Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

PAULO DE TARSO
publicado em: 14/11/2016 por: Lou Micaldas

Entrevista realizada em 2005.

"Eu sou professor, sem complemento adnominal"
 
Um rápido bate-papo com os melhores professores da atualidade na área de preparação para concursos revela um detalhe em comum: a maioria deles, no início de suas carreiras, inspirou-se no professor Paulo de Tarso, 73 anos, hoje aposentado como fiscal de rendas do Estado do Rio de Janeiro. Alguns chegaram até mesmo a copiar o material do mestre para usar em suas aulas como material de apoio. Paulo influenciou quase tudo o que se faz hoje em dia em termos de preparação. Ele inventou. Muitos copiaram e aperfeiçoaram seus métodos.
 
Célebre por ter ministrado aulas em praças públicas, no Maison de France e no Canecão, Paulo chegou a reunir mais de 2 mil alunos numa única aula. E não foi à toa: suas ladainhas funcionavam tão bem que levaram a uma instituição organizadora de concursos a mudar o estilo de suas provas. Mas, por pouco, Paulo não se tornou ainda mais famoso: ele teve uma música gravada pelo rei Roberto Carlos, que só não foi divulgada porque foi apreendida pelos militares.
 
E há quem agradeça por ele não ter enveredado para o lado da música: os milhares e milhares de candidatos que foram aprovados graças a suas aulas. É por essas e por outras que o Guia dos Concursos foi procurar saber um pouco mais sobre esse astro para o Pessoal Gabaritado desta edição.
 
O que o levou ao magistério de concursos públicos?
Quando fiz meu primeiro concurso, para o Banco do Brasil, tinha uma prova de aptidão. Eu fiquei surpreso quando soube que eu tinha sido o único cara no país, em mais de 100 mil candidatos, que tinha tirado a nota 100. E eu tinha feito a prova de sacanagem! Eu mesmo me surpreendi e ali eu tive uma pista de que deveria preparar candidatos a concursos públicos. Além disso, o desejo de viajar só seria satisfeito se eu desse muitas aulas – muita despesa corresponde às 25 viagens que fiz aos EUA, às 20 e tantas à Europa e 15 ao Nordeste. E, por fim, eu logo percebi que o prazer exibicionista do magistério seria para mim, uma terapia ocupacional.
 
Há quantos anos você ministra aulas?
Eu iniciei no magistério aos 12 anos quando preparei a minha irmã para o exame de admissão do Instituto de Educação. Ela passou e a mamãe ficou de me dar uma escrivaninha. Não ganhei a escrivaninha prometida e fui à luta para comprar, 30 anos depois, uma escrivaninha Luís XV que vi num leilão de Ipanema. Dei muita aula, mas ela chegou a 15 mil dólares e não deu para arrematá-la. Então, faz 61 anos que eu leciono.
 
O que mais o aborrece no magistério?
É saber que colegas divulgam em sala de aula inverdades sobre o meu trabalho, a minha luta e a minha vida. Inverdades difíceis de serem defendidas por mim, como: "O Paulo morreu". Ou: "O Paulo é maluco". E "O Paulo é vigarista". Tudo meia verdade: não morri, mas falta pouco. Sou maluco, mas me magoa muito tomar conhecimento daquelas ofensas feitas por pessoas que tanto ajudei. Vigarista talvez, mas não tanto quanto elas.
 
Conte-nos um pouco da sua formação profissional.
 Eu fiz Matemática, Física e Ciências Sociais, que agora é Sociologia, tudo na UERJ. Passei em primeiro lugar nos três. Tirei cinco primeiros lugares em vestibulares. Eu fiz um monte de vestibulares, até para Odontologia. Fui o primeiro colocado em cinco concursos para o magistério em cinco matérias diferentes - Matemática, Física, Descritiva, Estatística e, pasme, Taquigrafia. Eu fiz 7 concursos de aptidão mental e tirei o primeiro lugar em todos. O primeiro, quando fui garoto, igual ao meu filho Pedrinho.
 
Papai era presidente de Tribunal Superior, e eu não quis seguir a área do Direito. Talvez, ao invés de ser fiscal de rendas, eu seria juiz. O juiz sempre tem um pedaço que dá para criar, defender ideias. Talvez eu teria sido mais feliz. Bom, eu já fui fiscal do Município, fiscal do Estado, fiscal da União, passei no concurso para fiscal do Trabalho, em Minas... Na Receita Federal eu passei 3 vezes, passei em 70, 91 (quando eu tirei o primeiro lugar aqui no Rio de Janeiro) e em 94.
 
Você já ministrou aula de quais matérias?
 Eu sou professor. Sem complemento adnominal nem nada. Se me der o script, o programa, o roteiro, os itens, e me der tempo, eu dou aula. Quando eu tinha 16 anos, dei até aula de latim! Hoje, eu tenho uma turminha de fiscal e uma de TRE na Tijuca.
 
Qual a sua metodologia de ensino?
 A metodologia do meu ensino é de maluco. Antigamente eu usava a ladainha, obrigava o pessoal a recitar pedaços importantes da legislação: Código Tributário, Constituição, Código Civil. Hoje, há uma industrialização de assuntos e essa massificação não dá mais certo, pois os concursos ficaram tão difíceis que decorar o miolo de cada ponto não importa mais. Então, hoje eu não faço nem mais ladainha.
 Mas eu já fiz muita ladainha, o que obrigou a ESAF, de certo modo, a mudar o concurso, porque eles chegaram à conclusão que "ah, aquele professor Paulo de Tarso massifica a legislação". Eu tinha turma de 2 mil alunos no Canecão, turmas de 500 alunos. Aí eles (ESAF) começaram a fazer as provas fora do contexto, passou a ser de interpretação, entendimento, doutrinas. E eu fui responsável pela dificultação dos concursos ligados a essa área do Direito.
 
Conte-nos um pouco do período em que você alugou o Canecão para dar aulas.
 Eu já dei aulas em diversos teatros, Teatro da Praia, Maison de France. A primeira vez que eu dei aula no Canecão foi há 20, 25 anos. Eu tinha 50 anos e era dia de estreia do Brasil na Copa do Mundo. Os donos do Canecão foram lá para ver quem era aquele maluco que tinha alugado a casa de shows para dar aula, inclusive de Matemática, Português e Contabilidade. Da fortuna que eles cobraram não sobrou um tostão para mim. Foi como cobrar 1 milhão para dar aula das 6h às 22h. Mas eu fiz isso mesmo para tirar uma onda. Era muito comum a Maria Bethânia e o Caetano Veloso aparecerem no sábado e me verem, pois eles tinham uma apresentação no domingo e iam lá para arrumar o palco. E devem ter achado estranho. Naquela época, no início da carreira deles, eles não enchiam tanto o Canecão, mas as minhas turmas estavam cheias. No primeiro dia teve 1.600 pessoas. Foram aulas para o Banco do Brasil, de Matemática, Português, Contabilidade e Aptidão Mental.
 
É verdade que você tem uma música gravada pelo Roberto Carlos?
 Sim. Foi na época da ditadura, 1964-1965. Eu tinha um aluno que era amigo dele e mandei uma música que ele gravou para ser o roteiro do filme "Roberto Carlos em ritmo de aventura". Mas a polícia prendeu depois que eles fizeram a trilha musical "O mundo vai explodir, ninguém vai sobreviver, vou deixar meu cabelo crescer". O Roberto Carlos não tinha muito dinheiro na época e ele perdeu grana. Ele ficou com ódio, não de mim, ele nem soube de mim, mas do cara que foi o intermediário, que levou a música e a letra para ele. Aí eu fui alijado e falei: "eu não quero mais saber disso, estou fora dessa prática". Se tivesse dado certo, seria uma onda que eu iria tirar, mas furou.
 
Você tem alguma posição política?
 Não tenho. Agora, o caso do PT no Brasil é seríssimo. Eles traíram o país. As pessoas acreditam que os conservadores, com isso, ganharão mais espaço e que a possibilidade de fazermos transformações sociais importantes diminuirá. Eu discordo um pouquinho, pois existe um livro famoso, um clássico, que diz "um passo atrás, dois passos à frente". Então, é possível que com esse passo atrás a gente dê dois passos à frente. É o movimento do progresso dialético, descontínuo, não é uma linha reta, não é uma parábola. Isso aí pode ser um atraso aparentemente.
 
 Qual sua ideologia?
 Eu sou anarquista. Acredito que o governo presta no sentido de que naquele instante, naquele lugar, não se pode ter nenhum melhor. "O que é a propriedade? É o roubo". Mas nós vivemos numa etapa no mundo em que precisamos da propriedade para dar um incentivo para que a economia se desenvolva. As pessoas acham que as coisas têm que ser conciliadas. Para mim, as coisas têm que ser contraditórias. O conflito é a própria natureza humana, a própria natureza biológica, sociológica e econômica: tese, antítese e síntese - Marx e Angels. O conflito não precisa nem ser provocado. Ele está inerente em tudo na natureza. Você vê: o homem, a tese; a mulher, a antítese; a síntese, o sexo e o nascimento de uma criança. Isso, concomitantemente e sequencialmente, é a história da ciência humana. Dialética marxista. Eu acredito nisso.
 
Como você acha que um candi­dato a concurso deve estudar?
 Frequentar um curso ou não frequentar, isso depende da pessoa. O estudante deve escolher um curso na medida do seu estágio intelectual diante do programa. Se ele quer sufoco, deve escolher um curso mais puxado. Se não, faz primeiro um curso moleza. E há alguns tipos de alunos que devem estudar só em casa, porque eles não precisam mais do professor. O professor é um amuleto. Quando o aluno descobre que não precisa mais do amuleto, ele perde tempo até com a viagem até o curso.
 
Conte um caso estranho e uma situação de felicidade que você viveu na profissão.
 O caso engraçado é ao mesmo tempo triste: perguntei a um aluno sentado na 19ª fileira de uma sala do Curso River, onde eu dava aula de Matemática: "Você pode me emprestar essa caneta para que eu possa fazer a chamada?" Eu tinha 17 anos e estudava na Escola Nacional de Engenharia, ali pertinho do Largo de São Fran­cisco. E também no 1º ano de Matemática da UERJ, bem longe. O aluno me mostrou a mão fechada com um lápis que só tinha a ponta fora da mão. Puxei o lápis. Ele não veio. Era uma ponta meio dura. O aluno, sem graça, explicou que não era um lápis, era uma ponta de carne que ele sempre tivera. Até hoje sinto aquela ponta entre os meus dedos. Fiquei nervoso, mas não me perturbei além da conta. Ele ofereceu outro lápis, dizendo: "Não é um lápis, é um dedinho que tenho na mão". Puxei a ponta do novo lápis. Caso se tratasse de outra ponta de carne, a carreira de um professor se extinguiria no nascedouro. Dessa vez, entretanto, era um lápis.
 
Publicado na coluna "Pessoal Gabaritado" da revista "Guia dos Concursos", na edição Ano 2 - 2005 - nº 04, de 2005, editada pela Editora Ferreira.

Autor(a): Flávia Bozzi e Mariane Ferreira
Fonte: www.editoraferreira.com.br

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA