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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

WOLNEY PORTO
publicado em: 07/04/2017 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 30/11/2002

IDEALIZADOR DOS MUSEUS EM CONSERVATÓRIA
"... tem uma frase do poeta Guilherme de Brito que diz: Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora!"

Uma pessoa em busca de um ideal consegue realizar seus sonhos se fizer isso com dedicação e amor à arte, à música e à cultura. Assim é nosso entrevistado do mês, um homem que se emociona ao falar de seu trabalho e cuja dedicação nos ajuda a entender o quanto é importante manter viva a memória da nossa cultura. Para ele tudo passa, mas os valores ficam.

LOU - Qual é o seu nome todo?
WOLNEY - Wolney Porto.

LOU - Quando e onde você nasceu?
WOLNEY - Nasci em Aracaju, Sergipe, em 1 de abril de 1950.

LOU - E você viveu lá?
WOLNEY - Não. Eu sou mais brasileiro (risos). Eu vim com 3 anos de idade pra cá, pro Brasil. Eu costumo dizer isso pra minha mãe. Vim para o Rio de Janeiro com 3 anos.

LOU -Em que região do Rio de Janeiro?
WOLNEY - Na Jorge Rudge, em Vila Isabel.

LOU - O samba da Vila contagiou você e, daí, surgiu o seu gosto pela música?
WOLNEY - Não, foi acontecendo, né? Eu trabalho com negócio de música há pelo menos uns 23 anos, 25 anos. Empresariava. Depois, eu conheci vários artistas, trabalhei com Gilberto Alves. Tive o prazer de fazer os cinqüenta anos de carreira do Gilberto Alves. Eu montei um show com Gilberto Alves no Teatro Armando Gonzaga, no Rio de Janeiro, em Marechal. De lá pra cá, comecei a fazer shows artísticos e não parei mais.

LOU - Com quais artistas você fazia shows?
WOLNEY - Rozita Gonzales, Zezé Gonzaga, Paulo Barcelos, Léo Vaz. Ih, tem muitos. O pessoal da antiga, da velha guarda, todos eles passaram por mim.

LOU - E a Zezé Gonzaga conseguir se manter lá no topo, no meio dessa turma nova de Xitãozinhos e Xororós..., né?

WOLNEY - É, mas tudo passa, né? Os valores ficam. É por isso que eu resolvi montar os museus para perpetuar a memória desses artistas, que não
podem ser esquecidos pelas obras que eles deixaram. E aí eu montei, em 1999, o Museu do Vicente Celestino. Depois, em 2000, eu entrei em contato com a Míriam Caldas, esposa do Silvio Caldas.

LOU - E como você conseguiu montar seu acervo?
WOLNEY - Em Conservatória apareceu uma senhora distribuindo partituras e fotos do Gilberto Alves. Era D. Cecília e estava no Hotel Vilarejo. Cheguei até ela e disse pra ela não fazer aquilo, porque eu gostaria de ter esse acervo comigo e queria montar o museu. Mas ela disse que já tinha dado todo o acervo. Eu sou um pouco garimpeiro, eu vou atrás. O violão do Gilberto já tinha ido pra outras mãos. Eu o consegui de volta, mas há outras coisas que estavam com um rapaz que me prometeu. Ficou na promessa, tô esperando. Mas eu ainda tenho alguma coisa que salvei do Gilberto Alves e do Nelson Gonçalves.

LOU - Como você conseguiu?
WOLNEY - Foi com a Margareth, a primeira filha do Nelson Gonçalves com a Lourdinha Bittencourt. Liguei pra ela e ela foi logo me dizendo : - Ô Wolney, pode vir pegar o acervo do papai. Mas o inventário do Nelson ainda não acabou. E disse ainda: o que me couber, eu passo pra você. Então, tô esperando só o resto do inventário acabar pra eu poder pegar a parte da Margareth.

LOU - Sei que você está criando um novo museu.
WOLNEY - É do Guilherme de Brito, que está vivo. É o único museu da pessoa viva.

LOU - Por quê?
WOLNEY - O Guilherme de Brito é um compositor que fez muitas composições com outro parceiro, que faleceu e numa delas tem uma frase, de autoria dele, que diz: "Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora!" E eu tava num restaurante, em Conservatória, à noite, quando ele cantou e eu já estava com estes três acervos na minha mão e eu falei: eu vou fazer o museu do Guilherme de Brito. Aí, disse pra ele que eu montaria o museu dele, se ele deixasse. Ele, brincando, disse: - Mas eu tô vivo! Eu disse: Então, se alguém quiser fazer por mim, que faça agora! Tão lá os quatro acervos do Guilherme, do Gilberto, do Nelson e do Sílvio.

LOU - Este é um museu só deles.
WOLNEY - Só deles.

LOU - Porque são seis museus.
WOLNEY - Esses são quatro.

LOU - Não, eu digo assim: existem na cidade seis museus...
WOLNEY - É. Mas este tem quatro acervos. Do Vicente é na outra rua. Uma casa colonial em que estão Vicente e Gilda. É onde moro. Eu durmo numa discoteca com colchonete no chão. É uma idéia que eu tinha de muitos anos, sabe? Foram 18 anos imaginando montar um museu simplesmente do Vicente. Hoje, já tô no lucro, porque tenho esses quatro. E agora, em primeira mão, eu ganhei mais dois: Altemar Dutra e Elizete Cardoso. E já tô com ordem da família pra eu pegar o acervo deles.

LOU - Você, pelo jeito, vai transformando Conservatória em um grande museu...
WOLNEY - É. Eu queria fazer de Conservatória, vamos dizer assim, a cidade cultural da Música Popular Brasileira, porque ela já existe nas serestas, que já é uma tradição da cidade.
Mas a obra desses homens, nós não podemos esquecer, porque eles já fizeram tanto pela música.

LOU - É que havia uma certa regra em que só podia cantar seresta, não podia pedir outra música. Eu me lembro uma vez que fui lá e pedi uma de Elizete Cardoso e um desses sambões de carnaval antigo. Aí eles até atenderam, mas disseram: nós aqui cantamos seresta e não queremos tirar essa característica de cidade seresteira. E você então tá fazendo uma mudança nisso.
WOLNEY - Não. Eu estou com os seresteiros.

LOU - Mas a Elizete não é uma seresteira.
WOLNEY - Mas é uma cancioneira. Eu acho o seguinte: seresta, por causa do sereno, serenata. Seresta, dentro de recinto, é seresta. Serenata, sereno, é rua. Eu acho que seresta, serenata, são canções, valsas e modinhas. Então, Elizete gravou modinha. Gilberto Alves, nem se fala. Quantas valsas que ele gravou, também músicas de meio de ano, carnaval, mas a linha do Gilberto era valsa. Silvio Caldas, nem se fala. Nelson Gonçalves era o mais romântico da década de 50, mas também gravou valsas e Vicente Celestino, que é de 1894. A primeira gravação oficial dele é de 1916, mas gravou um primeiro disco, o Hino Nacional, em 1912. Então a Senhora vê que são todos cancioneiros de música. Eu não posso botar lá um forró, não é? Foge completamente da coisa. E lá se preserva muito o compositor, e todos que eu tô levando são compositores. Elizete também é compositora, o Altemar Dutra é compositor e Gilberto também é compositor.

LOU - A Elizete compôs música também? Eu pensei que ela era só intérprete.
WOLNEY - Também tem composições da Elizete. Todos que eu tô levando são de uma época do auge da Música Popular Brasileira, que tô trazendo de volta. É perpetuar a memória, registrar. As coisas que acontecem em Conservatória fortalecem tudo o que esses homens, artistas do passado, irmãos, deixaram.

LOU - Que irmãos são esses?
WOLNEY - É o José Borges e Gilbert de Freitas.

LOU - Esses dois foram os que iniciaram a todo
esse movimento cultural?
WOLNEY - Eles que continuaram. Porque isso é
de séculos.

LOU - E cantando de janela em janela. Continua havendo isso?
WOLNEY - Continua.

LOU - Porque o que me impressionou, quando
eu fui lá há uns 4 ou 5 anos, eram pessoas de bastante idade, talvez 70 anos, tocando violino e andando aquilo tudo, subindo ladeira e cantando...
WOLNEY - Agora estão com 80 e continua a mesma coisa.

LOU - Que energia! O que prova que andar faz bem à saúde e cantar nem se fala!
WOLNEY - O mérito é grande pois eles, todo o final de semana, fazem a mesma coisa. A não ser que caia um temporal. Aí não saem. Mas mesmo assim, tem a seresta que é dentro do museu do seresteiro. A boa música traz essa vitalidade, a boa música traz isso.

LOU - Antes de se dedicar a essa parte dos museus e de Conservatória, você fazia o quê?
WOLNEY - Eu era empresário de artistas.

LOU - Aqui no Rio mesmo?
WOLNEY - Diretor do Teatro Armando Gonzaga.
Em Marechal havia teatro, tenho minha formação em teatro. Sou formado em teatro, em direção.
Eu levei e faço teatro de Arena em Conservatória. Toda Semana Santa eu faço a Vida de Cristo.
São cinqüenta, sessenta componentes e toda Semana Santa, fazemos a Paixão de Cristo em Conservatória. Já estamos no segundo ano e
com sucesso. Primeiro ano tinha mil e poucas pessoas. E este ano teve três mil e quinhentas, seiscentas pessoas. Então, é bom o trabalho da gente ser reconhecido e valorizado. Agora tem
o Projeto Poesias na Calçada que eu tô com
vontade de fazer na rua, caracterizando as
pessoas das décadas de trinta à cinqüenta.

LOU - Como vai ser isso?
WOLNEY - Eu tô já com algumas roupas e, se
Deus quiser, nós vamos começar a ensaiar as poesias dos poetas da cidade. Vai ser com declamações e esquetes pelas calçadas de Conservatória. As pessoas vão declamar as
poesias caracterizadas com vestes da década
de 30.

LOU - Que idéia interesantíssima!
WOLNEY - E eu pretendo colocar os pintores com cavaletes nas praças. São três praças, de cima, do meio e de baixo. Eles vão pintar os pontos turísticos de Conservatória que são a Cachoeira, a Ponte dos Arcos, o Túnel que Chora.
Eles vão ficar pintando isso nas praças e outros
vão declamando pelas ruas.

LOU - Você sempre morou no Rio de Janeiro? WOLNEY - Sim, morei.

LOU - E quando foi que você resolveu se mudar
pra Conservatória e se dedicar a esta cidade
assim, com tanto amor?
WOLNEY - Olha, como disse no início, há dezoito anos eu fui a Conservatória. Fui em visita. Quando eu entrei em Conservatória, eu já pensei em montar o museu Vicente. Estou lá desde 1999.

LOU - E o local já era um pólo artístico quando vocês foram pra lá?
WOLNEY - Sim, já existia a serenata, sempre existiu.

LOU - Mas sem esse vulto todo, que você agora deu, não é?
WOLNEY - Não a minha parte é do museu.
O vulto quem deu foram os irmãos José Borges
e Gilbert de Freitas. Eu apenas tô com as coisas
do passado e eles declamam o passado.
Eu fiquei só com a parte afetiva do passado.
Aí eu disse que montaria este museu e montei o
do Vicente Celestino, cujo acervo é do Professor José Spintto, que é o viúvo de Gilda de Abreu.

LOU - O que ele fez?
WOLNEY - Ele é dono do acervo do Vicente Celestino. Ele é que é o universal.

LOU - Você tem filhos?
WOLNEY - Não, graças a Deus não.

LOU - Você é solteiro?
WOLNEY - Sou solteiro. Digo isso com o maior orgulho, porque os meus filhos são os museus. É uma missão. Acho que isso é uma missão. Porque você tem que ter 24 horas dedicadas ao museu. Se eu tivesse mulher talvez não pudesse ter essa preocupação, porque eu ficaria dividido. Então eu acho que
faço aquilo que gosto.

LOU - Quando você começou a sua vida ligado a empresariar artistas, talvez o casamento fosse atrapalhar o seu...
WOLNEY - Eu nunca pensei, realmente nunca pensei em relacionamento, casamento, porque eu tenho vários amigos que só têm problemas e eu não tenho problemas.

LOU - Mas e os seus amores?
WOLNEY - Não tenho. Amores só pelo museu.

LOU - Mas quando você era jovem, não teve um amor?
WOLNEY - Não, não, não, nunca amei... Uma pessoa que eu amo muito é minha mãe. Essa é a mulher que eu dou o maior valor. Uma nordestina, 16 filhos, sofreu muito, eu sou o mais velho, tô com 52 anos. Saio de Conservatória só pra vir visitar minha mãe.

LOU - Quantos anos ela tem?
WOLNEY - 67 anos.

LOU - Sua mãe tem 67 e você 52. Ela com 15 anos teve você? Ela é uma mulher mesmo de coragem. Por que depois teve quantos filhos?
WOLNEY - Depois teve mais 15 filhos.

LOU - Mais 15? A vida toda ela teve filho... Nordestina era assim mesmo...
WOLNEY - Não tinha televisão( Risos)...Papai disse que era machão. Eu fico muito ligado à mamãe.
Ligo pra mamãe três vezes ao dia pra saber como ela está. Eu sou feliz por isso, porque me dedico em prol do que me propus a fazer, que é cuidar dos acervos e me considero um garimpeiro. Amanhã, quem sabe, fico na história aí da música.

LOU - Já está.
WOLNEY - Mas é gostoso, não dá tempo de você
sair, porque quando você sai, não dá tempo de fazer alguma coisa. Eu sou sozinho, não tenho funcionário, não tenho nada. Então pra cuidar disso você já viu como é que é, né?

LOU - Lá vocês usam computador?
WOLNEY - Eu ganhei um computador agora do Dr. Tito Tiff. Ele teve lá.

LOU - Quem é ele?
WOLNEY - Esse que foi secretário de turismo. Foi
ele quem me deu pra poder fazer um arquivo. Porque dentro do museu do Vicente, eu tenho também um acervo de discos. Estou fazendo, dentro do acervo, o museu do disco, que será o museu de cera. E já estou com 3.500 discos, queria catalogar e fazia no dedo. Tô até com calo. E eu ganhei esse computador do Dr. Tito.

LOU - E você já sabia usar computador?
WOLNEY - Não sei. Montaram um programa pra mim e eu já sei ligar e desligar e "dedografar" dentro de um espaço que me limitaram. Só sei fazer aquilo, mais nada, se falar outra coisa não sei.

LOU - Mas você vai aprender.
WOLNEY - Por enquanto, como tem 3.500 discos, acho que vou ficar muito tempo só ali. Até aprender a digitar legal. Aí eu ganhei outro de um visitante amigo. Então eu já tenho dois computadores, pra quem não tinha nenhum.

LOU - Além de mostrar as obras desses grandes homens vocês também fazem apresentações, audição de piano?
WOLNEY - Tenho 60 filmes da Atlântida. O que eu faço? Eu faço vídeo pra recordar aquelas chanchadas. Os 60 filmes são do Paulo Tardim que é um colecionador de vídeo. Ele manda pra mim e fico passando pra turma. É uma sala pequena que dá 15 pessoas no máximo.

LOU - E é de graça pra assistir?
WOLNEY - Não, eu cobro R$1,00 a entrada pela manutenção e já está tudo incluído. Você entra e assiste o recital. Fica livre.

LOU - Todo final de semana tem evento?
WOLNEY - Todo o final de semana. Vai ficar bonito esse meu projeto do museu de cera e agora mesmo morreu um pesquisador da MPB, que é o Milton Varella, a esposa dele até queria me passar o acervo, 22 mil discos, eu não tenho espaço. Mas vai me dar alguma coisa que já vai acrescentar no acervo do museu. E o mais importante quando eu estava quase fechando o museu, que fica aberto das 9 às 16 horas de domingo. Na sexta, abrem às 13 horas o museu do Silvio Caldas, do Nelson, do Gilberto e do Guilherme e fecha às 22 horas.
E no domingo abre das 10 até as 22 horas e eu
fico no museu do Vicente até 11h30, meia noite.

LOU - Você fecha na hora do almoço. Vem cá,
você tem algum auxílio do governo ou é tudo por sua conta?
WOLNEY - Não, a Prefeitura, Distrito de Valença, porque lá é Distrito de Valença, o Prefeito Luís Antônio, ele com a secretaria de turismo e cultura pagam o aluguel do museu. Agora a manutenção é feita por mim e pelos visitantes. Eu apenas sou o faxineiro, cuido, encero, às quintas-feiras tô lá agachado limpando. Eu encero, boto remédio nas roupas, pergunto qual o remédio que posso usar, eu que limpo as pratas, tem muita placa. Tudo é feito por mim, não deixo ninguém mexer porque fico com medo de quebrar. Se quebrar na minha mão eu vou chegar pros donos e dizer: Eu quebrei.
Se você quebra e diz que quebrou sem querer eu vou pensar que você não teve cuidado. Então eu prefiro eu mesmo, me sacrifico. É com o maior prazer que eu faço isso.

LOU - Então todo o seu amor tá direcionado pra Arte?
WOLNEY - Tá, pros museus. Eu sou um cara idealizador. Espero em Deus, na hora em que
estiver fazendo a minha passagem, estar em
todos esses espíritos de luz, que eles são, tenho certeza disso, arrombar minha porta, eles estão na porta me esperando pra estar com eles no agradecimento (emocionado), porque não é fácil.

LOU - Você tá muito emocionado em falar.
WOLNEY - Tô muito, desculpa.

LOU - Que isso! A emoção é um dos sentimentos mais bonitos! Ainda mais no mundo de hoje tão violento, onde o que está faltando é sensibilidade... Você teve um artista que te fez amar tanto a arte assim, que despertou em você esta paixão?
WOLNEY - Tive. Tive um grande amigo meu, que
foi um incentivador que foi Alfredo Delgado.
É o que me apoiava.

LOU - Você consegue ajuda dos visitantes?
WOLNEY - Eu passava escovão agora ganhei enceradeiras. Pedi uma, ganhei três. Queria um piano, ganhei três. Tem um no museu do Gilberto, outro no do Vicente e o outro eu emprestei pra Casa da Cultura. E eu tenho muita sorte porque queria um computador e ganhei dois! É tudo assim...Nós montamos a Casa da Cultura lá também e é assim. O meu trabalho é só pela cultura e pela arte. Acho que o mais importante é isso.

LOU - O seu ideal, o seu trabalho visa fazer com
que Conservatória não seja unicamente a cidade das Serestas e sim de todas as artes. Era isso que você estava falando a respeito da pintura.
WOLNEY - Cultura é abrangente. Cultura é cultura. Arte é arte. Seresta, tradição. Então, já existe isso e o mérito é dos irmãos que deram essa continuidade. E o meu é o trabalho dos monstros da MPB, que nós não podemos deixar de valorizar o trabalho desses homens: de um Gilberto Alves, de um Nelson Gonçalves, de um Sílvio Caldas, de um Vicente Celestino. Não podemos deixar isso esquecido.
Meu trabalho é perpetuar a memória desses artistas.

LOU - E também você falou das pinturas, dos pintores.
WOLNEY - Tem pintores lá, arte do povo que é a pintura em porcelana, que é uma coisa linda. Tem o Moacir Sacramento, que é um poeta, a Casa do Poeta. Ele declama dentro do atelier dele, a esposa é uma pintora, artista plástica.

LOU - E você colabora com eles?
WOLNEY - Ajudo. Me chamou, tô junto. Porque é isso, só assim é que a cidade é conhecida, com união. A união é que faz a força e graças a Deus lá temos muita, muita mesmo.

LOU - A renda da cidade, então, gira em torno dessa programação? Todo final de semana tem muita visitação?
WOLNEY - São três hotéis fazenda, o Vilarejo, o Rochedo e o Acalanto. Pousadas, nossa!!! Tem mais de 20, são 30 pousadas. Imagina como tá crescendo Conservatória. Pra quem já teve lá, alguns anos atrás, ela tá dando saltos.

LOU - Mas ela está conseguindo manter a tradição das construções? Não estão construindo prédios?
WOLNEY - Tá conseguindo. Não constroem nada fora do padrão, está tudo tombado. É patrimônio histórico. E tem muita gente que briga pelos interesses da cidade.
A gente tem reuniões, associação de moradores, tem um Comdecom, uma entidade liga à Prefeitura que se preocupa com esse trabalho em Conservatória, pra não mudar essa característica de Conservatória. E os bares que são todos de música popular. Taberna de Dom Beto, tem o Alcaporã, tem o Celeiro, Pizza Nostra e mais outros com música popular. Então, eu acho que a cidade é toda assim.

LOU - E vocês conseguem convidar artistas desse tempo, que saiam do Rio ou de São Paulo, que façam shows lá?
WOLNEY - Eu há pouco tempo, no ano passado, em outubro, eu levei o Evaldo Gouveia. Ele fez o CD dele lá em Conservatória. E tá vendendo, você procura e não encontra nas lojas. Foi um sucesso.

LOU - Você tem uma gravadora?
WOLNEY - Não. O Mazzola é que é o dono da gravadora e meu amigo. O Foguete é o produtor e também é meu amigo e eu os convidei pra eles fazerem a gravação do Evaldo Gouveia. É o primeiro CD dele, porque quem gravava as músicas do Evaldo e do Jair Amorim era o Altemar Dutra.
Você vê como é que as coisas vêm. Eu não pensava no Altemar, mas eu tinha trazido primeiro o Evaldo e agora tá chegando o acervo do Altemar. Pra você ver como é que são ligações. Tô bem ligado na parte astral do plano superior. Aí eu levei o Evaldo e nós estávamos com problemas no Hospital e falei com o Mazzola e o Foguete. E eles nos mandaram
o Bebeto, um artista, pra fazermos um show com a Banda do Bebeto, que foi uma beleza de show dentro de Conservatória. Mas vão muitos artistas. Tito Madi não sai dali, Carlos José tá sempre com a gente. J. Júnior, também um compositor da antiga, autor de "Lata d'água na cabeça... e Confete" , também tá sempre lá, dando a maior força e autoridades como a nossa atual governadora Benedita da Silva, teve lá me visitando também, teve embaixadores de Portugal. Até foi filmado em Conservatória aquela novela Aquarela do Brasil do Jayme Monjardim. Tenho uma pasta de vários artistas catalogados e peguei uma onde tem uma foto do Jayme Monjardim com 3 anos de idade, ele se emocionou.
E tem foto do jogador de futebol, o Nilton Santos. E todos que vão a Conservatória, que se destacaram em alguma coisa, eu dou um diploma e ponho na galeria do hall de entrada do museu do Vicente. Então, tem bastante, tenho mais de 60 diplomas. E eu dei um pro "Velho Amigo" Eloy por não gostar de música.

LOU - Ele tá é fazendo tipo.
WOLNEY - Também acho. Ele vai aos almoços e fica dentro de um clube filmando, no clube, num almoço, todas as segundas quarta-feiras de cada mês, onde o Eládio reúne esses artistas do passado e a gente fica ali batendo um papo, ouvindo música e o câmera man é o Eloy.

LOU - Esse almoço é no Rio? Aonde?
WOLNEY - No Mackenzie, no Méier, na Rua Dias da Cruz.

LOU - E é aberto ao público?
WOLNEY - É aberto ao público. É o Almoçando com a Saudade".

LOU - Almoçando com a Saudade! Bonito! Agora eu queria que você desse um recado pros Velhos Amigos. Você sabe o que é o site Velhos Amigos?
WOLNEY - Não.

LOU - É um site voltado para a maturidade, não tem idade. A pessoa pode ser madura aos trinta e ser totalmente imaturo aos sessenta.
WOLNEY - Eu tô com oitenta de cabeça.

LOU - O site velhosamigos.com.br se volta pra música, poesia, poemas, textos de auto-ajuda, páginas pra encontrarem orientação. As pessoas escrevem pra mim e eu mando meu recado para que as pessoas que estejam deprimidas saiam do estado de depressão.Eu queria que você mandasse um recado porque você demonstra toda essa empolgação, está cheio de projetos e vive com a música e a música, nós sabemos, é um dos melhores remédios...
WOLNEY - Maior terapia. A música é a maior terapia que existe. Porque existe a música pra todo estado que você esteja. Eu, por exemplo, tenho dias que ouço só clássicos. De manhã eu boto meus discos clássicos lá e ouço. Quando tô realmente mais agitado, gosto de relaxar com Beethoven, Mozart, Brant, ópera. Agora ganhei uma coleção de ópera linda. Teve uma professora que me doou um acervo dela de músicas barrocas, coisa linda, maravilhosa! Espero que todos, que visitem o seu site, façam uma visita a Conservatória. Vão curtir a serenata, a seresta que vale a pena! E não deixem de me visitar indo aos museus. Porque recordar é viver e eu tenho certeza que vocês vão gostar do trabalho que esses artistas deixaram e o cuidado e o zelo que eu tenho pelos museus.

Eu gostaria que vocês fossem me visitar e me dissessem: eu te vi no site "Velhos Amigos" e tal... Eu vou ficar muito satisfeito.

Agradeço a você, Lou, por essa oportunidade que está me dando de falar e ficar mais conhecido, e ainda divulgar os museus. Façam-me uma visita, terei o maior prazer em recebê-los!

LOU - Muito obrigada, estaremos lá!

Maria de Lourdes Micaldas
Revisão: Anna Eliza Fürich

 

 

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