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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

PAULO HENRIQUE AMORIM
publicado em: 10/07/2019 por: Lou Micaldas

Edição 42 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2008
ENTREVISTA (Ser Médico pág. 03)

Inteligente e polêmico, o convidado desta edição é Paulo Henrique Amorim. Sem comentários!

“Neste país, a imprensa é irresponsável”

Nascido e criado na mídia brasileira, o jornalista e apresentador Paulo Henrique Amorim, 64 anos, tornou-se um do seus mais cáusticos críticos. Do alto do pedestal de quem conhece os bastidores da notícia, solta sua língua afiada contra, entre outros, a TV Globo e a revista Veja, veículos para os quais trabalhou a maior parte da vida profissional, tendo aberto sucursais para ambos em Londres e Nova Iorque. Ainda que inusitado, é exatamente a larga experiência de Amorim na mídia impressa e eletrônica que dá  ressonância às suas revelações.

Ele também trabalhou no Jornal do Brasil, nas emissoras Cultura, Bandeirantes e na TV por internet Uol, entre outros. Desde 2006 está na TV Record, onde apresenta o programa Domingo Espetacular, além de assinar o blog Conversa Afiada, pelo portal IG. No blog, o jornalista carioca faz um trabalho incomum entre profissionais notáveis do país, liberando a verve de “analista da notícia”. Em que pese o interesse em defender a audiência da TV Record em detrimento da Globo, Amorim virou uma espécie de arauto de verdades inconvenientes da mídia brasileira. Em novembro de 2007, nos estúdios da TV Record, ele concedeu uma longa entrevista à equipe da Ser Médico – que contou com a participação do primeiro-secretário do Cremesp, Renato Azevedo.

Acompanhe a seguir:  

Ser Médico: Sua formação é em Sociologia e Política, como e por que migrou para o jornalismo?
Paulo Henrique Amorim:
Na verdade eu nasci no jornalismo. Sou filho de um jornalista, um repórter editorialista, e me alfabetizei desenhando a primeira página de um jornal. Meu pai levava para casa as resmas de papel em que os paginadores desenhavam as primeiras páginas de jornal, antes do computador. Então, já comecei jornalista. Fui estudar Sociologia porque a certa altura, num equívoco lamentável, pensei que poderia ser diplomata. Percebo, hoje, que teria sido um desastre de proporções inimagináveis, pelo menos do ponto de vista pessoal. Naquela altura, para você entrar no Itamatay, para fazer o Instituto Rio Branco, era preciso ter um diploma universitário; então procurei uma atividade que fosse próxima de meus interesses.

Estudei o curso clássico; gostava muito de Ciência Política, de História e fui fazer Sociologia e Política. E, na época, no Rio de Janeiro não havia nas universidades públicas um curso bom de Sociologia e Política, então, acabei fazendo vestibular para a PUC. Eu não tinha dinheiro para pagar, mas como tirei uma boa nota no vestibular, eles me deram uma bolsa. Então, eu trabalhava, já era jornalista semi-profissional e pagava a metade da mensalidade. Sou o primeiro beneficiário do ProUni, porque eles me pagavam a metade da mensalidade (risos). Assim eu me encaminhei para a Sociologia. Tem até um episódio que me lembro com muito carinho, o diretor da escola, homem santo que admiro e respeito muito que é o padre Fernando Bastos D’Ávila – hoje um imortal, entrou para Academia Brasileira de Letras –, um intelectual, um homem da melhor qualidade. Ele, na primeira aula, pediu para escrevermos sobre “por que veio fazer um curso de Sociologia?” E, na segunda aula, deu os resultados dessa avaliação. No meu caso, disse, “bom, tem um aqui que jamais será sociólogo, ele não tem nenhum interesse em Sociologia, veio aqui porque quer ser jornalista, as preocupações dele são de outra natureza. Quem é o Paulo Henrique?” e por aí foi…
 
Ser: No blog Conversa Afiada você é um crítico da mídia, outra faceta sua que está mostrando, diferente daquela de âncora de jornal ou de apresentador do Domigo Espetacular, na Rercord. De onde e por que surgiu a ideia do blog?
Amorim:
É uma história antiga. Sempre tive uma preocupação dupla: queria estar perto da tecnologia mais moderna. Como profissional, não queria ficar atrasado tecnologicamente, fazendo linotipia, quando já estávamos na era do computador. Outra preocupação que tive desde cedo na profissão era a de não ficar encurralado, no sentido de não ter opção profissional. Sempre lutei para ser um profissional, até onde é possível no Brasil, independente. Sempre procurei opções, abrir espaços, janelas e portas. E quando vi a internet lá no comecinho, procurei o (portal) Zaz. Na época eu estava na TV Cultura fazendo o Conversa Afiada, programa de meia hora, diário e no horário nobre, que ficou no ar dois anos. Era uma produção independente que deu dinheiro a mim e à Cultura, éramos um sucesso do ponto de vista empresarial. Mas aí procurei o Zaz e ofereci um produto para eles, teoricamente muito bom.

No final do mercado financeiro do dia, fechou a Bolsa, eu entrava num chat na internet com um analista financeiro e fazia a análise do dia. E, quem quisesse, entrava para tirar dúvidas etc. Era uma idéia brilhante, mas que foi um fracasso retumbante, porque não conseguimos trazer gente para a sala. Conseguíamos entrevistar muitas pessoas interessantes, mas ainda não havia a tecnologia, o cacoete do chat. Não funcionou, mas por causa disso fui convidado para trabalhar no Uol, numa época em que a bolha da internet estava começando a nascer e me chamaram para fazer a primeira televisão na internet.

Nessa época, eu não tinha mais nada, não tinha dinheiro; então, para sobreviver bolei lá no Uol mesmo um produto que era a análise instantânea da notícia. Você ficava colado nas notícias, com as agências ligadas, com a Reuters etc e acontecia algo, caiu a CPMF, eu entrava no ar por telefone, rapidamente… Foi uma “mistificação” que inventei para fornecer ao internauta e, ao mesmo tempo, preservar o meu emprego. Depois eu transferi esse produto para o IG. Com o andar da carruagem e a radicalização do processo político brasileiro, depois da eleição do presidente Lula, meu espaço no IG ficou em parte dedicado à informação e parte à opinião. E foi aí que nasceu esse projeto que está hoje no ar com o nome de Conversa Afiada, que, aliás, registrei e usava para fazer meu programa na TV Cultura.

Ser: No seu blog você tem posições muito interessantes em relação à mídia, inclusive tem a questão do PIG…
Amorim:
…O PIG tem uma questão interessante. A primeira pessoa que me chamou a atenção para a mídia brasileira foi o Mino Carta. Ele falava “olha, a gente fica falando mal da mídia brasileira, que são jornais vagabundos, que é uma imprensa toda partidarizada, mas presta atenção, isso aí é um problema político que está dentro do nervo da democracia brasileira”. Aí, comecei a olhar as coisas dessa perspectiva. Assisti a uma conferência e li um artigo do professor Wanderley Guilherme dos Santos, um cientista político notável do Rio de Janeiro, meu conterrâneo, que chamou minha atenção para dois aspectos: primeiro, que a mídia escrita tinha perdido uma parte de seu poder de persuasão, parte de seu poder político, parte de seu poder econômico, mas tinha mantido um poder muito importante, que era o poder de gerar crise. Ela gerava crise e multiplicava a crise. E, segundo, que ela se comportava como um partido político, acima dos partidos e se antecipando à posição dos partidos. Aí criei um sloganzinho que era: “a mídia conservadora e golpista”. Então o deputado Fernando Ferro, do PT de Pernambuco, me chamou para fazer um depoimento na Comissão de Comunicação da Câmara, à qual compareceram provavelmente três deputados, tal o interesse que a matéria desperta (risos). E o deputado Fernado Ferro criou a expressão PIG: Partido da Imprensa Golpista. Achei que era muito melhor do que mídia conservadora e golpista e fui pro PIG. Agora só chamo de PIG.

Ser: O PIG pegou?
Amorim:
Pegou (risos).

Ser: Dando nome aos bois, onde você indentifica esse golpismo?
Amorim:
É o seguinte, em nenhuma democracia séria do mundo – com exceção provavelmente da Rússia, que não é uma democracia – você tem um país de 180 milhões de habitantes, com diversidade cultural étnica, política. Nós temos oito candidatos à Presidência da República, temos brasileiros que são portugueses, alemães, índios, afro-descendentes, italianos, essa misturança toda. Nós fazemos fronteira com todo mundo, Guiana, Venezuela, Peru, Colômbia, somos meio argentinos…

Ser: …do Amazonas ao Rio Grande do Sul a identidade cultural é a mesma…     
Amorim:
…e todo mundo vê a TV Globo no horário das oito! Só têm três jornais no Brasil: O Globo, a Folha e o Estado. A Veja, que é a revista que mais vende, é uma revista fascista! É uma revista fascista! Não tem nenhum compromisso com o Brasil. O Roberto Civita quer que o Brasil se lixe! Ele é americano, ele gosta dos Estados Unidos, se pudesse só falava inglês! Trabalhei com ele. Agora caiu a máscara do Roberto Civita. O Brizola tinha razão quando dizia assim: “qual é a nacionalidade do seu Roberto Civita, ele não é brasileiro!”

Ser: Quando fala “caiu a máscara do Roberto Civita” você, que trabalhou com ele na Veja, já percebia “algo” atrás dessa máscara?
Amorim:
Ele tinha uma inclinação, mas até uma certa altura era mais contido. Acontece que ele herdou a empresa do pai – o irmão caiu fora. Ele ficou sozinho, começou a fazer um conjunto de besteiras, ele tem uma biografia de besteiras e quebrou a empresa – e precisou se safar de tudo quanto era jeito. E achou que o governo ia salvá-lo. E o governo Lula não salvou. Ele imprensou o governo Lula e o governo Lula não o salvou. E, nesse desespero, ele foi para onde sempre quis estar que é ser fascista. Ele é fascista.

Ser: E por que é a revista mais vendida do Brasil?
Amorim:
Porque o Brasil tem um lado fascista. Sobretudo aqui em São Paulo. Eu recomendo a vocês irem no meu site, que tem lá um negócio muito divertido, de um leitor da revista Caros Amigos, sobre a minha entrevista, que é “a última flor do fáscio”, em que o cara fez a paródia de “A última flor do lácio” (poema de Olavo Bilac). Aquilo é uma obra-prima!

Ser: Você falou da sua sede por ser um jornalista independente, ao mesmo tempo alguns expoentes do jornalismo – como o Jânio de Freitas por exemplo – também parecem independentes dentro de um jornal conservador. Como isso se dá nos bastidores, isso é possível?
Amorim:
Eu não conheço a história do Jânio, tenho uma grande admiração por ele. O Jânio foi editor-chefe de um jornal de qual fui editor-chefe, que é o Jornal do Brasil. E foi um grande jornal, entre outros motivos, por causa da passagem do Jânio de Freitas. Então, tenho muito respeito pelo trabalho dele. E espero ter estado à altura do trabalho dele quando fui editor-chefe do Jornal do Brasil. Não sei como é a relação dele com a Folha. Sei que quando ele chegou na Folha já era cobra criada, tinha a reputação dele, já era um profissional pronto e coroado, muito justamente. Então, acho que foi mais fácil para ele negociar um espaço de independência e liberdade…

Ser: ...Muita gente assina a Folha por causa dos colunistas...
Amorim:
Sim, mas na minha modestíssima opinião tem colunista demais, eu preferiria que tivesse mais informação. A Folha e, aliás, a imprensa brasileira em geral têm muita coluna. Preferia que tivessem mais notícias.

Ser: Nessa incongruência, um colunista coroado não sente um mal-estar na hora em que vê que o jornal é tendencioso ou desinforma na primeira página ou toma partido político?
Amorim:
Aí você tem que perguntar para o Jânio, (risos).

Ser: Mas, por analogia, vamos falar de você que já trabalhou na Globo, na Veja. Em algum momento…
Amorim:
…aí você tem de rezar a cartilha. Ou você reza a cartilha ou dança, vai embora. Não tem conversa. Se você aceita trabalhar numa instituição, por suposto aceita as regras do jogo daquela instituição. Você não pode desrespeitar as regras do jogo – você tem um contrato, tem de honrar esse contrato. Quando trabalhei na Globo, fui absolutamente leal e fiel. Duvido que alguém lá na Globo levante um ato, um gesto meu que não tenha sido de fidelidade. Eu me orgulho muito de, em Nova Iorque, ter sido o jornalista que mais botou minutos no ar num ano de produção da Globo. Uma vez estava reivindicando aumento de salário lá, e fiz esse levantamento: botei um número de minutos recorde no ar, maior do que qualquer jornalista da Globo. Trabalhava feito um condenado, parecia que estava na Serra Dourada, entendeu? Agora, também não sou escravo. O regime capitalista estipula o seguinte: você vende a força de trabalho e o patrão compra em forma de salário. Quando se rompe esse vínculo… ele não é meu dono, eu não sou escravo do Roberto Marinho! Como não sou escravo da TV Cultura, do Jornal do Brasil… Eu sou eu, ué!

Ser: Nesse momento, como você vive?
Amorim:
Sou funcionário da TV Record, onde estou muito feliz, tenho muitas oportunidades de trabalho, onde me tratam com muita cortesia e está tudo muito bom. Não tenho nada a reclamar.

Ser: Não há conflito?
Amorim:
Não, até mesmo por não ter, na TV Record, uma atividade que me exponha ao cortejo diário da situação política. Se ficasse numa situação política que considerasse intolerável para mim, teria de ir embora. Não poderia tentar contrabandear uma notícia, não podia tentar trapacear o contrato e botar no ar uma coisa que não fosse do interesse da minha empresa. Rompe o contrato, paga a multa e manda embora; esse é o jogo.

Ser:  E a sua saída da Globo como foi?
Amorim:
Minha saída da Globo é o seguinte: se lhe oferecerem ganhar o dobro e voltar para seu país, o que você faz? Aí, virou um “não, você está com ressentimentos”. Ressentimento nenhum, queria era voltar para o Brasil! Não queria virar cidadão americano de quinta categoria. Se fico lá, sou um cidadão americano de quinta categoria, sou um hispano. Eu vou é voltar para meu país, perto dos meus amigos, da cidade que gosto, o Rio de Janeiro onde posso ir com freqüência, onde tenho uma casa maravilhosa, no meio do mato, cheio de passarinhos, de coqueiros… É isso! E vou ganhar o dobro! Ah .. eu não vou voltar? Não tenho nenhum problema com a Globo desse ponto de vista.

Ser: Você concorda que a imprensa é formadora de opinião?
Amorim:
Plenamente, a imprensa forma opinião. No Brasil existe o livro A mídia e a eleição de 2006, do professor Venício Lima, editado pela Fundação Perseu Abramo, para a qual colaboro, em que fica provado cientificamente que o Jornal Nacional e os jornais escritos levaram a eleição para o segundo-turno, na segunda eleição do presidente Lula.

Ser: E por que o Lula ganhou então?
Amorim:
O Lula ganhou por que ele foi para o segundo turno, se expôs e, no confronto direto com o Alckmin, as pessoas resolveram votar nele. O Lula teve na eleição de agora (2006), os mesmos 61% que teve na outra (2002).

Ser: Você acha que no caso de Renan Calheiros…
Amorim:
…Até o momento, no dia 13 de novembro de 2007, às quatro horas da tarde e três minutos nós (data em que concedeu esta entrevista), Renan Calheiros é tão inocente, é tão puro quanto eu e você. Por quê? Porque houve uma acusação contra ele e a maioria dos senadores votou que ele era inocente. Quem condenou Renan Calheiros foi a imprensa. Agora precisa ver o que diz o Jefferson Peres, o que dizem os outros senadores  que vão apresentar outros três relatórios sobre ele. Aí, os relatórios vão ser votados na comissão de ética, da comissão de ética vai para o plenário e, aí, o plenário decide. Isso aqui não é uma esculhambação! O Estadão, o Globo e a Folha não são o Judiciário. O Willian Bonner não é o Judiciário.

Ser: Mas muitas vezes a imprensa julga, sentencia e executa…
Amorim:
Mas é claro… neste país a imprensa é irresponsável. A imprensa é inimputável. Ela diz qualquer coisa! Qual foi o crime do Renan Calheiros? Tem de provar. Não quero saber se ele vai ser condenado. Se ele for, ou não, para mim é a mesma coisa que se o Flamengo ir para a Libertadores – aliás, não me interessa, não é um problema que me diga respeito. Não estou interessado nisso. Estou mais preocupado no julgamento de Sócrates do que na condenação de Renan Calheiros… (…) O Renan Calheiros tem dois problemas: primeiro, ele é nordestino e, segundo, é da base do Governo. Se ele fosse catarinense, com aquela mesma carinha dele e de olho azul, com sotaque de alemão, ao invés de nordestino, e fosse de oposição, não tinha problema com o Renan Calheiros. Quantos senadores da república pagam suas contas com dinheiro de empreiteira?

Ser: Tem alguma saída para a imprensa brasileira?
Amorim:
Olha, não sou muito cético. Acho que a internet pode desempenhar um papel no que concerne a dar mais opções. Espero que a concorrência na TV aberta possa contribuir.

Ser: Qual a sua opinião sobre a TV pública?
Amorim:
Acho que é uma batalha razoavelmente perdida. Eu não sou otimista. Acho que o Brasil perdeu uma oportunidade; essa era uma discussão que o país deveria ter travado lá pelos anos 50, 60 ou 70 do século passado. Preferiria que o governo desse o chamado “salto tecnológico qualitativo”… Quando Roosevelt foi eleito pela primeira vez, seis em cada dez jornais eram contra ele. E o que ele fez? “Bom, não adianta porque eu não vou convencer os jornais a ficarem meus amigos, são ultraconservadores e eu, democrata, sou a favor do new deal, quero ajudar o pobre.” Esse era o problema do Roosevelt. Então, ele fez uma aliança estratégica com as rádios. Ele deu um pulo tecnológico, foi lá para frente e ficou amigo das rádios. E por que ficou amigo das rádios? Ele preservou um sistema privado de exploração e isso foi reproduzido no sistema de formação da televisão. Por isso nos EUA tem-se uma televisão comercial e não uma televisão pública como na Inglaterra.

Muito bem, o Brasil lamentavelmente recriou fielmente o modelo americano, e deu no que deu – que é a sucessão de um monopólio do Chateaubriant para o monopólio do Roberto Marinho. Muito bem, acho que o governo Lula deveria ter investido tudo no salto tecnológico, em informação na internet, na web, na banda larga – uma disseminação mais rasgada de conteúdo em qualquer mídia que pudesse ser absorvido, sobretudo na web. E botar computador e banda larga na mão das crianças, e tirar do controle dessa mídia lamentável que a gente tem. Além do mais, esses jornais escritos brasileiros… se for à Argentina, você chora! Vai lá compra o La Nación, você chora! A qualidade geral dos jornais argentinos é oitocentas vezes melhor! A imprensa brasileira disse que Cristina (Kirchner) ia perder! A imprensa brasileira diz que quem votou na Cristina foi o pobre. Que absurdo! Foi o pobre que votou na Cristina? Ela teve a maior margem de vitória da história da democracia argentina. É uma coisa… se você for ao Chile, chora lágrimas de sangue! Se for ao México, você chora lágrimas de sangue! Em Portugal, chora! (A brasileira) é uma imprensa lamentável, analfabeta, superficial, medíocre…

Ser: A imprensa não é um reflexo da sociedade?
Amorim:
Não, não. A imprensa brasileira ficou na mão de um grupo reduzido de empresários medíocres. Como empresários, eles são medíocres. São maus empresários. Os filhos do Roberto Marinho são maus empresários. O Roberto Civita não conseguiu acrescentar nem uma centelha de talento e de diversificação ao que o pai lhe deixou. O pai dele era um bom empresário. Agora, o Roberto Civita não fez nada que o “seu” Vitor não tivesse feito. Em todas as tentativas de diversificação, ele deu com os burros n’água. O que tem do Roberto Civita na internet? Nada! Zero! A TV Globo é a mesma de quando o Roberto Marinho e o Boni estavam lá! Eles não conseguem! E é por isso que eles vão tomar um ferro da Record, porque eles perderam a capacidade de inovar! Não tem uma idéia nova na Globo há muito tempo. Eles deixaram o Tom Cavalcanti sair e o Tom está dando uma surra no Faustão.

Ser: Com o advento da internet, a democratização da imprensa ficou maior. Se um jornal não publica uma coisa, a internet vai publicar…
Amorim:
Eu não tenho dúvidas. O ACM disse: “se o Jornal Nacional não deu, não aconteceu!”. Mentira! Quando o Jornal Nacional vai pro ar, já está tudo na internet! O Jornal Nacional é uma cozinha do que já foi pro ar.

Ser: Então a saída seria popularizar a internet?
Amorim:
Essa é a minha opinião. Mas pode ser que eu esteja errado.

Ser: Temos uma pergunta sobre a sua experiência com a Medicina…
Amorim:
…A minha experiência com a medicina é muito intensa e profícua, pois sou hipocondríaco, tomo seis remédios por dia (risos). Sou um cardiopata. Fui operado em 1991, em Nova Iorque, por um cirurgião maravilhoso. Estou com duas (pontes) de safena e uma mamária. Tenho um cardiologista muito meu amigo que me acompanha, que me passa uns bons carões e me obriga a fazer exames semestrais – já está na hora de fazer o próximo.

Ser: Você não fuma?
Amorim:
Não, eu parei de fumar. Fumava charutos. Mas eu tenho um problema genético, a minha família, pelo lado de minha mãe tem colesterol alto, tenho três infartos na família. É um problema permanente. Sigo uma dieta muito rigorosa, espartana. Como queijo, tomo todos os remédios, faço exercício físico, tudo.

Ser: Você não tem nada daquele jornalista romântico?
Amorim:
Sou workaholic, mas não sou aquele que fica fumando até as quatro horas da manhã, bebendo. Não. Gosto muito da minha vida para fazer bobagem.

Ser: Por que a mídia trabalha quase sempre com um viés pejorativo e sensacionalista em relação à medicina? Por que um jornalista conceituado às vezes entra em discussões do tipo “o mundo cão da medicina”?
Amorim:
Queria falar sobre isso, acho o seguinte: é uma rua de duas mãos. De um lado, nós jornalistas somos imensamente ignorantes. Segundo, o jornalista gosta de manchete, gosta de drama, gosta de… você pode chamar de “escândalo”, de “sensacionalismo”, mas nós gostamos de emoção, de fatos estranhos, de limite. De outro lado, temos por parte dos médicos uma dificuldade muito grande de vestir o sapato do jornalista e entender qual é a nossa prioridade; e, também, certa dificuldade de traduzir o “mediquês” para nós. Talvez chegue a ser um pouco de falta de humildade você aceitar que esteja na sua frente um completo idiota. E que é preciso pegar toda aquela sua erudição científica e traduzir para o completo idiota, que somos nós, jornalistas. Uma vez fiz até uma palestra; fui contratado por um laboratório para falar a um grupo de médicos sobre como conversar com jornalistas. Eu disse algo mais ou menos como “não transformar a medicina numa ciência obscura”. No fundo no fundo, ela interessa, somos todos hipocondríacos.

Fonte: www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=345
Colaborador(a): Adriana Firmino

 

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