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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

RACHEL DE QUEIROZ
publicado em: 14/11/2016 por: Lou Micaldas

"...Não gosto de memórias. Nunca pretendi escrever memória alguma. Se quiser, terá que me extorquir as lembranças do passado, as coisas que testemunhei, as pessoas que conheci...
Há coisas na vida de cada um, que não se contam..."

COMO UM ROMANCE...
 
No dia 17 de novembro de 1910, nasce em Fortaleza a primeira filha do casal Clotilde Franklin e Daniel Queiroz. A menina recebe o nome de Rachel de Queiroz.
 
Em 1915, os Queiroz moravam no bairro de Alagadiço, em Fortaleza, onde enfrentaram os riscos do destino, na grande seca daquele ano. Fato marcante na vida de Rachel e que foi a fonte de inspiração para o romance "O QUINZE".
 
Em 1930, Rachel foi obrigada a submeter-se a um repouso e a um severo tratamento médico em virtude da supeita de ter contraído tuberculose.
 
Deitava-se então de bruços e à luz de lampião, começou a escrever a lápis, num caderno, seu romance sobre a seca de 1915.
 
Os pais gostaram da obra e decidiram pagar a edição de mil exemplares no Estabelecimento Graphico Urânia.
 
Mas tanto a crítica, quanto o público cearense não demonstraram entusiasmo pelo romance.
 
Rachel de Queiroz resolveu mandar o livro para o Rio de Janeiro e São Paulo onde alcançou o maior sucesso.
 Augusto Frederico Schmidt e Mário de Andrade não pouparam elogios. E foi assim que a menina de 19 anos, se transformou numa personalidade literária.
 
 Com a venda dos livros, pagou aos pais os dois contos de réis, que eles haviam gasto para editar o livro.
 
Prosseguiu sua carreira com os seguintes romances: "João Miguel" (1932), "Caminho de Pedra" (1937), "As Três Marias" (1939), "Dôra, Doralina"(1975), "Memorial de Maria Moura" ( 1992).
 
Revista O Cruzeiro
 
A partir de 1944, até 1975, tornou-se cronista exclusiva da revista O Cruzeiro.
 
Assim como eu, muita gente comprava a revista e começava a ler de trás pra frente.
 
É que semanalmente as crônicas vinham publicadas na última folha da revista.
 
Deu sua contribuição à literatura infanto-juvenil com o "Menino Mágico" em 1969 e Cafute & Pena-de-Prata (1986).
 
Escreveu ainda livros de crônicas, antologias, traduções, teatro, biografias e diversos livros em parceria.
 
Em agosto de 1977, por 23 votos a 15 tendo um em branco, foi eleita como membro da Academia Brasileira de Letras, vencendo o jurista Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, sendo a primeira mulher a receber este título.
 
Em 4 de novembro toma posse e ocupa a cadeira número 5, na vaga do jornalista, crítico e jurista Cândido Mota Filho.
 
Em 1995 inicia seu livro de memórias "TANTOS ANOS", incentivada por sua irmã Maria Luíza Queiroz.
 
Rachel de Queiroz resistia à idéia de escrever suas memórias, mas conta que sua irmã venceu pela insistência.
 
"Ela me obrigou a fazer este livro... Ela chegou com um gravador na mão..."
 
"...Não gosto de memórias. Nunca pretendi escrever memória alguma. Se quiser, terá que me extorquir as lembranças do passado, as coisas que testemunhei, as pessoas que conheci... Há coisas na vida de cada um, que não se contam..."
 
"...Memórias é um gênero muito pouco sincero: você apresenta ao público a pessoa que gostaria de ser."
 
Memórias
 
"Em 17 de novembro de 1910, em Fortaleza, nasci. Era muito grande, muito forte e já sem querer dormir. Ainda com poucos dias, me colocaram para dormir com nossa bisavó Miliquinha, que sofria de insônia e não podia ler de noite porque tinha catarata. Fazíamos companhia uma à outra muito satisfeitas.
 
Mamãe tinha dezoito anos, papai vinte e quatro. Era um casal jovem e muito bonito. Papai depois engordou, mas mamãe sempre foi linda. Aliás, foi por causa desta beleza, tão incontestável quanto o azul do céu, que sempre me considerei uma espécie de apêndice feioso dela. Nunca tive rivalidades com mamãe. Eu era feia, havia puxado o lado dos Queiroz. Meu irmão Roberto era bonito. Havia puxado mamãe... O fato de mamãe ser linda, sempre foi um fato que iluminou muito minha vida. Nunca me esforcei em ser pelo menos mais "bonitinha". Eu me satisfazia com a beleza de mamãe.
 
Em 1917 viemos para o Rio. Naquela época, o Rio era o paraíso, a movimentação da vida social, teatro, cinema, e não se tinha nada disso na província. Primeiro ficamos numa pensão no Catete. Depois, alugamos uma casa de vila, perto da rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Papai trabalhava como advogado. Detestou trabalhar no Rio. Então, largou tudo e em 15 de novembro de 1917 desembarcamos no Pará. Em 1919, chegamos ao Ceará, com mamãe grávida de Luciano.
 
Minha primeira paixão foi aos nove anos de idade, por Arcelino (Celino), o grande galã da família, muito jovem e bonito. Tinha seus vinte e três anos e era disputadíssimo pelas moças. Pra mim, ele era o máximo. Em 1919, tomei uma consciência maior da família, e Celino tornou-se meu galã, meu paradigma, a pessoa por quem fui tomada da maior admiração e fascínio. Celino era uma figura romântica. Desde criança eu tinha um carinho muito grande por ele. E ele por mim, até morrer.
 
Um episódio curioso, foi que eu, como professora da Escola Normal, era mais nova do que a maioria das minhas alunas. Tinha 18 anos, e adquiri grande popularidade por me colocar junto às meninas em qualquer reivindicação, enfrentando o diretor, disciplinador e autoritário. Me elegeram a Rainha dos Estudantes, quando fui muito festejada, porque, sendo jornalista e já tendo saído "O QUINZE" (1930), meu primeiro romance, havia muita badalação em torno de mim.
 
Cidade pequena, sabe como é... No dia da minha coroação, entrou na sala um rapaz fardado do Liceu gritando: "Pára! Pára! Chegou notícia de que João Pessoa foi assassinado no Recife!". Com o alvoroço, minha coroação ficou tumultuada: eu tirei a coroa com uma das mãos, com a outra apanhei a saia, fui para o meio da confusão e a coroação acabou virando comício, com o pessoal fazendo discursos. João Pessoa estragou minha festa.
 
Toda a escolaridade que tive, foi de 1921 a 1925, quando me diplomei professora. Lia muito. Mamãe tinha uma biblioteca muito boa e tanto ela quanto papai me orientavam nas leituras. Quando era adolescente, faziam sessões de leitura. Quando chegavam em pedaços mais escabrosos, de Eça por exemplo, discretamente pulavam. Naquele tempo, moça não podia ler cenas de sexo.
 
Em 1927, comecei a ler de verdade. Lia tudo que me caía nas mãos (sob censura de papai e mamãe). Lia Dostoievski, Gorki, Tolstoi... Todos de quem herdei a paixão de mamãe.
 
Em 1931, vim ao Rio receber o prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha, dado a "O QUINZE". Meu livro havia sido uma das últimas leituras do velho Graça, que me escreveu uma carta entusiasmada, já falando do prêmio.
 
Dias depois teve o enfarte. Eu namorava Zé Auto, que conheci na viagem ao passar de navio pelo Recife. Na volta ao Ceará, Zé Auto já havia sido transferido para Alagoas. Nosso namoro se fez por correspondência durante todo o fim de 1931. Fiquei no Ceará até 1932, quando voltei pro Rio, após ter sido presa em Fortaleza. Eu era comunista, integrante do PC, e muito bem doutrinada por Djacir Menezes, Jáder de Carvalho e Moesia Rolim, membros de minha corriola.
 
Em 14 de dezembro de 1932, casei-me com Zé Auto, no Pici (Sítio da família), com cerimônia em casa. Casei-me com um vestido de linho branco bordado por mamãe. Seguimos para Itabuna, na Bahia. Zé Auto era funcionário do Banco do Brasil.
 
Em 1933, apareceu na minha vida uma das pessoas que me marcaram de modo profundo: Carmelita, uma negra alta, forte, talvez sexagenária. Cuidava de mim, porque me caia de antojos: estava grávida.
 
O Banco do Brasil trabalhava em regime de tirania, e Zé Auto passava a maior parte do dia lá. À noite, fazia serões. Minha bolsa rompeu enquanto eu bordava um vestidinho para Isinha (minha irmã, Maria Luíza)... Meu irmão Roberto embarcou comigo para Fortaleza, de navio. Minha filha nasceu pelas mãos de uma parteira, porque eu não queria médico. Era muito pudica.
 
Zé Auto foi transferido para o Rio. Clotildinha tinha quase um mês e já havia recuperado peso do parto prematuro. Em fevereiro de 1935, uma febre alta, seguida de meningite, levou minha filhinha. Três meses depois, morreu meu irmão Flávio, de uma septicemia causada por uma espinha no rosto.
 
Enjoada de tudo e infeliz, com o casamento em crise, resolvi trabalhar no comércio. Procurei emprego na firma G. Gradhvol et Fils, uma firma de judeus, onde me encarreguei da correspondência em francês e inglês.
 
Em 1939, eu e Zé Auto nos desquitamos. E então conheci Oyama, meu grande companheiro...
 
 Se quiser saber mais sobre a vida e a obra desta grande escritora, leia "TANTOS ANOS", de Rachel de Queiroz e co-autoria de Maria Luíza Queiroz, da Editora Siciliano.
 
Colaboração de: Vanessa Veiga

 

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