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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

SALDANHA COELHO
publicado em: 25/01/2017 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 26/11/2001

O escritor Saldanha Coelho, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 20 de dezembro de 1926. É filho de José Moreira Coelho Pinto e de Dalva Saldanha da Gama Coelho Pinto. Foi batizado com o nome de José Saldanha da Gama Coelho Pinto, passou a infância e a maior parte da adolescência nos bairros da Zona Norte, onde cursou o primário e o ginásio, em escolas públicas.

Cheio de entusiasmo e planos para o futuro, aos 74 anos, Saldanha Coelho nos concedeu esta interessante entrevista.

LOU_ Você estudou jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia. Por que você escolheu a profissão de jornalista?
SALDANHA _ Eu já estava sendo, já estava dirigindo uma revista de literatura, a "Revista Branca", e então resolvi entrar na faculdade. Eu só escolhi porque era uma vocação mesmo. Eu trabalhava no serviço público, no antigo INSS que naquela época se chamava IPASE.
Quando entrei, tinha 15 anos, mas quando eu estava com 17 anos, o médico chefe me colocou na fisioterapia, para substituir o estudante de medicina e para usar a aquela parafernália toda.

Acontece que esse serviço me dava muito tempo, para eu fazer o que quisesse. Desde os 13 anos que eu leio assustadoramente, sempre gostei de ler, ali então, me vi mais à vontade, com mais tempo e de repente, comecei a querer escrever. Aproveitando inclusive, uma sugestão que deu um Office-boy igual a mim que me disse: "Porque você não faz um jornalzinho aqui dentro, interno?" Eu fiz então "O Planeta". Um horror o nome! Mas eu coloquei. Era um tablóide mensal que reivindicava os direitos dos funcionários do IPASE. Aí, é que comecei a escrever.

LOU_ Então foi esse jornalzinho "O Planeta", do IPASE, seu primeiro contato com a literatura, com a imprensa e também com o engajamento político junto aos trabalhadores?
SALDANHA_ Foi. eu passei minha juventude aqui no Rio de Janeiro, e minha vida política começou cedo, eu me candidatei a vereador, no ano de 1958, para esta casa onde estamos agora, na Câmara dos Vereadores.

LOU_ E depois?
SALDANHA _ Dois anos depois, fizeram a Constituinte do Estado da Guanabara. Houve uma outra eleição, eu me candidatei me elegi, depois outra eleição para a Assembléia Legislativa, aí já Estado da Guanabara, me candidatei e fui também eleito de novo.

Agora, minha escalada de voto foi enorme, sempre pelo Partido Trabalhista Brasileiro.

Comecei como vereador em 1958, com 3.016 votos, depois, em 1960, Deputado da Constituinte 10.560 votos, foi quando o Município se tranforformou em Estado, e dois anos depois, em 1962, fui reeleito Deputado Estadual, com 40.019 votos. Aí, eu bati o recorde de votos do PTB em todo Brasil e reconduzido à liderança do partido e da oposição.

O GOLPE MILITAR DE 1964

LOU_ E o Brizola?
SALDANHA_ Brizola, que era candidato a Federal, se elegeu o mais votado Federal, também disparado. Menos de dois anos depois, estourou o "O golpe Político Militar". Aí, meu mandato que seria de quatro anos, foi só de dois anos.Em 1964, fui preso. Fui trancafiado em Marechal Hermes, na Vila Militar, por um mês, incomunicável, respondendo a inquéritos policiais militares. Mas me libertaram, porque não havia nada contra mim.

LOU_ Só porque você era líder do PTB?
SALDANHA_ Eu era o líder do partido e líder da oposição, e fazia uma oposição muito ferrenha, muito constante, ao governo do Carlos Lacerda e ele cuidou de mim com os militares dele, só sei que fui preso.

LOU_ Sofreu tortura?
SALDANHA_ Eu não sofri tortura. A tortura foi moral. 
E outra coisa, você ficar incomunicável num quarto no Exército, com um sujeito a fazer aquelas perguntas ridículas, "O que você pensa disso? O que você acha daquilo?" Trinta dias seguidos, depois desses trinta dias, me soltaram, fui para casa. 10 dias depois, quando cheguei em casa de madrugada, dois policiais amigos meus, me disseram: 
" Olha seu deputado, o senhor vai embora porque nós sabemos que a ordem é para prendê-lo outra vez".

Então, fui até à Embaixada do Uruguai, pulei o muro e caí dentro do território uruguaio, pedi asilo e fiquei lá. 
O Embaixador chegou para mim e disse: "vou pedir o salvo conduto para você partir." Salvo conduto quem dava era o Governo Brasileiro. Mas não podiam deixar de dar, porque isso diplomaticamente é uma rotina.

LOU_ Foi lá no Uruguai, que você escreveu o livro "Um deputado no exílio"?
SALDANHA_ Foi, escrevi lá no exílio.

LOU_ Quanto tempo você ficou lá?
SALDANHA_ Quase dois anos. Aí, eu estava com úlcera no duodeno, causada pelo sistema nervoso, úlcera péptica, não estava me sentido muito bem não. Eles me atenderam medicalmente, e eu disse: "A hora que eu melhorar eu vou embora. Vou embora, porque não agüento mais ficar aqui, sabendo que estão lá no Brasil, me esculhambando, dizendo bobagem a meu respeito."

Dito e feito, dois meses depois, eu comuniquei que iria embora. E o Repórter Esso começou a informar que eu ia ser preso em alto mar, e fui preso. Me tiraram do navio, me levaram para a Polícia do Exército, mas fiquei bem, apesar disso tudo.

LOU_ Para vir para o Brasil, você também teve que receber uma ordem do governo, salvo conduto?
SALDANHA_ Não, porque fui espontaneamente. Não pedi nada a ninguém; só comuniquei extra-oficialmente que vinha para o Brasil. Não estava suportando mais. Duas coisas que aconteceram simultaneamente. Primeiro, sempre caía um jornal na mão da gente e a gente ficava sabendo que eles me malhavam, dizendo inverdades, eles poderiam dizer o que quisessem e eu não estava lá para me defender e segundo, que eu estava com aquele problema da úlcera.

LOU_ Que outros políticos ficaram no exílio com você?
SALDANHA_ Só foram sargentos da Aeronáutica, um grupo grande que também se asilou lá. Não tinha mais ninguém, político mesmo, não tinha mais ninguém.

LOU_ E vocês exilados, se uniram, se solidarizaram como uma grande família?
SALDANHA_ É, uma grande família traumatizada, desentrosada.

LOU_ Onde você morava lá, que tipo de moradia você conseguiu?
SALDANHA_ Ficamos em apartamentinho. Aliás, aconteceu uma coisa muito curiosa a respeito do apartamento. Eu fui para lá, como deputado cassado. 
Eu não tinha absolutamente um vintém guardado.

LOU_ Você foi pro Uruguai casado?
SALDANHA _ A Mirtia foi comigo, fomos juntos pra casar lá. Eu fui o primeiro político de projeção a me asilar no Uruguai, outros se asilaram em outros países da América do Sul. Aconteceu que começou a ir gente pra lá pra me cumprimentar, em solidariedade a mim. Ia gente levando coisas, levando dinheiro enrolado em papel para me ajudar e também pra mostrar as relações - eram listas e mais listas; por exemplo: Relações de guarda de presídio; eles me consideravam guarda de presídio número um, pelas posições políticas que eu tomava em benefício deles.

A LISTA PARA A SOBREVIVÊNCIA

Eles davam um x. Havia lista dos funcionários do IPASE, funcionários da Câmara, e da Assembléia Legislativa, listas que não acabavam mais, pra mandar ajuda progressivamente através de minha mãe, quando ela fosse lá. Sabe o que aconteceu? Eu ganhava naquela época, sessenta reais, sessenta mil réis, sei lá , como deputado. Você sabe que a soma dessas contribuições, a proporção não sendo exata, ia a duzentos e cinqüenta a trezentos reais. Então, eu pude arrumar um apartamentinho, onde eu e a Mirtia moramos até o dia de virmos embora . E nós sobrevivíamos com esse dinheiro dos amigos. Mas o Uruguai, com dois milhões de habitantes, e sem emprego para ninguém, não ia dar emprego para nós.

LOU_ E o que você fazia lá , exercia alguma atividade?
SALDANHA_ Não fazia nada, ficava pensando na morte da bezerra ... essas coisas.

LOU_ Dois anos dá muito tédio?
SALDANHA_ Quase dois anos.

LOU_ Bom, mas vocês estavam apaixonados e podiam demorar o tempo que fosse, né?.
SALDANHA_ Estava apaixonado. E apaixonado fica em qualquer lugar. Fomos no avião juntos. Mas quando estava voltando pro Brasil, me prenderam em alto mar.

LOU_ Tiraram você do navio em alto mar?
SALDANHA_ A Polícia Marítima chegou, encostou, subiram os policiais e me levaram para a Polícia do Exército, lá na Tijuca, onde fiquei mais vinte dias, também respondendo, novos inquéritos.

SEGUNDA PRISÃO

LOU_ Você foi preso outra vez! Foi por causa desse livro, ou porque começou a soltar a língua de novo? 
SALDANHA_ Soltar a língua de novo.

LOU_ Você foi preso sozinho ou junto com a sua mulher?
SALDANHA_ Não, sozinho. A Mirtia não era cassada. Mandei a Mirtia de avião para o Rio de Janeiro. Eu já sabia que ia ser preso. Vinte dias depois, e, após me fazerem vários inquéritos, eles me mandaram embora. 
Me libertaram. Nunca mais encheram meu saco.
Também tem uma coisa, quando saí da Polícia do Exército, eu procurei cada grupo que me sustentou lá fora, para dizer o seguinte: "Não quero mais receber dinheiro de ninguém, agora vou trabalhar aqui de qualquer maneira. Com o dinheiro de vocês lá no Uruguai, tudo bem, mas aqui não."

LOU_ E como você se virou para refazer sua vida?
SALDANHA_ Ninguém me dava emprego porque eu era um deputado cassado e cassado não tinha vez. Passei então a ser assessor do Rubens Berardo, vice-governador do Estado da Guanabara, naquela época, que me pagava um salário, e eu fazia discursos pra ele, projetos de lei etc.

TRABALHANDO EM TRÊS LUGARES

Outro que também me ajudou foi o Deputado Federal José Colagrossi, ele me pegou para ser assistente dele. Também o Presidente da Associação dos Servidores Civis do Brasil - ASCB - Darcy Daniel de Deus, que está lá até hoje, na presidência, me chamou para ser assessor dele na Associação, que representa todos os funcionários públicos do país. Então, fiquei com os três, trabalhando assim, para pessoas. Até o ano de setenta e nove, quando veio a Anistia. Depois, lá na Associação fui eleito primeiro Vice-presidente da Associação.

LOU_ E o Carlos Lacerda, nunca te preocupou, depois que você voltou? 
SALDANHA_ Não, depois não. O negócio comigo esgotou. Não tinha mais o que fazer, o que dizer. 
Meu livro, que saiu metendo o cassete neles todos. "O deputado no exílio", foi publicado aqui, quando eu estava no exílio. Eu mandei minha mãe pedir o editor, para lançar o livro de qualquer maneira. Mas a polícia recolheu os livros na feira de livros e jogaram os meus exemplares fora, sei lá, incendiaram.

Então, quando voltei, eu fui outra vez para uma outra feira de livros vender meu livro. Aí vendi pra burro.

1979 - ANISTIA

LOU_ E quando veio a anistia, você recuperou seus direitos... 
SALDANHA_ Com a anistia, fui então reconduzido ao cargo que eu tinha quando fui cassado. Cargo de funcionário público no IPASE, que eu consegui porque tirei o primeiro lugar nesse concurso de Técnico de Comunicação Social e é isso que estou fazendo aqui, hoje. Foram consignados os trinta e cinco anos de serviço; eu comecei lá com quinze anos, quer dizer, pela anistia, eu passei a receber uma aposentadoria relativa a esse cargo e também fiquei liberado para trabalhar de outras maneiras.

LOU_ E você partiu pra fazer o que? 
SALDANHA_ Eu fundei com um grupo de amigos, uma empresa de comunicação social, com Heron Domingues, o famoso locutor da Rádio Globo, o Mauritônio Meira, hoje Diretor do Jornal Nacional, que tem também um suplemento no Jornal do Comércio, que sai aos domingos e Mário Alencar, irmão do ex-governador aqui do Rio, Marcello Alencar.

LOU_ Como é o nome da Firma?
SALDANHA_ Promopan Empreendimentos e Promoções LTDA.

LOU_ Com essa empresa, você pôde se erguer financeiramente?
SALDANHA_ É. Aí começamos a ter clientes, serviços especializados. Com o nosso relacionamento, fomos conseguindo trazer clientes para nossa firma.

LOU_ Você passou por tanto sofrimento no exílio, chegou a sofrer até com a úlcera do duodeno, depois disso tudo, hoje, você é um professor de felicidade, porque seu livro "Envelhecer e ser feliz " ensina as pessoas a serem felizes.
SALDANHA_ É, o livro é sobre toda terceira idade, que eu acompanho desde menino, porque a terceira idade tá ligada a que? À previdência social, onde eu trabalhei durante trinta e cinco anos. E sempre observando o mau trato, o descaso do governo federal em relação ao idoso. Eu tenho outros livros escritos, mas esse "Envelhecer e ser Feliz" acho que nasceu da minha intimidade e da 
minha perplexidade com os idosos. Ele é uma mensagem de estímulo, de otimismo e também, hoje, de ensinamento, nessa segunda edição, porque a primeira saiu há dez anos atrás, em 1991.

LOU_ Foi quando você ganhou o prêmio da Academia Brasileira de Letras?
SALDANHA_ Ganhei o "Prêmio José Veríssimo" de ensaio e erudição, da Academia. Agora, há dias, saiu a segunda edição.

LOU_ Nesses dez anos, muita coisa mudou, houve uma grande evolução da medicina e no comportamento dos idosos... 
SALDANHA_ O que eu observei foi o seguinte, o objetivo teria de ser o mesmo, o idoso. Mas eu tinha que atualizar o livro na ciência e na tecnologia que foram desenvolvidas nesses dez anos e que atingiram o idoso. E tá tudo aí no livro. O livro vai até o Viagra. O Viagra tá lá. Depois que fiz o livro, entrei para outros lugares para trabalhar.

LOU_ Esse foi o último livro que você escreveu, mas você fez outros livros, que abordam o tema da felicidade.
SALDANHA_ De certa forma sim, mas o que é especificamente ligado a esse meu trabalho de elevar a auto-estima do idoso, é o livro "Envelhecer e ser Feliz". 
O idoso infelizmente no nosso país é abandonado, pelo governo e até pela família, que bota ele num asilo, ou não bota em lugar nenhum, deixa andando pela rua sem dar uma ajuda. E ele é doente na verdade, é difícil você encontrar um idoso que seja saudável. 
A juventude, os jovens não querem conversa não se afinam, são diálogos totalmente heterogêneos, diálogos que não se cruzam.

LOU_ Então, você ensina o idoso a se defender disso para ser feliz?
SALDANHA_ Exatamente, a se defender dessa situação em que ele se encontra pária da sociedade, um verdadeiro pária.

MEDICINA AIUVERDA

LOU_ Mas se o idoso for uma pessoa atualizada, e atuante na vida, na sociedade, não vai ser uma pessoa marginalizada. Acho que dificilmente uma pessoa como você, por exemplo, vai ficar marginalizada só porque é idosa.
SALDANHA_ Eu não! Eu me defendo disso. Por consciência minha mesmo. Há muitos anos, eu cuido da minha saúde, sem exageros sem bobagens, eu como de tudo eu bebo de tudo, mas eu sei o quanto eu posso beber o quanto eu devo comer. Há uma Literatura Ayurvedica, que é a literatura indiana, a medicina hindu, que hoje está no mundo inteiro, dando aula sobre o que é importante e o que não é importante na medicina tradicional. Ayurveda significa conhecimento da vida, é a ciência da saúde mais antiga da humanidade, com mais de 5000 anos.
A medicina Ayurvédica é parte da ciência védica e utiliza entre outras coisas, as plantas medicinais, a dieta, exercícios físicos etc., e parte de um princípio: você tem que ficar muito mais ligado à homeopatia, do que à medicina alopática. Se você for consultar um médico que pratica essa medicina, ele vai diferentemente de qualquer outro médico, fazer uma avaliação holística de você: antepassados, doenças que teve, enfim, uma pesquisa muito bem feita antes de te medicar, então é um sucesso. 
Eles têm lá, três coisas importantes que recomendam na medicina Ayurvedica, que é assim : Primeiro alimentação, a melhor que você puder ter, menos carboidratos, menos gorduras animais, enfim. Segundo sono, é fundamental dormir bem. O terceiro sexo, não abandonar o sexo nunca. E agora tá fácil, tem o viagra, já e tem dois novos remédios que vão chegar no mês que vem.

LOU_ O sexo tem que ser feito com muito cuidado, de uma forma segura....
SALDANHA_ Sim. Transar de forma segura. 
Eu tenho uma alimentação maravilhosa, eu gosto da alimentação que tenho. Eu tomo um drink diferente, cada dia um. Agora, tudo isso você tem que dosar, tudo isso você tem que estudar para ver se está compatível com seu sistema metabólico, com seu psiquismo mesmo. Eu leio muito sobre isso, sobre medicina, que ajude, que contribua para evitar determinadas doenças. Eu faço, de seis em seis meses, tudo quanto é chek-up que você possa imaginar. Urologista, tudo... Não sinto nada, mais faço. Se aparecer alguma doença, e há muitas chamadas silenciosas, se parecer eu pego. Aí tem tempo de debelar, de curar. É importante isso, por que não existe velho nenhum. Existe a pessoa doente, se você está com 50, 60, 70 anos sem doença, você é novo, você é jovem, você tem uma auto-estima lá em cima, e tudo vai bem, tudo acontece bem. Agora, ao contrário não dá. É importante ler o que for possível para poder discutir inclusive com o médico.

UM SUSTO

Olha, é impressionante Maria de Lourdes, esse negócio de ir ao médico se consultar, fazer exames... eu levei um susto, foi um fato que poderia acontecer com qualquer um. Você quer ver? 
O médico que eu fiz o PSA - Antítese Prostático Específico - é uns dos exames que o Urologista faz, ele é regulador. O meu Urologista tinha viajado, foi passar três anos fora do Brasil. Eu não queria deixar de fazer o exame e fui a um outro médico, que aliás é do Instituto Nacional do Câncer. Ele me indicou a fazer o PSA, fui ao laboratório, entreguei lá o pedido, colheram o material. Se o resultado for acima de quatro, tem que ver se tem alguma coisa.

Eu não sabia o que era PSA, eu não sabia nada, era uma besta quadrada muito da boa. Entreguei o resultado do exame ao médico que chegou e disse: "Oh! Tudo isso de PSA?! Dez de PSA?! E você tá aí! Você vai ter que fazer uma cirurgia de barriga aberta. Você está com a próstata se transformando num câncer".

Eu que sou um cara vivido, disse: " Doutor eu vou fazer outro exame. Eu não vou para uma mesa de cirurgia para o senhor me cortar com um exame só. Vou fazer outro e conforme for, vou a outro médico e a outro laboratório".

Aí, ele me deu novo pedido de exame e eu fui a outro laboratório. Veja só que diferença no atendimento, o cara lá disse assim: 
"Há quanto tempo você fez esse exame?" 
Eu disse: Fiz agora, ontem. 
E ele me avisou : Você tem que esperar, tem que haver pelo menos um espaço de quinze dias. Porque não se pode fazer em cima . Quando se faz o PSA, você faz o toque retal, você faz um monte de coisa, comprimiu, irritou, você admoestou seu mecanismo normal, então se você fizer o exame de laboratório em cima, o antígeno prostático é diferente, por isso tem que passar uns quinzes dias para ficar normal, aí sim você volta aqui.

Quinze dias depois eu voltei. Fiz o exame. Sabe quanto deu? Três. Eu fiquei com tanta raiva que liguei lá para o consultório daquele médico. "Chama o doutor fulano aí! Olha Doutor, o senhor não me informou nada, eu tirei esses quinze dias por minha conta, já fiz o exame; já está aqui na minha mão. Eu estou com três de PSA, sua besta quadrada!"

VELHICE NÃO É DOENÇA

LOU_ Você disse que a pessoa tendo boa alimentação, bom sono, bom sexo, ela ganha uma vida mais longa e mais feliz. 
SALDANHA_ Exatamente isso. A velhice não é doença. Existe o velho doente ou o velho saudável. Você pode chegar à velhice de duas maneiras: ou alquebrado, cheio de doenças, num hospital, num asilo, ou pode chegar à velhice com todas as sua atividades sendo postas no trabalho, nos afazeres domésticos, nos pontos sociais, numa vida normal. Eu tenho uma vida normal.

LOU_ Você faz exercícios?
SALDANHA_ Eu faço quatro caminhadas por semana em Copacabana, faço isso há mais de vinte anos. Eu saio de casa da Ladeira do Tabajara e vou até a praia, ando até o Posto 6 e volto andando. Ao todo faço uns doze quilômetros. Me sinto muito bem.

LOU_ E você se sente jovem?
SALDANHA_ Não digo jovem, mas me sinto bem. Eu não sinto nada, não tenho doença nenhuma. Na semana passada, meu irmão faleceu. Meu irmão tinha um ano a menos que eu, meu irmão tinha 73 e eu tenho 74. Mas ele fumava, eu dizia para ele parar de fumar, que iria acabar fazendo mal. O tempo passou ele continuou a fumar. Os três últimos meses ele ficou sofrendo num hospital na UTI. Eu cheguei lá, quando soube de manhã, que ele havia morrido. Vendo ele, eu fiquei tão traumatizado, pensei: "Pô, mas como ele pôde ficar assim? Tudo porque foi teimoso.

LOU_ Você nunca fumou?
SALDANHA_ Fumei, fumei até os 47 anos. 
Aí, comecei a tentar a largar, e um belo dia você insiste e acaba vencendo a parada, né ? De repente eu disse: "Escuta aqui Luciana - Luciana é minha mulher há 22 anos, sou muito feliz com ela e será a última - pega meu maço de cigarro e joga fora". Nunca mais fumei. Mas pra se chegar aí, tem que tentar, eu tentei outras vezes e não consegui. Também passei a ter cuidados com a saúde. Quando deixei de fumar, mudei meu estilo de vida. Decidi: vou comer melhor verduras, vou comer mais legumes.

LOU_ Você começou a se preocupar com a saúde, então, depois dos 40 anos?
SALDANHA_ Aos 47 anos.

LOU_ Você acha difícil a pessoa parar de fumar quando ela está atravessando crises? Por exemplo: Quando você era jovem e quis parar de fumar você voltou porque brigou com a namorada.
SALDANHA_ Exatamente. Por coisas bobas assim, que eu tentava e parava. Até que um dia eu disse: "Não! Vou parar de uma vez."

LOU_ Nesse período de abstinência você sofreu muito?
SALDANHA_ Não lembro exato. Não sei como dimensionar o tempo. Mas é claro que, pra quem fumava há 34 anos senti, senti muito. Mas segurei. Então, o que eu digo em relação à idade, em relação à saúde em relação à auto-estima: você tem que fazer coisas que levem você a isso a vencer a se sentir vitorioso. É um negócio difícil para muita gente. Mas para mim foi possível, depois de tentar muitas vezes.

LOU_ Eu queria que você mandasse um recado ao "Velhos Amigos", baseado no seu livro, na sua filosofia otimista. 
SALDANHA_ Uns dos grandes recados. Umas das grandes sugestões para o homem da terceira idade, é que ele acorde para viver, se ele acordar pensando na morte, se ele acordar pensando na doença e em ficar indiferente a ela, não tentando se cuidar, se ele acordar pensando que não pode arranjar uma parceira ou um parceiro por causa da idade, enfim, se ele acordar para morrer, ele vai morrer. Agora, se ele acordar para viver, ele vai fazer quase tudo que um homem que não é idoso faz.

LOU_ Você pode não fazer na mesma velocidade. Mas é capaz até de fazer muita coisa dentro do seu tempo, e do seu limite.
SALDANHA_ É. Você fica habituado a viver bem seu problema, quando você se habitua a viver bem seu problema, é a resposta que você está dando a você mesmo, quando você vivia mal o problema. Agora essa transição depende de boa vontade, de esforço de vontade.

LOU_ De luta pela vida...
SALDANHA_ De luta pela vida. Isso é muito importante.

LOU_ Muito Obrigada. O "Velhos Amigos" agradece, a sua entrevista e eu tenho certeza de que muita gente, inclusive os jovens, vão ler o seu livro que já está sendo publicado em nosso site, em capítulos.
SALDANHA_ Eu agradeço o convite, e estou às ordens sempre que quiserem. Estou às ordens para ser um colaborador.

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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