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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

SEBASTIÃO SALGADO
publicado em: 25/01/2017 por: Lou Micaldas

 

Gênesis - por Sebastião Salgado

Em outubro de 2006 tive a sorte de entrevistar Sebastião Salgado para um jornal de Belo Horizonte. Uma exposição com as primeiras imagens que ele havia produzido para o projeto Gênesis iria ser aberta no Museu de Artes e Ofícios e achei que era a oportunidade de falar com o fotógrafo que sempre admirei. Os primeiros contatos com as assessorias, entretanto, não foram nada animadores: informaram que ele estava de passagem pelo Brasil, mas que não estava disponível para entrevistas, que estava com a agenda completa e que não viria a BH para a abertura da exposição. Depois de várias tentativas sem resultado, tentei um caminho dos mais prosaicos. Naquela época eu também trabalhava como professor em uma faculdade na cidade de Congonhas e tinha uma aluna que dizia ser afilhada de batismo de Lélia Wanick Salgado, esposa do fotógrafo. Comentei com a aluna sobre a dificuldade para conseguir a entrevista e dias depois ela me passou um telefone de contato em São Paulo. Liguei e falei com uma secretária sobre o pedido de entrevista, expliquei que poderia ser por e-mail. Para minha surpresa, ela pediu que eu aguardasse na linha e em poucos minutos o próprio Sebastião Salgado estava ao telefone. Ele atendeu e foi muito gentil, mas com uma ressalva: a entrevista teria que ser breve, brevíssima, porque ele estava esperando o carro que o levaria ao aeroporto. Conversamos durante mais ou menos 15 minutos.

Confira um trecho da entrevista: 

Como foi que Sebastião Salgado descobriu a fotografia?
Sebastião Salgado
 – Foi completamente por acaso. Na época eu e minha esposa, que é arquiteta, vivíamos em Paris e estávamos impedidos de retornar ao Brasil por muitos anos por razões políticas. Ela comprou uma câmera para tirar fotos de edifícios e, como eu sempre acompanhava o trabalho dela, comecei a olhar através da lente. Foi aí que a fotografia começou a invadir minha vida. Quando terminei meu doutorado em Economia, abandonei tudo para dedicar mais tempo a meu filho, que tem Síndrome de Down, e comecei uma nova vida como fotógrafo. Isso ainda é minha vida hoje.

Nossa época testemunha a passagem do equipamento analógico para as mídias digitais. As novas tecnologias da imagem, na sua avaliação, trouxeram mais qualidade para a fotografia?
Sebastião Salgado
 – Eu fotografei com rolos de filme por muitos anos, mas agora que estou começando a trabalhar com equipamento digital, percebo que a diferença é enorme. A qualidade é inacreditável: eu não uso flash e com o equipamento digital posso até mesmo trabalhar em condições de luz muito ruins. Além disso, é um alívio não perder mais as fotografias para máquinas de raios-x nos aeroportos.

Qual dos mestres da fotografia mais influencia seu trabalho?
Sebastião Salgado
 – Todos eles (risos). Mas quando eu estava começando, tive a incrível sorte de conhecer Cartier-Bresson em Paris. Lembro até hoje das palavras dele, muito velhinho, dizendo que era preciso confiar nos meus instintos mais sutis para fazer um trabalho que tivesse algum valor além do registro banal. Acho que foi a principal lição que já ouvi em toda a minha vida.

Tem algum projeto agendado para depois da série Gênesis?
Sebastião Salgado
 – Nos próximos anos, pretendo me dedicar a este projeto para que ele esteja completo e tenha um certo alcance. O que está agora em exposição é apenas uma pequena parte dele, uma prévia, com as fotografias que eu tinha feito em Galápagos, no Virunga, que é um parque nacional entre o Congo, Uganda e Ruanda, e a Península Valdes, na Argentina. O Gênesis surgiu há dois anos e tem como objetivo despertar a atenção das pessoas para conceitos de biodiversidade, de sociodiversidade e do papel que todos nós devemos ter na conservação ambiental. Metade do planeta Terra ainda está intacta e pretendo me dedicar através da fotografia para mostrar a parte que a ação do homem ainda não destruiu. Acredito que podemos compreender o que ainda é possível preservar.

O que Sebastião Salgado ainda não fez, mas pretende fazer?
Sebastião Salgado
 – Pretendo continuar o trabalho que venho desenvolvendo. Devemos estar todos cientes de que o planeta está passando por uma situação limite, uma situação muito grave que ninguém pode ignorar. O homem já destruiu mais da metade do nosso planeta e não pode seguir nesta depredação brutal. Se eu puder contribuir com uma pequena parte para a preservação, se eu puder tocar o coração das pessoas, meu objetivo terá sido alcançado. Talvez este seja meu último longo projeto, mas não tenho do que reclamar. Muito pelo contrário. Tenho vivido uma vida extremamente privilegiada. Visitei mais de 120 países, vi muitas pessoas diferentes, vi coisas maravilhosas e coisas terríveis.

Um pouco de Sebastião Salgado

Apontado como um dos mais premiados e respeitados fotojornalistas da atualidade, Sebastião Ribeiro Salgado Júnior é mineiro de Aimorés e nasceu no dia 8 de fevereiro de 1944. Formado em Economia, trabalhava na Organização Internacional do Café até 1973, quando decidiu se dedicar integralmente à fotografia. Depois da publicação de seus primeiros trabalhos, foi contratado pelas agências de fotografia Sygma e Gamma. Em 1979, entrou para a Agência Magnum e dois anos depois foi pautado para uma série de fotos nos EUA sobre os primeiros 100 dias do governo de Ronald Reagan. Até que aconteceu o imponderável da sorte: acompanhando a comitiva do presidente em Washington, na tarde do dia 30 de março de 1981, Salgado foi o único fotógrafo a registrar o atentado a tiros sofrido por Reagan. A venda daquelas fotos para jornais e revistas do mundo inteiro permitiu ao fotógrafo financiar seus primeiros projetos pessoais de viagens pelos locais mais remotos do planeta.

Em 1994, abriu sua própria agência, a Amazonas Images. Desde então, tornou-se embaixador do UNICEF, criou em sua terra natal (a fazenda Bulcão, em Aimorés) uma reserva ambiental como sede do Instituto Terra, gerenciado por ele e por sua esposa, e publicou vários livros com seleções de suas fotografias, sempre com imagens em preto e branco que denunciam a violação dos direitos humanos em meio a situações de guerra, de pobreza e de outras injustiças. Entre seus livros de fotografias, sempre lançados em parcerias com instituições humanitárias e com exposições internacionais itinerantes, estão “Trabalhadores” (1996), “Terra” (1997), “Serra Pelada” (1999), “Êxodos” (2000), "O Fim da Pólio" (2003) e “África” (2007). Na introdução de “Êxodos”, Sebastião Salgado escreveu: "Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes no mundo inteiro. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas. Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma.”

Clique aqui para ver uma pequena amostra do trabalho de Sebastião Salgado.

Autor(a): José Antônio Orlando 
Colaborador(a): João Carlos

 

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