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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

TIBÉRIO GASPAR
publicado em: 16/02/2017 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 23/12/2002

De Gaspar Silveira Martins Rodrigues Pereira e de Isaura Fundão Barcelos, professora de artes, plásticas na Escola Nacional de Belas Artes, nasceu um novo gênio da poesia e da música popular brasileira.
É ele que nos concede esta entrevista e conta interessantes episódios dos bastidores da ditadura.

LOU -Como é seu nome todo?
TIBÉRIO - Tibério Gaspar Rodrigues Pereira, conhecido como Tibério Gaspar.

LOU - Em que dia, mês e ano você nasceu?
TIBÉRIO - Não pode falar pra ninguém (risos). Eu sou um carioca, nascido em 11 de setembro de 1943, sob o signo de virgem, com ascendente em aquário.

LOU - Mais ou menos com que idade você começou a demonstrar seus dons musicais?
TIBÉRIO - Mais ou menos com 6, 7 anos eu já cantarolava, inventava sílabas que eu juntava com música e aí, com 10 anos, eu já tinha feito uma musiquinha e foi por aí a fora. Depois é que eu vim aprender um instrumento. Primeiro foi o acordeon, na época que as mães obrigavam os garotos a tocarem acordeon, depois aprendi violino e, posteriormente, vim aprender música sozinho e aprendi violão sozinho. Daí então eu desenvolvi esse dom de compor. Eu sou, por excelência, um compositor.

LOU -Quando você começou a despontar no cenário musical?
TIBÉRIO - Mais ou menos em 1966, quando fiz minha primeira música em parceria com Antônio Adolfo. A nossa primeira música foi "Caminhada", que entrou no 2º Festival Internacional da Canção, naquele que "Travessia" tirou o 1º lugar, onde despontou Milton Nascimento.

LOU - Dá uma dica aí.
TIBÉRIO - Quem cantou foi o Eduardo Conde junto com uma menina chamada Iracema Werneck: "Sou como uma onda a rolar, querendo mansa morrer, no colo do quebra-mar. Vou, careço tanto chegar. Como um sereno na flor, quero o teu colo banhar..." Depois essa música foi gravada também pelo Agostinho dos Santos . No outro Festival já vim com uma outra música, chamada "Visão", que foi defendida pelo Agostinho dos Santos.

LOU - Lembro de Sá Marina...
TIBÉRIO - É foi neste intermezo, que compus "Sá Marina". (inspirado na moça desta foto, uma professora da cidade de Anta) compus em parceria com Antônio Adolfo. Foi o maior sucesso! Foi gravada em original por Simonal, com grande repercussão, e em 2002, por Ivete Sangalo. No exterior, ela recebeu o nome "Pretty World", em versão de Marylin e Allan Bergman. Vai daí que eu tive a oportunidade de gravar essa música com Stevie Wonder e, depois, com um cara chamado Earl Klug, que foi até prêmio de melhor disco de jazz. E também teve "Tijuana Baez", com Herb Albert e Sérgio Mendes. Eu tenho cerca de 200 músicas gravadas aqui no Brasil.

LOU - E você costumava gravar suas músicas?
TIBÉRIO - Eu costumava dar minhas músicas pros outros e havia uma certa timidez muito grande. Mas depois eu convivi com grandes cantores, inclusive com a minha mulher, que é uma cantora excepcional, a Cristina Conrado, e com ela também aprendi muita coisa, até tomar coragem de cantar e gravar meu próprio disco. Estou agora lançando esse disco, que vem trazendo todas essas músicas. Traz também Juliana, que é uma música que eu ganhei o segundo lugar no Festival Internacional da Canção. .

LOU - É o seu primeiro disco?
TIBÉRIO - É o meu primeiro disco solo. Eu tenho 4 músicas com Antônio Adolfo. Entre outras, tem a "Sá Marina", que eu abro o disco com ela; tem a "Juliana", tem a "BR3", que foi a música com a qual eu ganhei o 5º Festival Internacional da Canção, em 1970, cantada pelo Tony Tornado e pelo Trio Ternura e o "Teletema", que é uma música famosa, também que veio da novela "Véu de Noiva". ..."Como estrada turva sou despedida...", gravada originalmente pela Regininha. Esse CD é de um compositor carioca, que traça mais ou menos essa minha trajetória.
(Na foto, a partir da esquerda: Antônio Adolfo, a famosa Evinha e Tibério Gaspar)

LOU - Existe um triste episódio sobre a BR3 e o tempo da ditatura?
TIBÉRIO - Foi uma música polêmica que causou muito problema pra mim. Fui chamado no SNI porque houve um boato que a música "BR3" era a veia do braço, era o hino do toxicômano. Isso foi uma notícia forjada pelo Ibrahim Sued, em complacência com a parceria de um General, já falecido, e eu tive que enfrentar um pouco essa situação estranha e esse estigma me acompanhou um pouco. Fui chamado no SNI pra esclarecer não só esse fato, mas como também o medo que eles tinham na época que o Tony Tornado fosse um líder negro que pudesse causar uma turbulência social. E daí, desfeitos os mal-entendidos, a gente continuou, mas eu fiquei um pouco guardado na geladeira. Na Revolução, essa Pseudo-Revolução, as gravadoras temerosas me congelaram.

LOU - Você chegou a ser preso?
TIBÉRIO - Não, eu cheguei a ser chamado no Ministério da Guerra e entraram numa conversa pra via dos fatos comigo.

LOU - Chegou a ser torturado?
TIBÉRIO - Não, torturado não, nem preso. Fui ameaçado.

LOU - Teve que sair do País?
TIBÉRIO - Não tive que sair do País, porque eu calei a minha boca. Mas tive que enfrentar um certo ostracismo imposto pelas gravadoras que não queriam deixar que gravasse minhas músicas e aí tive um hiato na minha carreira. Então, nesse disco, escrevi um rap que se chama "A História da BR3".

LOU - E você sabia que eu fui a uma festa no Flamengo e tinha um grupo cantando e tocando músicas suas e contaram toda a sua "História da BR3"...? Contaram e cantaram toda a verdadeira história....
TIBÉRIO - Você estava lá? ( risos ) Era eu que estava lá.

LOU - Parabéns! ( risos ) Eu fiquei encantada.
TIBÉRIO - Esse disco tá bem carioca, tem uma participação especial do Luís Melodia cantando uma música chamada "Gema Carioca", que é um samba-funk, tem a Regininha, tem a Cristina Conrado que canta uma música comigo chamada "Nossa Paixão" - dá um show de bola, de voz. Então o disco tá assim... eclético, mas que tem todo um sabor... Tá todo amarrado no compositor Tibério Gaspar. Mas tudo dentro de uma certa harmonia em cima de um trabalho que eu venho realizando. Tem uma música muito linda, com Tavinho Bonfá participando comigo numa música chamada "Batuque no Céu", que é uma homenagem a todos os músicos que já passaram pro andar de cima. Então eu tô lançando esse CD e a minha intenção agora é aproveitar essa entrada que eu tenho lá fora e fazer esse CD chegar lá.

LOU - Como você vai fazer isso?
TIBÉRIO - Eu preciso realmente fazer um site legal, uma home page bonita, onde eu possa ter todas essas coisas da minha vida transcritas e ter em inglês também. Eu preciso fazer com que este disco saia pra fora do Brasil e viaje pra outros cantos do mundo, pois está muito bem gravado.

LOU - Agora, ele vai ser lançado no meu site. Será ouvido em muitos lugares, até no Japão, Israel, Portugal, Indonésia, Estados Unidos, etc. Existem "Velhos Amigos" espalhados por todo o mundo. Temos aqui uma estatística com o número de pessoas que visitam o nosso site. Tem de tudo que é lugar. Antes de você ter sua home page, você vai ter seu disco lançado no exterior.
TIBÉRIO - Certo. Vou deixar telefone, meu e-mail, ou as pessoas se comunicam através de você e chegam a mim?

LOU - Como você quiser. Elas poderão procurá-lo diretamente. Você vai vender em casa ou vai vender em bancas de jornal? Agora muita gente tá fazendo isso.
TIBÉRIO - Não, eu tô querendo colocar nas livrarias. Já coloquei na Modern Sound, que é uma loja grande de disco em Copacabana e na livraria Letras & Expressões.

LOU - Ah, maravilha!
TIBÉRIO - Eu quero também colocar em várias lojas de discos.

LOU - Mas você mesmo vai distribuir?
TIBÉRIO - Aqui no Rio de Janeiro, por enquanto. Eu quero fazer um plano maior pro ano que vem. Vamos ver se a gente faz um projeto com apoio e incentivo fiscal pra gente pegar esse disco e lançar pro resto do Brasil. Quero sair por aí fazendo meus shows e lançar o disco.

LOU - Eu quero saber agora mais sobre a sua vida. Porque o "Gente em Foco" conta a vida da pessoa como saiu da infância, onde estudou, como foi a adolescência...
TIBÉRIO - Eu era levado, apanhava... Eu era daqueles garotos calados, tímidos, mas era travesso bastante. Fui filho único até os seis anos, quando surgiu minha irmã. Mas eu tive uma infância muito legal, porque até mais ou menos 12 anos de idade eu morei numa cidadezinha do Estado do Rio, chamada Anta, que é próximo de Sapucaia e Além Paraíba. Nessa cidadezinha, tinha o rio Paraíba do Sul onde eu tomava banho de rio com os colegas e tal. Foi uma infância muito perto da natureza, andava de carro de boi, tinha meu cavalo. Jogava bola de meia, mas a gente saía muito pro mato com atiradeira pra matar passarinho. Depois não mato mais nada, nem barata. Essa cidadezinha foi uma parte muito agradável na fase da minha infância. Fiz até uma música falando sobre esse assunto. Isso me enriqueceu bastante.

LOU - Qual foi a música?
TIBÉRIO - Eu fiz uma música chamada "Minha História", em que eu falo: "Faço a minha história, com meu jeito de cantar. Coisas que a memória não se cansa de lembrar. Eu tinha um rio, que ainda corre no meu peito e que às vezes sai do leito, me transborda de chorar..." e vai por aí a fora.

LOU - Que lindo! É um poema.
TIBÉRIO - É. Aí, então, eu conto várias coisas na música. A música é engraçada. Lá na cidadezinha quando eu canto essa música nas rodas, as pessoas choram. É uma choradeira danada. Eu canto até nos versos da música essa história de que meu filho, hoje em dia, tá reproduzindo a mesma história que eu vivi. E tem aquele negócio muito poético de lá, a cidadezinha do interior. Tá um pouco transfigurada pela máquina do progresso, que é impiedosa e massacra muito, mas a cidadezinha continua lá. Depois eu vim pro Rio de Janeiro e comecei a estudar.

LOU - E quando é que você começou a entrar na carreira artística?
TIBÉRIO - Isso aí começou a aflorar mais nos meus 18, 20 anos de idade. Quando eu completei o curso científico, eu ia fazer o vestibular pra Engenharia. Nessa época eu comecei a compor com meus amigos. A gente tinha uma turminha com Paulinho Tapajós, Arthur Verocai, Beth Carvalho e me tornei compositor profissional mesmo em 1966. E foi nessa época que a minha primeira música foi gravada - "Caminhada". E daí pra frente não parei mais.

LOU - E foi com essa música "Caminhada" que você começou a sua carreira, direto, concorrendo no Festival da Canção?
TIBÉRIO - Foi no 2º Festival Internacional da Canção. Por isso que eu tenho também um carinho muito grande pelos festivais. Eu gosto de participar até hoje. Eu acho que eles são os verdadeiros celeiros da MPB, que é muito diferente do que é imposto pela mídia, que é totalmente comprada e vendida às gravadoras. O jabá foi institucionalizado. A gravadora tem um produto de baixa qualidade que ela pega e coloca numa rádio, compra o horário e impõe isso ao povo.

LOU - O que torna maçante e vicia o ouvido do povo a um gosto musical de menos qualidade...
TIBÉRIO - Mas ninguém consegue enganar muito tempo a muita gente. Por isso mesmo as gravadoras estão numa derrocada.

LOU - É por isso que as pessoas estão gravando de forma independente?
TIBÉRIO - Por isso que os melhores discos que estão acontecendo são os dos pequenos selos e os independentes. Veja que uma Maria Betânia, pra poder fazer o que quer, saiu e foi pra gravadora Biscoito Fino. É por isso que as pessoas estão se evadindo. O Roberto Menescal, o Albatroz, parece até que é o teu vizinho aqui, né? A Cristina tava me falando. Acho então que as pessoas estão tendo outra consciência. A volta da boa música tá sendo valorizada, porque todo mundo já tá cansado de ouvir cantar peitinho, bundinha e ver posições sexuais na música. A música virou uma aeróbica sexual. Então a música não é pra isso. A música é pra você contar coisas, pra você ser artista.

LOU - Nem com duplo sentido. É direto.
TIBÉRIO - É direto mesmo. Então você vê que a música deixou de ser uma coisa de arte. E os festivais tão aí e eles precisam ser cada vez mais estimulados porque eles é que mostram a verdadeira música. E eu acredito que vai chegar uma coisa melhor. E outra coisa: a democratização da Internet também fez isso acontecer. Ou seja, você pode começar a descobrir coisas boas, você pode adquirir a cultura que você quer. A banal você pode largar de mão. Você quer ver uma coisa que eu achei interessante também. Tem uma mulher que eu conheci em São Paulo e achei muito interessante. A UOL tá processando ela. Ela tem um sobrinho, que é hacker, e o cara fez um sistema onde ele consegue captar todos os compradores de CD, que acessa CD, ele consegue o endereço eletrônico. Então, ela tem cadastrado 40 milhões de usuários compradores de CD em potencial no mundo. Sabe o que ela fez? Ela montou um SPAM com uns 12 computadores, pegou um produto que ela elegeu como sendo uma coisa vendável, um disco de um grupo de garotos e colocou na Internet durante 3 dias rodando, massacrou o provedor lá. Mas colocou pro mundo inteiro e vendeu 450 mil cópias.

LOU - Então tá rica!
TIBÉRIO - Mas ela teve que dar uma parada.

LOU - As pessoas para as quais eu tenho divulgado disco no site, estão vendendo muito.
TIBÉRIO - Espero que a gente consiga fazer isso. Mas bota o quê? 1 minuto da música?

LOU - Botamos a música inteira. Letra e tudo.
TIBÉRIO - De uma música?

LOU - Vou botar três músicas suas. As pessoas gostam de cantar. A música é uma terapia. Os Velhos Amigos adoram cantar e até pedem as músicas.
TIBÉRIO - E para os autores, isso não prejudica a venda do CD?

LOU - Ao contrário. Depois de escutarem umas duas ou três músicas, vão procurar o disco.
Eu não vendo nada no meu site. Apenas faço isso porque acho que as pessoas que entram no nosso site querem se divertir, cantar. É bom também pro cantor e compositor. É bom pra todo mundo. Agora, mudando de assunto: fala da sua vida sentimental. Você era muito namorador?
TIBÉRIO - Fui muito namorador, mas eu sempre fui fiel, nunca tive duas namoradas ao mesmo tempo. Só uma de cada vez.

Terminava com uma, começava com outra. Mas um dia conheci uma pessoa, a Cristina Conrado, que eu amo muito e estou com ela até hoje e aí parei.

LOU - Ah! Como os olhos brilham! O amor é muito bonito.
TIBÉRIO - Graças a Deus eu tenho uma pessoa que eu gosto e eu acho legal. A gente pode discutir muito, mas ela é minha melhor amiga, ela torce por mim, eu confio totalmente no que ela fala comigo, ela só quer o meu bem, eu também só quero o bem dela totalmente.

LOU - A discussão é um bom sinal...
TIBÉRIO - É. A gente pode discutir mas há sempre um carinho muito grande, sempre um torce pelo sucesso do outro. Ela é a melhor cantora das minhas músicas e gosto de vê-la cantando as minhas músicas. Sei lá é um amor muito grande.

LOU - Ela interpreta bem suas músicas?
TIBÉRIO - Muito. Ela deu show cantando uma música ontem. Foi espetacular! Melhor coisa que teve no festival foi ela cantando.

LOU - Ai, que coisa linda! Agora me diz, ela foi seu primeiro casamento, a sua primeira mulher? A única?
TIBÉRIO - Não. Ela foi a terceira. Mas só com ela que eu tive filho. Vou lhe contar uma coisa. Eu tive uma pessoa muito tempo atrás. Meu pai era uma pessoa de formação científica e ele um dia me disse: - Olha um professor de faculdade, meu amigo, me levou na casa de um cara que eu achei muito estranho, um negro, um preto velho que mora em Belford Roxo, numa casa de estilo marroquino. É uma pessoa bem diferente. Chama-se Manoel Jacinto Coelho. E eu queria que você fosse lá comigo. Eu concordei. Eu o achei uma pessoa incrível. Ele é um cara totalmente empírico, que já teve muitas experiências na vida e entende de tudo. E tem um lado espiritual muito forte. É um feiticeiro, um bruxo. Incrível! Ele criou uma seita chamada "Universo em Desencanto", que até o Tim Maia ficou adepto de uma maneira veemente, fanática, com o que eu não concordava. Porque essas coisas a gente tem que ver, mas nada de fanatismo. Mas, fui lá com meu pai e conheci esse cara. E ele chegou pra mim e falou assim: - Olha, você é uma pessoa de muita luz, muito forte. Eu queria dizer pra você que tem umas coisas que acho que vão acontecer na sua vida. Eu falei - pois não! A primeira música que você fizer, quando sair daqui, vai ser sucesso no Brasil e vai te projetar no mundo. Dito isso, a primeira música que fiz quando saí dali foi "Sá Marina", que me projetou no Brasil inteiro e fez sucesso no mundo.

Com Antônio Adolfo em 1969

E falou mais: - esse teu parceiro, o Antônio Adolfo, você vai caminhar com ele até um certo dia, que vocês vão se separar por causa de uma mulher. Realmente, isso aconteceu porque o Antônio foi padrinho do meu primeiro casamento e eu me separei dessa primeira mulher e ele casou com essa minha ex-mulher. E hoje em dia, tá tudo bem. Por mim, não havia nada, porque não gostava dela, não tinha absolutamente nada, mas ficou aquele negócio meio esquisito. Da parte dele. Aí o preto velho falou assim: - Você vai casar três vezes, mas acontece que você só vai casar legal com uma terceira pessoa e essa terceira pessoa vai ser a mulher da sua vida. Ela tem os olhos claros e uma marca na pele e ela vai te dar um filho homem parecido com você. Você vai ter com ela só um filho homem, com a cor dos teus olhos. Aconteceu que eu casei a primeira vez, levei lá e ele disse não é essa, você vai ver só. Passou um tempo, separei, depois casei outra vez e ele disse: também não vai dar certo. Aí no dia em que apresentei a Cristina, ... ele previu nada mais, nada menos que vinte e tantos anos à frente da minha vida ...

LOU - Quer dizer que sua primeira música não foi "Caminhada"?
TIBÉRIO - Primeiro sucesso foi "Sá Marina". "Caminhada" foi meia bomba. Não foi sucesso.

LOU - É um fato interessantíssimo mesmo! E depois do festival, você compôs "BR3" e aí que aconteceu o problema com a Revolução?
TIBÉRIO - Não. O problema com a Revolução foi na época em que eu compus a "BR3".

LOU - Quem era o presidente nessa época?
TIBÉRIO - Era o Emílio Garrastazul Médici, em 1970. Aí houve a divulgação dessa notícia do Ibrahim Sued e David Nasser, dizendo que a música era uma veia do braço e tudo mais. E isso me deu um prejuízo muito grande. Na íntegra, por trás disso, estava o lançamento de um livro chamado "Tóxico", do General chamado Jaime Graça, que já faleceu também. E esse general colocava a "BR3" como sendo uma música de tóxico. No trecho que dizia "Há um foguete rasgando o céu, cruzando o espaço. E um Jesus Cristo feito em aço, crucificado outra vez..." Ele dizia que eu queria dizer que era uma seringa que vem do céu cruzando o braço, uma agulha feita em aço pra espetar outra vez. Ele transcreveu isso no livro dele. Eu não pude me defender porque todos os direitos civis nessa época estavam cerceados. Só através da Justiça Militar. E ficava complicado porque o cara era general do exército. Além disso, fui chamado no SNI, que era na época chefiado pelo João Figueiredo, já falecido, e fui interrogado por quatro coronéis. Um dos quatro virou general e era o Ronaldo Costa Couto, que foi o porta-voz do Figueiredo no governo e isso tudo já com a preocupação que o Tony Tornado fosse um líder negro, tipo Stokler Carmichael, versão tupininquim do Black Panther americano. Tudo isso era uma coisa muito complexa. Então eu procurei trazer tudo isso pra dentro da música, em cada curva um crime, entendeu?

LOU - E você foi absolvido?
TIBÉRIO - Pela minha consciência e por Deus.

LOU - E você foi a julgamento?
TIBÉRIO - Não fui não. Fui chamado lá e expliquei.

LOU - Você tava no SNI com essa gente toda, com esses coronéis todos. Você explicou e eles aceitaram o argumento?
TIBÉRIO - Eu mostrei que não era nada disso. Que o Tony Tornado, na época, que se ele fosse um líder negro, ele continuaria o romance com a pretinha dele e não ia separar dela pra colar com a Arlete Salles. Aí a história dele virou café com leite. No meu caso foi uma invenção, uma coisa fabricada por esses caras. Eu levei isso ao conhecimento deles. Então eles arrefeceram. Por isso, eu aproveitei na época para denunciar todos esses desmandos do direito autoral e aí surgiu a nova Lei do Direito Autoral, em 1975. Eu disse: - Vocês estão querendo tanto consertar o Brasil então um bom tema pra vocês: o Direito Autoral. Porque existem distorções incríveis, eram sete sociedades que manipulavam o direito autoral. Posteriormente veio a criação do ECAD e do CNDA, tentando corrigir a distorção do nosso direito autoral.

LOU - Mas mesmo assim não corrigiu.
TIBÉRIO - Não, claro que não. Porque existe uma quantidade enorme. São treze e tanto. Aqui é assim: temos trinta partidos políticos, treze sociedades, tudo assim. Porque isso é maneira de quanto mais você divide, mais você enfraquece. As pessoas ainda não compreenderam que elas têm que se juntar.
Ou situação, ou oposição e acabou. É uma ou duas sociedades como nos EUA, que tem ASCAP e BEMI e acabou. Agora aqui não tem SICAM, SADEMBRA, UBC, SOCIMPRO e vai por aí a fora.

LOU - Você, pra receber seus direitos autorais, tem que sair arrecadando de todas essas sociedades?
TIBÉRIO - Não, antigamente era o contrário. Você só podia pertencer a uma sociedade. E o compositor só podia fazer parceria com um compositor que fosse da mesma sociedade que ele. Agora o editor, como pessoa jurídica, podia criar vários nomes e estar filiado às várias sociedades. Então, eles manipulavam o poder econômico que tava na mão dos editores e o "poder político" na mão do compositor.

LOU - E como você faz pra receber o seu dinheiro?
TIBÉRIO - Foi criado o ECAD - Escritório Central de Arrecadação de Direitos. Mas esse ECAD é uma coisa um tanto quanto bisonha. Porque ele recolhe esse dinheiro e repassa pras sociedades, que por sua vez repassam aos compositores. Eu não sei pra que essa sociedade pega essa grana. O negócio era o ECAD recolher esse dinheiro, botar na CEF e cada um fosse lá receber seu direito. Você vê aqui que o disco não é numerado. É o único lugar do mundo que o disco não é numerado. Por quê? Porque se rouba. A fábrica de disco diz que vendeu 90 mil. Você não tem como contestar.

LOU - Agora, tem um grupo dos compositores que não está querendo que os discos sejam numerados. O que acontece exatamente?
Se é bom pro compositor que os discos sejam numerados, porque alguns estão sendo contra?
TIBÉRIO - Porque eles acham na verdade que se o disco for numerado, não impede a pirataria também, pois o disco pode ter três, cinco numerações. Tem que ser feito de uma maneira que não possa ter número duplo. O problema é a duplicidade, os clones.

LOU - Se fossem todos assinados. O que não fosse assinado, era pirata.
TIBÉRIO - Exatamente. Deve existir algum meio de se pegar e autenticar isso de uma maneira que o disco não possa ser copiado. É só ter uma vontade política de que isso seja resolvido. Claro que pras fábricas de discos é muito confortável. Porque elas sonegam impostos há anos. Ela diz que você vendeu 20 mil. E como você sabe se você vendeu 100 ou 20 mil? Não sabe. Não tem como fiscalizar isso.

LOU - Mas porque o remédio é fiscalizado e o disco não é? Eu mesma, quando fui à Bahia, tinha uma menina que tava cheia de discos, desses que estão na onda. E pelo jeitão do disco eu vi que ele não era disco de gravadora. Porque a gente conhece. Eu perguntei a ela: - Esses discos todos são piratas? Ela disse - só compro disco pirata. Quer dizer o próprio consumidor ajuda a esses piratas a fabricarem disco.
TIBÉRIO - É claro. Por quê? Porque a realidade do disco é que deveria ser muito mais barato do que é. Mas acontece o seguinte, os diretores das fábricas de discos ganham 120 mil reais por mês o outro é 250. Então são ordenados fabulosos e pagam também os horários pra terem espaço. Agora é assim. Pra tocar na rádio tem que pagar. Antigamente não era assim. Então eles criaram esse sistema esquisito e agora tão sofrendo, pagando o ônus do que eles plantaram. Eu acho o seguinte: o disco poderia ser muito mais barato. Eles é que fizeram isso. E quem diz que eles não são os próprios que fazem o pirata? Como é que você me explica, por exemplo, que um CD sai primeiro no camelô que na loja? Se uma fábrica de disco tem o CD quase como um segredo de Estado, como ele sai lá dentro pra ser lançado primeiro no camelô que na loja?

LOU - Mas vamos falar de música, das coisas bonitas da vida. Os grandes compositores agora estão fazendo seus discos de forma independente, ou então com gravadoras pequenas, pra poderem ter algum rendimento... E depois eu sei que os compositores que não cantam suas músicas ficam numa situação difícil financeiramente. Como vão viver? Por exemplo, você recebe de INPS, alguma coisa assim? Você não recolheu nunca INPS?
TIBÉRIO - Não, nunca.

LOU - Quer dizer que você nunca pode se aposentar?
TIBÉRIO - Não, eu teria de retroagir, provar que eu trabalho desde tal época.

LOU - Você deve fazer isso.
TIBÉRIO - Tenho essa possibilidade, mas recolher não. Porque todo músico é um pouco sonhador e um pouco esculhambado, desorganizado nisso. Acho que isso é o mal da classe nesse sentido de não pensar de uma maneira mais prática. É mais cigarra do que formiga.

LOU - Quer dizer, pensa no imediato, no aqui e agora e não planta pro futuro, de um dia poder deitar na fama e colher os frutos.
TIBÉRIO - Eu acho que tem um pouco disso, mas eu acho que a gente vai mudando, se ajeitando, vai vivendo e vai fazendo e vai tentando realizar alguma coisa. Eu tô muito confiante nesse meu disco, muito contente. Você vai ouvir e vai me dar sua opinião.

LOU - Quer dizer que você agora, com esse disco, vai viajar o Brasil inteiro, talvez o mundo...
TIBÉRIO - Deus te ouça!

LOU - Deus me ouça não, ele tá ouvindo! Todos os nossos sonhos a gente pode realizar.
TIBÉRIO - Eu quero isso, eu desejo isso, eu peço a Jesus isso. Jesus tem sido uma coisa maravilhosa na minha vida. A verdade é que no dia em que eu comecei a compreender esse Espírito que é Jesus, comecei a me tornar amigo d'Ele, vi a passagem d'Ele na vida e comecei a descobrir Jesus nos dias que eu vivo hoje e comecei a descobri-lo dentro de mim o que Ele fez e deixar que Ele viva comigo. E todo dia agradeço e converso com Ele. Eu acho que minha vida mudou muito, numa velocidade incrível. Quer saber como gravei esse disco? Eu cheguei pra Ele e disse assim: - Jesus, tá na hora de eu gravar um disco. Eu preciso gravar um disco Senhor. Nas minhas orações eu falo com Ele. É meu amigo. Não é ficar só rezando. É orar. Eu falei: - eu mereço gravar um disco, Senhor, sou uma pessoa boa, não piso na cabeça de ninguém, então tá na hora, eu gostaria tanto de gravar um disco. Aí fui fazer um show de voz e violão e duas pessoas viram e disseram após o show: - você não tem disco? Eu falei que não. Então, porque você não grava um? Eu disse que não gravava porque não tinha dinheiro pra gravar um disco. Mas dinheiro não é problema, é solução. Suas músicas são lindas. Eu agradeci. Eles disseram - entra amanhã no estúdio que a gente banca o disco. Botaram 30 mil na minha mão. Eu já consegui pagar a metade do que me emprestaram. Que eu também não quero ficar devendo à ninguém e fiz um disco maravilhoso em 20 dias.

LOU - Você tem o seu conjunto?
TIBÉRIO - Eu tenho minha banda. É uma banda legal. Tô apto também. Espero que você me dê essa oportunidade, através de seu site, que vai servir não só pra divulgar o meu disco, como pros shows.

LOU - Quando fizermos o nosso próximo encontro, dos Velhos Amigos, no ano que vem, você vai fazer o show da nossa festa. Está convidado!
TIBÉRIO - Muito obrigado.

LOU - Aí você divulga o seu disco e vai animar a festa também.
TIBÉRIO - Tá legal. A Cristina é a minha cantora, além disso, ela tem ótimas idéias. Ela me dá altas sugestões. O que eu acho mais legal na Cristina é que ela tem sexto sentido.

LOU - Agora me diz uma coisa, nós costumamos encerrar a entrevista com um recado que você possa dar aos Velhos Amigos. Com quantos anos você tá?
TIBÉRIO - Eu tenho 59.

LOU - Então você, cheio de projetos, vai viajar o mundo. Tá lutando por uma situação, concorrendo com muitos jovens que também estão começando agora. Quero dizer que isso é uma coisa maravilhosa. Você estar trabalhando com entusiasmo, buscando o seu sonho.

Eu considero isso um exemplo. Qual é o recado que você manda pros Velhos Amigos?
TIBÉRIO - Olha, eu acho o seguinte: tenha um sonho, acredite no seu sonho, trabalhe pra que esse sonho vire uma realidade e seja uma benção pela glória de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quando você tem um sonho e trabalha e acredita, na pior das hipóteses, o sonho que não dá certo é uma ilusão. Mas ilusões existem. Porém, o mais importante é sonhar. Viver é sonhar. Só sonha quem está vivo.

LOU - Que bonito! Muito obrigada. Este é um recado importantíssimo que nós estamos recebendo e agradecemos imensamente a sua entrevista. E vamos torcer pra tudo dar certo. Primeiro encontro de festa agora, vai ser um almoço ou um lanche. Você vai abrilhantar nossa festa.
TIBÉRIO - Vou botar todos pra dançar.

LOU - E pra cantar!
TIBÉRIO - Vai ser uma alegria!

Para comprar o CD do Tibério Gaspar é só ligar para (0xx21) 2531 - 9337 ou 9676 - 9302, ou escrever para o e-mail: tiberio_gaspar@ig.com.br

Maria de Lourdes Micaldas
Revisão: Anna Eliza Führich
 

 

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