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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

OSWALDO MOURA BRASIL FILHO
publicado em: 10/11/2016 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 24/09/2005

Pelo brilho de seu olhar, percebe-se logo que o nosso entrevistado é um homem que ama o que faz.
O oftalmologista Dr. Oswaldo pertence à centenária família Moura Brasil, que vem se dedicando à saúde dos olhos, há cinco gerações.
Ele é filho de Oswaldo Moura Brasil, que se casou com Roma Serzedello Steinmann Moura Brasil.
Nosso entrevistado é bisneto de José Cardoso de Moura Brasil, o patriarca da família Moura Brasil.

LOU: Fale-me de sua família. Parece incrível, mas eu pesquisei na Internet e não vi nenhuma citação sobre a história dos Moura Brasil, família tão especial pela vocação médica de cuidar dos olhos há mais de cem anos.
OSWALDO: O meu bisavô, José Cardoso de Moura Brasil, foi o primeiro dos Moura Brasil e já tem o meu filho que é a 5ª geração de oftalmologistas.

LOU: Qual o nome do seu filho?
OSWALDO: Oswaldo Ferreira Moura Brasil. Ferreira, do avô dele, que também era oftalmologista, e um dos fundadores do IBOL.

LOU: E o de seus avós?
OSWALDO: Tobias Corrêa do Amaral, pelo lado da minha avó, e o meu bisavô, José Cardoso de Moura Brasil (foto), primeiro dos Moura Brasil.

LOU: Seu sogro é que foi o fundador?
OSWALDO: Sim. Foi o Luiz Eurico Ferreira.

LOU: Me conta a sua história. Quando você era criança, você foi induzido a seguir essa profissão por seu pai e avô?
OSWALDO: Na verdade, nunca propuseram, nunca forçaram. É uma coisa que a gente vê e gosta, e eu acho que na vida a gente tem que fazer o que gosta. Eu nunca procurei impingir a meus filhos que fossem médicos. Um fez medicina, oftalmologia; o outro fez economia; e o menor fez comunicação, jornalismo. Então, cada um tá feliz na sua área.

LOU: São todos homens?
OSWALDO: São. Oswaldo, Bruno e Felipe. Só o Oswaldo seguiu e, no momento, ele está fazendo uma pós-graduação em Cleveland.

LOU: E você, quando era criança, morava onde?
OSWALDO: Eu morava em Copacabana. Toda a minha vida eu morei em Copacabana até casar. Eu morava na Rua Décio Vilares e estudava no Colégio São Fernando, em Botafogo, o meu único colégio. Era dirigido pela professora Lúcia Magalhães. Depois que ela faleceu, o colégio acabou - o que é comum, às vezes, nestes colégios que são montados em cima de uma pessoa. O São Fernando, com a Dona Lúcia; o Jacobina, com a Dona Laura Lacombe.

LOU: Aí você foi pra faculdade e escolheu medicina.
OSWALDO: Eu me formei pela Universidade Gama Filho, Escola Médica do Rio de Janeiro, e depois me especializei em oftalmologia.

LOU: Mas vocês tinham uma clínica chamada Moura Brasil.
OSWALDO: Era do meu pai. Eles eram três irmãos oftalmologistas: Oswaldo, que era o meu pai, Nelson e Otávio. Se não me engano, são 13 ou 14 oftalmologistas na família, contando os genros. Tem outras famílias: Caldas Brito, Gabriel de Andrade. Eram todos genros do José Cardoso, o primeiro Moura Brasil. Eu não lembro se são 13 ou 14 nessas cinco gerações.

LOU: E quando você se formou, já tinha uma clínica pra trabalhar.
OSWALDO: É, mais ou menos. Eu não pude continuar muito tempo com meu pai, porque ele faleceu quando eu estava iniciando a faculdade. Mas pude contar com o meu tio, Nelson Moura Brasil, e depois me engajei no grupo da Gama Filho, com o professor Luiz Eurico, que foi meu professor. Ele me convidou pra trabalhar e acabou que a vida me levou e me trouxe pra cá, onde estou há mais de 30 anos. O IBOL tem 35 anos. E eu comecei aqui mais ou menos naquela época.

LOU: A sua especialidade é cirurgia?
OSWALDO: Cirurgia só basicamente de retina e vítreo. Faço também a parte clínica de retina. Mas a minha parte cirúrgica é especialmente nas doenças da retina.

LOU: Quais as cirurgias que podem ser feitas pra substituir os óculos...?
OSWALDO: Peraí. Vamos por partes. Existe o que chamamos de erros de refração, que são a miopia e a hipermetropia, e que hoje na maioria são corrigidos com cirurgia refrativa. E existe o terceiro erro refracional, que a gente chama de presbiopia ou vista cansada. Por enquanto, para este ainda não existe um tratamento cirúrgico. A gente tem que corrigir com óculos ou lente de contato.

LOU: Na Internet li que já havia cirurgia pra vista cansada e eu fiquei toda animada... Queria me livrar justamente dos óculos e das lentes de contato.
OSWALDO: Mas, infelizmente, não funciona. Existem várias técnicas, mas nenhuma delas ainda funciona. Hoje, o que a gente tem muito importante no mundo todo, como uma das principais perdas de visão, são as degenerações maculares da idade. E por que isso? Se nos reportarmos há 30, 40 anos atrás, uma pessoa com 60 anos era uma pessoa idosa. Hoje em dia é muito raro eu examinar uma pessoa com 80, 90 anos, que não trabalhe normalmente, com uma cabeça boa, em plena atividade. Mas isso levou a um outro problema. Existe um grupo grande de doenças que se manifestam na terceira idade pra frente, que são essas degenerações da idade, que antigamente eram relativamente raras e que hoje são muito freqüentes.

LOU: Por quê?
OSWALDO: As pessoas não viviam tanto. E hoje, essas pessoas vivendo 80, 90, 100 anos ficam sujeitas a um grupo de doenças que eram raras, porque as pessoas não chegavam a essas idades. Era muito comum se viver 60, 60 e poucos anos. E hoje, chegar aos 80, 90 anos, é normal. Então, hoje é um grande desafio que a gente tem neste início de século: conhecer e tratar as doenças que se manifestam nessa idade. E a oftalmologia tem essas degenerações maculares que são muito freqüentes no mundo.

LOU: E quais são?
OSWALDO: A gente tem essas alterações degenerativas, como se fosse um envelhecimento da área central da retina, que a gente chama degeneração macular da idade, que pode se manifestar de várias maneiras. Existem formas secas, exsudativas, hemorrágicas. Pra cada uma existem alguns tipos de tratamento, com remédios, cirurgias, antioxidantes. Mas isso ainda está sendo aprimorado. Ainda não existem tratamentos ideais. Este é um grande desafio que temos hoje.

LOU: Mas tem bons resultados?
OSWALDO: Está melhorando. A cada ano aparecem novos medicamentos, novas técnicas. Hoje já existem vários módulos experimentais que parecem ser uma esperança importante para as várias formas dessas degenerações maculares.

LOU: Então, o que você aconselha pras pessoas que chegam a essa idade?
OSWALDO: É importante ter um diagnóstico precoce. Porque a gente pode controlar essas degenerações, quando numa fase inicial. Às vezes com tratamento clínico, com laser focal, com uma série de tratamentos. Se elas se expandem e levam à destruição da mácula, é difícil o controle. Então, a perda de visão central é importante. E acho que é necessária a conscientização do diagnóstico precoce dessas doenças. O outro aspecto que estava falando é a catarata, uma doença que é relativamente freqüente na terceira idade. Então, acho que para essa, embora não seja especificamente a minha especialidade, não sou cirurgião de catarata, as técnicas de hoje são excelentes, a recuperação é quase imediata, a anestesia é local. No dia seguinte a pessoa tem praticamente vida normal.

LOU: E o glaucoma?
OSWALDO: O glaucoma é outra doença muito comum na população. Talvez mais de 3% da população em geral tem glaucoma e não sabe. O grande perigo do glaucoma é que é uma doença assintomática. Quando os sintomas do glaucoma aparecem, geralmente é numa fase tardia da doença, com seqüelas definitivas. E a única maneira que a gente realmente tem de fazer um diagnóstico do glaucoma precoce é medindo a pressão durante a consulta. Então, uma coisa importante é medir sempre a pressão ocular durante a consulta. E eu acho que todas as pessoas, especialmente depois dos 40 anos, deveriam fazer um exame oftalmológico a cada ano e meio, dois anos no máximo, que é a única maneira que a gente tem de prevenir, por exemplo, o glaucoma; prevenir um início de um processo degenerativo. São as doenças que afetam as pessoas que têm um pouquinho mais de idade.

LOU: Agora, quanto ao estresse, pode causar cegueira?
OSWALDO: Há várias possibilidades. Por exemplo: existe uma doença que se chama coroidopatia serosa central. A gente não sabe exatamente que mecanismos estão envolvidos, mas o estresse é um grande mecanismo para o desencadeamento dessa doença. É do tipo psicossomático, mais ligado ao estresse por problemas importantes. Então, o edema grande na mácula pode levar a uma perda importante de visão.

Mas essas doenças geralmente são reversíveis, tratáveis.
O estresse pode levar de um aumento da pressão arterial até uma evolução da arteriosclerose. O olho é um órgão que depende muito do sistema nervoso central. Ele é uma verdadeira extensão do cérebro. Tem uma circulação que é dependente da circulação geral. Então, se a gente é hipertenso, diabético, quando se tem arteriosclerose, o olho sofre, conseqüentemente.

O diabetes, por exemplo, é uma doença que afeta muito os olhos. Há um índice muito alto de cegueira pelo diabetes.
Quando diagnosticada numa fase precoce, existe tratamento extremamente eficiente pra impedir a evolução e curar a retinopatia diabética, que são essas doenças no olho, relacionadas ao diabetes, mas que também têm que ser tratadas cedo. Depois que o diabetes causa danos mais graves, ainda assim a gente tem hoje diversas formas de tratamento.

Contudo já implica, às vezes, em tratamento cirúrgico e numa série de situações mais difíceis. Não que a gente não resolva. Mas hoje a gente já consegue resolver a grande maioria dos casos, só que às vezes por um caminho mais longo, mais difícil.

LOU: Já se sabe a causa do descolamento de retina?
OSWALDO: O descolamento pode ter muitas causas.
As pessoas têm uma idéia que o descolamento de retina é uma coisa ligada a algum traumatismo. A minoria dos descolamentos tá ligada a um traumatismo. A maioria está relacionada a problemas degenerativos da retina, que são mais comuns nos míopes e em pacientes que são submetidos à cirurgia de catarata, quando têm alterações degenerativas.

Elas podem ser um fator desencadeante, doenças inflamatórias, diabetes e o trauma dentro do seu lugar. Se o traumatismo fosse tão importante pro descolamento, imagina então um jogador de futebol que dá cabeçada o tempo todo, o lutador de boxe que leva soco na cabeça o tempo todo. É claro que o trauma é importante, mas existem outros fatores desencadeantes. A não ser um trauma perfurante, um acidente que perfure o olho, uma coisa desse tipo, claro, que aí o mecanismo é diferente. Mas às vezes se tem uma idéia de que é preciso um trauma pra se ter um descolamento.

LOU: Agora, quanto à alimentação... Uma pessoa que tem uma alimentação com carência de vitaminas, pode ficar cega?
OSWALDO: Não é só a carência, mas a má alimentação. Hoje em dia acredita-se no uso de antioxidantes na prevenção do envelhecimento de todas as maneiras: o envelhecimento ocular, envelhecimento como um todo. O fumo, por exemplo. Sabe-se que fumar é muito ruim pra circulação em geral, para o cérebro, uma série de coisas assim. Tanto que hoje, a gente está se alimentando melhor, menos rica em determinado tipo de gorduras, frituras. Já há uma conscientização muito maior.

LOU: A preocupação com a boa alimentação, evitando engordar, é muito importante pra saúde. Mas as pessoas ficam buscando o corpo muito magro...
OSWALDO: Tudo na vida tem que ser balanceado. A alimentação deficiente também não é boa. Não é bom ser gordo, obeso. Tudo isso implica numa sobrecarga no coração, pro pâncreas, pro fígado. O bom está no equilíbrio, no meio termo, numa coisa saudável.

LOU: Agora vamos sair um pouquinho da doença. Conta um pouco da sua infância. Você foi um garoto travesso, moleque?
OSWALDO: Não, até que não. Acho que eu era mais tranqüilo, mais comportado.

LOU: Não tocava campainha na casa do vizinho?
OSWALDO: Não, não era levado.

LOU: E no namoro?
OSWALDO: Também não fui muito namorador.

LOU: Você casou cedo?
OSWALDO: Tive algumas namoradas. Mas namorada firme mesmo foi a minha esposa, Maria Cristina, com quem estou casado desde 1974. Estamos juntos há 31 anos.

LOU: Que maravilha! Eu queria que você mandasse um recado pros "velhosamigos".
OSWALDO: Eu acho que ao falarmos sob o ponto de vista oftalmológico, temos que levar em conta que hoje estamos vivendo momentos muito diferentes daqueles que a gente viveu há muitos anos.

Hoje, a oftalmologia consegue resolver a grande maioria dos problemas, em especial os da terceira idade. Mas é importante também que a gente tenha uma reciprocidade. É importante que as pessoas façam uma medida preventiva. Que elas façam exames periódicos, que a gente possa diagnosticar os problemas precocemente, quando é muito mais fácil o tratamento.

As pessoas também devem tentar ter uma vida mais saudável, sob esse aspecto todo de alimentação, fumo, bebida e uma série de coisas que podem levar a problemas. Então, se trabalharmos juntos, com as pessoas procurando se proteger, fazendo exames periódicos e utilizando os recursos que a gente tem hoje, eu acho que podemos ter uma vida extremamente melhor do que se tinha há 30, 40, 50 anos.

LOU: Quer dizer, não precisa mais ter medo de passar dos 60.
OSWALDO: Hoje eu acho que aos 60 (eu tô chegando lá), somos ainda uma criança.

LOU: Além de amar o que faz, Dr. Oswaldo conquista nossa confiança num piscar de olhos. Muito obrigada, Doutor!

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COMENTÁRIO SOBRE A ENTREVISTA

Ao pesquisar na internet sobre a vida do famoso médico cearense, Dr. Moura Brasil, acabei localizando a sua matéria feita com o Dr. Osvaldo Moura Brasil Filho, oftalmologista no RJ e bisneto do Dr. Moura Brasil. Você falou que quase nada existe na internet sobre a famosa família Moura Brasil e o Dr. Osvaldo Moura Brasil Filho somente citou o nome do seu bisavô, mas não falou muito sobre ele.

Gostaria apenas de contribuir com o seu site e passar mais algumas informações sobre o famoso Dr. Moura Brasil. Se você entrar no site do município cearense chamado Iracema, vai encontrar algumas informações sobre o Dr. José Cardoso de Moura Brasil. Portanto, o famoso médico Dr. Moura Brasil nasceu no Ceará, na cidade de Iracema.

Além de médico oftalmologista, ele foi químico, farmacêutico e pesquisador. Pelo seu reconhecido trabalho em prol da oftalmologia, em sua homenagem até hoje é comercializado no país inteiro um colírio com o seu nome, o famoso Colírio Moura Brasil. Para nós cearenses ele faz parte da galeria dos grandes nomes da ciência e pesquisa do Brasil, considerado uma das maiores expressões médicas do país, "o príncipe da cirurgia oftálmica da América Latina".
Um forte abraço
Rogério Cavalcante

 

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