Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

PAULO AUTRAN
publicado em: 10/11/2016 por: Lou Micaldas

Paulo Autran nasceu no dia 7 de setembro de 1922, na Rua Caixa D'água, no bairro de São Cristóvão, no dia em que a Independência do Brasil fazia um século:

"Escapei por um triz de ser batizado com o nome de Pedro Centenário... Se não fossem minhas tias e minha mãe hoje eu seria Pedro Centenário..."

Recordações da Infância

Paulo Autran tem muitas recordações de sua infância passada em Sorocaba, interior de São Paulo.

...Sou carioca, mas meu pai fez carreira na Polícia, no Estado de São Paulo, era Delegado, só fomos para a capital quando fiz seis anos.

...Minha mãe tinha um espírito avançado para a época. Além de tocar piano, bordar, costurar, como todas as senhoras casadas daquele tempo, estudava inglês sozinha.

...O primeiro som que me vem na memória era o piano de mamãe tocando Chopin... aos domingos havia show lá em casa , minhas irmãs, meus primos, meus tios... cantavam, tocavam, dançavam e diziam poesias.

...Lembro-me da música que se chamava Coronéis e foi um grande sucesso meu dentro da família, com alguns vizinhos como testemunha.

Triste Lembrança

...Minha mãe morreu de parto em 1929, com 35 anos de idade. Eu tinha seis anos e meio. No momento foi um acontecimento insólito para mim. Minha mãe num caixão, cheio de flores...

...A casa cheia de gente estranha. Minha família chorando... ...A falta dela veio depois. A saudade, a tristeza vieram depois.

Durante muitos anos eu sonhava com ela, viva, me dizendo que era mentira, que ela não morreu, que tudo tinha sido uma brincadeira e o sonho era lindo. Acordava em prantos.

Muitas Lembranças Felizes

...Quando eu tinha uns quatro, cinco ou seis anos, minha mãe tocava piano e eu dançava atrás dela, eu ficava bailando, criando passos, achando que ela não percebia, até que um dia, ela estava interpretando a Marcha Turca, de Mozart, e eu estava apenas ouvindo, achando a melodia exótica, diferente, linda, e ela sem se virar para mim, perguntou: "E hoje o senhor não vai dançar?"

E Paulo Autran recorda das travessuras, de quando já morava na Capital de São Paulo:

"Ao lado da minha casa morava uma senhora muito gorda que tinha uma gata angorá toda branca chamada Katucha, que vivia presa numa corrente que era atada a uma ameixeira.

Eu e meu amiguinho Guido, achávamos aquilo um absurdo, e um dia resolvemos roubar a Katucha e a levamos de presente para um vizinho que morava na mesma rua e que adorava animais.

E ficamos aguardando os acontecimentos. Acontece que não houve acontecimento nenhum, pois a dona da gata nem se incomodou.

Guido e eu ficamos tão desapontados que resolvemos escrever um cartão para a dona da gata: "Quem roubou sua katucha foi o Paulo Autran e o Guido Cavalcanti". Assinamos: " Seu Moreira", que era um velho muito chato que morava na casa em frente a minha, e para dar um tom de mistério, resolvemos queimar uma ponta do cartão e o colocamos de baixo da porta da dona da Katucha.

Aí sim, aconteceu alguma coisa... Fiquei de castigo uma semana... Mas a raiva da tal senhora compensou o sofrimento.

Em criança eu fui muito sonso, sabe?... Aos poucos, o hábito das brincadeiras artísticas recomeçou. Minha irmã mais velha, Eny, escrevia pequenas peças - esquetes - que ensaiávamos e representávamos para a família.

Meu primeiro papel foi o de diabo, mudo, mas com muita mímica. Era um coadjuvante e para mim foi um acontecimento, uma sensação inesquecível....

...Aos dez anos, eu fiz um teatrinho nos fundos da casa, e com o nosso vizinho e sua mãe, que representava também, fizemos alguns espetáculos.

Eram shows...uma pecinha que tinha sido publicada numa revista muito popular na época, chamada Tico Tico. E a peça era o Tio da Roça, de Eustórgio Wanderley, mas como não tinha ninguém para fazer o personagem do tio, nós transformamos a peça em Tia da Roça, e quem fazia o personagem título era a Dona Adelaide Cavalcanti, mãe do Guido, que era o meu melhor amigo".

Ele sempre foi um espectador apaixonado por teatro, teatro de revista, concertos, recitais de poesia etc.

...Eu via todos os espetáculos que eram levados em São Paulo, meu pai como Delegado, conseguia na Secretaria de segurança, lugares em todos os teatros da cidade...

...Devia ter uns treze anos. O teatro para mim era um mundo tão extraordinário, tão superior, tão mítico, que eu nunca poderia aspirar pertencer a ele.

...Os atores para mim, eram seres acima do bem e do mal, inacessíveis, vivendo um mundo diferente com o qual eu não podia ter qualquer contato.

Aos 16 anos Paulo Autran fundou em São Paulo um grupo, o Clube Popeye, que era uma reunião com os amigos e amigas da irmãs, onde todos os anos eram feitos shows:

...Num deles representei com minha irmã Eny, um esquete, e cantávamos em dueto uma música cômica, que tenho a impressão era Cozinheira grã-fina (Sá Roriz) que tinha sido gravada por Carmem Miranda e Mário Reis.

...Embora nunca tenha me passado pela cabeça ser um ator, sempre fazia coisas que de um certo modo estavam relacionadas com o teatro... sempre gostei de me exibir.

Sobre os Estudos

...Fiz o primário do Externato Elvira Brandão, o Ginásio no Colégio Arquidiocesano e Direito no Largo de São Francisco. Quando entrei para o primeiro ano da faculdade, prestei concurso para o IAPI- Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários. Trabalhei lá três anos...

...No terceiro ano da faculdade saí do IAPI e fui trabalhar num escritório de advocacia. Quando me formei, abri meu próprio escritório.

...Para mim, a advocacia foi um erro lamentável. Acho uma profissão muito monótona, chata, e eu não seria um bom advogado. Vivia razoavelmente bem, mas tinha certeza de que não era esse o meu caminho.

...Fiquei muito feliz e aliviado quando abandonei definitivamente a advocacia pelo teatro, porque não me via no futuro advogando".

O Trampolim

...No Rio apareceu um grupo amador muito importante:
Os comediantes, que coincidiu com o aparecimento de uma porção de grupos amadores em São Paulo.

Um amigo meu que participava de um deles me convidou a assistir umas aulas...

...A professora Maria de Lourdes Prestes Maia, portuguesa, me pediu para fazer uma leitura de uma cena. Quando acabei ela se virou para mim e disse com convicção: "Paulo, não foi ruim não, mas acho que tu não tens futuro no teatro, o máximo que conseguirás fazer será galanzuras, jovens enamorados".

...Saí dali desapontado, e com os remanescentes do grupo resolvi tomar parte da peça Esquina Perigosa, de Priestley dirigido por Madalena Nicol.

...Minha estréia como amador, em 1947, foi de cara no Teatro Municipal de São Paulo... E eu estreei sem nenhum temor ou responsabilidade... me senti o rei da cocada preta.

Ainda como amador, fez uma temporada de quase três meses no Teatro do Copacabana Palace Hotel: eram três peças, duas de Abílio Pereira de Almeida, A Mulher do Próximo e Pif Paf, e uma de Tenessee Williams, À Margem da vida. Foi um sucesso.

Ator Profissional Enfim!

..."Tônia Carrero voltou entusiamada da Europa, pois lá tinha estudado com Jean Louis Barrault e estava querendo fazer teatro profissional aqui no Rio, lutou muito e chegou à conclusão de que para ser atriz teria que montar sua própria companhia, e chamou o Silveira Sampaio para dirigir e o Paulo Autran para o papel masculino principal.

A peça foi de Guilherme Figueiredo: Um Deus Dormiu lá em Casa. Os protagonistas éramos Tônia e eu. Hesitei um mês antes de aceitar o convite. Ainda não tinha percebido que nascera para fazer teatro. Tônia Carreiro e eu ganhamos o Prêmio da Associação de Críticos do Rio de Janeiro, como Revelações do Ano...

...Nossa estréia foi em 13/12/49... Eu era um ator de teatro. Eu estava trabalhando em teatro! Eu tinha entrado sem saber como, para aquele mundo maravilhoso, místico, mítico, que eu admirava na minha adolescência... Eu pertencia àquele mundo e não estava ali de passagem...

A companhia durou um ano e meio e os dois foram convidados e contratados para entrar no Teatro Brasileiro de Comédia TBC, onde ficaram cinco anos, e onde Paulo Autran fez dezoito peças.

Momentos Marcantes

Paulo Autran contracenou com Cacilda Becker, a primeira atriz do TBC, mulher do Adolfo Celi, nas duas versões de Antigone, a grega do Sófocles e a moderna de Anouilh.

...Ensaiamos umas quatrocentas horas e valeu a pena.
O Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Folha da Noite, glorificaram nosso espetáculo, criando o Prêmio Saci e o Celi recebeu o prêmio como melhor diretor, eu como melhor ator e Cacilda, como melhor atriz.

...Uma Mulher do Outro Mundo, de Noel Coward foi um dos grandes sucessos do TBC e provou que Tônia Carreiro era uma grande comediante.

...Em 1951, Seis Personagens à Procura de um Autor obteve um sucesso enorme.

...Já fiz essa peça em umas seis ocasiões diferentes; em 1960 com a Companhia Tonia-Celi-Autran (CTCA) fizemos uma temporada em Buenos Aires e ganhamos o Prêmio de Melhor Companhia Estrangeira, e eu o Prêmio de Melhor Ator, e foi muito gratificante, porque neste mesmo ano esteve também em Buenos Aires, o Picolo Teatro de Gênova e a Cia. Francesa de Teatro Popular entre outras companhias internacionais e a CTCA abocanhou todos os prêmios.

Paulo Autran saiu do TBC para montar junto com Tônia Carrero e Adolfo Celi a Companhia Tonia-Celi-Autran e a peça de estréia da companhia foi Otelo, de Shakespeare.

...Uma semana antes da estréia começamos os ensaios gerais no Teatro Dulcina. Entrávamos às 7 da manhã e saíamos às 7 horas da noite...

...A estafa tomou conta de mim... Não tínhamos mais um centavo. Benedito Corsi nos emprestou, aos três, quinze cruzeiros para podermos comer alguma coisa.

...Chega a estréia. Fui à farmácia, tomei um soro glicosado na veia para reanimar. A primeira parte, em que Otelo é mais controlado, consegui fazer quase como nos ensaios.

Depois do intervalo comecei a lutar contra a exaustão... O desespero tomou conta de mim. A sensação de catástrofe. Tudo perdido! Três meses de trabalho! Seis meses de sonhos! ...Silêncio absoluto na platéia. Fecha-se o pano. Pausa... De repente, começa uma ovação! O pano se abriu mais uma vez, mais uma, mais uma, muitas vezes... Foi lindo! Todos rindo, chorando, abraços apertados!

Sucesso Popular: My Fair Lady

...Realmente. Foi um sucesso estrondoso no Teatro Carlos Gomes, e foi também o meu primeiro sucesso popular, meu primeiro grande sucesso.

Até 1962, quando eu passava na rua, ou ia a um restaurante, as pessoas me apontavam e diziam: "Olha lá aquele rapaz que trabalha com a Tônia Carreiro"

Uma Peça Contra o Golpe Militar

...Liberdade, Liberdade me deu uma noção exata da importância dos nossos atos... Foi importante para mim fazer os textos de Flávio Rangel e Millôr Fernandes e foi importante para o Brasil e para o teatro também...

...Fui o primeiro ator a levar uma peça contra o regime militar de 1964... Antes, mesmo sem ter conscientização política , sempre achei que o teatro tinha uma função política, social e cultural.

Sucesso na TV

...Eu estava hospedado no Hotel Glória... a mocinha da limpeza se virou para mim de disse: "Sr. Paulo, todo mundo aqui do hotel me fala que o senhor é um ator maravilhoso, e que só se apresenta no teatro. Eu sou pobre, moro longe, se o senhor fizesse novelas, eu e minha família poderíamos assisti-lo na televisão lá de casa, sem precisar gastar dinheiro nenhum.

Pensei: Quantas pessoas poderiam me ver na televisão por não terem meios de pagar ingressos no teatro? E quantas me veriam na televisão e depois iriam conferir no teatro?

E foi assim que Paulo Autran fez três novelas de sucesso na TV Globo, Pai Herói, de Janete Clair, Guerra dos Sexos, e Sassaricando , ambas de Silvio de Abreu.

...E deu certo! O Baldaracci do Pai herói realmente me deu uma popularidade que em trinta anos de teatro não tive...

...Eu e Tonia tivemos um programa de extraordinário sucesso aqui no Rio que era José e Mariazinha, que foi a raiz de um outro programa que durou muitos anos, Alô doçura!, protagonizado pela Eva Wilma e John Hebert.

Depois de um certo tempo é que me recusei a fazer... e inclusive participei da primeira novela gravada em televisão que foi na Tupi, Gabriela, Cravo e Canela, do Jorge Amado... Deu IBOPE mas não foi o que a TV Tupi esperava...

O Teatro Não Vai Morrer

...O Teatro não pode e não vai morrer nunca... Há sempre gente nova "descobrindo" o teatro, se apaixonando pelo teatro. As idéias vêm, as idéias vão, se transformam, são endeusadas, são combatidas, e o teatro evolui... Não há certo ou errado em teatro. Só é preciso amor".

O Momento Presente é o Melhor

...Eu me lembro que quando fiz cinqüenta anos, concedi uma entrevista publicada pelo Jornal da Tarde, onde declarava que eu nunca tinha sido tão feliz e amado como na época.

E cada ano que passou até hoje, sinto exatamente o mesmo, estou achando envelhecer cada vez melhor, estar com 78 anos está sendo ótimo, e estou encarando a vida com mais alegria, entusiasmo, sem part-pris, consegui destruir dentro de mim os preconceitos e os tabus, por isso mesmo a vida fica mais fácil e agradável à medida que o tempo passa .

Realmente não tenho do que me queixar. Tem outra coisa, eu não sou nada saudosista, tenho, é lógico, saudades de vários períodos de minha vida, relembro com grande alegria as coisas gostosas que me aconteceram, no entanto acho que o momento presente é o melhor que a gente está vivendo, e o que interessa mesmo é o hoje...

...Adoro viver. Sei que vou morrer um dia... não sei quando, onde e como vou morrer, e essa dúvida esplendorosa me traz muito consolo e alegria.

Trechos selecionados da
Entrevista concedida a Simon Khoury
no livro Volume 5 da Série "Os Bastidores"
(Letras e expressões)

Paulo Autran está em cartaz em São Paulo, na peça Visitando o Sr. Green, no Teatro Augusta de Quinta a Domingo.

O texto é de Jeff Barons em que um velho judeu solitário, Paulo Autran, começa a receber a visita de um jovem executivo ambicioso, Cássio Scapim.

Os personagens se estranham nos primeiros encontros, para mais tarde trocarem confidências como bons amigos. A direção é de Elias Andreato.

Cheio de entusiasmo e amor ao teatro ele ainda dirige "Encontro-Espetáculo" com Ariclê Perez no teatro do SESC.
A atriz Ariclê Perez presta homenagem às mulheres a partir de personagens de Shakespeare.

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA