intelectuais e de musas desses intelectuais e todas assim dondocas pintadas, preparadas. Eu disse: - Paulo, você faz muita questão que eu fique aqui? Não, minha filha, faça o que você quiser. O hotel tinha uma magnífica piscina aquecida e aí eu me enfiei na piscina e não saí mais e o pessoal tava lá falando...

LOU: E quem é Paulo?
NORA: O Paulo é o Paulo Rónai, meu marido. Sou viúva de Paulo Rónai, que foi escritor, tradutor, tem um certo nome aqui no Brasil. Ele era compreensivo comigo.
E aí onde eu descolo uma piscina eu me mexo.

LOU: E suas filhas?
NORA: Eu sempre brinco com elas de que elas foram trocadas na maternidade, porque elas não gostam muito de se mexer. Elas se mexem forçadas pelos médicos. Elas não têm esse prazer, digamos, vital de se mexerem. Então, elas dizem que não, que eu é que fui trocada na maternidade, porque elas duas são iguais. Então, quem foi trocada fui eu (rsrsrs).

LOU: Elas puxaram ao pai na parte intelectual. Porque a Cora é jornalista muito conhecida..., sendo hoje colunista do Jornal "O Globo" e editora do caderno semanal "Informátic@", do jornal.
NORA: E a Laura é flautista. Mas ela escreve muito bem. Ela escreve críticas numa importantíssima revista americana. Ela é muito conhecida. Acho que é mais conhecida lá fora do que aqui.

LOU: Isso é muito comum no Brasil. Ela faz críticas sobre o quê?
NORA: Sobre discos, cd's, sobre os últimos lançamentos de música clássica, música barroca, em especial, porque ela é especialista em barroco. E ela escreve críticas em inglês perfeito. É muito acatada como crítica musical. Antigamente ela escrevia pra uma revista européia chamada "Goldberg". Mas é impossível escrever para a "Goldberg", porque ela manda 4,5 cds de uma vez e a alfândega pega e ela tem que pagar muito mais em imposto do que ganharia pelo artigo. Então não convém pra ela
e muitas vezes somem esses cds. A "Fanfare" já chegou a esta conclusão e manda um ou dois no máximo, de cada vez, e então dá pra agüentar. Mas a "Goldberg" é muito difícil, pois é uma revista muito luxuosa, muito conhecida e a "Fanfare" não é tanto.

LOU: Eles já deviam mandar com o imposto pago.
NORA: Mas não tem como. Não existe essa modalidade. Mas é besteira eles cobrarem imposto de um disco, que foi mandado de amostra para a pessoa fazer uma crítica. A Laura não é comerciante de disco. A Laura é uma brasileirinha que trabalha, quer trabalhar e ganhar o seu dinheirinho e inclusive melhorar a imagem do Brasil lá fora, porque o pessoal fica bestificado. Entre os críticos da "Fanfare" só tem duas mulheres. E só tem uma estrangeira que é a Laura Rónai. Eles têm 80 críticos. Os outros são homens e americanos.

LOU: Mas fale mais de você.
NORA: E aí eu estava lá, a gente sempre descamba pra outro lado. (risos) Mas eu estava lá nadando, ele me chamou e disse que eu nadava direitinho e tal, e que se eu quisesse nadar pelo Icaraí... Eu quis. Logo depois, nós fomos pra Belo Horizonte, para o 1º Sul-Americano. E nesse Sul-Americano foi muito engraçado. Eu fiz uma entrada triunfal, porque eu entrei procurando a minha turma e pisei mal de um degrau de uma arquibancada para a outra e quebrei o pé. Mas aí nadei de pé quebrado mesmo e ainda cheguei a tirar dois primeiros lugares, um segundo e um terceiro, e foi bom (risos).
Eu sempre nadei com eles. E agora, já é o quinto ou sexto ano seguido que eu estou entre os Top Ten da Federação Internacional de Natação. Temos piscina de 50m, feminino, 80 a 84 anos, Nora Rónai; 50m peito e 50m borboleta, segunda do mundo; 100m borboleta, segunda do mundo; 200m borboleta, terceira do mundo; 200m medley, sexta do mundo; e 400m medley, quarta do mundo. Veja bem que isto é na 80 a 84 anos. A única brasileira que figura no Top Ten sou eu.

LOU: Sei. E você sai do Brasil pra competir?
NORA: Saio. Eu já competi em Montreal, no campeonato de Sheffield, de Munique.
E agora, ultimamente, em Riccione. Lá, eu tirei sete medalhas de prata.

LOU: Que maravilha! O Brasil tá lá no topo com
as suas medalhas. E com que idade você começou a competir em Master?
NORA: Em Master, desde 1993. Há 12 anos.

LOU: Você já era viúva?
NORA: Já. Porque o Paulo morreu em 1992.

LOU: Foi uma terapia até boa. E Icaraí é um clube de Niterói, no Estado do Rio?
NORA: É sim. Um clube excelente, porque nem todo clube é a mesma coisa. Mas eles são muito afetuosos, generosos, receptivos, bons de nado, sempre tiramos boas colocações na natação, são bons nadadores. E todos, pessoas congeniais comigo. Eu me sinto muito bem ali, é muito bom. O Top Ten acontece dessa maneira: toda as nações, seja a Austrália, China, Indonésia, sei lá, todas, todo ano mandam os 10 melhores resultados do seu país para a FINA, e o computador tira de todos esses melhores resultados do mundo inteiro, os dez melhores resultados.

LOU: Qual o seu estilo?
NORA: É medley, que são os quatro estilos.

LOU: Quais são os quatro?
NORA: Borboleta, costas, peito e crawl. Mas crawl não é a minha praia.

Eu não gosto de nadar crawl, não gosto de nadar costas; eu gosto de nadar peito, medley ou borboleta.

LOU: Quer dizer você fazia salto de plataforma escondido do seu pai?
NORA: No início. Mas depois, quando ele viu que eu saltava direitinho e não aconteceu nada, que não morri, ele até ficou orgulhoso de mim.
Mas, no início, ele disse que não podia, não queria, era perigoso, não sei o quê.

LOU: É plataforma? De quê? De onde você salta?
NORA: Plataforma de salto, torre de salto, 10 metros de altura.

LOU: Qual a faculdade que você fez?
NORA: Arquitetura. Eu fui professora na Faculdade de Arquitetura.

LOU: Em que ano você nasceu?
NORA: 29 de fevereiro de 1924.

LOU: Por isso só tem 20 anos? (rsrsrsrs)
NORA: Pois é, quando fiz 80, fiz 20 aniversários.

LOU: Em muitas coisas você foi única na sua vida, não é?
NORA: Não sei.

LOU: Você foi única em saltos, shows, esqui.
NORA: Rsrsrsrs.

LOU: A sua alegria é contagiante. Seu sorriso ilumina. Eu queria que você desse um recado pros VelhosAmigos.
NORA: Só um tchau e que sejam todos muito felizes. Que façam na vida o que mais gostam de fazer, porque tristezas não pagam dívidas.

LOU: Você aos 81 anos, praticando esporte, tão cheia de entusiasmo, participando de competições, o que você pode dizer para as pessoas que se sentem infelizes, porque estão fazendo 50, 60 anos, com medo da velhice?
NORA: Eu acho que o medo maior é da morte, sabe? Mas se você considerar a morte como um bem. Você ficou acordada um dia inteiro e de noite você já está cansada, você gosta de deitar e tirar uma soneca. Eu acredito que se a gente conseguir morrer numa boa, sem sofrer muito, é como ir dormir. Com o tempo, a gente cansa da vida. Realmente a vida é muito cansativa. Você tem que ir atrás, ir ao banco, ir à repartição pública. Se você não tiver bastante filosofia, você se aborrece a cada 15 minutos. Eu não me aborreço mais porque sei que a qualquer momento eu desço deste mundo: "Pára o mundo, que eu quero descer!" Resolvi não mais me aborrecer. Eu não estou me aborrecendo nem mais com o Lula. Eu acho ele ridículo, abusado, cara-de-pau. Mas tudo bem. Ele vai se arrepender mais tarde. Ele não está sendo honesto com o povo dele. Ele não está sendo honesto nem ao menos com ele. Porque o pior é que ele acredita em tudo isso que ele fala. Em outras palavras, eu não tenho o que dizer, porque conselho se fosse bom não se dava, vendia. Eu só posso falar por mim mesma. Eu resolvi não me aborrecer nessa vida. Desde que eu tenha um teto em cima da cabeça, desde que eu tenha uma comida, digna, razoável, todo santo dia, desde que eu não sinta dores, tá ótimo. Eu fico olhando as nuvens, os pássaros, cheirando o perfume das flores. A terra molhada, quando chove, é um espetáculo tão bonito.

LOU: Isso que é a vida pra você. E você não sente dor, nada?
NORA: Eu tenho bastante dor nas costas. Volta e meia me acomete. Ainda há pouco tempo eu tava atacada pra burro de dor nas costas. Aí eu me sento, ponho um travesseiro quente e faço força contra o espaldar, e com o tempo isso cede. O que eu sei é que tenho essa dor há 20 anos, mas eu também já sei que ela vai. Quer dizer, isso não vai me atazanar o tempo todo. Eu vou agüentar 10, 15 minutos, meia hora, e depois vai aliviar. E uma vez que você sabe que a dor não fica o tempo todo, já tem mais facilidade de aturar a dor. Por outro lado, quando a gente nasce, a gente não nasce com garantia de vida suave, bonita, sem dor, sortuda, caminhando num mar de rosas sem espinho. Isso não existe! Ninguém nasce com essa garantia. Se você conseguiu se safar na sua vida mais ou menos razoavelmente, levanta as mãos ao céu e diz graças a Deus, até aí, tudo bom. Eu digo como aquele cara que se jogou do 16º e na altura do 3º andar disse: - até aqui, tudo bem!

LOU: Que maravilha, você é uma lição de vida, estou emocionada!
NORA: Vejo gente que nasceu nos Estados Unidos, em berço de ouro, muito bonita, tipo Marilyn Monroe, são pessoas que deviam dar pulinhos de alegria e acabam se suicidando porque não estão satisfeitas, porque acham que têm direito a tudo. As pessoas acham que o mundo é injusto com elas. Porque? Não sei.

LOU: Elas acham que merecem mais.
NORA: Sim, não tem isso de merecer. Acho que é como um jogo, uma loteria, eu acho que eu fui muito privilegiada nessa loteria. Eu tive pai, mãe, muito amorosos, que gostavam de mim, severos, muito severos. Porque naquela época era assim mesmo. Mas eu nunca tive dúvida que eles gostavam ternamente da gente, do Giorgio e de mim. O Giorgio gostava de mim, a gente se dava bem, as minhas filhas gostam de mim. O Paulo, com quem casei e vivi felicíssima durante 41 anos, sempre foi o máximo de atencioso, generoso, manso. Não morri de fome. Passei fome, às vezes, lá na Europa. Não tinha nada pra comer, mas não morri de fome. Estou agasalhada, tenho moradia.

LOU: Talvez por isso você dê tanto valor à vida.
NORA: É capaz, porque realmente quase morri, porque estavam a fim de me matar e eu tive que dar no pé de lá. (rsrsrsrs)

LOU: Muito obrigada, você é fantástica, é uma verdadeira fonte de vida.
NORA: De nada. Tchau pra vocês.

 

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