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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

ROBERTO MENESCAL
publicado em: 09/12/2016 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 21/03/2006

MARÍLIA: Quando e onde você nasceu?
MENESCAL: Eu nasci no Espírito Santo, Vitória, no dia 25 de outubro de 1937.
 
MARÍLIA: Pesquisando sobre você, eu vi pela data que esse rapazinho vai fazer 70 anos.
MENESCAL: No ano que vem...

MARÍLIA: Você nasceu e foi criado lá?
MENESCAL: Não. Eu vim para o Rio com 3 anos e fui morar no Jardim Botânico. Fiquei morando lá até os 12 anos, quando fui para Copacabana.

MARÍLIA: Que naquela época era a "Princesinha do Mar". Foram realmente anos dourados?
MENESCAL: Ah!, era o máximo! E eu peguei toda essa Copacabana maravilhosa, explodindo com tudo. As pessoas que queriam cultura vinham para Copacabana. Toda a inteligência do Rio estava ali. Depois, fiquei lá até 25 anos, quando me casei e fui morar em Ipanema. E, aí, peguei a época da "Garota de Ipanema".

MARÍLIA: Pegou tudo de bom...
MENESCAL: E não parou aí não! Depois vim para a Barra e pegamos tudo de bom novamente.
 
MARÍLIA: Agora, vamos falar sobre a sua vocação para a música. Eu li que você estudou piano com uma tia, depois acordeon, gaita e tal. E como é que você escolheu exatamente o violão?
MENESCAL: Bom, primeiro eu não sabia que tinha jeito para a música. Mas um dia, eu acho que eu tinha uns 10 anos, meu pai trouxe duas gaitinhas de plástico. Ele deu uma para mim e outra para o meu irmão. Naquela noite, eu já estava tocando e meu irmão nada. Então, meu pai falou: - "Puxa, como é que você aprendeu isso?" Eu disse: - "Não sei. Eu saí tocando". Aí comecei a tocar outras.

MARÍLIA: A vocação era inata.
MENESCAL: Era. No nosso prédio, em Copacabana, morava uma tia que era professora de piano. Eu comecei a aprender piano, mas não foi legal porque era aquela coisa muito rígida.

MARÍLIA: Não era a sua praia.
MENESCAL: Ela batia no meu dedo com uma varinha, toda vez que eu improvisava - sabe como é, eu gostava de botar umas notas diferentes, e ela batia.

MARÍLIA: Tinha que ser na disciplina.
MENESCAL: Aí, eu fiquei um pouco, um ano talvez, e me liberei. Fui tocar um pouco de acordeon que era a coisa da onda. As mulheres, as meninas todas tocavam acordeão com aquele vestido de baile. Então, eu fui tocar também. Mas um dia, em Vitória, passando as férias lá, com 17 anos, eu ouvi o violão e senti que era aquele som que eu queria tocar. Eu gostava muito de música e vi dois caras, já na madruga, voltando sozinhos e tocando violão.
Ouvi os acordes e olhei no escuro e vi dois caras sentados num bar, que já estava fechado, mas com cadeiras do lado de fora.
Eram dois caras do Rio que chegaram lá porque tinham ouvido falar que Vitória era legal. Eu sentei com eles e foi a noite inteira de aprendizado. No dia seguinte, eu já estava com um violão emprestado, tirando umas coisinhas, e vi que era o meu instrumento.

MARÍLIA: Então, a partir dali, você começou a tocar. Naquele momento, você optou pelo violão. E a família? Ninguém deve ter gostado da idéia - seus irmãos não são músicos. Você vem de uma família de arquitetos, não é?
MENESCAL: São todos arquitetos, menos eu.

MARÍLIA: Então, e a família?
MENESCAL: A família ficou louca de medo, pensando: o que é que esse cara vai fazer? Com essa profissão de vagabundo! Mas, na verdade, eu cheguei ao Rio já falando:"olha eu quero um violão". Meu pai disse não de cara. Alegou que eu já tinha um piano e que ficasse com ele. Acabei ganhando um violão de um tio meu que era um cara mais flexível.

MARÍLIA: E aí, quando foi que decolou a sua carreira profissional?
MENESCAL: Foi tudo muito rápido. Um ano depois, eu entrei de cabeça. Fui conhecendo umas pessoas e indo aos lugares. E tinha um lugar que eu ia sempre. Eu era menor de idade e ia às matinês. Era um lugar em Copacabana, um teatro do Colé. Naquele teatro eu ia porque tinha uma cantora novinha chamada Silvinha Telles. Ela cantava com o marido, o Candinho. Eu ia toda quarta-feira porque era fã dela. Ela já me olhava, devia pensar "esse cara sempre aqui na primeira fila...". Um dia, ela fez um sinal tipo "vai lá no camarim depois do show". Eu fui atrás e ela falou: - "Que bacana! Eu vejo sempre você aí. Eu moro em tal lugar". E eu disse que morava pertinho dela. "Vai lá em casa um dia", ela disse. "Eu estou grávida, vou ter filho em breve". Logo depois, ela teve o filho e me telefonou.

MARÍLIA: Então, ela já tinha voltado à ativa.
MENESCAL: Ela estava voltando. Eu me lembro da Claudinha Telles com 3 meses de idade. A Silvinha me telefonou e disse: - "Roberto, tive o filho, mas me separei antes de ter o bebê. E eu preciso trabalhar. Vou ter que cumprir uma turnê pelo Norte do Brasil. Você quer me acompanhar?"

MARÍLIA: E você tremeu nas bases...
MENESCAL: Ah, eu fui logo respondendo: -"Mas eu?" E ela logo me tranqüilizou: - "A gente ensaia e tal". Com esse incentivo, eu aceitei e já fui tocando. Quando voltei da turnê, que durou um mês e pouco, eu já estava mais solto, mais liberado daquele medo.

MARÍLIA: Nossa, deve ter sido uma barra essa vacina, tão de repente. Foi seu batismo de fogo.
MENESCAL: Foi mesmo, mas foi ótimo.

MARÍLIA: E depois disso veio "O Barquinho".
MENESCAL: Não, foi depois.

MARÍLIA: Teve a Academia de Violão...
MENESCAL: Quando a gente voltou da turnê, começaram a se formar os grupos interessados em tocar e cantar daquele nosso jeito: Silvinha, Carlinhos Lira, a Nara... Toda aquela patota começou a ficar conhecida como o grupo da Bossa Nova. E quando se falou em Bossa Nova, o assunto virou moda, explodiu e todo mundo só queria a gente para tocar e cantar com a tal batidinha do violão.

MARÍLIA: E a origem do termo Bossa Nova, que eu pesquisei muito e não descobri?
MENESCAL: O termo foi casual. Nós fomos fazer um show com Silvinha, no Clube Centro Israelita Brasileiro, em Laranjeiras. Chegamos lá e havia um cartaz onde se lia "Hoje, Silvia Telles e um Grupo Bossa Nova". Aí, eu pensei que seriam a Silvinha, nós e mais um grupo Bossa Nova. Como não sabíamos quem era o tal grupo, perguntamos a um rapaz, que nos respondeu: - "São vocês, mesmos. É que eu não sabia o nome do grupo e botei assim mesmo, grupo Bossa Nova".

MARÍLIA: Que legal! É muito curioso.
MENESCAL: É, a gente achou legal e adotou.

MARÍLIA: E esse rapaz, ninguém sabe quem é?
MENESCAL: Na verdade, ele botou da cabeça dele. Depois é que gostamos e passamos a usar. Olha, algumas pessoas já se apresentaram como tendo sido quem insistiu na adoção do termo Bossa Nova. Já tivemos uns 3 ou 4 diferentes. Então, eu não quero dizer que foi tal pessoa. Tem uma até que eu conheço bem. Ficou junto da gente, talvez tenha sido, não sei bem. O fato é que o nome ficou.

MARÍLIA: Bom, dali então, foi o sucesso da Bossa Nova. Vocês fazendo turnês pelo Brasil, pelo exterior direto, acompanhando o Dorival, fazendo parcerias...
MENESCAL: Maysa foi uma das primeiras. Fui com ela para a Argentina; depois, fui para o Uruguai acompanhando a Norma Bengell, uma grande artista e vedete na época. E, assim, foi uma coisa atrás da outra. Logo depois, veio a Carmem Rocha. E, aí, a coisa já estava lá, no auge, e a gente não sabia.

MARÍLIA: Globalizou.
MENESCAL: É, a gente não se dava conta do sucesso porque todo mundo era muito inocente.
 
MARÍLIA: Uma coisa bem parecida com aquela época, tudo sem planejamentos, bem diferente das megaproduções de hoje em dia.
MENESCAL: Nada disso. Eu fui para os Estados Unidos sem saber o que era Carnegie Hall, nada. Quando cheguei lá e vi aquele teatrão, nossa! Foi tudo muito rápido. E como foi rápido também, logo veio uma onda que assustou a gente.

MARÍLIA: Que onda foi essa?
MENESCAL: Entrou a ditadura militar. Uma onda oposta à nossa, de muita música, paz e amor. Veio o período da censura, como por exemplo, não poder se juntar em grupos. E a gente só vivia em grupo! Logo depois, também, começou no Brasil a música de protesto, que era uma defesa dos direitos civis, através da música. E eu só queria fazer música, não queria me meter.
Eu estava fora da política e aquilo me assustou um pouco. Então, resolvi estudar música mesmo. Fui estudar orquestração, que era uma coisa maravilhosa pra mim. E comecei a viver disso - de fazer arranjos para os cantores.

MARÍLIA: Você fez muitos arranjos e trilhas sonoras para novela, cinema, tudo.
MENESCAL: É, entrei nesse mundo que, para mim foi o máximo. E fui indo nisso até que, um dia, a Elis Regina me convidou para fazer um show, uma temporada lá no Sucata, onde hoje é o Gattopardo, na Lagoa.

MARÍLIA: Um convite irrecusável...
MENESCAL: Com certeza. Fizemos uma temporada de duas, três semanas e veio um convite para irmos à Feira Internacional de Música. E nós fomos. Só que fomos com a Elis para passar lá três dias e acabamos ficando por um mês e meio.

MARÍLIA: Como assim?
MENESCAL: Nos shows da Feira Internacional, cada grupo tinha o tempo contado, não se podia fazer bis. O organizador do evento foi logo avisando que tinha que ser assim. Não é que, no final da nossa apresentação, esse mesmo cara pediu para que repetíssemos uma música? Não entendemos nada.
 
MARÍLIA: Ele se tornou um fã da Bossa Nova...
MENESCAL: É, depois do show, ele disse que sentiu que a platéia estava gostando e, por isso, tinha pedido o bis. Nós voltamos e fizemos muito sucesso.

MARÍLIA: E daí engrenaram outros shows?
MENESCAL: Quando a gente saiu do palco, esse mesmo cara conversou com a gente e nos convidou para fazer uma turnê na Europa. Assim, do nada e de repente.

MARÍLIA: Mas sem organização nenhuma?
MENESCAL: Assim mesmo. Nós perguntamos:
- "Quando vai acontecer?" Ele disse: - "Amanhã. Vocês têm que viajar amanhã e depois de amanhã já estarão tocando. Se toparem eu armo tudo agora". E nós topamos.

MARÍLIA: Mais uma vez, vocês embarcaram no barquinho do improviso e deu tudo certo...
MENESCAL: Ele deu uns telefonemas, armou a turnê e nós ficamos por lá por um mês e meio. Quando voltamos ao Brasil, fizemos outra turnê com a Elis. Fiquei tocando com ela por uns dois anos e pouco. Foi maravilhoso.

MARÍLIA: Então, você voltou de vez para os shows?
MENESCAL: Não. Logo depois, eu falei que não queria mais. Sabe como é, a Elis era uma pessoa meio difícil de se trabalhar.

MARÍLIA: Era a Pimentinha mesmo!
MENESCAL: Chegou num ponto que eu senti que era muito pique para mim. Eu disse à Elis: - "Agora, está tudo legal e eu vou pular fora. Eu quero trabalhar nas minhas orquestrações".
 
MARÍLIA: E ela aceitou numa boa?
MENESCAL: Teve que aceitar. Conversei com um cara muito amigo meu sobre o assunto, o André Midani, na época, presidente da gravadora Polygram, hoje Universal. Ele falou: - "Não é possível! Você não pode deixar a Elis". Eu disse que já estava tudo resolvido com ela, e então ele falou: - "Você jura que é isso mesmo? Então, quero você na Polygram como produtor musical". Aí, ele me levou para a Polygram.

MARÍLIA: Isso já nos anos 80?
MENESCAL: Não. Nos anos 70. Eu saí em 86 da Polygram. Eu fiquei lá 16 anos. Aí parei de tocar e virei produtor musical. Fiquei como diretor artístico da Polygram. Em 86, eu achei que estava na hora de pular fora. Porque começou aquele negócio de "jabá" e eu pensei: - "Então, não precisa mais de música, precisa de quem negocie bem isso". E não era meu caso. Então, saí de lá meio no peito.
 
MARÍLIA: Foi mesmo por causa disso?
MENESCAL: Duas coisas contribuíram para a minha saída da Polygram: eu estava me sentindo meio inútil no lugar; e a outra foi por causa da Nara (Nara Leão).

MARÍILIA: Uma amiga de longa data...
MENESCAL: É, a Nara sempre foi minha amiga de todo dia, de toda aquela época da Bossa Nova. Ela me disse que queria fazer um disco só de voz e violão. Falou que nunca tinha conseguido, porque sempre havia muita orquestra. Eu disse que achava legal e que ia pensar em alguém que pudesse fazer com ela. Aí, ela me respondeu: - "Eu quero fazer com você". Aí, eu falei: -"Mas, Nara, eu não toco mais, não tenho nem violão". E ela insistiu: -"Mas, pelo menos, me ajuda a tirar as letras e as músicas". Naquilo de ajudar, ela foi me enrolando. Um dia, ela disse: -"Bom, já estamos ensaiados, como é que vai entrar uma outra pessoa agora?". Aí, ela me convenceu - arranjei um violão e fiz o disco com ela, ainda dentro da Polygram. O disco foi parar no Japão. A Nara armou, então, com o presidente da minha companhia, sem eu saber, uma ida ao Japão. Já haviam convidado a Nara para uma turnê lá e queriam exatamente o disco. Então, ela armou porque sabia que eu não ia fazer mesmo. Quando eu vi, já estava tudo pronto e o meu presidente falou: - "Vai, você tem que tirar férias". Eu fui, e nessa excursão, eu senti que ela estava doente. Logo depois, a gente soube que as esperanças de cura eram mínimas, inclusive no sentido de duração. Quer dizer, ela durou 4 anos, mas as primeiras notícias eram de que ela teria 3 ou 4 meses de vida. Eu decidi que ficaria dedicado à Nara esse tempo - por isso, ao invés de 3 ou 4 meses, foram 4 anos de parceria. A gente fez muita excursão, muito disco, fomos ao Japão mais uma vez e ela faleceu depois. Quando ela faleceu, eu pensei: - "Puxa! Ela me deixou músico". Eu vi que havia feito uma coisa legal para ela, mas, na verdade, ela tinha feito uma coisa muito melhor para mim.

MARÍLIA: Foi uma troca entre grandes amigos.
MENESCAL: É, foi isso. Aí, voltei para a música.

MARÍLIA: E esse interesse do Japão pela música brasileira? Como você explica tanto entusiasmo e receptividade, num país de filosofia oriental, onde a língua, a musicalidade e o estilo de vida são tão diferentes do Brasil?
MENESCAL: Eu acho que isso veio com a ida da Nara na primeira vez. Foi em 66. Ela foi com o Sérgio Mendes para lá. E fizeram muito sucesso. Os japoneses descobriram uma música nova. Eles achavam que era música americana, inclusive. Aí, eles começaram a curtir aquilo. Quando eu fui com ela, em 85, eles já curtiam bastante e, com essa nossa ida, a nossa música ganhou ainda mais espaço e público.

MARÍLIA: E até hoje continua, porque muitos outros artistas que você levou fizeram e ainda fazem sucesso no Japão. Emílio Santiago e outros.
MENESCAL: Todo mundo. Gal Costa, Joyce. Esse ano eu vou com a Joyce.

MARÍLIA: Vai só para Tóquio?
MENESCAL: Não. Todo ano a Joyce se apresenta no "Blue Note". Mas lá são três " Blue Note"
em cidades diferentes. Então, esse ano, eu vou fazer uma turnê com ela lá.

MARÍLIA: Você foi músico e produtor musical. Qual das atividades prefere?
MENESCAL: Não sei. Outro dia, me perguntaram isso e até me perguntaram de uma maneira engraçada. Um cara, que hoje é muito meu amigo, que toca blues, rock, me perguntou: - "Roberto, eu li o livro do Castro (Ruy Castro), o "Chega de Saudade"; e, no livro, ele fala muito de você. Por que? Me explica, você afinal é músico, produtor, instrumentista, arranjador, compositor, você é o quê?" Aí, eu fiquei pensando. Talvez justamente seja porque eu sou meio multimídia para a música...

MARÍLIA: Essa seria a minha última pergunta sobre as suas atividades musicais. Você tem uma porção de predicados, uma porção de definições. Como você se definiria, então?
MENESCAL: É o eu que disse: sou um multimídia da música. Não sou o grande instrumentista, não sou o grande cantor, o grande compositor, o grande produtor. Eu sou um pouco disso tudo.

MARÍLIA: Você passeou um pouco por tudo.
MENESCAL: Exato. É por isso que pouca gente na música hoje, uma exceção é a Ivete Sangalo, poucos músicos têm trabalho como eu tenho. Estou falando de trabalho, não de sucesso. O que eu tenho de trabalho é uma loucura! Se eu fosse tentar pegar as coisas todas, nem daria, porque não é um trabalho que eu possa delegar. Por exemplo, agora estou trabalhando num arranjo.

MARÍLIA: É uma coisa pessoal, só você pode fazer.
MENESCAL: É pessoal. Já está começando a me dar até agonia, decidir aonde eu posso cortar. Eu não sei dizer não. Estou tendo que aprender agora. E, talvez por isso, por fazer e ser um pouco de tudo, me solicitam tanto.

MARÍLIA: Vamos falar sobre a Albatroz.
MENESCAL: Albatroz é um selinho da gente que eu acho necessário.

MARÍLIA: Você acha que a criação da Albatroz foi um resultado natural de tudo isso que você fazia?
MENESCAL: Começou assim: eu tinha umas idéias e as gravadoras não aceitavam muito. Por exemplo, quando eu fiz o Aquarela Brasileira com o Emílio Santiago, ninguém quis. Aí, como é que a gente faz? Ninguém topou a ideia. Aí eu pensei, eu vou fazer, então. Eu tinha que fazer um selo para lançar o CD. Mas nem cheguei a lançar, porque a Som Livre ouviu e aceitou, mas eles só queriam a obra e não o artista. Mas o disco fez tanto sucesso que eles acabaram pedindo para eu vender o contrato do artista. Eu disse:- "Eu não vendo contrato, eu não sou vendedor de contratos. Mas posso ceder, ele é de vocês". Fui lançando outros artistas nas mesmas condições: quando não aceitavam, eu lançava pela minha Albatroz, e assim foi.

MARÍLIA: É preciso investir na nossa música.
MENESCAL: Isso mesmo. É uma luta pela música. Eu acho que não é justo os cariocas não estarem gravando. Então, eu gravo com eles.
Gravo com Leny, gravo com uma porção de gente que talvez não tivesse muita oportunidade de estar gravando hoje.
Acho que é um trabalho que eu tenho que fazer. Se ninguém faz, eu faço.

MARÍLIA: Você sempre foi uma pessoa pacata, caseira, avessa a badalações. A mudança na rotina te incomoda?
MENESCAL: No começo, sim. Eu tinha verdadeiro pavor de palco. Hoje eu chego a rir do palco. Eu sou muito cara de pau. Como é que eu transformei isso? A transformação veio com a Nara. Às vezes, as coisas fugiam da cabeça dela e ela tinha umas saídas; mas eu tinha que entrar para tampar aqueles pequenos buracos. Eu falava assim: -"Puxa, olha, me lembrei de uma coisa agora...". E eu puxava a platéia para mim. Aí, comecei a falar de improviso no palco e a coisa foi ficando natural. Hoje, curto muito estar no palco e me sinto muito relax. Chega a ser doentio.

MARÍLIA: E as viagens? Mudam muito a sua rotina? Incomodam muito?
MENESCAL: Muito. Eu não gosto de viagem longa de jeito nenhum. No ano passado, eu fiz uma viagem - longa pra mim - de um mês e meio. É demais para mim. Eu fico doido para voltar. Eu gosto muito de viajar. Por exemplo, estou indo a Lima agora, na semana que vem. Passo 3 dias. Uma pessoa até falou: - "Olha, você vai no dia 9, dia 10 é o show e você quer voltar quando?" Eu disse: - "Dá para voltar dia 10 mesmo?" Eu, que já andei muito, estou querendo é ficar em casa o quanto puder. Vou na maior. Mas ficar um mês! Você vê, este ano eu vou ter que ficar um mês no Japão. Para mim é muito. Eu gosto mesmo é da minha casa.

MARÍLIA: Antes de falar sobre seu hobby, uma última pergunta sobre a música. A Bossa Nova completou 40 anos, fizeram muita festa e tal. Você acha que a Bossa Nova é uma velha senhora ou uma coroa enxuta?
MENESCAL: (Risos) Eu acho que ela tem as duas coisas. Primeiro: em tudo na vida você tem que ir agregando coisas. Até na raça humana - se ela ficar pura, ela acaba se desintegrando e ficando fraca.
Eu fui à Suécia há 30 anos com a Elis e depois nunca mais fui. Cheguei lá, era aquela raça pura, todo mundo louro de olhos azuis. Aí, voltei há dois anos. Impressionante! O que tinha de mulato de olhos verdes, tudo misturado! E eles estão achando o máximo essa misturada, estão curtindo cabelo castanho e tudo.
As mulheres louras estão pintando o cabelo de preto, parece estranho, né? Porque eles descobriram uma outra coisa - quando se agrega, qualquer coisa se apura e melhora.

MARÍLIA: É a diversidade estética, resultado da globalização.
MENESCAL: O que é bom. Então, eu acho que a Bossa Nova veio meio pura. Tem aqueles puristas que até hoje ficam chateados comigo. "Pô, você está dando uma mexida na coisa" é um comentário que eu ouço de vez em quando. Gente, tudo na vida muda; na minha vida, eu não visto a mesma roupa do passado, meu carro não é mais o meu fusquinha de antigamente.

MARÍLIA: Claro! A vida é movimento.
MENESCAL: É o tempo todo. Mas eles se agarram àquilo. Aquilo que a gente fazia em 60 não é mais igual. Claro que não é. E nem é para ser. Quem vive de passado é samba-canção. As pessoas no show ainda pedem a Bossa Nova no estilo antigo.
Uns ficam espantados quando eu toco de uma maneira diferente, como eu fiz no meu show agora. Mas tem outras pessoas que vibram com as possibilidades novas. Agora mesmo, fiz duas turnês com o "Bossacucanova", uma banda onde um dos componentes é meu filho Márcio.

MARÍLIA: Eles já são o retrato dessa repaginação, dessa fusão da Bossa Nova com outros ritmos musicais.
MENESCAL: Talvez uma outra saída. Porque, quando a gente fez a Bossa Nova, o que era? Era uma mistura do jazz, que a gente curtia, com o samba, que a gente não sabia tocar direito. Hoje, esses meninos já estão fazendo a mistura da Bossa Nova com o rock, com o blues e tal. Então, eu dou a maior força. Tem que fazer, senão morre.

MARÍLIA: Fale das duas turnês com a banda.
MENESCAL: Eu fiz duas turnês com eles na Europa e foi espetacular. Tocamos na Dinamarca para 200 mil pessoas. Na Holanda, foram 250 mil pessoas. Nunca a Bossa Nova iria atingir um público de 250 mil pessoas. É um público que está lá para curtir, todo mundo cantando e dançando Bossa Nova.

MARÍLIA: O que é bacana é que a sua família não era uma geração de músicos, era de arquitetos, como você disse. Então, você foi o primeiro a introduzir a musicalidade na família. E fundou uma nova geração de músicos. Agora, você conseguiu passar adiante essa vocação musical.
MENESCAL: Acho que consegui (risos). Já tenho até um neto de 10 anos que também já está tocando guitarra e violão. Então, acho que já existe um novo caminho.

MARÍLIA: Eu acho a música um excelente caminho.
MENESCAL: Eu também. Essa geração depois da minha já tem outra mentalidade. Você quer ser escritor, vai ser escritor. Antigamente, existia muito preconceito contra o artista.

MARÍLIA: A vida ficou mais individualizada. Cada um procura a sua própria felicidade. Não tem mais aquele negócio de ter a profissão do pai. Mas, até há pouco tempo, ainda tinha. Eu sei porque o Celso Fonseca, um excelente músico, compositor e arranjador, e meu amigo pessoal, passou pela mesma situação. Seu pai, o pediatra Dr. Athayde, tijucano e tradicional como a minha família, não aprovava a opção do filho pela música no começo da carreira. Depois, aceitou bem e até o incentivava na profissão. Imagina se ele estivesse vivo hoje e visse o sucesso do filho! Celsinho já teve a honra de ser convidado pelo guitarrista Carlos Santana para tocar com a sua banda. E eu fui uma das felizardas que testemunharam esse encontro, no Claro Hall.
MENESCAL: Nós dois fizemos shows em Paris, há dois meses. Foram três apresentações e foi
o máximo! O que tinha de gente assistindo era uma loucura! Tocamos eu, o Celso, o Carlos Lira, o Marcos Valle e a Wanda
Sá. O pai do Celsinho bem que podia estar lá para ver o sucesso que foi.

MARÍLIA: Bom, agora, vamos falar sobre o seu hobby - o cultivo de bromélias.
MENESCAL: Eu sempre tive uns hobbies paralelos à música, sempre. Um que me marcou muito foi o mergulho, a pesca submarina, porque era uma coisa muito nova. Eu fui predador mesmo. Hoje eu tenho essa noção, mas, na época, não tinha essa consciência ecológica de hoje em dia. Para mim, era um desafio. Era fascinante. A gente entrava num mundo que ninguém conhecia. Você não sabia se a arraia atacava, se o tubarão atacava, aquilo tudo era muito novo. Aquilo bateu tão forte em mim que eu cheguei a pensar em largar a música, pegar um barco e sair pelo mundo para descobrir aquelas maravilhas. E achei que ia ser sempre assim. Hoje, eu sei que os mares estão todos conhecidos - você já não pode ficar em qualquer lugar, por ser reserva ecológica, os peixes diminuíram muito com o movimento de barcos e a pesca predatória é um fato. Desisti do hobby quando tomei consciência de que era um predador, e isso não era legal.

MARÍLIA: E as bromélias?
MENESCAL: Um dia, em Angra, onde eu mergulhava, subi numa das pedras, com aquela roupa de borracha, de mergulho. Eu marcava as pedras por onde passava. E vi uma orquídea. Achei tão linda que resolvi trazer a orquídea para casa. Eu já morava em Ipanema, num apartamento que tinha um jardim atrás. Coloquei a orquídea lá, e aí comecei a me interessar por elas. Comecei a estudar, a comprar orquídea e fiquei fascinado.

MARÍLIA: Você chegou a fazer parte de algum grupo interessado no assunto?
MENESCAL: Entrei para a Sociedade de Orquidófilos, mas descobri uma coisa que me chateou: vi que aquilo tudo estava muito estudado, que eu não ia poder contribuir com nada, praticamente. Um dia, um amigo meu, o Luís Correia de Araújo, que foi meu mestre debaixo d'água e grande observador da Natureza, me mostrou uma planta e disse:
-"Olha aquela planta, ela é muito interessante porque só tem aqui em Angra". E foi me mostrando várias bromélias. Ele foi um dos primeiros caras, ele e o Burle Max, que introduziram as bromélias aqui no Brasil. De vez em quando, ele me aconselhava a levar uma para a casa. Fui ficando vidrado nas bromélias e vi que era uma coisa completamente desconhecida, ninguém conhecia bromélia.

MARÍLIA: Era coisa do meio do mato.
MENESCAL: Do mato. Todo mundo fala: isso é mato! Isso aqui é planta e isso é mato. E o Luís foi me dando as plantinhas e eu fui gostando e, principalmente, cuidando delas. Estudei, me dediquei e hoje eu tenho contato com o mundo inteiro por causa do interesse e dos estudos sobre as bromélias. Hoje, o pessoal já nem precisa mais arrancar a planta do mato, porque já aprendeu que é muito fácil fazer a bromélia por semente. Tenho muita satisfação quando subo a serra de Petrópolis e vejo todo mundo cultivando e vendendo plantas que vieram de sementes. Bacana isso. A gente conseguiu conscientizar as pessoas.

MARÍLIA: A mentalidade mudou muito, os predadores se tornaram pessoas que defendem justamente a preservação ecológica.
MENESCAL: Mudou mesmo. Então, eu continuo nesse meu vício pelas plantas.

MARÍLIA: Não há um certo patrulhamento por causa da associação das bromélias com a dengue?
MENESCAL: Há quatro anos, quando começou o negócio da dengue, todo mundo botou a culpa nas bromélias. Hoje, já estão vendo que não é bem assim. Nós mesmos estudamos o assunto junto com a Prefeitura, com a Comlurb e os técnicos. E concluímos o seguinte: o grande criadouro dos mosquitos são as caixas d'água abertas e as piscinas em casas que estão desocupadas. As caixas d'água ainda são o principal foco - 57% de possibilidade de se transformarem em criadouro de mosquitos da dengue.
A TV Globo um dia filmou de um helicóptero muitas caixas d'água abertas, em casas. E quantos prédios não são verificados? Outro vilão é o pneu. O que é que o borracheiro faz? Põe os pneus todos na porta para chamar a atenção dos clientes. Eles ficam cheios de água e aí vem o problema.
Tem coisas que não se pode falar, mas eu vou falar aqui: o maior foco de toda a nossa região da Barra e Recreio sempre foi, e ainda é hoje, o Autódromo. São cinqüenta e poucos mil pneus. Não sei se eles já conseguiram furar ou botar areia; mas, naquela época que deu aquele surto brabo de dengue, foi constatado que o Autódromo mantinha cinqüenta e poucos mil pneus com água.

MARÍLIA: Tanto que Curicica é o maior foco de dengue, na cidade do Rio.
MENESCAL: Exatamente. Não se podia divulgar isso porque a Prefeitura não achava conveniente acabar com a boa imagem do lugar, para que não perdesse público. Essas coisas... E a bromélia, no final, ganhou 0,7% de possibilidade de um dia vir a ser um criadouro de mosquitos que provocam a dengue.

MARÍLIA: Na minha casa, um desses caras disse que não ia gastar o produto contra o mosquito no meu jardim, porque tinha muita bromélia. Eu logo fui falando para ele que, apesar da quantidade de bromélias, ninguém tido contraído a doença. Nunca!
MENESCAL: Imagine eu, aqui na minha casa. Agora, vieram os cientistas que trabalham na prevenção e não conseguiram achar uma única larva do mosquito. Gastaram a manhã inteira aqui e não acharam nada. Eles ficaram intrigados com o fato e eu disse que na minha casa tinha o equilíbrio. Aí, eles acharam bacana essa idéia de equilíbrio, depois que eu expliquei. O que tem de sapo e camaleão aqui! Você vê o seguinte: você mora no condomínio e lembra como aqui tinha mosquito. Você viu que diminuiu. Sabe por que? Porque a gente aqui trata. Veio o equilíbrio. Até os pássaros voltaram. Não tinha pássaro no condomínio quando eu vim morar aqui. Devia ter uns três pássaros. Três aves: o urubu, a coruja buraqueira e o anum, além do pardal que sempre existiu. Depois de 10 anos de residência no condomínio, fiz uma parceria com o Clube de Observadores de Pássaros.
Eu ensinava a eles sobre bromélias e eles me davam aulas sobre os pássaros. Naquela época, há 6 anos, eles localizaram 140 pássaros num lugar onde antes só havia três aves. Então, com isso, os pássaros se alimentam de quê? De mosquito. De insetos. Olha aí o equilíbrio.

MARÍLIA: É o ciclo natural.
MENESCAL: Então, se você equilibra, você não tem problema. Agora, põe lá no pneu para você ver uma coisa. E quem ganhou a fama foram as bromélias. Eu, pelo menos, tinha que ter tido dengue ou então a minha funcionária (risos). E muita gente até hoje ainda diz que vai jogar as bromélias fora. Vem cá, você não acaba com a Aids matando os aidéticos, não é assim. Você tem que acabar com os mosquitos de outra maneira, principalmente com responsabilidade e conscientização. Tudo você pode fazer com responsabilidade que dá certo.

MARÍLIA: A falta de higiene e as condições precárias de vida também contam.
MENESCAL: Claro. Terrenos abandonados. Tem sempre uma lata, uma coisa. Se você vira a garrafa de cabeça para baixo, acabou o perigo.

MARÍLIA: Essas informações já nos tranqüilizam.
MENESCAL: É por isso que eu continuo com as minhas bromélias. A Mata Atlântica é a mata mais rica do mundo, porque tem bromélia. Você vê, o mico leão só vive onde tem bromélia. Por que? Porque na bromélia ele tem os moluscos que dão lá dentro, ele tem o sapo que vai lá. Ali é a fonte de vida dele. Como dizia o Burle Max: "A bromélia é uma ilha ao contrário". É uma água cercada de folhas. Aí, os bichos vão lá procurar a sua salvação, inclusive a água, quando tem seca. Então, o cara diz: - "Vamos acabar com as bromélias aqui!" E esses morros todos cheios de bromélia? Como é que você faz? Eu continuo divulgando tudo porque às vezes as pessoas desconhecem o assunto. Na minha casa, agora, está tudo equilibrado, tudo bonito.

MARÍLIA: Afinal, vou voltar à questão: como você define o Roberto Menescal?
MENESCAL: O meu parceiro, o Ronaldo Bôscoli, que era muito engraçado, dizia assim para mim: "Você é o famoso rabo de cometa, está sempre atrás da estrela."

MARÍLIA: Mas, de repente, a estrela só vira estrela porque está na sua mão.
MENESCAL: (risos) Ele ficava com ciúmes por eu estar sempre trabalhando com alguém. Mas é isso. Hoje, o Brasil é um país de cantoras. Você não tem cantores no Brasil. Você tem compositores-cantores, não tem cantor. E, então, eu trabalho com as intérpretes.

MARÍLIA: Agora, me conta uma grande perda e um grande ganho da Bossa Nova.
MENESCAL: A grande perda é uma perda viva. Para mim, é o João Gilberto. Eu acho que o João Gilberto dá 5%, 2% do que ele poderia estar dando para o mundo. Todo mundo quer o João e ele fica trancado na vida.
Tudo bem, é a opção dele. Mas é uma grande perda. Eu não quero falar das perdas de quem partiu, porque eles deixaram muita coisa.
O Vinícius partiu há tanto tempo e taí o filme dele. Agora, o ganho é justamente essa revitalização da Bossa Nova através de pessoas que estão chegando e procurando. Lá fora, então, é uma coisa! No Japão, quem gosta de Bossa Nova é a juventude. Então, isso é o grande ganho. Ela é sempre divulgada, não pelos brasileiros, mas pelos estrangeiros.

MARÍLIA: Ela nem é mais uma coroa enxuta. Ela voltou a ser criança, está engatinhando novamente.
MENESCAL: Já está virando uma princesinha. Eu trabalho muito com artistas de fora. Agora mesmo, estou fazendo um trabalho para uma espanhola, a Montserrat, que é uma cantora lírica. Ela está fazendo um disco de bolero que se chama "Bolero com Bossa". Tudo em ritmo de Bossa Nova. Também tive um convite para fazer um disco com o guitarrista do grupo Police, o Andy Summers, que é um cara que adora música brasileira. Ele viu o meu trabalho e me convidou para fazermos um disco juntos. Só vou conhecer o músico agora. Você vê que as coisas estão sempre andando, caminhando para frente, principalmente para o exterior.

MARÍLIA: É a globalização da música brasileira, que teve início com a Bossa Nova.
MENESCAL: É isso aí. E ela só está começando...

MARÍLIA: Obrigada pela entrevista.
MENESCAL: Eu é que agradeço.
 

Roberto Menescal também
ama os seus cãezinhos.
Por: Marília Bellizzi
Supervisão : Lou Micaldas

 

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