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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

VÓ MARIA
publicado em: 16/02/2017 por: Lou Micaldas

* 5 de maio de 1911
+ 16 de maio de 2015
Matéria publicada em 10/02/2004

Tenho a honra de entrevistar a Vó Maria, esta pessoa linda, dona de uma voz singular, uma prova viva de que a gente pode fazer mais de 90 anos, e continuar cantando, sorrindo e brincando como nos ensina a arte de viver.

VÓ MARIA: A vovó tem 92 anos. (faz agora em maio, 93 anos) Minha mãe se chamava Jandira e meu pai Sebastião Rosa dos Santos. Tenho 11 irmãos. Eu sou a terceira. Os dois primeiros já faleceram e três que eram depois de mim também. Só tem 6 vivos.

LOU: Em que dia você nasceu?
VÓ MARIA: 5 de maio de 1911.

LOU: Onde?
VÓ MARIA: Em Mendes, Estado do Rio. Fui criada na roça até os dez anos. Em 1922, uma família me trouxe pra eu brincar com o casal de filhos que ela tinha.

LOU: E você brincava e tomava conta?
VÓ MARIA: Tomava conta mais ou menos, mas tinha empregada. Eu fui só pra brincar com eles... depois, fui ficando moça, me botaram na escola, mas não deu certo, não gostava. Meus pais de criação eram médicos, um irmão era médico e fui criada com eles e com a vovó, que era portuguesa, e era doente e eu então aprendi a fazer a dieta. Desde os 15 anos, comecei a fazer dieta pra diabéticos e pra pessoa que tinha angina. Então, sou dietista, única profissão que eu tenho assim.

LOU: Como era o nome desse casal que trouxe você?
VÓ MARIA: Era Dinah Rocha de Paiva Ramos e José Ubirajara de Paiva Ramos, já falecidos também. E naquela época, nós viajávamos muito. Quando eu vim da roça, fui pra Icaraí; depois, tinha casa própria no Grajaú, quando o Grajaú, em 1922, ainda não tinha nada. E foi lá que eu fui criada até ficar moça quando me casei.

LOU: Casou com quem?
VÓ MARIA: Com Maciel Francisco dos Santos.

LOU: Era o Donga?
VÓ MARIA: Não! Ainda não! Aí a vovó tinha só 23 anos. O último casamento é que foi com o artista Donga. Antes disso, a vovó só ia às batalhas de confete; a vovó nunca foi no morro; a vovó nunca tinha freqüentado escola de samba naquela época.

Fiquei viúva com 23 anos, antes da minha única filha, Nilza, completar 3 anos. Com 26 anos, tornei a me casar porque fui criada numa família que dizia que a gente tem que dar exemplo aos filhos, e eu tinha uma filha. E os meus pais também, verdadeiros, diziam que a mulher que vinha pro Rio, você sabe...E eles não queriam deixar...

LOU: O Rio carrega essa fama até hoje...
VÓ MARIA: Essa fama de que quem vinha pra aqui pirava, virava a cabeça. E isso sempre gravou na minha cabeça; e a minha mãe de criação também dizia que a gente tinha que ser honesta, direita, e assim foi a minha vida inteira, andando sempre direita.

LOU: Você então se casou pela segunda vez pra criar sua filha numa família... Tinha que ter um chefe.
VÓ MARIA: É, me casei com o jornalista João Conceição, professor de inglês, mas a carteira dele é dos Estados Unidos e fiquei 15 anos casada com ele. Ele montou um jornal americano... igual ao dos Estados Unidos, de racismo.

LOU: Eu li que participavam das reuniões na sua casa, pessoas ilustres como o senador Abdias do Nascimento, o sociólogo Guerreiro Ramos, o pesquisador Haroldo Costa, a advogada Sebastiana Arruda...
VÓ MARIA: É. Eles conversavam sobre racismo e sobre o jornal negro. Mas no fim de 15 anos, nosso casamento não deu certo. Ele achou graça na secretária dele. Um dia ele chegou em casa e disse: - Maria, um dos dois aqui é demais: ou eu ou você. Eu disse: - Ó meu filho, querendo ir embora a porta não fecha, porque eu sou muito audaciosa, a porta não fecha nem pra cachorro, querendo ir embora, pode ir. Você pode voltar que você me encontra no mesmo lugar. Aí, passou o tempo, eu me desquitei.

Sônia Regina, neta de Vó Maria, entra no nosso bate-papo pra colaborar e lembrar alguns fatos:

SÔNIA: Nessa ocasião, Nilza, filha de Vó Maria, conhece Lygia Santos, filha de Donga e, através dessa amizade, as famílias se aproximam. E Vó Maria passa a chamar Lygia, de filha, e ela passou a chamar a vovó Maria, de mãe.

VÓ MARIA: Passaram 20 anos e eu sempre me dando com a filha do Donga, a Lygia, que já era colega da minha filha Nilza, desde o tempo do admissão, no Instituto Guanabara.
SÔNIA: Deixa eu só fazer uma observação.

Ambas juntaram as famílias, vovó casada com o segundo marido, João Conceição e o vovô Donga, casado com a mãe da Lígia, a Vó Zaíra, que era uma cantora lírica.

As famílias ficaram amigas, fizeram o tal jornal "A Redenção", que foi o primeiro jornal negro que se tem na história do movimento negro e, por conta de uma dissidência, o jornalista João Conceição, segundo marido da vovó, tem um entrevero com o vovô Donga e os dois se afastam. Aí, a mãe da Lígia morre e o vovô Donga se casa pela segunda vez.
A vovó Maria continua vivendo com o João Conceição.

LOU: Aí as duas famílias se separaram?
SÔNIA: Não, as duas filhas - a filha do Donga e a minha mãe - continuaram se dando a despeito das duas famílias não se freqüentarem mais.

CASAMENTO COM DONGA

VÓ MARIA: Quando ele ficou viúvo, pela segunda vez, e eu já desquitada, a Lygia convida a vovó pra fazer a tal dietinha.
Ela disse: - A senhora é muito maravilhosa, mãe, porque a senhora não vai tomar conta do papai? Ele já vai fazer 70 anos, está muito doente, ficou viúvo, a senhora sabe, a senhora tem paciência. Eu disse: - Olha, teu pai é zangado e eu também sou, sempre a mesma coisa.

Mas ele agora não é mais! A senhora é maravilhosa, a senhora sempre tomou conta. Então, eu fui, e foi aí que eu estive casada, vivi com o Donga, por 15 anos. Ele que compôs "Pelo Telefone" (1º samba gravado).

SÔNIA: A vovó tanto fez a dietinha, que acabou casando com o vovô Donga, que é na verdade o avô que eu vim a conhecer. Porque eu não conheci o segundo marido dela, nem meu avô legítimo que foi o do primeiro casamento, porque, como ela falou, morreu quando a minha mãe tinha três anos.

LOU: Agora, eu tô entendendo tudo. As famílias hoje em dia são assim. Difícil da gente entender.
Mas você era muito avançada pra época, porque isso tá acontecendo há coisa de 20 anos...
VÓ MARIA: Não, "minha neta". Separações vêm acontecendo, há mais tempo...

LOU: Nos anos 50, era difícil. As mulheres agüentavam, chorando até o fim. E a sua carreira como foi? Você conheceu o Donga e aí você...
VÓ MARIA: Aí, ele foi morar no Méier, na Rua Dona Claudina. Foi aonde eu me casei com ele, porque a casa própria dele, na Rua Almirante Cândido Brasil, nessa altura, estava em construção, em reforma.
Mas o engenheiro, como o Donga tava meio doente e tinha ficado viúvo, também parou com a casa. Quando eu fui morar com ele eu falei: - Ô Donga, a sua casa está lá fechada, você não fala mais com o engenheiro e neste ano ele não mexeu, não foi lá nem uma vez. Então, eu vou começar a tomar conta da casa. Aí comecei a tomar e o engenheiro, se fosse hoje, se pudesse me matava, ele não me suportava. No fim de 6 meses, a casa estava pronta! O Donga já estava forte e começou a andar. Antes ele estava muito abatido. Aí ele começou a ir pra SBACEM novamente.

LOU: O que é isso?
SÔNIA: É um lugar onde se discutem direitos autorais.
VÓ MARIA: E lá era onde eles se reuniam. Aí, depois do almoço ele foi pra SBACEM. Porque tudo dele era na hora certa, ele almoçava ao meio-dia, se arrumava todo cheiroso e ia pra SBACEM e quando deu 4h30, 5 horas, ele me ligou. Olha, já estou indo.

Naquela altura eu morava na Rua Costa Pereira, que hoje se chama Avenida Maracanã. Aí eu disse: - Olha, não vai pro Méier não; vem pra cá que eu estou na casa da Nilza, que é minha filha. Eu não falei nada da casa nova. Quando ele chegou na cara ele assim: - Vamos embora que já é tarde - Elesa da Nilza, ele jantou, eram 8 horas e eu disse p falou: - tá bem.

Aí eu desci e fui caminhando. E ele falou: - Aonde você vai? Eu disse: - Vou te mostrar a nossa nova casa. Quando ele chegou lá, a cama dele tava arrumada, a casa toda arrumada e ele: "Ah! Minha filha! Ele ficou todo nervoso, zangou comigo: Como é que você fez tudo isso sozinha? Mas eu estava acostumada a fazer mudança, sempre viajava.

Eu fiz assim: quando ele saiu meio dia, chamei a "Andorinha", eles vieram correndo, fizeram a mudança porque não tinha quase nada, porque ele não enxergava muito bem. Então, eu já tinha arrumado o quarto dele, a sala e eu botei um sofá num outro quarto e quando ele entrou, a casa tava linda. E ele não tinha acompanhado nada! Quando ele chegou, foi só deitar na cama. A varanda arrumada, tudo bonitinho e aí ele ficou contente.

E O SAMBA CHEGOU A NOSSA CASA

VÓ MARIA: Foi aí aonde começou os sambas na minha casa todo dia 5 abril, que era aniversário dele, onde começou Martinho da Vila, Clara Nunes, João da Baiana, Pixinguinha, João Nogueira, Xangô da Mangueira, Aniceto... todos eles iam lá nos aniversários.

E os sambas começavam sempre depois da missa, e nós íamos pra casa, porque ele almoçava na hora certa. Meio-dia era o almoço dele. E o samba começava a 1 hora. E eles iam chegando e o samba ficava até as 4, 5 horas da manhã. O Zeca do Cavaquinho dizia: - Meu Deus, o que eu vou dizer à minha esposa? Ela não vai acreditar! Foi a primeira vez que ele chegava em casa, às 7 horas da manhã. E Martinho da Vila cantando "Se a dona da casa deixar, eu fico pra jantar, oi se a dona da casa deixar eu fico pra jantar..." Eu disse: - entra meu filho, tem caminha pra você dormir, era assim o samba lá em casa. E foi aí que começou a minha vida de samba.

LOU: Desde quando ele era compositor?
VÓ MARIA: Desde 1917.
SÔNIA: Desde antes. Em 1917 ele conseguiu gravar "Pelo Telefone". É por isso que historicamente "Pelo Telefone" é o primeiro samba gravado. "Pelo Telefone" é uma sátira, depois se você ouvir, você vai entender: Nos anos de 17, naquela década, o jogo já era proibido. Só que a polícia fazia vista grossa e deixava. E aí o "Pelo Telefone" dizia assim: "O chefe da polícia, pelo telefone, manda me avisar que na Carioca tem uma roleta para se jogar..."
A vovó gravou, está no CD. Foi a primeira música que ela gravou.

LOU: E você dançava em alguma escola de samba?
VÓ MARIA: A primeira vez que eu fui a uma Escola de Samba foi em Mangueira, quando a Sônia Regina, minha neta, fez 18 anos...
A Lygia, como era Estandarte de Ouro, disse pra fazermos lá. O Donga não, o Donga era Mangueira, mas não freqüentava. Ele estava doente e não ia não. Então, nós fomos e pela primeira vez eu entrei numa escola de samba.

LOU: E ficou vibrando?
VÓ MARIA: Fiquei né, minha filha. Depois saí de destaque na Mangueira, uma vez, e saí duas vezes de baiana, na Vila Isabel, escola do Martinho da Vila.

LOU: Quando tinha essa roda de samba na sua casa, você já cantava?
VÓ MARIA: Sempre eu quis cantar, porque em toda escola de samba tem sempre uma feijoada, que é a coisa que você já sabe. Eu corria lá na cozinha um bocadinho, e ia ver como é que estava o feijão. Eu corria lá e voltava pra sala... Eu finjo que sambo, eu tiro muito bem, mas sambar, eu não sei não... e sempre cantava uma coisinha..Mas o Donga falava:
- Aonde tiver profissional, a senhora não canta porque a senhora só tem voz, mas tem o profissional. Então eu só chegava, assim... E cantava umas coisinhas.

LOU: Se você soubesse que tinha de ser "profissional" teria tirado carteira naquela época... (risos)
VÓ MARIA: Ah, ele não quis, - Mas eu cantava: - "Hoje é dia do seu aniversário, parabéns, parabéns, faço votos... quando Mário Rossi, ele era poeta, diretor da SBACEM, viu o tom que eu cantava, ele dizia: - eu conheço essa voz, é de uma cantora conhecida.
Aí ele dizia pro Donga: - "porque essa mulher não canta?"
- Que cantar coisa nenhuma! Ela tem mais o que fazer, cantar nada!" - o Donga respondia.

E naquela época, também era assim: pra você cantar numa rádio, você tinha que... Você sabe, né?... Fazer outras coisas... entende?

LOU: Eu sei como é que era... "Tinha que ser fácil"... né?
VÓ MARIA: Muito. Então, todo mundo que eu falava em cantar, me dizia: - Não, cantar pra quê? Mas mesmo assim, minha filha, eu nunca dei facilidade. Quando eu passava em algum lugar e me apertavam, eu dizia: - Virgem, Nossa Senhora! Porque eu sempre gostei de dar exemplo aos filhos e aos netos e nunca, ninguém vai dizer : "a minha vó fez isso, nem minha mãe também, nem minha filha também, então sempre andei na linha reta".

LOU: Vem cá, Vó Maria. Você trabalhava fora?
VÓ MARIA: Eu trabalhei durante 30 anos, na fábrica de renda, na Rua Garibaldi. Meu marido não queria que eu trabalhasse e, por duas vezes, ele foi na fábrica dizer que eu fazia aquilo pra humilhar, porque eu não precisava. Mas eu tinha uma filha. E no segundo casamento, eu não tive filho.

E ele ficava nervoso e dizia que eu só queria ter aquela filha. Eu ainda fui a um médico e fiz tudo que foi tratamento. Aí, resolvi trabalhar e trabalhava pra educar a minha filha. Mas ele não queria, verdade seja dita, porque ele me dava todo o conforto, mas eu queria trabalhar.

LOU: Fazia parte da sua realização de mulher.
Você se aposentou?
VÓ MARIA: Me aposentei. Tenho pensão pequenina de 240, mas é minha a pensão e não vivo só com ela, porque tenho a pensão do Donga que ele me deixou todas registradas pra mim.

Agora, hoje, a vovó vai te dizer uma coisa: - com 93 anos a vovó foi boba, não aproveitou nada, nada, nada, sempre andei direito. Fui casada 3 vezes, mas ninguém vai dizer minha mulher fez isso, fez aquilo, todos os 3 já estão mortos.

LOU: Antigamente havia o preconceito, o tabu pra tudo que fosse prazeroso para a mulher. Ela não tinha direito, só o homem. A mulher tinha que cuidar da casa, não podia seguir uma carreira artística. As que romperam as regras sofreram toda sorte de discriminação.
VÓ MARIA: Só o homem podia tudo. Olha, no meu tempo, a minha mãe dizia: - Vai Maria! Eu adorava o Ary Barroso, isso com 20 anos, minha mãe de criação dizia: - Vai Maria, você tem a voz linda. Eu dizia: - o Ary Barroso, adoro, ele é maravilhoso, mas como crítico ele vai me mirar de cima embaixo.

LOU: Ele chegou a te ouvir?
VÓ MARIA: Não. Eu não fui.

LOU: Se ele te ouvisse, ele não iria te olhar de cima embaixo, te negar nada.
VÓ MARIA: Ele não negou, mas ele mirou a Elza Soares. Ele olhou pra ela de cima abaixo e ela disse: - é fome mesmo que eu passo. Não foi?

LOU: Mas ela enfrentou, cantou e teve a aprovação dele. Depois que ela cantou e mostrou quem ela era, não teve mais importância, a forma como ela estava vestida. Eu a entrevistei , foi muito bonita a entrevista dela também.
VÓ MARIA: E eu sempre andei metida, sempre andei bem vestida, bonitinha.

LOU: Ele, neste caso, você não precisava temer...
VÓ MARIA: Não minha filha, mas mesmo assim eu criei um complexo naquilo dele olhar todos.

LOU: O Ary Barroso metia medo em muita gente com aquele jeitão dele severo...
VÓ MARIA: Mas foi o que o neto e a neta falaram pra mim. É pena que não temos nenhuma gravação dele assim, daquela época, quando ele fazia aqueles programas e dava medo em todo mundo....

LOU: Eu acho que, até certo ponto, isso foi importante, porque ele pôde filtrar. Se ele estivesse hoje aqui, não teria tanta porcaria tocando no ar.
VÓ MARIA: É mesmo!
SÔNIA: Dali, só saía o que era realmente bom!

LOU: E você deveria ter saído, se tivesse tido coragem de enfrentar o seu medo com ele.
VÓ MARIA: Mas agora, com 93 anos, a vovó vai enfrentar.

LOU: Isso mesmo. Tá começando uma carreira.
VÓ MARIA: Mas a vovó não vai seguir muito não, porque eu não quero tirar o lugar do jovem, isso eu vou dizer sempre.

LOU: Não, eu vou discordar de você. Você não tá tirando o lugar do jovem; você tá ocupando o lugar que já era seu há muito tempo. Tem lugar pra todo mundo que tem valor. O jovem tem outro público, você não vai tirar o lugar de ninguém. Vá em frente, vó! Faz de conta que eu sou sua mãe, tô te falando!
VÓ MARIA: Minha filha, mas você vê que tem jovens agora que também só tão cantando raiz, só samba. Já viu?

LOU: Já vi. Mas eles têm a tribo deles e você vai cantar as suas raízes, com a sua voz, que é a própria raiz do samba.
VÓ MARIA: Ah é...

LOU: Vá em frente! Escute a voz da tua mãe, ela mandou você ir, você não foi. Agora você vai!!!
VÓ MARIA: Então, minha mãezinha, permite, minha mãezinha, eu lhe agradecer de ter me dito: Vá em frente, Maria, vá em frente. Foi assim que a minha mãe dizia e você está repetindo pra mim. Minha santa mãe e minha neta tá repetindo agora: minha filha, vá em frente! Quero sempre te agradecer, porque você é maravilhosa. Que Deus te ajude, que Nossa Senhora da Guia te guie sempre.
Amém.(fica emocionada)

LOU: Ai, que linda vovó! Muito obrigada! Quais são seus planos agora que você conseguiu fazer sua carteira de trabalho e a partir de eu dizer "minha filha vai em frente!" Qual vai ser o primeiro passo?
VÓ MARIA: Primeiro passo, minha mãe, se me permite, eu vou à Brasília, vou em frente, lembrando sempre das suas palavras...

LOU: Você está emocionada, Vó Maria, respira fundo...
VÓ MARIA: Tá bem! Vou em frente! Nos dias 13, 14, 15, vou cantar com Martinho da Vila, no Canecão. Ele me convidou pra fazer parte dos 3 dias. Em Brasília, é em março, no dia 3. E depois, seguirei sempre a sua palavra, minha mãe: irei sempre em frente!

LOU: Isso mesmo! Parabéns pra você. Vem cá. Qual o recado que você quer dar aos "Velhos Amigos"? Você que foi uma pessoa que deixou de seguir a sua vocação, que era cantar, impedida pelos preceitos do machismo daquela época? Você que deixou de botar pra fora a sua voz, o seu dom e hoje, reconhece que foi boba e perdeu muito tempo da sua vida.
VÓ MARIA: Olha, eu hoje digo pras colegas da minha idade, que não façam conforme eu fiz! Não pensem! Vão em frente, cantando, sejam alegres! Procurem esquecer todo o passado de aborrecimento, porque não tem coisa pior na vida do que a gente ter um filho e ver morrer na rua, uma filha única.(Na foto com seu CD)

Tenho Lygia sim, que me considera mãe e se eu disser que ela não é minha filha, ela manda me matar. É mesmo como se eu tivesse tido ela. Mas a minha filha primeira morreu de desastre, mas eu não me deixei abater.

Então eu digo a todas as minhas colegas de idade que eu nunca chorei. Nunca meus netos, nem a minha filha Lígia me viram chorar assim, com saudades de Nilza. Sempre me viram cantando, alegre, sempre dando exemplo aos meus netos e quero dizer também às minhas colegas e amigas de idade que sigam a vovó Maria de hoje, que sigam o caminho, que cantem quem tem vocação; que não façam o que eu fiz quando era moça. E agora, com 93 anos, eu peço a elas que façam o que vovó não fez! Estarei pronta aqui a qualquer hora, para dar o meu estímulo a todas as minhas colegas.

LOU: E pra mostrar essa voz maravilhosa...
VÓ MARIA: Maravilhosa é você, minha filha, que me permitiu chamar de minha neta, mas falou como se fosse minha mãe. Que façam o que a "minha mãezinha" hoje falou pra mim: - Vá em frente, Maria!

LOU: Vó Maria, quantos filhos você teve?
VÓ MARIA: Dois, um casal.

LOU: E você vive com essa sua neta Sônia Regina.
VÓ MARIA: Eu vivo com Sônia Regina a minha vida inteira. Eu que criei; a mãe deixava comigo pra trabalhar e ela estudava. A vida inteira tomei conta dela e do Walter Luiz, e todos os outros netos.

LOU: E hoje, a Sônia Regina cuida...
VÓ MARIA: Hoje a Sônia Regina cuida da vovó aqui.
SÔNIA: A recíproca é verdadeira. E ela cuida de mim. Aqui é uma troca. Nós somos mais que avó e neta, nós somos amigas. Realmente, eu partilho tudo da minha vida com ela. Ela partilha tudo da vida dela comigo e eu acho que é uma relação ímpar que eu tenho o privilégio de poder gozar e viver.

LOU: Parabéns Sônia Regina.
SÔNIA: Obrigada.

LOU: Parabéns vó. Você que falar mais alguma coisa? Sempre tem espaço.
VÓ MARIA: Não, minha neta, minha Mãezinha...
SÔNIA: De significativo não, exceto a última emoção que ela nos propiciou, aos netos e bisnetos. Foi fazer essa prova, na ordem dos músicos. Foi uma iniciativa dela, já que ela queria há muito tempo e passou por unanimidade, na presença dos netos, que somos nós, e bisnetos, desde o mais novo, que é o Ruda, que tem 6 anos. Estávamos todos presentes na Ordem dos Músicos, na hora em que ela cantou, na hora em que ela foi diplomada.

Depois que ela foi aprovada e diplomada, ela saiu a pé conosco, pela cidade, uma tradição que ela costumava fazer com minha mãe, que era lanchar na cidade. Nesse dia, nós revivemos isso, e fomos até ao Sindicato dos Músicos, onde ela se sindicalizou e é considerada a mais velha sindicalizada do Sindicato do Músicos.

VÓ MARIA: Paguei a contribuição e a anuidade e vou pagar todos os anos. Agora posso dizer que sou uma profissional diplomada e sindicalizada.(Uma pose segurando a carteira da Ordem dos Músicos)

LOU: Então, canta uma música. Solta este vozeirão pra nós!
VÓ MARIA: (Clique aqui)
"Ele é Casado" - Eu sou a Outra

Ele é casado
E eu sou a outra na vida dele
Que vivo qual uma brasa,
Por me faltar tudo em casa.
Ele é casado
E eu sou a outra que o mundo difama
E que a vida ingrata, maltrata e sem dó cobre de lama!
Quem me condena
Como se condena
A uma mulher perdida,
Só me vê na vida dele,
E não o vê na minha vida!...

LOU: Parabéns, maravilha!

"- Este é o primeiro disco- e logo um CD! - que ela grava - pimpona, lépida e fagueira - aos 92 anos de idade. Logo ela que poderia (e deveria) ter registrado sua voz, a partir dos anos 20 (numa bolacha de cera, feita em gravação mecânica). Portanto, trata-se da mais antiga cantora do mundo a estrear em disco (recorde, quero crer, a ser registrado até no Guiness)..." Assinado: Ricardo Cravo Albin.

O SONHO DE GRAVER UM CD

LOU: Como foi que vocês gravaram esse CD "Maxixe não é Samba"?
SÔNIA REGINA: Quando vovó estava pra fazer 90 anos, eu fui a uma festa do grupo "Panela de Pressão", na casa de um amigo sociólogo, freqüentada por pessoas que fazem cultura alternativa que não tem espaço na mídia. São poetas, músicos, cantores, etc. O dono da casa me levou pra conhecer, nos fundos da casa, o estúdio todo digitalizado, fantástico. Aí eu me toquei que poderia fazer um CD da Vovó. Eu e minha prima Zilmar, que é jornalista, começamos a pensar nisso e tivemos a idéia de pedir aos amigos pra darem uns 100 reais por mês, pra juntarmos o dinheiro...
VÓ MARIA: Aí eu não quis. Nada disso! Não gosto de pedir nada às pessoas. Às vezes elas não podem e iam se sentir obrigadas...

SÔNIA: E aí a gente foi a uma homenagem ao Cartola, no Museu da Imagem e do Som, na época em que Maria Barbosa era presidente e o Galotti, que já tinha tocado com a vovó, chama a vovó pra cantar e foi uma surpresa, um sucesso para o público, que ainda não a tinha ouvido cantar. Então a Marília se interessou também em fazer o disco, para os 90 anos dela, mas infelizmente ela não conseguiu a verba pelo Museu da Imagem e do Som.

Como o dinheiro não saiu nós, os netos, gravamos um ensaio na casa de Lygia Santos e, no dia do aniversário dos 90 anos, os bisnetos trouxeram, na cesta de café o CD único - o presente tão desejado."

Mas, estava escrito nas estrelas.
A Vovó vai à pedra fundamental do Instituto Cartola, a convite da Zica, e conhece o ministro Werffort, que ficou encantado e a convidou pra jantar na casa dele, naquela mesma noite. Lá, ouviu a Vovó cantar de novo e prometeu dar o dinheiro para o CD. Isso em julho de 2002. Em dezembro de 2002, o último ato dele foi assinar o repasse da verba para o Instituto Cultural Cravo Albin.

O Ricardo Cravo Albin passou a direção do CD pra Marília Barbosa, já que os dois já estavam neste processo e aí saiu esta beleza deste CD. Eu fiz o roteiro que apresentei à Marília, que convidou João de Aquino. E o disco virou uma obra-prima, que foi feito com muito amor.

Hoje eu recebo milhares de pedidos por e-mail, do disco que lamentavelmente não pôde ser vendido. A tiragem foi de duas mil cópias e quem distribuiu foi o Instituto Cravo Albin, de graça, pra entidades culturais.

Vovó recebeu um percentual pequeno pra ela dar aos amigos dela. Mas agora, há uma proposta de comercializar através de uma gravadora. Vamos ver se o nosso sonho se concretiza.

Maria de Lourdes Micaldas
Digitadora e webdesigner: Lika Dutra
Revisão: Anna Eliza Führich

 

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