Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

TEIXEIRA MENDES
publicado em: 25/01/2017 por: Lou Micaldas

Começou a desenhar e a pintar ainda bem criança, rabiscando histórias em quadrinhos. E, agora, numa fase mais madura, através de uma ótica única, passou a pintar quadros onde reúne grandes nomes da MPB, fazendo um encontro que a princípio seria impossível: Dolores Duran junto a Gal Costa.

Em seus quadros, podemos observar uma pintura que parece ter movimento, com a leveza de seus traços, dando-nos a sensação de que a qualquer momento podem sair da tela e ganhar vida. 
Vamos conhecer e mergulhar na vida dessa figura ímpar: o artista plástico Teixeira Mendes.

LOU: Qual o seu nome todo?
TEIXEIRA MENDES: O meu apelido na minha juventude, na minha família, pros meus amigos mais próximos, é Tonico; mas o meu nome completo é Antônio Sebastião Teixeira Mendes. Eu nasci no dia de São Sebastião, 20 de janeiro de 1940. Eu sou natural do interior de São Paulo, São José do Rio Preto, onde iniciei minhas atividades, onde eu fui amante de história em quadrinhos, criando heróis de ficção para os quadrinhos, baseado e influenciado pelo Flash Gordon e os velhos heróis do “ban désir”, como fala o francês.

LOU: Então, você já desenhava desde menino?
TEIXEIRA MENDES: Desde menino eu tinha uma intuição pro desenho muito grande.

LOU: Mesmo antes de aprender a escrever você já desenhava?
TEIXEIRA MENDES: Era uma coisa que eu já sabia. Meu pai era um comerciante e eu trabalhava no balcão. E tinha papel à vontade, onde eu rabiscava pros clientes. Eu tentava fazer caricaturas, mas num desenho mais primitivo. Depois, freqüentei grandes escolas e mais tarde fui pra São Paulo.

LOU: Qual o nome de seu pai e de sua mãe?
TEIXEIRA MENDES: Antônio Teixeira Mendes e minha mãe, Márcia Cardoso, já falecidos.

LOU: Aí você cresceu, saiu do interior...
TEIXEIRA MENDES: Saí pra São Paulo pra procurar escolas melhores. Porque no interior os meios de comunicação e arte não existiam na época. Não existiam escolas de arte, museus. Então procurei as grandes metrópoles. Eu era provinciano e segui pra São Paulo, ainda jovem. Mas um dia meu irmão Gabriel me convidou pra eu ir pro Rio de Janeiro, porque ele ia prestar exames pra Escola de Advocacia. E quando eu desci e vi o Rio de Janeiro, eu não voltei mais.

LOU: Você veio de avião?
TEIXEIRA MENDES: Não. Eu vim de ônibus, viação Cometa.

LOU: E você veio pro Rio com que idade? Você já tinha feito o primário, ginásio....?
TEIXEIRA MENDES: Já tinha feito tudo. Eu tinha 18 pra 20 anos.

LOU: Você veio em busca da arte.
TEIXEIRA MENDES: Eu vim, pois eu queria ver a paisagem. Porque, no interior, quando eu era menino, eu seguia os pintores que pintavam a paisagem local. É que antigamente a gente pintava o natural, as pessoas chegavam numa floresta e no meio do campo, isto é uma planair, uma pintura em pleno ar, como fala o francês, como Fresane, Monet. A natureza era o método deles. Então, a gente era influenciado por esta escola francesa. E nada melhor do que a natureza como professora. Então, eu fazia diversos quadros. Quando o sol ia baixando, eu ia pintando e jogando, à medida que a sombra vinha, e mudava o aspecto, e eu já ia pintando outros. Aquele passamento do tempo tinha que ficar uma coisa espontânea.

LOU: Então, você começou fazendo paisagens?
TEIXEIRA MENDES: Não. Eu comecei com histórias em quadrinhos e como eu tinha um traço bom eu mergulhei nos desenhos de paisagens. Depois eu parti pra fazer a pintura de ateliê em cavalete; passei por uma fase abstrata.

LOU: Aqui no Rio mesmo?
TEIXEIRA MENDES: Aqui no Rio.

LOU: A mamãe foi aluna do Oswaldo Teixeira, na Praia Vermelha, ao ar livre, num lugar lindo. Ali, ela pintou a sua primeira paisagem, que foi aquele cantinho pitoresco que já não existe mais. Foi construído um colégio. Hoje o quadro tem destaque na minha sala.
TEIXEIRA MENDES: Eu tenho fotos com ele. Sou muito amigo dos filhos dele, do Franco, do Marcelo, Carlos Valério Teixeira. Somos amigos desde aquela época. Inclusive eu ganhei prêmio em dinheiro com pinturas.

LOU: Ganhou que prêmio?
TEIXEIRA MENDES: Prêmio de Viagem San Diego que é o prêmio máximo do salão. É uma maneira de exibir os artistas sem qualquer gasto.

LOU: Qual era o salão, onde foi feita essa exposição?
TEIXEIRA MENDES: Era um salão anual. Todo mês de junho tinha o Salão Anual de Belas Artes. Então, o prêmio principal, o auge, era o prêmio de Viagem San Diego. Tinha os que ganhavam medalha de prata, outros medalha de ouro, mas o prêmio mais valioso era o prêmio de viagem. Que você podia escolher o país que você quisesse durante dois anos.

LOU: E você escolheu logo a França, que recebe artistas de braços abertos.
TEIXEIRA MENDES: Claro. Paris, Riviera Francesa. Eu morei cinco anos lá. Eu fiquei dois anos, por conta do governo, depois fiquei mais três por minha conta.
Lá, a vida é difícil, mas abre as portas pro artista. A experiência que você adquire. Você convive no lugar onde conviveram os grandes mestres. Aí eu fui a Montparnase, Montbartre, em todas as cenas da boemia do tempo dos artistas.

LOU: Você vivia da venda de seus quadros?
TEIXEIRA MENDES: Vivia da venda de meus quadros. Ganhei algum dinheiro e retornei ao Brasil.

LOU: Retornou há quanto tempo?
TEIXEIRA MENDES: Já faz mais de 20 anos que eu voltei.

LOU: E depois você não voltou mais lá?
TEIXEIRA MENDES: Depois eu voltei, mas já voltei às minhas custas. Tive que pagar a viagem. Mas valeu a pena. Atualmente a minha ida a Paris é temporária. Eu morei lá cinco anos e agora vou de vez em quando.

LOU: Você entra como turista e pode vender quadros?
TEIXEIRA MENDES: Sim, como turista. Claro que posso vender, porque a arte é uma coisa individual. Se você tem um trabalho em sua casa, que é seu, ninguém o proíbe de vender. Agora se for em galeria, você precisa ter registro. Precisa ter uma autorização de compra, mas individual não. Já faz dez anos que eu vou todo ano pros Estados Unidos, fico lá oito meses e quatro meses aqui.

LOU: E lá você fica oito meses trabalhando com arte e consegue se sustentar bem?
TEIXEIRA MENDES: Muito.

LOU: Você vende quadros onde? Você monta os salões?
TEIXEIRA MENDES: Não. Eu tenho uma galeria, aliás, não é minha, é de uma amiga que fez da casa dela uma galeria e eu trabalho pra ela. Ela é quem vende meus quadros.

LOU: Imagino que deva ser um sucesso, porque só de falar.... São esses quadros de compositores musicais que você vende lá?
TEIXEIRA MENDES: Não. A temática é diferente. Lá eu faço mais cenas de cerimônia judaica, tipo Bar Mitzvá e Bat Mitzvá, casamentos, indumentárias, circuncisões, cenas onde aparecem rabinos lendo e meditando...

LOU: O que significa Bar Mitzvá?
TEIXEIRA MENDES: É o nome dado à cerimônia que inclui o menino judeu como um membro maduro na comunidade judaica. De acordo com a lei judaica, uma menina judia atinge a sua maturidade aos 12 anos de idade, mais um dia. E os meninos aos 13 anos e um dia. A partir daí, eles se tornam responsáveis pelos seus atos. Então, o menino passa a ser Bar Mitzvá - "filho do mandamento"; e a menina passa a ser Bat Mitzvá - "filha do mandamento".

LOU: Maravilha! Gostei de aprender isso! Aqui é bem diferente, né? Mas voltando a sua arte: você tem várias nuances em seu trabalho. Agora você faz mais figuras de pessoas. Não são retratos. Você começou com caricaturas, histórias em quadrinhos, paisagens,... Você não faz mais paisagens? 
TEIXEIRA MENDES: Hoje eu faço uma pintura mais moderna.

LOU: E você escolheu o mundo da música, dos cantores, instrumentistas, etc.
TEIXEIRA MENDES: A música e os personagens são mestres da escola da pintura brasileira. Então, eu resgato isso. Não como um retrato fiel, mas como um clima do cara. Eu coloco um Pixinguinha ao lado do Baden Powell, eu nunca soube se eles se encontraram, mas eu coloco.

LOU: A imaginação é atemporal. Esses encontros em suas telas não obedecem à cronologia dos fatos... 
TEIXEIRA MENDES: Então, são essas coisas que eu faço. São coisas que jamais podemter acontecido. O grande Villa-Lobos nunca esteve ao lado da Chiquinha Gonzaga, eles não são contemporâneos, mas eu coloquei. (como está no catálogo – mostra catálogo).

LOU: E como combina! 
TEIXEIRA MENDES: Combina, claro! Tem o Vicente Celestino com Zilda de Abreu, ao lado de Dolores Duran.

LOU: Ainda aparece aqui a Gal Costa...
TEIXEIRA MENDES: A Gal Costa ainda está viva! Mas ela tá no meio de gente que nunca transou, nunca conviveu. Ela está ao lado da Dolores Duran.

LOU: Também Noel Rosa...
TEIXEIRA MENDES: Pixinguinha, Nelson do Cavaquinho, Elza Soares... todos juntos... A Elza Soares ainda é contemporânea.

LOU: É, tá aí vivíssima! Dando shows internacionais... E neste momento você está voltado pra pintura de instrumentistas e cantores...
TEIXEIRA MENDES: Por enquanto. Eu ia voltar a fazer cenas também, cenas históricas de Tiradentes, ia fazer a Guerra dos Canudos, Antônio Conselheiro. Ia fazer quadros pra museu, com a história. Nós temos poucos artistas que fazem isso. E eu posso fazer.

LOU: É a sua meta? 
TEIXEIRA MENDES: Eu posso fazer a Batalha do Tuiuti, do Tamandaré, aquelas batalhas antigas que tinha, a Guerra do Paraguai.

LOU: Isso você vai precisar pesquisar em bibliotecas, museus... 
TEIXEIRA MENDES: Servem como sugestão pra inspiração. Você precisa disso. Você tem que pesquisar figuras, indumentárias da época, tem que seguir a decoração da época, as vestes, o mobiliário, tudo. Eu estou apenas pensando em fazer isso, entendeu? Quero fazer a Maria Quitéria, o Giuseppe Garibaldi, na minha maneira de ver.

LOU: Que é muito peculiar, diferente, especial, singular. Você saiu do científico e foi direto pra escola de Belas Artes aqui do Rio de Janeiro?
TEIXEIRA MENDES: Fui. Eu freqüentei a escola de Belas Artes como ouvinte. Eu ia desenhar com os grandes mestres. Eu conheci o Oswaldo Teixeira pessoalmente, o Passete, o Di Cavalcanti. Eu só não conhecia o Portinari porque, quando eu cheguei, ele tinha falecido há pouco tempo. Mas conheci outros grandes artistas como o Manoel Santiago.

LOU: Então você não tem formação acadêmica, você é autodidata.
TEIXEIRA MENDES: Eu sou autodidata. Já fiz muito modelo vivo.

LOU: Eu costumo sempre terminar as entrevistas pedindo às pessoas que mandem um recado pros velhosamigos, um recado de esperança ou, por exemplo, pras pessoas que não sabem o que vão fazer da vida. E eu estou vendo que você agora tem tudo isso em exposição em Copacabana...
TEIXEIRA MENDES: Eu sou um otimista. Eu acho que quando a gente levanta, dá bom dia, esse bom dia tem que ser aproveitável. Eu não tenho esse mau-humor das pessoas. Bom dia! Ah, não, o dia tá ruim. Eu sou um otimista e vivo toda a felicidade e é muito bom.

LOU: E você não acha que arte ajuda a pessoa a ter uma mente mais sadia, mais feliz?
TEIXEIRA MENDES: A sensibilidade do artista faz com que ele tenha um encontro com uma força superior. Foge desse mundo e entra numa viagem.

LOU: É nessa viagem imaginária que você tira as maiores figuras, as grandes inspirações.
TEIXEIRA MENDES: São exemplares!

LOU: E você não copia pra outra pessoa. 
TEIXEIRA MENDES: Eu nem consigo. Se pedirem pra eu pintar outro igual, eu não sei fazer.

LOU: Aquela criação é única.
TEIXEIRA MENDES: É. Quando uma pessoa me pede pra pintar uma temática:  - Eu quero que pinte essa menina assim, assim. Eu não sei fazer, fico inibido e perco a espontaneidade.

LOU: Porque a sua imaginação já vai ter um outro olhar.
TEIXEIRA MENDES: Vai superar o que eu fiz. E às vezes não supero; pode ficar até inferior ao outro.

LOU: Tá certo. Muito obrigada pela sua entrevista.
TEIXEIRA MENDES: Obrigado a você. Adorei lhe conhecer e a gente vai fazer uma grande amizade, pode estar certa disso.

LOU: Você é amigo da minha irmã e certamente é meu amigo!
TEIXEIRA MENDES: A Lulu é fantástica!

LOU: Como é que as pessoas podem achar você? Por exemplo, quando elas quiserem comprar seus quadros?
TEIXEIRA MENDES: Pelos telefones 2257-2691, e 8625-5752, ok? (Os telefones citados estão desativados).

LOU: Então, quando alguém quiser comprar um quadro seu já sabe onde encontrar. 
TEIXEIRA MENDES: É? Legal.

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA