Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

RAUL SAMPAIO
publicado em: 14/11/2016 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 03/10/2002

LOU - Qual é o seu nome todo?

RAUL - Raul Cocco, pseudônimo Raul Sampaio

LOU - Como é o nome de seus pais?

RAUL - Meu pai é José Cocco, filho de italianos e minha mãe Fany Sampaio, de origem meio portuguesa, Brasil - Portugal.

LOU - Em que dia, mês e ano você nasceu?

RAUL - 6 de julho de 1928, vou para 74 anos, se Deus quiser, este ano.

LOU - 74 anos? Não parece não.

RAUL - Ainda bem, né?

LOU - Agora, me conta da sua vida, quando era criança, onde você morava?

RAUL - Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. O que eu fazia? Estudei, fiz o primário...na Escola Pública, como toda criança, principalmente naquele tempo.

LOU - Todo mundo estudava em Escola Pública. Era o melhor ensino.

RAUL - Não era bagunceiro, eu sempre fui um cara na boa medida, fazia versinhos, que eram publicados em jornaizinhos de classe que, naquele tempo, eram mimeografados.

LOU - Seu primeiro versinho foi feito....

RAUL - Talvez por aí com 11, 12 anos. Aquela coisinha.. "garoto vai pra escola, levando ao lado a sacola..."

LOU - Você lembra de algum ?

RAUL - Não. O que eu me lembro é que uma vez, lá em Cachoeiro, um cidadão chamado Reneé, me chamou pra mostrar que tinha arquivado uns versos meus, do tempo do colégio...

LOU - E como você começou revelar ao público a sua vocação?

RAUL - Mais tarde, já rapaz, eu comecei a participar de canto. Mas, era muito tímido. Mesmo assim, mais tarde, eu andei participando de alguns eventos, criados lá no teatro, onde entrava sempre o canto.

LOU - Isso foi muito bom pra você superar a timidez!

RAUL - É verdade. Por volta de 44 ou 45, surgiu em Cachoeiro, a primeira emissora de rádio, a ZYL9 - Rádio Cachoeiro de Itapemirim. Então, com um amigo meu do colégio, formamos um conjunto - uma dupla - "Dois Valetes ". Já era influência do rádio, pois havia o grupo Quatro Ases e Um Coringa.

DESCREVENDO CACHOEIRO

Cachoeiro de Itapemirim é um vale que fica numa região montanhosa e acompanha um rio. Tal e qual o Rio de Janeiro e o mar. Eu ouvia lá de casa uma moça que cantava numa casinha que tinha lá na encosta do morro. Tornamo-nos amigos, e então eu a convidei pra cantar com a gente. A Rádio Cachoeiro do Itapemirim era do Alceu Fonseca . Nós fomos os primeiros a cantar quando ela iniciou, ainda embaixo dos transmissores. Eu não sei nem se alguém ouviu, mas que nós cantamos, cantamos. Eu, ele e essa moça.

LOU - Qual era o rapaz?

RAUL - Era o Loé.

LOU - Como era o nome dela?

RAUL - Noêmia Cavalcanti. Mais tarde ela veio pro Rio, eu também vim..

RAUL - Naquele tempo, era ruim de ouvir rádio, por causa da pouca potência. Mas a gente conseguiu e eu me lembro que, um dia, eu fiquei ouvindo um negócio chamado Trio de Ouro. Estava cantando Minueto tu és do Municipal...(cantarolou). Eu disse: Meu Deus do céu que coisa gostosa esse troço. Aí, convidei essa moça, e fui experimentar com o rapaz pra fazer alguma coisa parecida e aí criamos o Dois Valetes e uma Dama. Foi só botar o nome de Dama.

LOU - Como foi sua entrada no mundo artístico aqui no Rio?

RAUL - Chegando aqui, já rodando por aqui, o Hamilton Frazão acabou me descobrindo, na cidade, no barbeiro. Ele disse: Você quer cantar lá no programa do César de Alencar? Como é que vai a dupla? Ele era locutor do programa do César de Alencar, na Rádio Nacional. Eu disse:
- A dupla não, eu posso ir lá cantar, mas eu levo um trio.
- Ué, agora é trio?
- É. Ah, eu vou levar o Trio Dois Valetes e uma Dama.

LOU - César de Alencar do programa de calouros?

RAUL - O negócio era o seguinte: o programa do César de Alencar apresentava o Padrinho do Calouro. Neste caso, ele era o padrinho e nós seríamos os calouros. Fomos muito bem nesse dia. Fomos ouvidos por Lourdes Torelly que era mulher do Herivelto Martins, que nesta época, já estava separado de Dalva de Oliveira. Então, Dona Lourdes me disse : - Raul, você vai domingo à casa da Noemi, que eu vou levar o Herivelto lá pra conhecê-la. E foi assim que eu conheci o Herivelto Martins. Depois, fomos à casa do Benedito Lacerda, lá na Rua dos Artistas, em Vila Isabel, pra fazer o teste da Noemi Cavalcanti. Benedito aprovou e começamos o trabalho de ensaio da Noemi, preparando-a para refazer o Trio de Ouro. A gente ensaiou, durante três meses, pra refazer o conjunto.

LOU - E quem ensaiava no Trio de Ouro?

RAUL - Herivelto, eu e a Noemi Cavalcanti. Foi então que entrou a cabeça do Davi Nasser Ele receava que o Herivelto Martins, recomeçasse com o Trio de Ouro com gente nova, quer dizer, ele só e mais dois.

LOU - Quem fazia parte do primeiro Trio de Ouro?

RAUL - O Trio já era famoso. Ele, o Herivelto, a Dalva e o Nilo Chagas, um negro com uma postura, um negro de boa altura, que fazia aquele porte. Então a figuração, as fotografias, tudo que se conhecia era Nilo Chagas. - "Como é que você vai enfrentar uma parada dessas, você um rapaz novo, mais uma cantora nova. É melhor você chamar o Nilo outra vez, declarou David Nasser. E o Herivelto me chamou e disse: 'Eu vou chamar o Nilo novamente". Ele fez isso contrariado porque já não queria mais lidar com o Nilo. Mas o David iria ajudar na cobertura do Trio, era um jornalista famoso... Sugeriu isso... E, é lógico, voltou o Nilo.

LOU - A Noemi saiu do seu conjunto pra ir pro Trio de Ouro! Você perdeu seu trio? E fez o quê?

RAUL - Eu continuei trabalhando, né? O meu conjunto era amadorismo puro. Saí do Laboratório Dalti Oliveira e fui trabalhar na Guitarra de Prata. Era uma casa de instrumentos musicais. Onde conheci Dilermando Reis e músicos que iam lá comprar coisas. Nesse tempo eu ia apenas a programas de calouros. Eu ia com a minha dupla na Rádio Mauá. Algumas vezes cantei na Rádio Nacional.

LOU - E a dupla quem era?

RAUL - Eu e Loé Moulin. A Dupla Dois Valetes. E nós cantávamos no programa do Renato Musque, como se chamava aquilo? Papel Carbono. E naquele tempo se fazia muitos shows em Vila Isabel, shows de amadores pra angariar fundos pra isso, pra aquilo. E na Guitarra de Prata, eu trabalhei um ano.

RAUL - Esse conjunto vocal com a Noemi Cavalcanti, um ano e oito meses depois, tal como Herivelto já previa, degringolou. O Trio de Ouro se dissolveu novamente porque a Noemi teria ficado no lugar da Dalva de Oliveira, que era a esposa do Herivelto. Foi uma época difícil. Lá em Vitória, jogaram até tomate na moça, no palco. Eles confundiram como se ela tivesse sido a nova amante do Herivelto Martins.

LOU - E não era, não?

RAUL - Não. Era a Lourdes Torelly. A Noemi nunca teve nada. Ela me relatava: " O constrangimento era enorme", então ela tava se sentindo muito insegura. Um dia disse pro Herivelto: eu não quero mais continuar. Realmente, aonde chegasse, ela sofria uma perturbação, porque saía muitas coisas nos jornais. Ela faleceu há um ano e pouco atrás.

LOU - A separação de Herivelto Martins e da Dalva de Oliveira foi uma briga terrível, que saiu na imprensa, cheia de escândalos...

RAUL- Mas, quando ela saiu, o Nilo Chagas resolveu, não sei porque cargas d'água, sair também e disse: Raul, você entra no meu lugar, porque eu vou sair. O Herivelto chegou a me dizer: Eu sabia que um dia ele ia fazer uma molecagem qualquer.

LOU - E você voltou pro Trio de Ouro?

RAUL - Na verdade, durante esses quase dois anos do conjunto Trio de Ouro, com a Noemi, o Nilo e o Herivelto Martins, eu vivia constantemente com o Herivelto e já havia mostrado pra ele minhas primeiras músicas. Até que uma noite, Herivelto diz: vamos à casa de Nelson Gonçalves, nesse tempo, ele morava com a Lourdinha Bittencourt, ali na Rua do Russel. A Lourdinha Bittencourt era uma cantora lírica e bailarina, estrela do Walter Pinto naqueles shows que ele fazia no Teatro Recreio. Ela era uma menina precoce. Cantava, sob a tutela da mãe, D. Maria. que disse:

- Herivelto você tá sem o Trio outra vez, porque você não bota a Lourdinha no Trio? Experimenta cantar com ela.
- Eu não boto, não sei, acho muito ruim, ela tem que cuidar é do Nelson. (Depois o Nelson era considerado um problema, né? Por causa de bebidas e outras coisas mais. Nesse tempo, ainda não era tóxico não, era mais bebiba mesmo).
O Nelson falou:
- Não, Herivelto, pode botar a Lourdinha à vontade que eu não vou atrapalhar nada não! Se a Lourdinha quiser canta com vocês não tem problema não.

O TRIO DE OURO VOLTA A BRILHAR

Então, acertamos com ela e começamos a ensaiar até que gravamos a primeira música na RCA Vítor que foi precisamente uma regravação da música Ave Maria no Morro, uma canção que foi o carro-chefe do Trio de Ouro. Havia sido gravado em 46/7 com Dalva de Oliveira e nós fizemos a segunda gravação em 52, era o teste final. Porque Ave Maria no Morro necessita realmente de dar aquele agudo final em fá.

Pra Lourdinha aquilo era brincadeira. Botamos no mesmo tom e fizemos uma gravação soberba que era a forma de reapresentar o Trio de Ouro.

LOU - Quais as músicas que vocês cantavam?

RAUL - No Trio de Ouro, fundamentalmente, Ave Maria no Morro, era a música principal. Esse Ave Maria, Laralirili... do Jaime Redondo e o Vicente Paiva fomos nós que praticamente difundimos esse troço, aí, que tornou a música muito famosa. Brazilians Folies foi um dos últimos espetáculos que nós realizamos e chegou a se apresentar lá em New Orleans, quando nós fomos participar de um evento turístico. A minha participação no Trio de Ouro fechou, praticamente aí. Seguiu um pouquinho mais adiante, com uma moça também de Cachoeiro do Itapemirim, que alguém descobriu aí. Acho que foi Grande Otelo quem descobriu, chamada Shirley Domm e com essa moça nós fizemos alguma coisa, rodando pelo Brasil, no projeto Pixinguinha e gravamos com ela um disco com três músicas feito pela Funarte sobre a vida de Herivelto Martins. O produtor do disco foi Emílio Belo de Carvalho e essa foi a última participação minha até a morte do Herivelto Martins com o Trio de Ouro.

LOU - Em que ano foi isso?

RAUL - 76, por aí, logo depois Lourdinha morreu. Evidentemente e concomitantemente eu começava em 50 a montar a minha vida de compositor porque o contato com a Rádio Nacional, Rádio Mundial, Rádio Tupi, com os artistas começou a abrir campo para que eu pudesse mostrar as minhas músicas. E foi assim que eu cheguei a gravar cerca de 230 a 235 músicas, que compus com grandes artistas brasileiros.

LOU - Por exemplo.

RAUL - A minha carreira de compositor começa com Isaurinha Garcia, que era na época, uma cantora famosa. Eu diria, sem nenhum medo de errar, uma das maiores cantoras que o Brasil produziu. Uma voz fantástica, uma afinação bárbara.

LOU - É verdade! E o que ela cantou de sua autoria?

RAUL - Cantou uma marchinha de carnaval Aladin." Aladin, Aladin, vem trazer esse tesouro para mim..." A melhor forma do compositor começar era pelo carnaval. Porque, no carnaval, gravava-se música pra caramba, pelo menos uma seiscentas. Então começou, naquela época, a entrar em minha vida: Gilberto Milfon, Cauby Peixoto, Orlando Silva, Elizeth Cardoso.
Foram mais de 200 personagens da música popular brasileira gravando obras minhas. Evidentemente, nem todas eram as originais porque as músicas muitas são as que nós chamamos de regravadas.

LOU - Quais são as músicas que você destaca ?

RAUL - Orlando Silva, por exemplo, gravou originalmente "Eu chorarei amanhã, hoje não posso chorar..." Depois sofreu uma série de regravações Elza Soares e mais outras pessoas. Miltinho gravou Lembranças de 62: "Lembro um olhar, lembro um lugar teu vulto amado, lembro o sorriso e o paraíso que eu tive ao seu lado..." Essa música teve muitas e muitas gravações. Uma das últimas gravações dessa música, que é do Elymar Santos, já está no mercado. Mês passado ou dois meses atrás saiu uma gravação com Pery Ribeiro, até ouvi essa semana na Rádio Globo, tocando. Curiosamente o cidadão que tocou disse que a música era de Haroldo Barbosa e Luís Reis. Eu gravei com tanta gente, que confunde as pessoas.

LOU - Confunde o nome do autor?

RAUL - O Adelino Moreira gravou muita coisa com Nelson Gonçalves. Quase que 60 ou 70% da obra do Adelino Moreira foi gravada pelo Nelson Gonçalves. Eu gravei 10 . É o caso do Nelson Gonçalves que gravou: "Hoje tão longe dos teus lábios sedutores, sem os carinhos dos teus beijos meu amor, não tenho horas de sossego em minha vida só mais um barco que não tem navegador" . Chama-se "Revolta".

Muita gente fica pensando que é do Adelino, porque a minha música se adaptava ao estilo que os caras gostavam de cantar. Eu gravei com Orlando Silva um samba para o carnaval que dizia assim: "Meu pranto rolou, mais do que água na cachoeira depois que ela me abandonou. Alguns anos depois, ela foi gravada por Vinícius de Moraes e Toquinho.

LOU - Qual é o nome dessa música?

RAUL - "Meu Pranto Rolou". De certa forma, as pessoas pensam que é do Vinícius e Toquinho, porque,talvez, tenha sido uma das raras músicas que ele tenha gravado que não seja de autoria dele. E é um sucesso enorme, talvez seja o maior sucesso na Itália, na França. Um dia chegou uma pequena parcela do Direito Autoral até de Israel. E isso tudo por causa da influência de Vinícius que viajava com Toquinho pra França e lá divulgava o material e acho que "Meu pranto Rolou" foi nessa. Inúmeros cantores gravaram pra mim, podes crer. Anísio Silva, Emílio Santiago, Paulinho da Viola, Fafá de Belém, Maria Bethânia são cantores que regravaram músicas minhas. Benito di Paula cantou quase todo o disco de sambas leves. Ele pegou um samba - canção meu e gravou. Com certeza, quando começaram lançar músicas a partir de 55, 56, desses cantores mais antigos é muito difícil não ter algum deles que não tenha gravado comigo.

LOU - É mais fácil você citar quem não gravou...

RAUL - Vou dizer os que não gravaram: Emilinha Borba, Linda e Dircinha Batista,

LOU - E os homens?

RAUL - Só o Francisco Alves porque era malcriado.

LOU - Por que você não gravava as suas músicas?

RAUL - Eu fui muito bobo, Maria de Lourdes - Eu devia ter cantado sozinho há muito tempo. Custei muito a começar porque até então eu vivia de uma porcentagem de algumas coisas do interior e não era fácil levar o pão de cada dia pra casa. E nesta época, eu morava num apartamentinho no Flamengo, como dizem, daqueles que o cara já entra de costas pra facilitar a saída.

GRAVANDO O PRIMEIRO DISCO

O Benil Santos, um amigo, um parceiro, levou uma música ao dono de uma gravadora, chamado José Iscatena, e me disse: "Sampaio, o homem quer que você mesmo grave. Eu disse: Mas rapaz, eu cantando com o Trio de Ouro vai criar ciúme com o Herivelto Martins!
- Mas ele quer que você cante.
Eu topei a parada. Quando eu gravei o disco, que era do tempo de 78 rotações, em 62, o homem deu ordem pro Benil. Fala pro homem que é pra preparar as músicas pra fazer um LP. Eu então, comadre, fiz o LP. Essa semana, eu peguei um táxi, quando eu falei que tinha feito as músicas "Cachoeiro", "Quem eu quero não me quer", o motorista disse: Não brinca moço! Essa música, quando eu tava namorando era o que mais tocava, nos parques de diversão. (risos)

LOU - Canta um pouco!

RAUL - Quem eu quero não me quer. Quem me quer, mandei embora. E por isso eu já não sei o que será de mim agora...

LOU - Mas me conta do "Pequeno Cachoeiro", considero um poema!

RAUL - Então, nessa história toda, parti pro LP, deu certo, comprei meu primeiro Fusca e partimos pro segundo disco. Nesse segundo disco, eu tinha esse meu amigo Loé que insistia pra eu fazer uma música pra Cachoeiro. Na verdade, nunca me ocorria essa idéia. Em 62, em qualquer momento da minha vida, surgiu a idéia e comecei a compôr "Meu Pequeno Cachoeiro". Logo quando eu comecei a compor a música eu chorei muito, me dava muita emoção. A emoção é forte nas pessoas saudosistas. Até porque eu estava no Rio de Janeiro, longe do pai e da mãe.

LOU - E é um verdadeiro poema mesmo.

RAUL - Eu gravei essa música em 63 e a música não ficou conhecida em lugar nenhum. Mas, em Cachoeiro do Itapemirim passou a ser um hino. Começou a tocar muito em Cachoeiro, na emissora local, até que, em 1966 dois vereadores locais entenderam que a música deveria se tornar o hino oficial da cidade, e em 26 julho de 1966 eles transformaram em hino oficial da cidade a música "Meu Pequeno Cachoeiro" que, na época, chamávamos de "Meu Cachoeiro".

LOU- E o Roberto Carlos?

RAUL - O Roberto foi à cidade porque tinha recebido uma homenagem em Cachoeiro como Cachoeirense ausente número 1, em 1968. Alguém disse: Roberto, você podia gravar "Meu Pequeno Cachoeiro"...Rolou, rolou até que ele gravou a música em 1969. Curiosamente foi em 1969 que fui homenageado em Cachoeiro como cachoeirense ausente número 1.

Cachoeiro do Itapemirim tem uma festa criada pelo jornailsta Newton Braga, irmão do Rubem Braga. Ele instituiu que no dia 29 de junho, dia de São Pedro, chamado padroeiro da cidade, seria o dia da festa de Cachoeiro. Em janeiro de 70, já estava na rua e a música ficou conhecida no Brasil inteiro. Antes do Roberto, era só em Cachoeiro.

LOU - Ganhar a sua vida com direitos autorais não rende muito. Seria melhor que você fosse o próprio cantor das suas músicas. Daria mais lucro?

RAUL - O compositor não tem como receber muito dinheiro do direito autoral no Brasil por muitos motivos: o primeiro é que a arrecadação é muito pequena para o universo de música que se toca, principalmente hoje em FM . Em geral, as músicas são de dois porque geralmente um faz a música o outro faz a letra. Eu, apesar de ter muita música que tenha feito sozinho, eu tenho sempre tive que dar parceria, porque sozinho eu não conseguiria chegar onde cheguei. Eu tinha que ter um craque perto de mim, alguém com qualidade até pra fazer a abordagem.

LOU - Por causa da sua timidez?

RAUL - Fico com medo da pessoa dizer que não gostou. Tem até uma curiosidade a respeito disso: numa tarde, eu entrei na Rádio Nacional, e tinha um cidadão sentado chamado Jorge Veiga. Aí eu disse: Ô Jorge, tem uma música que eu quero te mostrar. Ele respondeu: Tô lotado. Ele tava cheio de música. Naquele mesmo dia, uma hora depois, eu estava numa salinha de ensaio com Trio Iraquitã: era o Edinho, o Gilvan e eles estavam ensaiando. Quando eles terminaram o ensaio, eu falei: Ô Edinho, dá pra você fazer um tom pra mim pra eu cantar uma música porque é uma música fresca, novinha e tá no embrião e eu quero ver como ela ficaria. E ele, de boa vontade, armou um tom e começamos a cantar e ele se entusiasmou, gostou da música e foi procurando os efeitos do acompanhamento. De repente, uma voz atrás de mim, lá da porta falou assim:
- É esta música que você queria me mostrar? Eu olhei, era o Jorge Veiga.
- É essa, Jorge.
- Passa na fábrica e assina o contrato.

LOU - Qual era a música?

RAUL - Tu verás que eu ainda sou o que mais deseja te ajudar... umas das músicas mais bonitas que já fiz. Chamava-se Solução. É uma melodia linda.

RAUL - É uma música que, de certa forma, tem um pouco de Bossa Nova, porque ela foi gravada num disco fantástico, chamado Brasil Bossa Nova, pelo irmão do Radamés,
o Alexandre que fez um LP para o Nilo Sérgio, chamado Brasil Bossa Nova.

A primeira faixa é a minha música, depois tem a música do Jobim, do Bôscoli.

LOU -Com essa você não teve parceiro?

RAUL - Não, tive parceiro sim. Mas isso são coisas que tinham que acontecer. Eu li essa semana um negócio - acho que do Veríssimo - que dizia o seguinte, em linhas gerais: Se você pudesse mudar os caminhos da vida que você levou, você poderia chegar à ruína ou à fortuna, mas com certeza não lhe faria bem. Veríssimo foi feliz demais ao escrever isso. A verdade é que tudo que fizemos é o que tinha que ser feito. Por acaso, eu disse aos meus parceiros: Olha, "Meu Pequeno Cachoeiro" eu vou assinar sozinho porque afinal de contas é coisa da minha terra, não há motivos pra ter um parceiro que soaria falso. A coisa é autenticamente Raul Sampaio.

LOU - Suas músicas são muito românticas e traduzem muita fossa. Você sofreu mal de amor?

RAUL - Eu tive uma paixão muito forte em Cachoeiro do Itapemirim e, anos depois, eu conversando com essa moça eu disse: Imagine se tivesse me casado com você, não dava certo. Então, a renúncia foi ótima, foi excelente.

LOU - Mas porque você renunciou? Havia alguma proibição?

RAUL - Não, não havia não. Eu não sei talvez por diferença social. Mas isso aí foi ótimo. Por quê? Essa moça me trouxe uma coisa muito importante: imagens que eu fiquei criando da frustração amorosa que é uma coisa mais ou menos hipotética, uma fantasia, e elas me fizeram compor muitas coisas. Então eu diria: Meus Primeiros Madrigais. Quer dizer, na verdade não tem inspiração maior pra gente que compõe, como dizia Lupicínio "Que a dor de cotovelo". E a fantasia do amor que não existiu, que se perdeu... na verdade, isso faz compor. E por conta disso me trouxe muita idéia, muita inspiração...Então valeu a pena que fosse assim. E depois, no fim das contas, eu me casei com uma mulher que era ótima, que eu gostava dela. Emocionalmente uma mulher que me preencheu totalmente. Ela faleceu e eu fiquei meio feito peixe fora d'água. E a outra, que me casei depois, é um lago, uma mansidão de calma.

LOU - E aí, qual é o seu recado para os Velhos Amigos?

RAUL - A pessoa deve ter o princípio de vigilância consigo mesmo e não ficar vigiando os outros. Procurar ser gentil com todo mundo. Saber quando a gente tá sendo egoísta, saber quando a gente tá querendo ser inescrupuloso. Até é curioso isso. Às vezes ficamos preocupados em ser gentis com os de fora e, nem sempre, somos muito gentis dentro de casa. Quem faz o destino somos nós. Eu tenho esse ponto de vista porque sou de origem espírita. Jesus Cristo é realmente o mestre, mas o meu mestre de ensino chama-se Alan Kardec. Não quero dizer que eu seja esse anjinho, mas esse é o ponto principal da minha luta comigo mesmo.

LOU - E hoje, você ainda está em atividade?

RAUL - Eu falei sobre o Direito Autoral. Eu sou aposentado pelo INSS. Em determinada época, em 1970, por aí, começou-se a lutar para que o compositor fosse reconhecido. Eu era do INPS pela Rádio Nacional, onde trabalhei 15 anos. Depois, então lutou-se pra conseguir que o compositor pagasse como autônomo. Quando isso começou, começou com 2 salários mínimos, depois pulou pra três até permitir que se pagasse 20 salários mínimos. Então começamos a pagar. Eu como tinha que pagar como empregado e patrão, pagava sobre 15. Segurei a barra até me aposentar para fazer a média. Me aposentei ganhando a média de 10 salários mínimos e o Fernando Henrique foi baixando, baixando e, hoje deve estar uns seis salários mínimos.

LOU - Dez salários seriam dois mil, mas como são seis. Você ganha mil e duzentos.

RAUL - Por aí. O Direito Autoral é o que supre pra poder ter uma vida razoável... a minha mulher também se aposentou, porque ela tinha um salão de cabeleireiro e também contribuía. Então, o direito autoral é um complemento pra mim. Tem ocasiões que as coisas são melhores... Neste sentido o direito autoral é que dá um pouco mais de segurança. Levo a vida da seguinte maneira: vivo aqui no Rio de Janeiro num pequeno apartamento no Engenho Novo e me desloco constantemente para Marataízes, onde tenho uma casa lá na praia, produto da dispensa da Rádio nacional.

LOU - E a música?

RAUL - Na verdade, fiz agora um disco, patrocinado pela prefeitura de Cachoeiro do Itapemirim onde eu coloquei muitas músicas inéditas, muitas peças vendidas em benefício de algumas instituições de Cachoeiro do Itapemirim e aqui no Rio, a maioria dos discos eu dou. E alguns eu andei vendendo pra pelo menos ajudar a pagar o correio. E essa tem sido a nossa vida.

LOU - Qual é a gravadora?

RAUL - Independente: O produtor sou eu mesmo. Foi patrocinado pela Prefeitura de Itapemirim e duas empresas que me ajudaram lá. E uma delas me ajudou a fazer o livrinho que acompanha o disco, que é uma gráfica no Espírito Santo, talvez uma das três maiores gráficas do Brasil, do nosso conterrâneo Mário Cruz.

LOU - E qual é o nome do CD?

RAUL - O CD se chama "Raul Sampaio, 50 anos depois". Meu Pequeno Cachoeiro abre o disco, e as demais músicas são quase todas desconhecidas, inéditas. Mas são aqueles mesmos estilos de músicas que é o meu jeito de fazer música. Tenho uma variação muito grande de estilo musical, tem choro, samba, canção, toada, enfim é um disco mais ou menos mostrando o meu estilo de compor e o tipo de poesia que eu gosto de fazer. Esse disco não está à disposição de qualquer um. Quem sabe um dia vai virar uma peça rara?

LOU - Ah, vai ser uma maravilha! Eu vou divulgar no site. Obrigada pela sua entrevista aos Velhos Amigos. Tão rica em fatos e curiosidades dessa vida de artista... Foi muito bom conhecer um pouco da sua história, desse grande compositor da MPB, cantadas até hoje, pelos nossos maiores intérpretes.

O CD pode ser adquirido pelos telefones:
2261-7214/2596-4960/2289-1148 (Ótica Elo)
Na Livraria Funarte e na Discoteca do CCBB, no Rio de Janeiro.

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA