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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

ORLANDO PEÇANHA DE CARVALHO
publicado em: 09/11/2016 por: Lou Micaldas

CAMPEÃO DA COPA DE 58

Matéria publicada em 06/06/2002

LOU - Qual é o seu nome todo?

ORLANDO - Primeiramente é uma satisfação estar aqui, muito prazer. O meu nome todo é Orlando Peçanha de Carvalho.

LOU - Peçanha com ç?

ORLANDO - Acho que, aí, teve um erro. Na época, quando eu nasci, o escrivão do cartório botou ç. Mas na família, a maior parte é com ss.

LOU - Em que dia, mês e ano você nasceu?

ORLANDO - Eu nasci lá no Méier, na Rua Maranhão, perto da Dias da Cruz, no dia 20 de setembro de 1935.

LOU - E você foi criado lá no Méier?

ORLANDO - Fui criado lá no Lins, era vizinho do Eloy da Silva Nunes, este velho amigo, que me apresentou a você. Jogamos futebol juntos, no mesmo time, chamado Apex, que nós criamos, quando éramos crianças. Era muita garotada brincando na rua, as famílias eram grandes...

LOU - Naquele tempo, você já queria ser jogador de futebol?

ORLANDO - Gostava de jogar futebol, como todos lá na área. Às vezes, nós tirávamos pé de galinha do campo, pra conseguir uma bola pra nós jogarmos.

LOU - O que é isso? Pé-de-Galinha?

ORLANDO - Pé-de-galinha era um toco de grama que dá, tipo uma batata, um capim, que dá, bem alto. E, às vezes, nós limpávamos o terreno, cheio desses pés-de-galinha, pra fazer o campo pros jogadores mais velhos poderem jogar e nós, em vez de ganhar dinheiro, por esse serviço, ganhávamos do dono do campo, o direito de jogar e uma bola emprestada.

LOU - E do time, que você jogava com essa criançada, só você se profissionalizou?

ORLANDO - Na época, tinha uns mais velhos que nós, que eram bons jogadores, que jogavam até no profissional. O Cabeleira foi treinar no Fluminense e foi aprovado. Mas nossa turma era muito unida, era muita amizade e ele tinha que ficar na concentração e tudo...a namorada não aceitava... aí ele largou. Tinha o Afonso, o Guará, e todos preferiram jogar no Manufatura, um time do Méier, que era de segunda divisão, porque lá não tinha concentração e eles jogavam no final de semana. Só quem se profissionalizou mesmo fui eu e o Motorzinho que não era muito chegado a nós e foi pro São Cristóvão.

LOU - Você estudava e jogava futebol?

ORLANDO - Estudei na Escola Maria Brás, um colégio público no nosso Bairro, na Rua Heráclito Graça, no Lins de Vaconcelos, conhecida como a Rua das Mangueiras, uma rua cheia de mangueiras, com troncos grossos, e o nosso pessoal estudava todo lá. Eu fiz até o admissão.

LOU - E depois, você precisou parar de estudar pra seguir a carreira?

ORLANDO - Não, continuei estudando mas em Niterói, porque os meus pais foram para lá e toda família tinha que trabalhar na padaria. Trabalhávamos todos juntos e estudava à noite. Comecei a jogar no Fonseca, em São Gonçalo, Niterói, mas pagava pouco... Então, o meu amigo Edmur me chamou e eu fui jogar no juvenil do Vasco.

LOU - Foi assim que você foi parar no Vasco?

ORLANDO - O Edmur era um jogador do Canto do Rio e ele me me fez o convite: "Por que você não vai jogar no Vasco? Vai jogar lá, com meu irmão."

LOU - Quantos anos você tinha?

ORLANDO - Eu tinha 16 anos. Aí, um dia cismei e fui até lá treinar e fui aprovado. Nesse dia, o Edmur não foi. Era ele quem ia me apresentar ao treinador, um argentino, que já tinha jogado no Flamengo, chama-se Carlos Volante, então falei com ele que não poderia ir treinar, porque a despesa era grande, eu pegava seis conduções. E ele disse para eu continuar indo aos jogos, porque assim eu poderia receber as gratificações dos jogos.
No Juvenil, tinha a gratificação de cinco mil réis ou cruzeiros, não sei qual era a moeda, naquela época. Aí eu comecei.

LOU - Quer dizer que você é vascaíno de berço?

ORLANDO - É, comecei no Vasco. Minha avó era vascaína, meu tio também, então eu passei a ser Vasco. Meus irmãos, a maior parte, é Fluminense e tinha só um, o mais velho, que era Flamengo. Mas eu continuei no Vasco. Joguei 53 e 54 no juvenil e, em 55, passei a profissional, pois já tinha 19 anos. Estava disputando Rio-São Paulo e tinha uma excursão para o Norte-Nordeste e faltou jogador, aí eu fui, tinha mais dois ou três juvenis, que também tinham condições, na época. O Flávio Costa disse: "eu levo esses daí que têm condições de jogar. E, realmente, eu fui e joguei contra o Botafogo e contra a Ponte Preta, lá em Sergipe.

LOU - Quando você passou a titular do Vasco?

ORLANDO - Na volta da excursão, ainda faltavam 3 ou 4 jogos pra terminar o Rio-São Paulo, e nosso treinador era Augusto da Costa. Ele era da Polícia Especial, grande jogador, jogou na seleção, jogou no Mundial de 50, no Brasil. Ele perguntou: " tem algum jogador bom aí, sobressaiu alguém?" Disseram: "tem o Orlando e o Coronel", que era o Antonio Evanir e, como ele usava um bibico do exército, botaram o apelido dele de coronel. Assim, nós fomos convocados; treinamos o 1º tempo no time de baixo e, no segundo tempo, fui pro time de cima.

Já fiquei concentrado pra jogar com os profissionais. Terminados esses jogos do Rio-São Paulo, nós fomos em uma excursão para a Europa e, quando voltei, já era titular do time principal do Vasco. Aí, pra mim foi o caminho, a oportunidade que eu tive. E, sempre, quando eu jogava no juvenil, ia assistir, no Maracanã, aos jogos do profissional. Via a marcação, como se jogava, qual era o posicionamento dentro do campo e então aprendia.

Tive também um bom treinador no juvenil, que se chamava Eduardo Pelegrino. Ele trabalhava na divisão de base, lá do Vasco, era preparador físico e com ele aprendi muito.

LOU - Desde criança, você já queria ser jogador de futebol?

ORLANDO - Eu tentei e deu certo.

LOU - Você lutou por isso, foi seu sonho e você realizou. Que beleza. Daí, você foi pra Seleção?

ORLANDO - Daí, pra seleção... Em 1957, no Rio-São Paulo, fui o melhor jogador. O Vicente Feola já estava observando os jogadores; e tinha o nosso presidente da delegação, o Paulo Machado de Carvalho, que era dono da TV Record, participava da CBF e da Federação Paulista.

Nós estávamos em Paris, no hotel, quando chegou o presidente da CBF - CBD naquele tempo- o João Havelange. Ele foi nos fazer uma visita e perguntou pra mim:
- E aí garoto, como é que você está?
Eu disse:
- Estou bem.
- Então se prepara.
Eu entendi como uma dica, que ele estava me observando. Jogamos a Taça de Paris. A final- foi com o Real Madrid- nós ganhamos do Real Madrid que era um time muito bom, tinha grandes jogadores, só tinha estrela no time, no tempo de Puskas, que era húngaro. Tinha um ponta esquerda baixinho, o Gento, que fazia miséria, o único vencedor de seis Copas dos Campeões da Europa.

O Vasco também tinha um time muito bom. Nós jogamos seis anos juntos, praticamente o mesmo time. Os laços de união, de amizade, facilitaram
as grandes jogadas.
(Na foto, o Orlando é o quinto da fila)

LOU - Era uma orquestra.

ORLANDO - Realmente, sabíamos o que cada um ia fazer, quando pegava a bola no campo, pra onde se deslocava, onde dar um passe. Isso é muito importante, manter um mesmo time 5, 6 anos juntos.
Qualquer criança, naquele tempo, sabia não só do Vasco, como de qualquer time, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Bonsucesso, a escalação do time. Pra nós também era muito importante, porque se, em cada jogo, sai um jogador ou, porque tá machucado, ou por qualquer outra coisa, então, desfalca a equipe e não é mais aquele jogo que nós vínhamos apresentando. A maneira de jogar já fica diferente.

LOU - Depois, você foi pra copa? Em que ano ? E qual foi o time escalado?

ORLANDO - Foi em 1958. Antes de irmos pra concentração, em Minas, eu e Garrincha operamos amígdalas que estavam inflamadas. Nós ficamos no Rio e eles foram. Quase que não íamos mais, porque minha garganta inflamou e o Garrincha aumentou de peso, porque comia demais. Ainda por cima, tomei um remédio, à base de iodo, que queimou a garganta toda e eu disse pro meu irmão: "Vai lá e diz a eles que não vou não." Tava doendo muito, depois passou tudo e todo mundo dizendo vai, vai, vai, aí eu fui. Cheguei lá, com sete quilos a menos. O Dr. Hilton Gosling, que era nosso médico, fez uma alimentação pra mim e eu recuperei o peso rápido.

LOU - Vocês dois ficaram no mesmo hospital, quando operaram?

ORLANDO - Foi o mesmo médico, na mesma hora, ele operou, saiu, eu entrei operei, saí, porque é uma coisa rápida, não é demorada. E o médico era muito bom, era do Botafogo. E foi uma coisa espetacular. Pior foi minha recuperação, porque de saída eu não jogava. Nós éramos quatro na posição. Era Formiga, que jogava no Santos, Jadir, do Flamengo, Zózimo, do Bangu e eu do Vasco.

LOU - Essa seleção de 58 tinha esses quatro e quais eram os outros?

ORLANDO - Nós éramos 4 na mesma posição. Dois foram cortados. Os dois que ficaram na seleção fui eu e o Zózimo e ficamos disputando quem seria o titular nos dois jogos que fizemos na Itália, contra a Fiorentina e contra o Inter de Milão, antes de irmos pra Suécia, e nos dois jogos me saí muito bem. Quando chegou a abertura do campeonato da Copa do Mundo, eu fui o titular de todos os jogos.

LOU - E qual foi a seleção de 58?

ORLANDO - Em 58 ficou sendo:
Gilmar (Castilho), Djalma Santos (De Sordi), Mauro (Bellini), Orlando (Zózimo) e Nílton Santos; Zito (Dino Sani) e Didi (Mengálvio); Garrincha (Julinho),

Pelé (Mazzola), Vavá (Coutinho, Dida) e Zagallo (Pepe, Canhoteiro).

ORLANDO - Nessa seleção de 58, que nós participamos, tinha muita amizade pessoal, como se fosse uma família. Quem ficou se encaixava com o outro, não teve problema nenhum. Foi a primeira vez que o Brasil conquistou a Copa do Mundo.

LOU - E onde foi a Copa?

ORLANDO - Na Suécia. Todos os jogos foram na Suécia. Agora é no Japão e na Coréia, dois países. Mas o principal pro jogador é o campo e lá, cada campo é melhor que o outro. São muito bonitos. O gramado, que eu não pisei, mas quem vê de fora, vê que é bem gramado.

LOU - O que é que você acha dessa história da nossa seleção ainda não estar definida? Você estava falando da vantagem de vocês terem jogado tantos anos juntos, os mesmos jogadores, como uma grande família.

ORLANDO - Nós jogamos no Vasco, mais ou menos 6 anos. Eu entrei pra ser titular em 55 e saí, em 61, pra Argentina, pra jogar no Boca Juniors. Nesses 6 anos, foi o mesmo time. Era Paulinho, Bellini, depois entrou o Carlos Alberto que era goleiro, que é brigadeiro hoje, Carlos Alberto Cavalheiro, eu e Coronel. Depois entrou Laerte, Ercio, volante, meio campo, e Marciano ficou conosco 4 ou 5 anos, veio de São Paulo e Sabará que jogou uma eternidade no Vasco, jogou 12 ou 15 anos na ponta direita, depois Walter Marciano que foi pra Espanha, tinha o Pinga de São Paulo que jogou 6, 7 anos, ou mais . Teve o Vavá, que começou desde o Juvenil em 52 e foi cria nosso do Vasco.

LOU - Quer dizer jogavam sempre os mesmos. Agora, cada dia é um time diferente.

ORLANDO - O Brasil tem muitos craques, o Brasil é grande, tem muitos jogadores bons, mas tem que saber a maneira de armar o time. Isso depende do treinador.

LOU - Mas o treinador levou pouco tempo pra escolher o time?

ORLANDO - Pouco tempo. Ele escolheu esse plantel. Agora, dessa convocação, tem que ver o time que vai armar, pra sair jogando. A maioria ficou na Copa Brasil e o resto disputando campeonato europeu. Tiveram pouco tempo pra fazer um time, 1 mês ou mais um pouco, para ver as condições de cada um. Eu não joguei na de 62. Estava convocado, acertaram tudo comigo, com o presidente do clube que eu estava em Buenos Aires, e não me chamaram. Porque uns disseram que eu estava jogando o futebol argentino, que era diferente. Mas não era nada diferente, era igual ao do Brasil, jogava com habilidade.

LOU - Quer dizer que, em 62, você foi cortado?

ORLANDO - Fui cortado, não me chamaram.

LOU - Quer dizer que atualmente não dá pra fazer um time que fique mais ou menos um ano seguido treinando? O problema é que os jogadores têm que estar no estrangeiro, ganhando sua grana, porque aqui os clubes não pagam, né?

ORLANDO - É. Aqui faz de conta que recebe...

LOU - Aí, o jogador vai pro estrangeiro, quando chega na época da copa, tá tudo desentrosado.

ORLANDO - Acho que o campeonato, lá, termina em junho/julho ou agosto, e é quando são convocados. Eles chegam muito cansados de uma temporada na Europa. São trinta e tantos jogos; muitos se recuperam, são jovens. Mas, outros custam a se recuperar.

LOU - Até pelo estresse causado também pela incerteza.

ORLANDO - Na realidade porque se tem família, tem compromisso, tem que procurar quem pague . Onde paga? Fora do país. Em São Paulo, ainda paga, o Corínthians, São Paulo, Palmeiras, tem muita torcida como o Vasco, Flamengo, mas a torcida só nos campos. Lá em São Paulo não, a maioria das torcidas é associada ao clube. Então eles têm uma renda.

LOU - Mas de qualquer maneira se o clube tem muitos sócios, isso não daria para pagar o time?

ORLANDO - Não, porque a despesa é muito grande, muitos funcionários e não é só futebol: é atletismo, é natação, é basquete, é vôlei, o esporte amador. O Vasco tem um time de basquete campeão de várias copas e tem o pessoal da natação, do remo, é muita despesa.

LOU - Você ficou famoso no futebol com o apelido de Sarrafo Humano?

ORLANDO - Isso foi Oduvaldo Cozzi, um dos melhores locutores esportivo de rádio, que me apelidou, porque eu jogava muito sério, chegava junto. Isso eu aprendi não só aqui, mas também no futebol europeu. O europeu usava muito o corpo, jogava o corpo. O Oduvaldo Cozzi falava que eu era Sarrafo Humano, aí pegou. Não eram todos, eram alguns que me chamavam. Pegar, mesmo, não pegou igual a Roberto "Dinamite".

LOU - E Dadá Maravilha pegou também. Mas vem cá, e qual foi a copa que você deu um chega prá lá e fez o gol? Conta como foi.

ORLANDO - Não, eu não fiz o gol, porque a minha responsabilidade era muito grande, eu não avançava. Ia até a intermediária adversária, mas, lá na frente, eu não avançava, porque tinha a responsabilidade de fazer a cobertura.

LOU - Ah, você era zagueiro?

ORLANDO - Jogava pelo meio, entre o goleiro e o ataque, pelo lado esquerdo. O Bellini do lado direito, Djalma Santos pelo lado direito também, e na frente Didi, começou Dino Sani, depois Zito que jogava mais à frente como se fosse escudo.

LOU - Você era da defesa...Mas hoje, tem zagueiro que faz gol...

ORLANDO - No Boca Júniors, eu era capitão do time e a minha responsabilidade era comandar dentro do campo e nunca avancei pra chutar a gol. Que eu me lembre, foi uma vez só contra o Racing, em Buenos Aires, que eu fui à frente e chutei. A bola deu uma cobertura no goleiro e bateu na trave.

LOU - Deve ser a maior emoção um meia fazer gol...

ORLANDO - Eu não cheguei a fazer o gol. A bola bateu na trave e saiu. Mas, quando era menor, jogava mais ofensivamente, jogava na linha, não era defesa. Quando entrei pro juvenil, passei a jogar na defesa.

LOU - A Marlene, sua mulher, é muito bonita. Como foi que vocês se conheceram?

ORLANDO - Já estava no Vasco, jogando profissional, isso foi em 59. Morava no Méier, depois, fui morar no Grajaú, na praça Nobel, e freqüentava o Atlas, que era o clube do bairro. Sempre que tinha folga, ia rever os amigos, e lá, conheci a Marlene, minha esposa, que morava na casa que foi de um amigo meu anteriormente, no Lins de Vasconcelos.
A casa muito grande, a família dela também, e começamos aí. Dentro de um ano, nos casamos.

Em 61, fomos pra Buenos Aires, já tinha nascido a minha mais velha, depois, quando vim de férias, nasceu a segunda, que era pra nascer em Buenos Aires. Se passasse mais uma semana, ou dez dias, nascia lá. E a terceira nasceu em Buenos Aires.

LOU - E como foi sua vida na Argentina?

ORLANDO - Foi tranqüila. Ficamos em Buenos Aires, passei 5 anos muito bons. Fiz grandes amizades, não só no futebol, mas na sociedade mesmo, com torcedores, eu falava com todos os torcedores do Racing, Boca Júniors, River Plate. Havia muita rivalidade entre os times, é normal, mas eu falava com todas as torcidas, dava autógrafo pra todos. Pediam, eu dava.

LOU - Então, você deve ter muito amor pela Argentina.

ORLANDO - Tenho sim.

LOU - E como é essa rivalidade Brasil X Argentina? Quando há jogo, como você fica?

ORLANDO - Aqui no Rio, antigamente, tinha jogadores argentinos em muitos times. E tinha oito jogadores brasileiros jogando na Argentina, no Boca Júniors. O River tinha Delém, tinha Moacir e Décio Esteves do Flamengo, tinha Roberto do São Paulo. Todo time tinha, até no Rosário Central, que era um time, da cidade de Rosário, lá estava o Rodrigues que jogou no Fluminense, ponta esquerda. Tinha Roberto Benegeri, um volante, que jogava no São Paulo, muito bom também, e o irmão dele. Nesse tempo que nós estávamos lá, a rivalidade tinha acabado, porque nós fizemos amizade, tinha muito brasileiro. Depois que eu saí de lá, joguei várias vezes em Buenos Aires e nunca aconteceu nada.

LOU - E agora essa rivalidade voltou?

ORLANDO - Não sei dizer. Parei de jogar. Costumava ir lá visitar os amigos. Mas, há dois ou três anos que não vou. Agora, tá passando uma fase difícil. Estou esperando melhorar para visitar os amigos. A Argentina sempre foi uma cidade "européia" na América do Sul. O pessoal era muito festeiro. À tarde se reuniam naqueles cafés as senhoras, com aqueles sobretudos, casacos de peles. A vida de lá era assim. Hoje, lá não tem trabalho, tá como o Rio ou São Paulo.

LOU - E agora, você faz o quê? Tem alguma atividade?

ORLANDO - Estou há 18 anos como presidente da Associação Brasileira de Treinadores de Futebol. Entrei pra ficar três anos, estou há dezoito.

LOU - Os treinadores de futebol freqüentam esse clube? Como é?

ORLANDO - Não é um clube. Tem uma sede na cidade, um escritório. Nós estamos nos movimentando para estruturar a ABTF, ver se conseguimos um espaço para nós. Aqui no Rio tem muita área. Queremos colocar em prática um grande projeto nosso para crianças carentes.

LOU - Essa Associação tem que finalidade?

ORLANDO - Nós damos assistência profissional. Os contratos que eles fazem, se os clubes não pagam, ao invés de procurar um advogado particular, eles procuram a Associação. Agora, têm que participar, têm que pagar uma taxa mensal, anual, pra nós sobrevivermos, pra haver meios de manter a associação. Nós realizamos cursos, fazemos até dois, por ano, pra reciclagem, pra todo o Brasil. Vem gente de Tocantins, de Manaus, vem até de fora...

LOU - E quem dá essas aulas?

ORLANDO - São professores, treinadores como o Oswaldo de Oliveira, Lopes, Parreira, são vários treinadores. Temos preparadores físicos também, o Luiz Mendes, que é uma enciclopédia, que comenta coisas do passado, temos médicos, etc.

LOU - E o Scolari, já passou por lá?

ORLANDO - Não.

LOU - Você acha que fez falta pra ele? (Risos)

ORLANDO - Não sei se ele fez no Sul. Porque, às vezes, eles fazem lá no Sul, e no nosso aqui, ele pediu uma proposta pra participar. A experiência dele é muito grande, é bastante, já pegou vários times grandes. No Sul foi várias vezes campeão, inclusive no Grêmio e, em São Paulo, saiu-se vitorioso, no Palmeiras.

LOU - Quer dizer que o Scolari tá mais pra ser professor da Associação do que freqüentar aula pra aprender?

ORLANDO - Eu acho que sempre aparece alguma coisa nova pra se aprender. Mas o Scolari tá mais para ensinar. Tipo Parreira. Ele foi, no ano passado, pra Londres, fez um curso de treinador e ele disse, no último curso nosso, que o treinador, hoje, no mínimo, tem que saber usar o computador e saber inglês. A realidade é essa. Porque se ele recebe uma proposta do mundo árabe, por exemplo, ele tem que saber mexer no computador e falar inglês, pra não perder o contrato. Nós estivemos juntos e foi o Parreira, o único, que me apontou para ir ao Kwait, onde morei dois anos, e fiz um bom trabalho lá.

LOU - Você foi treinador de qual time?

ORLANDO - Fui treinador de muitos times: do Vitória da Bahia, da Arábia Saudita, Fluminense da Bahiapor duas vezes, CSA de Alagoas. Em Cuiabá, por duas vezes, no Dom Bosco. Fui treinador do América de São José do Rio Preto e estive também no Joinville e também no kazma do kuwait. Agora, estou parado porque tem a Associação. Mas nada me impede de aceitar um convite. Se eu tiver uma proposta dentro de um time que me agrade, eu vou. Neste caso, assume o vice presidente, eu fico na diretoria e vou.

LOU - Então, você está aberto a receber convite para treinador...

ORLANDO - Eu estou esperando. Tem vários times como o América, coitado. Foi um time que sempre jogou na primeira divisão, sempre teve bons jogadores, bons diretores e, hoje, o América passa por uma fase de time de segunda.

LOU - E qual o problema dos times atualmente? Tá faltando treinador ou falta jogador?

ORLANDO - O problema é financeiro e falta de jogador. Se eu for jogar não me pagam, vou jogar no que tem condições de me pagar, né ?

LOU - Então, não adianta um time ter um ótimo treinador se não tem jogadores.

ORLANDO - Quantos treinadores e jogadores entraram e saíram do Flamengo até agora? Vários.

LOU - E toda vez que o time perde troca o treinador.

ORLANDO - O Fluminense trocou o Oswaldo de Oliveira pelo Robertinho. O Flamengo, quantos trocou no ano? 5, ou 6, ou mais. Tá perdendo treinador, jogador, funcionários. Se eles não recebem, então torna-se difícil. Tem a família pra sustentar e outros compromissos.

LOU - Qual a sua esperança para essa Copa de 2002?

ORLANDO - O que eu sempre falo, não é um só jogador, são vários jogadores, primeiro é ter a união no plantel. Não são as jogadas individuais. Todos têm que estar torcendo pra equipe, pra sair tudo bem, até os que estão no banco. Não é o outro ficar torcendo pra um se machucar pra poder entrar. O banco tem que torcer a favor da boa jogada. Isso que é união.

LOU - E você acha que este time está unido?

ORLANDO - Eles saíram daqui e de várias seleções, se juntaram ao pessoal que veio da Europa e ficaram pouco tempo pra treinar. Eu creio que haja condições, conforme Felipão é.
A maneira dele agir é assim mesmo. Às vezes, aqueles gritos servem pra despertar o jogador. Eu creio que vai sair um bom trabalho nessa seleção.

LOU - E o Romário?

ORLANDO - Romário é como se diz. É a mídia. Romário, Romário, Romário, sou vascaíno, eu tenho visto vários jogos do Vasco, realmente, foi um grande jogador, ainda é um goleador. Dentro da área, se deixar ele dominar é gol, mas na seleção é diferente, se ele fosse jogar lá, ia ter um marcador em cima dele, colado nele, respirando no pescoço, marcação cerrada. Ficar correndo de uma ponta a outra, creio que ele não tem mais condição. Estão dizendo que ele já está bom...Mas, creio que não ia dar certo, porque em vários jogos, eu via quando ele dava um pique e botava a mão na virilha. Eu pensava: - Outra vez! Romário deu azar com distensão. O fato é que os músculos dele já devem estar endurecidos. Não sei, o doutor é quem sabe. Acho que aquele jogo que ele fazia, o futevôlei, na areia da praia, puxa muito, e isso deve ter endurecido a musculatura. Depois de um jogo, de um cansaço... Tem que fazer uma massagem, uma banheira, uma sauna, uma coisa dessas...

LOU - Você acha que o Brasil pode vencer essa copa?

ORLANDO - Nós temos bons jogadores como os dois Ronaldinhos, o Denílson ali, que dribla quatro seguidos. Ele fez um gol que partiu lá do meio de campo, deu um olé, driblou dentro da área e, pela esquerda, colocou a bola lá dentro.

LOU - E o Juninho? O que você achou dele ter sido convocado assim de última hora?

ORLANDO - Já estava preparado, esperando ser chamado, porque ele fez uma boa campanha no Vasco, ele fez um bom campeonato. É um bom jogador, disciplinado.
O Atlético de Madrid quer ele de volta já que retornou à primeira divisão. O Flamengo queria fazer um contrato, mas quem seria responsável por este contrato? Lá fora, a coisa é séria. Compromisso tem que ser honrado.

LOU - E o Ricardinho que entrou, agora, no lugar do Emerson?

ORLANDO - Foi ótima a convocação, deveria ter sido convocado antes.

LOU - Agora, qual o recado que você dá prá essa garotada que quer ser jogador de futebol?

ORLANDO - Pra ser jogador de futebol tem que treinar, aprender os fundamentos de futebol, condição de bola, passe, cabeceio, controle de bola, treinar todo dia, tem que ter dedicação. Mas nunca esquecendo, que a maior parte que vai pro futebol, larga o estudo. Aí, se não conseguir se projetar, vai ser um marginal, sem instrução. Não tem instrução, não tem estudo, não tem nada, não tem família, acaba na rua.

Eu faço parte de um grupo, lá em Caxias, que dá atendimento a crianças de rua. É um timezinho com 30 garotos que vivem na rua ou são muito pobres. A gente dá o treinamento, dá alimentação, dá um almoço. Se esse garoto não tem uma vocação, vai fazer o quê? Vai pra rua, vai comer onde? Então vai crescer, e se não der pro futebol, vai fazer o quê?
O governo devia adotar o que se faz na China: só pode ter um ou dois filhos; se tiver o segundo, a responsabilidade do parto é da família. Lá, só pode ter dois e pronto. Aqui não, quem não tem condições de ter um filho, tem mais de dez...

Tem muitos jogadores por aí que ganharam muito dinheiro, mas não sabem o compromisso que têm com a família. Tem o Deivid do Corínthians, coitado, ajuda a família inteira, deu até casa pro irmão de presente.

LOU - O nome dele é Deivid? Como é que se escreve?

ORLANDO - Se escreve, como se fala: D-e-i-v-i-d. Ele é novo e ainda vai jogar muito, fazer novos contratos. Mas, se, por acaso, quebra uma perna, se acontece uma fatalidade, tá acabado. Depois vão falar: Ah, jogou futebol, teve oportunidade e jogou tudo fora. É isso, aquilo, tava de farra, mas o que faltou foi o estudo, foi preparo pra saber aplicar o dinheiro.

LOU - Você ainda não falou dos seus títulos.

ORLANDO - Eu tenho uma grande carreira de títulos no Vasco. Foi em 56/57 Rio-São Paulo. Na Argentina, fomos três vezes campeões, campeão da Taça Rei de Marrocos, quando chegamos lá em 61, fazia 14 anos que o Boca Júniors não era campeão, sendo o clube da massa, igual ao Flamengo e Vasco, aqui no Rio. Mas, nós armamos uma família. Lá, quando nascia um filho de um jogador, nós tínhamos uma caixinha feita com o pagamento de multas. Quando o jogador chegava atrasado, pagava uma multa. No primeiro dia, pagava 1000 pesos; se acontecia de novo, pagava 1000 mais 2000. E aquele dinheiro ia se multiplicando. Ele era para pagar aniversário de jogador, comprar presentes. Quando alguém tinha filho, nós comprávamos presente pra esposa e pro filho. Quando tinha aniversário, nos reuníamos e íamos para a Churrascaria, todo mundo participava da festa.

LOU - Mas você estava falando dos seus campeonatos, dos títulos...

ORLANDO - No Brasil, tive os do Vasco: 52/54, juvenil e em 54 Brasileiro de Juvenil. Depois, passei a profissional. Era pra ser campeão em 55, invicto, mas, perdemos o campeonato, no final, pro Flamengo. Fomos campeões do Rio em 56, em 57, Torneio Rio-São Paulo, Super-Super do Rio em 58. Taças na Europa, várias taças em torneios com o Boca. Lá na Europa, eu tive proposta para o Real Madri, pro Milan da Itália, pro Internacional de Milano e pro Barcelona.

LOU - E como foi a história do seu contrato com o Real Madri?

ORLANDO - Foi uma briga danada pra eu sair do Vasco. O Alah Batista era o presidente do Vasco. Ele pediu 15 milhões, naquela época. Quando chegou na hora, o Real Madri veio pra pagar, ele pediu 30, pediu o dobro. Aí teve a maior confusão. O Vasco ia ganhar, eu ia ganhar, ele tinha 20% do meu passe. Eu falei:
- Eu tenho 20%, abate esses 20%. Aí, já eram uns 600 mil dólares ou cruzeiros, não sei ao certo.
O Secretário Geral do Real Madri falou: Nós não somos moleques, o senhor pede uma quantia, eu me desloco da Espanha, venho com o dinheiro pra fazer o pagamento, quando chego aqui, o senhor me pede o dobro? Aí, não fui.

LOU - Quando você saiu da Argentina e voltou pro Brasil, você voltou a jogar no Vasco?

ORLANDO - Não, primeiro eu fui pro Santos. Lá fomos três vezes campeões paulistas, e campeões brasileiros. O Santos tinha uma equipe que era uma seleção, era a seleção do Brasil, porque todos os jogadores tinham sido da seleção. Tinha o Gilmar, Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos de Oliveira, eu, Zito, Rildo, Geraldino, Mengálvio, Coutinho, Pelé, Pepe, Abel, Edu, Dorval, Lima e Toninho.

LOU - Sua carreira de jogador de futebol terminou em que time?

ORLANDO - Do Santos, voltei ao Vasco e joguei até 70 e encerrei pra não prejudicar os amigos.

LOU - Sem mágoa?

ORLANDO - Sem mágoa. Pra não atrapalhar os amigos, porque eu estava com 36 anos, mas dava pra jogar ainda. Mas, numa explosão eu perdia para um garoto de 20, 21 anos. Nessa época estava o Almirante Heleno Nunes, meu grande amigo vascaíno, que falou: - Orlando, você vai parar? Eu disse: - Vou parar. Então, você vai treinar o Aspirante do Vasco, vai ser auxiliar do time. Me fez uma proposta, eu aceitei.

LOU - Você disse que tem três filhas. Suas filhas lhe deram algum neto homem?

ORLANDO - Deram. Morei dois anos no Kuwait, a mais velha, casada, mora no Kuwait, tem dois filhos. O mais velho tem 15 e o outro tem 13 anos.

LOU - E eles querem ser jogadores de futebol?

ORLANDO - Não, jogador de futebol não dá.
O mais velho tem um metro e oitenta e cinco e joga voleibol e o menor, que tem um metro e setenta e oito, joga basquete. Depois tenho a filha menor, que mora em Paris, essa tem uma menina de 12 anos. Meus netos são muito estudiosos, todos eles. Primeira obrigação é o estudo, nem precisa ninguém mandar.

LOU - Parabéns! O Velhos Amigos agradece a sua entrevista. Nesse mês da Copa, é uma honra publicar a sua vida de glória, de Campeão Mundial de 58, com um timaço que, até hoje, nos emociona, quando relembramos daqueles lances que ficaram na história do Futebol Brasileiro.

Observação: Orlando está entre os 50 melhores porque com Bellini formou uma dupla de zagueiros que ficou na história da seleção e do Vasco. Foi campeão do Mundo em 1958.

 

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