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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

PAULO BARCELOS
publicado em: 10/11/2016 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 08/07/2002

LOU - Qual é seu nome todo?

PAULO - O meu nome de batismo é O'Rely Pedrosa. Quando entrei pro rádio, em setembro de 1946, adotei o pseudônimo de Paulo Barcelos.

LOU - Em que dia, mês e ano você nasceu?

PAULO - Em 13 de dezembro de 1925, na Cidade de Carangola, Minas Gerais.

LOU - Foi lá que você se criou?

PAULO - Não. Eu saí de lá, ainda no colo, e fui pro Município de Campos, pra um vilarejo chamado Santo Eduardo, 13º Distrito de Campos, na divisa com Espírito Santo. Lá, eu me criei e foi onde também iniciei minha carreira, na Rádio Cultura de Campos.

LOU - Com quantos anos você começou a cantar?

PAULO - Comecei aos 20 anos, em setembro de 1946.

LOU - E até os 20 anos, você fazia o quê?

PAULO - Eu trabalhei como eletricista, muitos anos, em usinas de açúcar.

LOU - Conta como foi sua infância.

PAULO - A minha infância foi maravilhosa. Vivendo no interior a gente tem liberdade pra tudo, brincar, correr, subir em árvore, pegar carona no trem que passava... Lá não existia isso. Jogando futebol, bola de gude, brincando de pique, namorando... é só isso. Foi uma infância muito boa, sem essa violência que existe hoje.

LOU - E onde você estudava?

PAULO - Lá mesmo, no Grupo Escolar Estephânia Pereira Pinto, lá no vilarejo, até os 16 anos.

LOU - Você já queria ser cantor?

PAULO - Eu queria ser advogado, mas meu pai não queria. Ele queria que eu fosse cantor de rádio. Então, com a insistência dele em não me deixar estudar, eu acabei conseguindo um emprego na cidade e fui morar sozinho. Sozinho não, com uns parentes que moravam lá.

LOU - E por que seu pai queria que você fosse cantor de rádio?

PAULO - Porque ele achava que eu cantava bem desde garoto. E ele gostava de cantar e tocava violão também. Ele viu em mim o ideal dele. Que seria cantor de rádio e ele vivia falando isso pra mim. Mas eu detestava a idéia, detestava essa possibilidade.

LOU - E ele nunca cantou em público?

PAULO - Não. Só cantava em casa e tocava a vida.

LOU - E ele via essa possibilidade de se realizar através de você?

PAULO - Era isso e... ( choro emocionado ) Aconteceu que eu fui embora da cidade...

LOU - Você fica muito abalado...

PAULO - Porque o meu pai não teve a oportunidade de me ver cantar. Só ouviu através do rádio uma vez e não mais. Em seguida, ele morreu. Eu comecei a cantar em setembro de 1946 e ele estava internado, aqui no Rio de Janeiro, no Hospital Graffé Guinle. Ele teve câncer de laringe porque fumava demais. Então, ele ouviu essa vez e pronto nunca mais ouviu.

LOU - E você se lembra a música que você cantou?

PAULO - Não lembro não. Eu nem sabia que ele estava me ouvindo. Porque eu estava fazendo um programa na Rádio Cultura . Conseguiram sintonizar a emissora de Campos, que ele falava muito, e levaram o rádio até ele. Aí, ele me escreveu dizendo que tinha me ouvido cantar e estava feliz. Foi só aquela vez (mais emoção).

LOU - Ele realizou o sonho de te ouvir cantar no Rádio!

PAULO - Sim, mas não plenamente. Isso me deixou triste. E eu segui carreira ( chorando ) tinha uma dívida com ele.

LOU - E os seus estudos?

PAULO - Parei. Não pude mais estudar. Ou estudava e morria de fome ou trabalhava e não estudava, porque não dava para fazer as duas coisas. Eu trabalhava o dia inteiro. Ia estudar a que horas? E depois, o sucesso chegou muito fácil pra mim. Eu comecei em setembro, contratado pela rádio porque venci um concurso entre todos os vencedores de concursos passados. Fui convocado para participar desse programa.

LOU - Qual programa?

PAULO - Era o "Melhor Entre os Melhores", na Rádio Cultura de Campos. Quando cheguei, não tive tempo nem de ir em casa trocar de roupa. Estava com o terno de trabalho, me dirigi ao diretor do programa e disse:
- Seu Bueno eu não pude trocar de roupa, não deu tempo, eu saí do trabalho agora...
- Tem importância não, canta assim mesmo.
- Mas eu não ensaiei.
- Canta a mesma música que você cantou da outra vez. Conversa com o pianista.
Eu fui lá, conversei com o pianista e cantei a mesma música. Antes de terminar o programa, já tinha um telefonema pra mim. Fui atender, era o superintendente da Rádio, Dr. Mário Ferraz Sampaio, me avisando que eu deveria comparecer, no dia seguinte, às 9 horas, ao escritório da Rádio, para assinar o contrato que, a partir daquele dia, eu era cantor contratado da Rádio Cultura de Campos.

LOU - Você foi assinar o contrato?

PAULO - Assinamos nada, foi verbal. Ele falou:
- Você agora é funcionário da Rádio. Você agora vai fazer repertório. Aqui está um crédito para você comprar músicas, escolher o que quer cantar.
E botou um pianista à minha disposição. E, três vezes por semana, eu ia ensaiar, fazendo meu repertório.

LOU - E o concurso?

PAULO - Houve o concurso. E fui o vencedor! Antes de terminar o concurso, eu já era o ganhador.E ninguém me conhecia na Rádio, porque, inclusive, eu troquei de nome para que ninguém soubesse que era eu, me escondi atrás de um pseudônimo.

LOU - E depois você não revelou seu verdadeiro nome?

PAULO - Só me apresentei com meu nome, quando eu estreei oficialmente na Rádio, no dia da inauguração dos novos transmissores e dos novos estúdios, que a Rádio havia construído. Aí, eu fui o único cantor campista a participar dos festejos com artistas do Rio e de São Paulo. Isso também eu achei uma coisa estranha. Eu não entendia nada daquilo, não sabia o que estava acontecendo. Era ingênuo.

LOU - Você tinha quantos anos naquela época?

PAULO - Vinte anos, mas era caipira. Um caipira com vinte é o mesmo que uma garota de 12 anos, hoje, na cidade.

LOU - Hoje, uma garota de doze anos tá muito sabida...

PAULO - Sabe mesmo, muito mais. E naquela época eu era um caipira. Vinha lá do interior, lá da divisa com Espírito Santo e não tinha contato com músicos, nada disso. Eu cantava lá na capela, onde eu vivia, e tinha um cara que tocava acordeon. Quando ele ia tocar nos bailes, eu cantava com ele, mas não sabia nada do que estava fazendo. Cantava por instinto, não que eu fosse cantor ou soubesse cantar. Era só por prazer.

LOU - E depois, você saiu de Campos? Foi pra onde?

PAULO - Bom, em Campos eu estreei, no dia 4 de fevereiro de 47, com a nova emissora. Eu havia feito esses programas de estúdio para que o diretor fizesse uma avaliação do meu progresso, nos ensaios e tal. Depois de ter sido escalado para estrear junto com os artistas daqui do Rio e de São Paulo, no dia seguinte, houve um concurso de músicas de carnaval, de compositores campistas. Eu fui agraciado com doze músicas pra defender. Esse festival era na própria Rádio, três vezes por semana, no programa de carnaval. Doze dias depois, terminou o concurso e eu ganhei 1º, 2º e 3º lugares.

LOU - Sorte dos compositores que te entregaram as músicas.

PAULO - É. Ganhei os três primeiros lugares, o melhor cantor, revelação..., tudo foi pra mim. Aí houve uma grita geral, que o voto era comprado. Quando a pessoa comprava o ingresso para entrar no auditório, recebia um voto pra votar numa música que ele escolhesse. E a música que eu defendi, era uma marcha rancho de nome Colibri. Era de uma moça muito bonita, trabalhava no teatro amador e se chamava Sônia Maria Soares . A música também era muito bonita, mas disseram que ela foi protegida, porque tinha um admirador dela que era craque em Campos e que ele havia trabalhado para que a música dela fosse vencedora. E houve aquela grita toda... Diziam que deveria ter comissão julgadora.

Aí, no ano seguinte, teve a comissão julgadora e eu novamente participei. O regulamento era o seguinte: 1º, 2º e 3º lugares ganhavam o prêmio em dinheiro e mais 12 músicas seriam agraciadas com a medalha de Honra ao Mérito. Seriam 15 músicas classificadas e três receberiam o prêmio em dinheiro e 12 com medalhas. A comissão julgadora era composta de um jornalista, um músico e um maestro.

E eu consegui o 1º, 2º e 3º lugares e mais 7 músicas entre as outras. Das doze que me entregaram, eu classifiquei dez. Aí acabou o concurso, ninguém quis mais participar. "Porque só ele quem ganha...é protegido..." diziam. Larguei a cidade de Campos e vim pro Rio, vim tentar a sorte aqui.

LOU - Você já conhecia o Rio...

PAULO - Eu já tinha estado aqui, em maio de 47; meu pai faleceu e eu vim pro enterro dele. Faleceu no Graffé e foi enterrado no São João Batista. Eu tava cantando, quando recebi a notícia, terminei o programa e fui atender o telefone. Era um amigo do meu pai avisando que ele havia falecido e que eu deveria vir pro Rio. Naquela época, levava uma noite inteira viajando pelo trem noturno. Houve um descarrilamento, um atraso de três horas. Quando eu cheguei, ele já havia sido enterrado. E eu vim com o dinheiro que eu tinha no bolso, eu comprei a passagem ida e volta, e o que sobrou eu botei no bolso, peguei o trem e vim, não pensei em nada. Aí, quando já estava aqui, me vi quase sem dinheiro. Sem dinheiro, o que eu poderia fazer?

A única coisa que eu podia fazer era cantar. Havia na Rádio Club do Brasil um programa chamado "Pescando Estrelas" do Arnaldo Amaral. Fui lá e me inscrevi. Ele perguntou:
- Trouxe a parte de piano?
- Precisa?
- Precisa! Tem que comprar.

Eu tinha dez cruzeiros no bolso. Desci fui na Avenida Rio Branco, mesmo, na Casa Arthur Napoleão, que existia naquela época, e comprei a parte de piano de um bolero chamado "Nosotros" e entreguei ao José Maria de Abreu, que era o pianista da Rádio, o famoso José Maria de Abreu, autor de inúmeros sucessos. Mas eu não tinha consciência nenhuma, daquilo! Eu estava sendo acompanhado por um dos maiores compositores do Brasil, um homem famoso, mas eu não dei a menor importância! Pra mim não era ninguém, não conhecia, não tinha noção... Eu era como o Garrincha, totalmente inocente... Aí veio o programa...

LOU - Isso, de certa forma, te facilitou, porque você não se sentiu intimidado pela importância dele...

PAULO - Não fiquei nervoso. Eu achava aquilo natural, uma coisa simples. Aí me anunciaram. Fui lá cantei, voltei e sentei para esperar o resultado. No final, ganhei um prêmio que estava acumulado em trezentos cruzeiros. Era muito dinheiro, naquela época, pra mim. Eu estava sem dinheiro nenhum, porque os dez cruzeiros que tinha, eu comprei a parte de piano, que custou sete cruzeiros e com os três cruzeiros eu comprei um copo de leite e um pão, para me alimentar, porque não tinha jantado, foi minha janta.

LOU - O que você faria se perdesse o prêmio?

PAULO - Eu teria que sair dali direto pra estação e voltar pra Campos, sem comer. Só ia comer quando chegasse em casa. Com o prêmio, pude ficar mais uns dias aqui. Andei cantando em programa de calouros, ganhei alguns e tal e voltei pra Campos. Chegando lá, eles já tinham ouvido o programa. Sabiam que eu fui vencedor aqui no Rio; fui um sucesso. Falaram uma porção de coisas que eu nem sabia que tinha feito (risos). Bom, então fiquei lá mais um tempo e, em 48, resolvi vir embora pro Rio. Achei, na minha ignorância, que Campos era muito pequeno.

LOU - E como foi aqui?

PAULO - Cheguei aqui...hum...passei maus momentos. Tinha dinheiro só pra almoçar, não tinha pra jantar, se eu almoçasse...

LOU - O início da carreira de artista é quase sempre assim.

PAULO - A vida de artista é sem segurança nenhuma. Lá em Campos, eu tinha segurança. Lá eu ganhava muito bem. Eu ganhava melhor que os artistas do Rio. Os artistas da Rádio Nacional eram famosos, mas somente dois ganhavam bem: era o Francisco Alves e o Orlando Silva, os outros ganhavam salário mínimo. Os outros viviam dos shows que faziam, porque sendo famosos, da Rádio Nacional, onde quer que chegassem, eles tinham público enorme.

LOU - Até hoje é assim...

PAULO -É, só que agora, tem TV Globo. Uns recebem muito e os outros ganham pouco, outros não recebem nada. São do apoio, né? Sem estes não aconteceria nada, mas ninguém reconhece isso. E foi a mesma coisa comigo. Eu vim aqui e tal, trouxe uma carta, mas decidi não entregar a carta. Era pra Rádio Tupi. Fui à Rádio Guanabara, que era na Rua Primeiro de Março, e fiz uns programas lá. Tinha o maestro Altino Pimenta, era um paraense; gostou muito de mim e disse que a Rádio ia inaugurar novos estúdios, na Avenida Treze de Maio, ao lado do Municipal.

- "Você vai conosco pra lá". Decidiu. Mas ele fez uma colocação que eu não gostei: - "Você, lá, só vai cantar boleros e tangos".
Eu perguntei:
- Por quê, maestro?
Ele disse:
- Nós estávamos procurando um cantor para cantar esse gênero e encontramos você.
- Mas eu quero cantar é tudo, não quero cantar só isso não.
- Não! Mas lá a nossa programação é como a Rádio Nacional, o mesmo estilo...
Veja o erro. Queria copiar o outro. Claro que o público ia preferir a Rádio Nacional.

LOU - O que aconteceu?

PAULO - Ele teimou e eu nunca mais fui lá. Acabou a Rádio Guanabara. Fui, então, à Rádio Mayrink Veiga, para cantar num programa de calouros que era comandado pelo Jayme Moreira Filho. Lá havia, novamente, o prêmio acumulado em trezentos cruzeiros. Falei: bom minha sina é essa...
- O que você vai cantar?
- "A Voz do Violão". Aí olharam pra mim, assim, e disseram:
- Qual é o tom? Aí eu dei o tom eles acharam um absurdo, porque só o Chico Alves cantava aquela música no tom que eu ia cantar. Aí dei sorte. Porque eu conhecia o primeiro violonista de sete cordas que se tem notícia no Brasil...

LOU - E quem era?

PAULO - Era o Tutti. O Tutti fazia parte do regional, fez a introdução e se aproximou de mim. Comecei a cantar, ele ficou perto de mim olhando... quando acabei de ensaiar, ele disse:
- Me espera aí, não sai não, me espera.

Acabou o ensaio, nós fomos para um estúdio maior e ele disse: - Olha, eu gostei muito da sua voz, me faz lembrar o Chico, eu gravei essa música com Chico. A primeira gravação foi feita comigo e, nesse tom aí, só o Chico é que conseguia cantar. Agora, ele não canta mais nesse tom, não. Ele já baixou, ele só canta em fá. Você tá cantando em sol rapaz! Que vozeirão que você tem! - Me elogiou - Mas tem uns probleminhas aí, que você precisa acertar.

Eu não cantava certo, não sabia. Então, ele me ensinou. Ensaiou comigo. - "Olha, fica despreocupado, que eu vou ficar do seu lado. Qualquer coisa você olha pra mim."

Chegou a hora e me chamaram:
- Agora, Paulo Barcelos, o que você vai cantar?
- De Francisco Alves e Horácio Campos, "A Voz do Violão".
- Isso é que eu quero aqui. Que o canditado, quando chegue, diga o nome do autor e da música.

Aquilo me deixou nervoso e o Tutti percebeu. Encostou o braço do violão nas minhas costas, eu olhei; e ele: - Calma!

Aí fizeram a introdução e eu cantei. Quando acabei, fui sentar, para esperar a relação dos participantes vencedores e nada do meu nome. Eu pensei: - Nem meu nome botaram aí...
De repente ouvi:
- Agora o vencedor da noite: - Paulo Barcelos! Ah, que coisa maravilhosa! Eu já tava num perigo danado, sem dinheiro, sem nada.

Quando estava no auditório, ainda recebendo o prêmio, e tinha vários outros prêmios que mandaram... O comércio tinha oferecido bolo, uma série de coisas, roupas, etc. Eu falei:
- Eu não quero nada disso, esses presentes são pro regional. Mas, o Luiz Americano, que fazia parte do regional, ainda me pediu vinte cruzeiros. "Arranja vinte cruzeiros pra gasolina que eu te ajudei muito."

O Tutti que havia me ajudado realmente nada pediu. E ainda veio me dar um abraço, me elogiar. Aí, você vê a personalidade das pessoas, o caráter, outro que não havia feito nada, veio pedir dinheiro, só porque eu havia ganho um prêmio que estava acumulado, ele achou que tinha direito de cobrar, porque fazia parte do regional...

LOU - O que é regional?

PAULO - É o grupo que acompanha. Chama-se regional aquele grupo que é formado por violão, flauta, cavaquinho, pandeiro, bandolim. E o regional da Mayrink Veiga naquela época, era uma orquestra. Eram quatro violões. E dos melhores.

A REALIZAÇÃO DO SONHO

LOU - Vencer este concurso lhe abriu as portas?

PAULO - Quando acabei de receber o prêmio, um rapaz se aproximou e perguntou quem era Paulo Barcelos, que era pra descer e ir ao escritório do Sr. Edmar Machado.

- Onde é?
- É no térreo.
Desci, caminhei, tava uma porta aberta, eu cheguei, fiquei em frente à porta olhando pra ele. Ele tava lendo o jornal. Fiquei ali em pé parado, ele tirou os olhos do jornal me viu e disse:
- Pois não, o senhor quer falar com quem?
- Com Dr. Edmar Machado.
- Sou eu. Quem é você?
Eu disse: - Eu sou o Paulo Barcelos.
- Você, é Paulo Barcelos? Ele ficou surpreso.
- Como você arranja essa voz toda?
Porque eu era muito magro, eu pesava 49 quilos, cinqüenta no máximo, todo vestido, hein! Era muito magro mesmo. Então, ele achou que eu era esquelético demais para ter aquele vozeirão todo. Aí brincou comigo, eu fiquei encabulado e tal e ele disse:
- Senta aqui. Você gostaria de cantar na Mayrink Veiga?
Eu falei: - Eu vim pro Rio com essa intenção de entrar pra Rádio Mayrink Veiga, que é a emissora que eu mais gosto.

E era na verdade a mais simpática das emissoras.
Ele falou: - Então, você já é da Mayrink Veiga, a partir de hoje. Você vai estrear no próximo domingo, na Penitenciária Lemos de Brito. Fiquei meio assim e perguntei:
- Na Penitenciária, doutor?
- É porque fazemos um programa todo ano para os detentos. A Mayrink Veiga leva todo o casting e durante o dia, é transmitido de lá, toda a programação da Mayrink Veiga.

Lá tinha um auditório grande, um palco muito bom. Então, fui ensaiar como cantor da Mayrink Veiga, na Penitenciária Lemos de Brito, na Frei Caneca.

LOU - Que beleza de estréia no Rio de Janeiro!

PAULO - Três meses depois, foi todo mundo pra rua. Só ficou um cantor, todos foram para o olho da rua. Porque a Mayrink Veiga não tinha dinheiro para pagar, tava numa situação muito difícil e só Orlando Silva, que era patrocinado pela "Exposição", ficou na Mayrink Veiga e nós fomos perambular pela rua para arrumar lugar. Aí, voltei à Rádio Guanabara, que me acolheu e fiquei cantando um bocado de tempo, até o final do ano.

LOU - Em que ano foi isso?

PAULO - 48. No final do ano, em dezembro de 48, eu falei:
- Eu vou a Campos, vou passar o fim de ano lá, vou ver como está a situação por lá. Quando cheguei, fizeram festa... A Rádio mandou me chamar, botaram no microfone, uma porção de coisa, me elogiaram e me pediram pra voltar. "Paulo, volta pra cá, nós tamos sentindo tua falta, os ouvintes escrevem, telefonam, perguntam quando você vai voltar pra aqui..."

Aí eu me fiz de difícil:
- Mas eu estou bem lá no Rio.
- Não, mas aqui a gente vai oferecer a você uma situação boa. Vamos discutir isso depois.

Quando saí, o Dr. Mário mandou me chamar:
- Paulo, fica aqui, aqui você tem sua casa. Aqui é sua casa, nós gostamos tanto de você e tal.
- E quanto eu vou ganhar, doutor Mário?
- Vamos fazer o seguinte: Nós vamos te dar um salário por fora e outro na carteira, você vai ter o seu salário, que era muito mais do que os outros ganhavam e muito mais do que você ganha no Rio. (era mil e duzentos cruzeiros, era um salário e tanto, naquela época).

LOU - Você aceitou?

PAULO - Aceitei. Eu tinha dois programas e, logo em seguida, apareceu um programa patrocinado pra mim. E o título do programa era "Onde as Majestades se Encontram".
- "Paulo Barcelos, o Rei do Carnaval Campista, o Rei dos Móveis Estofados, que patrocina o programa, e o Rei do Carnaval Campista."

LOU - Com tanto rei, o título só podia ser "Onde as Majestades Se Encontram".

PAULO - Claro. O programa era muito bem apresentado, o locutor era o Jesse Valadão, que depois veio pro Rio. Era um programa de estúdio, não tinha auditório. Fiquei lá. E tudo que eu fazia extra, eu ganhava um cachê especial e tinha sempre dois, toda semana, pra poder fazer jus ao salário que ele me pagava. Eu chegava a ganhar dois mil cruzeiros. Na época, era um belíssimo salário. Cantava no Automóvel Club Fluminense, que era um dos clubes da elite campista.

Em São João da Barra, eu era o cantor exclusivo do clube Democrata. Eu tinha um salário de mais ou menos uns 600, 800 cruzeiros, por mês, só desse clube. Porque eles faziam duas festas e me pagavam para eu não cantar nos outros. Eu vivia muito bem em Campos.

LOU - Você pode dizer que viveu da música, ou antes de ter esse sucesso todo, você teve que trabalhar em outra coisa?

PAULO - Não, sempre vivi da música. A partir do dia em que comecei como profissional, eu sempre vivi da música.

LOU - E antes disso?

PAULO - Antes disso eu era eletricista. Mas continuo a ser eletricista, como hobby, porque eu gosto de fazer este tipo de trabalho. Conserto sempre alguma coisa pros amigos. Ando sempre com uma chave de fenda pra consertar uma tomada, uma coisa.

LOU - Você trouxe chave de fenda aí?

PAULO - ( Risos) Hoje não! No carro deve ter. Fiquei lá mais algum tempo, em Campos. Aí, em 51, fui pra Vitória. No Quarto Centenário de Vitória, eu fui contratado pelo governo de Santos Neves. E fiquei, 40 dias, cantando lá. Fui pra cantar 10 dias, fiquei 40.

LOU - E como ficou o clube de Campos?

PAULO - Falei pra eles que ia viajar.

LOU - E eles aceitaram?

PAULO - Aceitaram.

LOU - E você continuou a receber pelo clube?

PAULO - Continuei. Depois de 40 dias, voltei.

Eu estava sempre excursionando. Em 52, um senhor, irmão do senador José Carlos Pereira Pinto, Jorge Pereira Pinto, que gostava muito de mim, falou: - Ô O'Rely, o que você está fazendo?
Eu disse: - Cantando.
- Ah! Você precisa ser funcionário público, arranjar uma coisa mais certa pro seu futuro e tal.
- Seu Jorge, eu quero que o senhor me empreste o cinema lá da Usina que eu quero fazer um show, pro pessoal de lá. Ele desconversou e eu repeti:
- Eu quero é o cinema para fazer o show.
Ele disse:
- O cinema é seu, na hora que você quiser, quantos dias você quiser.
Era isso que eu queria. Aí organizei tudo e fui pra Usina fazer um show, fiquei lá quatro dias e fiz três shows.

LOU - Que usina era essa?

PAULO - Usina Santa Maria, perto de Bom Jesus de Itabapoana. Depois dos shows, fui a Campos e, dias depois, quando voltei pra Vitória, me chamaram pra assinar o livro de posse, porque eu tinha sido nomeado funcionário público. Aí perguntei:
- Mas é pra trabalhar aonde?
- No Hospital dos Tuberculosos, Hospital Ferreira Machado. Fui lá e me apresentei.
O diretor era um médico cirurgião, muito famoso, chamado Dr. Beda. Ele já me conhecia do rádio, e falou:
- O Jorge já me ligou, recomendou muito.
- O que eu vou fazer?
- Você vai ficar como eletricista aí.

Mas, eu sou muito brincalhão, fazia muitas brincadeiras, com os doentes. E quando os internos iam almoçar eu ia pro restaurante cantar pra eles. Eles ficavam felizes.

Um dia, eu estava cantando, o diretor em pé na porta. Eu parei de cantar. Ele disse:
- não pára não, continua. E depois, vá lá no meu gabinete. Quero falar com você.

Acabei de cantar e fui lá.

- Ô seu danado, você tá fazendo um trabalho maravilhoso. Nem os médicos conseguem fazer o que você tá fazendo, deixar os internos felizes, me disse o Dr. Beda.

- Eu faço porque gosto deles, eles me chamam pra cantar porque me conhecem, muitos deles freqüentaram o auditório da rádio e estão, aqui, hoje.

- Mas eu não quero que você pare, quero que continue. E você não vai ser mais eletricista não. Você vai ficar à minha disposição. Quando te perguntarem alguma coisa, você manda falar comigo. Você não precisa assinar mais ponto, nem nada. E me deu total liberdade.

Em 52, eu queria voltar pro Rio de Janeiro e ele nada de me deixar sair. No início de 53, eu fiz uma cartinha de demissão. Ele não quis assinar e disse: - Pensa bem, eu te dou uns meses, você vai passear no Rio, fica lá, faz o que você quiser... Você vai se arrepender e vai voltar, eu tô te esperando. Cheguei no Rio e fiquei, nunca mais voltei.

LOU - E perdeu o emprego público?

PAULO - Abandonei.

LOU - E não se aposentou?

PAULO - Pelo Estado não. Era funcionário do Estado e depois abandonei, larguei. Depois o governador Celso Pessanha, empossado com a morte do Roberto Silveira, foi criado no mesmo lugarejo que eu. Nós nos conhecíamos desde garoto. Então eu fui cumprimentá-lo no Palácio Ingá. Fui almoçar com ele e a esposa dele, a Ilka. Durante o almoço ele perguntou:
- O que você quer?
- Eu quero abraçar você, eu tô orgulhoso de ter um conterrâneo na governânça do Estado.
- Eu não tô falando disso não, eu tô falando do seu futuro.
- O que você quer? Escolhe!
- Eu já fui funcionário público e abandonei.
-Isso não importa. O que é que você quer?
- Eu não quero nada. Você tem emissora de rádio aí?
- Não.
- Então eu quero isso pra cantar, não quero mais nada.
-O'Rely, pensa bem, escolhe um cargo aí.

Não quis de maneira nenhuma. Deixei ele lá e vim embora tocar minha vida, como estou até hoje, sempre envolvido com música.

Durante 15 anos, trabalhei no Le Buffet e cheguei a ser chefe do cerimonial. Eu fazia o cerimonial todo das festas de 15 anos, Bodas de Prata, Bodas de Ouro, tudo.

LOU - E cantava?

PAULO - Fazia tudo isso e cantava ao vivo, sem microfone, pros convidados das diferentes festas, com um conjunto de violinos e eu cantando serestas, no salão, pra eles.

LOU - E dá pra viver só de música?

PAULO - Olha, eu vivi maravilhosamente bem. Mas, depois eu joguei tudo fora.

LOU - Por que? Mulheres?

PAULO - Não, nada disso.

LOU - Você se casou?

PAULO - Casei cinco vezes. Tenho sete filhos, entendeu, mas eu nunca fui...

LOU - Mulherengo...

PAULO - Até que era. Mas eu nunca me envolvi com mulheres que queriam levar dinheiro. Não tinha nada disso.

LOU - Como você perdeu tudo?

PAULO - Porque eu achei que não devia deixar nada aqui, devia acabar com tudo. Eu aproveitei muito, almoçava em bons restaurantes, só viajava de avião. Conheci o Brasil todo, quando ia prum lugar pra passar três dias, eu passava um mês. Gastava porque tinha pra gastar, ganhava muito bem. Dava festas pros amigos lá no Le Buffet mesmo. A festa do meu casamento foi realizada lá.

LOU - Você excursionou pra fora do país?

PAULO - Cantando, viajei três vezes pra fora. Fui ao Uruguai, Paraguai e Argentina. Minha primeira viagem foi, em 55, ao Uruguai, com a Orquestra de Severino Araújo. Eu estreei na orquestra em Montevidéu. Ficamos 45 dias.

LOU - Por um bom tempo, você foi cantor da Orquesta Severino Araújo.

PAULO - Fui, por um período. Depois eu criei o meu conjunto, porque eu ganhava muito melhor do que como cantor. Como cantor eu ganhava só um cachê específico da categoria. E como diretor eu tinha direito a três vezes aquilo. Eu era o diretor, o empresário e o cantor da orquestra.
Eu ganhava muito bem e pagava melhor aos músicos que os outros. Eu sempre tinha a minha disposição os melhores músicos. E criei uma modalidade, aqui no Rio, que passou despercebida, porque eu nunca fui ligado à mídia. Eu criei o baile sem intervalos. O meu conjunto não parava de tocar. Começava às 10 horas, só parava às 3 da madrugada. Era direto.

LOU - E os músicos ficavam no seco? Como eles faziam?

PAULO - Não, porque eu tinha músico suficiente pra dividir, fazia revezamento.

LOU - Como foi, quando você voltou e quis recomeçar aqui no Rio?

PAULO - Novamente encontrei dificuldades. Nunca encontrei nenhuma facilidade aqui. Tudo foi difícil pra mim.

O Rio sempre foi a meca de tudo do teatro, do rádio. Cada emissora ficava assim de gente, ficavam milhares de pessoas tentando uma oportunidade.

LOU - Dormindo até nas calçadas, nas portas das rádios.

PAULO - É. Certa vez, logo no início da carreira, quando eu vim pro Rio, sem dinheiro, dormi na Delegacia, na Rua Bambina, porque não podia pagar o Hotel. Fui à delegacia, conversei com o comissário, disse que era de Campos, estava sem dinheiro, se poderia dormir na delegacia.

- Ah, meu amigo se todos fizessem como você! Só que, aqui, não tem conforto nenhum, tem aquele sofá ali de madeira, respondeu ele.

Eu disse: tá ótimo!
Deitei naquele sofá de madeira, dormi bem à bessa. Despreocupado, a polícia me protegendo ( risos ).

LOU - Você já tinha gasto um dinheirão com a vida que você gostava de levar!

PAULO - É. Tudo do bom e do melhor! Sempre gostei de bons vinhos, boa comida, era isso que eu fazia.

LOU - Quer dizer que poupança não era contigo.

PAULO - Nunca fiz uma poupança.

LOU - E agora, você faz?

PAULO - Não, não faço. Agora, o que eu ganho dá pra despesa. Não sei fazer economia. Às vezes, fico até apertado porque não sei economizar.

LOU - Mas você não tem uma aposentadoria?

PAULO - Tenho direito a uma aposentadoria razoável como cantor. Mas me cortaram um pedaço. Eu venci uma ação, que movi contra a previdência, já tem dezesseis anos. Ganhei e não recebi até hoje. Eu me aposentei com 12 salários. Uns três anos depois, eu tava recebendo dois salários e meio, e eu não me dei conta, porque eu ganhava muito dinheiro. O que vinha da aposentadoria era depositado na minha conta e eu nunca tomei conhecimento. Quando me chamaram atenção, é que eu fui ver. Aí, entrei com a ação. Foram fazer a revisão e foi subindo, subindo, chegou a 7,33%. Mas nunca me pagaram isso.

LOU - Então, você tem que cantar e vender os seus CDs pra sobreviver?

PAULO - Tenho que cantar pra poder completar. Vender disco é muito difícil. Ih, é uma dificuldade...

LOU - E como você está vendendo?

PAULO - por telefone.

LOU - Agora, me conta do seu CD, como foi?

PAULO - O pessoal vinha forçando, já há algum tempo, pra eu gravar o CD. Eu não queria gravar, porque sabia das dificuldades que existem para um cantor que não é vinculado à uma gravadora multinacional ou a uma emissora de televisão... O cantor independente tem uma dificuldade quase instransponível pra conseguir alguma coisa, eu não queria, o Eládio da Silva Nunes disse:
- Não! Nós temos que gravar é agora!

E assumiu tudo. Aí eu escolhi as músicas e fui pro estúdio. Em poucos dias, nós gravamos este disco. Chamamos o Pedrinho Bastos, que é o Pedrinho Sete Cordas, que você conhece, já esteve na sua casa, várias vezes, é um grande violonista, e gravamos o disco.

LOU - Agora tá uma boa fase pra vender disco?

PAULO - Não, tá difícil.

LOU - Vocês fazem show na Funarte?

PAULO - Não, eu fiz em 84, nunca mais...

LOU - E agora, não faz mais?

PAULO - Eles não chamam, você tem que pertencer ao sistema.

LOU - E na Sala Baden Powel, o seu empresário não pode ir lá?

PAULO - Eu não tenho empresário, nunca tive. Antigamente, eu era meu próprio empresário.

LOU - Mas quem fez o seu disco não pode ir lá?

PAULO - Ele não faz isso. Ele me ajudou, porque ele queria que eu gravasse, o Eládio é dono de ótica, ele não tem jogo de cintura para tratar desses assuntos. Tem que ser pessoa do meio...

LOU - Como você vai vender então?

PAULO - Estamos vendendo através do meu telefone, e do telefone do Eládio.

LOU - Então diz pros "Velhos Amigos" quais os lugares que estão vendendo os seus discos.

PAULO - Nós temos discos no Centro Cultural Banco do Brasil, na Livraria Travessa. No Méier, na França Jóias, na Rua Dias da Cruz; na Elo Ótica, que também fica na Rua Dias da Cruz, 215 e temos na Funarte.

LOU - E por telefone?

PAULO - Nos telefones 2289-1148 e 2595-9570. É através do telefone que fazemos a divulgação do disco e vendemos.

LOU - Qual o preço do disco?

PAULO - Quinze reais. Uma senhora, me telefonou e conversou comigo 1 hora. Ela ouviu o programa do Altamiro Carrilho e adorou as músicas e deu graças a Deus que tenha aparecido alguém cantando essas músicas.
Ela perguntou: onde está seu disco? Eu disse: Está em poucos lugares, mas tem lá na Funarte
E ela: - Dificilmente eu saio de casa, eu tenho 77 anos, mas vou sair amanhã de manhã, vou à Funarte só pra comprar seu disco.

LOU - Onde é a Funarte?

PAULO - É na Rua Graça Aranha, no Centro da cidade, no antigo Ministério da Educação e Cultura.

LOU - E você vende em casa também, onde você mora?

PAULO - Agora estou Vendendo. Quando tem dificuldade pra pessoa, nós mandamos na casa dela. Arranjo um portador, ou mando pelo correio.

LOU - Me fala de Conservatória...

PAULO - Em Conservatória, recentemente, fizeram uma festa pra lançar o meu disco. Foi na Casa da Cultura de Conservatória sob o comando do vereador Vítor Couto e o Sérvio, dono de um Hotel.

Conservatória é um vilarejo, Distrito de Valença, conhecida como a Cidade da Seresta, embora não sendo cidade. Organizaram uma festa muito bonita, vendeu bastante.

Me acolheram com muito carinho, então, eu sempre vou a Conservatória. Lá tem a Rádio Comunitária de Conservatória. Toda semana eles tocam meu disco, eu tenho um amigo, que quando o programa tá no ar e, toca o meu disco, ele liga pra mim, pra eu escutar.

LOU - E lá você vende o disco com mais facilidade?

PAULO - Lá está a venda no Museu Vicente Celestino e numa loja do shopping, de um amigo do Eládio. Se analisarmos as dificuldades que existem, acho que está vendendo razoavelmente bem, porque não é fácil vender.

LOU - Quantos anos você tem?

PAULO - Setenta e seis.

LOU - E tá lutando pela sobrevivência.

PAULO - Permanentemente. Eu acredito que, enquanto estamos vivos, temos que lutar.

LOU - Você sente alguma discriminação por causa da sua idade?

PAULO - Isso existe. Ah, você tá vivo ainda? Quantas vezes me disseram isso. Então você acha que tá falando com fantasma? Eu tô vivo, vivíssimo, continuo cantando. Lá em Conservatória eu cantei num salão pra 160 pessoas, sem microfone, só voz.

LOU - Que maravilha!

PAULO - O que envelhece não é a idade é a mente, as pessoas se sentem velhas. Eu não me sinto velho. Eu trabalho, eu faço coisas incríveis. Eu levanto muro, faço qualquer tipo de serviço.

LOU - Você canta por prazer, isso rejuvenesce.

PAULO - Ah, quando eu canto eu vivo em outro mundo. Nós temos um encontro, toda segunda quarta-feira do mês, no Clube Mackenzie do Méier, é um almoço. Nós começamos isso há mais de dois anos. É bem freqüentado. Não vão só idosos não, vão pessoas de meia-idade, que gostam muito daquilo. Fiz isso também, durante 20 anos, na Ilha do Governador, todas as quartas-feiras, íamos, lá, cantar de graça. Só tinha coroa, só veteranos. O clube ficava super lotado.

LOU - Manda uma mensagem aos nossos "Velhos Amigos".

PAULO - Esqueçam esse negócio de velhice, vivam. Cada minuto, cada dia, é o mais importante! É não se deixar vencer pela idade.
A idade não conta, o que conta é o estado de espírito. Você achar que não vale mais nada, porque tá velho, isso não existe. Enquanto você tem disposição pra trabalhar você deve fazer isso. Existe muita coisa pra fazer. Se não quer fazer pra si, faça pros outros. Vá aos hospitais visitar pessoas doentes, conversar, eles precisam de ajuda, asilos, onde têm crianças internadas, vá a esses lugares,conversar com a criança. Conviver com criança é muito bom.

A pessoa tem que se sentir útil. Viver, saber viver, com dignidade, lutar pelo que quer. Por exemplo, eu não preciso mais votar, mas eu faço questão de votar, de escolher os candidatos que eu quero que governem este país. Eu tenho um filho com 18 anos, e desde os 16 anos, ele vota. Falei: " você tem direito ao voto, então vá votar, vá escolher seus governantes, você tem o direito e o dever."

LOU - O VelhosAmigos agradece. Sua entrevista foi muito bonita e você é uma pessoa maravilhosa.

PAULO - Sou profundamente emotivo.

LOU - Mas um artista que não tem emoção, como vai transmitir emoção?

PAULO - Por isso, que quando eu canto, muitas vezes a emoção embarga a minha voz e as lágrimas descem.

LOU - Já presenciei você fazendo isso. Você canta e representa tão bem o que está sentindo, que eu vejo que você vive aquele momento. Quantos amores você teve, através da música?

PAULO - As Nancys, As Marianas, Suelys, Nininhas e amo cada vez que canto. Eu procuro viver o sentimento, que o autor quis passar, quando fez aquela letra.

LOU - É por isso que eu digo que você não é só cantor, é o ator da música.

PAULO - É, você disse isso, uma vez, em sua casa, quando eu cantei pra sua mãe. Sua mãe era outro exemplo de vida. Cantou, dançou comigo, alegre, mesmo doente, ela nunca se entregou.

LOU - Mais uma vez muito obrigada! O nosso site agradece, também, o belíssimo CD que você nos presenteou.

 

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