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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

ZAGALLO
publicado em: 07/04/2017 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 09/11/2006

O ÍDOLO DE QUASE TODO O MUNDO

Ele participou de todas as comissões técnicas das Copas do Mundo, desde 1970. E, até hoje, se mantém na mídia quando o assunto é seleção brasileira. O Velho Lobo é apaixonado pelo futebol e, com muita emoção, nos fala sobre a sua vida, sempre ligada ao esporte, e também sobre os mitos e as verdades dos bastidores.

LOU: Zagallo, o site "VelhosAmigos" é dirigido à faixa de público que já se encontra na idade madura, porque a maioria tem mais de 50 anos. Mas entra gente à beça, de todas as idades, em busca de pesquisas sobre música, dicas de beleza, datas especiais do Brasil, trabalhos escolares e também sobre problemas sexuais e familiares. Ainda temos as seções de jogos e as salas de bate-papo.

Agora que você já foi apresentado ao site, vou chamá-lo de "VelhoAmigo", como são chamados todos aqueles que nos concedem entrevistas. A minha primeira pergunta é a seguinte: seu nome na Internet aparece Zagallo com dois L e Zagallo com um L. Quando pesquisei Zagalo, veio escrito assim no Google: você quis dizer Zagallo com dois L.(risos)
ZAGALLO: Meu nome é Zagallo, com dois L. "Zagalo" com um L é erro. Ficou na imprensa muito tempo Zagallo com um L. Uma vez eu fui fazer uma entrevista em SP e me perguntaram: "de que você gostaria? - Eu gostaria que escrevessem meu nome certo". A partir daquela data, todo mundo publicou Zagallo com dois L, a não ser o JB, que ainda publica Zagallo com um L. O resto do país é todo Zagallo com 2 L.

LOU: Você, quando era criança, era muito levado, jogava bola, tocava campainha na casa do vizinho, essas coisas de menino? Ainda mais que naquele tempo, as crianças brincavam na rua, não havia condomínio, eu mesma fui uma moleca de rua.
ZAGALLO: Eu nasci em Alagoas, Maceió. Vim pro Rio de Janeiro com 8 meses. O meu pai era representante de uma firma de tecidos e toalhas que era de meu tio e da irmã da minha mãe. E nós fomos morar no bairro da Tijuca, próximo ao América Futebol Clube. Levei minha vida, minha infância, normalmente como toda criança, como você acabou de falar, jogando bola nas calçadas, na rua, próximo à Praça Afonso Pena, mas fui criado dentro do América Futebol Clube, quando meu pai entrou pra sócio. Como Sócio Contribuinte jogava vôlei, basquete, futebol. É evidente que a minha vida começou justamente no América Futebol Clube !

LOU: Seu primeiro time então foi o América.
ZAGALLO: O meu primeiro time que torci foi o América. Meu pai chegou a ser Conselheiro do Clube. E eu joguei no América em 1948 - bota tempo nisso! Quando eu comecei a jogar, meus pais não queriam, porque jogador não era bem aceito na sociedade. E meu irmão interferiu, falou: "não, ele já tem a estrutura, já tem a base. Isso é um esporte amador. Não tem problema nenhum". Porque jogador do América não ganhava nenhum tostão. Ao contrário, eu pagava contribuição pra poder participar. E eu só vim a ganhar algum dinheiro quando estava no Juvenil do Flamengo, quando fui jogador do Flamengo.

LOU: E aí o Flamengo passou a ser o seu time de coração.
ZAGALLO: E aí acabou sendo meu time, porque fiquei durante muito tempo... Mas antes disso, eu joguei dois anos no América. E o interessante é que, quando garoto ainda, eu jogava com a camisa número 10 e pensei grande: para eu chegar à seleção brasileira, a camisa 10 não vai me dar essa oportunidade, porque a concorrência é muito grande. Vou passar pra camisa 11. E hoje, eu posso dizer que, com essa pequena mudança, tudo deu certo na minha vida. Eu, garoto, já pensava grande. O interessante é que em 1950, eu estava servindo o exército e fui tirar serviço militar num jogo no Maracanã , justamente a final, Brasil e Uruguai. Eu estava na arquibancada, tinha 19 anos naquela época. Mas jamais poderia pensar que 8 anos depois eu estaria na seleção brasileira, sendo campeão do mundo. Você vê como é o destino das pessoas.

LOU: Foi nessa copa que perdemos para o Uruguai! Você deve ter se desmontado de chorar. Eu me lembro que chorei pra chuchu... Foi em 50, estava com 10 anos.
ZAGALLO: Não tenha dúvidas. Eu estava com 19, tirando serviço no Exército. Fui parar na Polícia do Exército, não pelo físico, mas porque lá eram reunidos os melhores do vôlei, do basquete, porque tinha as Olimpíadas do Exército. Mas tirei o serviço num dia deslumbrante. Antes de começar aquela festa, o Maracanã estava repleto, 200 mil lencinhos brancos, uma coisa maravilhosa. Ao final, um final triste, pois nós perdemos ali a grande oportunidade de sermos campeões do mundo.

LOU: E você participou daquela caminhada silenciosa, terrível?
ZAGALLO: Participei...

LOU: Chorou?
ZAGALLO: Uma choradeira tremenda... lágrimas me vieram aos olhos, porque sou uma pessoa muito emotiva. E foi um dia assim, difícil de se esquecer.

LOU: Até hoje eu não me esqueço: aquela saída do Maracanã era uma festa. E, naquele dia, tudo havia sido preparado pra uma apoteose, quando desceu aquele mar de gente, num silêncio profundo... homens chorando! Mas isso já passou, né? Me fala das suas grandes vitórias. Qual foi o jogo de sua vida, a vitória que lhe trouxe mais emoção?
ZAGALLO: Comecei pelo Flamengo. Fui tricampeão pelo Flamengo profissional, 53, 54, 55. Depois, fui pro Botafogo, onde fui bi-Campeão Carioca em 61, 62, e galguei a Seleção Brasileira em 58. Joguei em 58 e 62.

LOU: Em 58, na Suécia?
ZAGALLO: Em Estocolmo. 58 e 62 em Santiago do Chile. Foram 2 títulos, que me marcaram como jogador nos Clubes Flamengo e Botafogo, e as duas Copas do Mundo, em 58 e 62. Jamais eu havia visto uma festa tão grande na chegada. Jamais poderia imaginar que o povo brasileiro viesse à rua, desde o Aeroporto até o Hotel Plaza, aonde nós chegamos, depois prosseguindo pro Palácio do Catete.

LOU: Eu estava lá nessa festa... Fui pra rua receber vocês. Quem diria que hoje estaria aqui, na sua frente...
ZAGALLO: É, foi um negócio assim... Foi um negócio sensacional.

LOU: Seu nome ficou bem marcado naquela Copa. Você era o "Formiguinha", como o chamavam.
ZAGALLO: Me deram o nome de "Formiguinha" porque eu fazia um futebol diferente na época. Eu fazia dupla função. Eu trabalhava... Era um jogador de 100 metros, enquanto normalmente o pessoal jogava mais estático; jogava 50 metros, vamos dizer, e fazia aquela função de ponta-esquerda e lateral.

LOU: E ainda comandava um pouquinho ali, no meio...
ZAGALLO: Ah, no meio-de-campo e tudo, quer dizer... Fazia uma dupla função: Quando o Brasil estava com a posse da bola eu era ponta-esquerda, quando o Brasil perdia a posse da bola eu era meio-de-campo. Por isso me chamavam de "Formiguinha".

LOU: E essa história de superstição do número 13?
ZAGALLO: A superstição do número 13 começou por causa da minha mulher. Ela é devota de Santo Antonio, e 13 de junho é dia de Santo Antonio. Por isso troquei a camisa 11 pela 13 e a imprensa explorou muito o fato de eu ter ganho os títulos. Então, muita gente pensa que o 13 é superstição. E não é. É fé, é devoção.

LOU: Naquele tempo já havia tanto assédio em cima de você, como tem hoje em cima das celebridades?
ZAGALLO: Ah, isso nos clubes. As fanzocas iam aos estádios de treinamento, em todos os clubes... no Flamengo, no Fluminense, no Botafogo, no Vasco, por todo clube que eu passei tinha sempre as fãs, né?

LOU: Mas também a imprensa não ficava em cima, seguindo todos os passos dos atletas.
ZAGALLO: Não, não tinha problema algum. Hoje mudou tudo, vamos dizer assim, hoje o atleta é mais explorado nesse sentido, dá mais Ibope, principalmente, aqueles que vão pro estrangeiro. São os verdadeiros ídolos que saem do Brasil e vão para o exterior e que, a qualquer ato, a qualquer movimento que façam, a imprensa está marcando, feito um paparazzo. Mas era diferente na minha época, a coisa era mais pacata, era mais humano.

LOU: Agora, outro assunto. Os jogadores tinham um amor tão grande ao Brasil, à camisa do Brasil... Eu lembro até que, quando o Brasil levou um gol e começou a perder de 1 a 0 da Suécia, um jogador foi lá no gol, pegou a bola...
ZAGALLO: Foi o Didi, que era do Botafogo.

LOU: E ele pegou a bola e disse: "Nós, com o time do Botafogo ganhamos de goleada na Suécia e não ia ser a seleção brasileira que iria perder deles agora, com a camisa do Brasil. Vamos perder? Não! Nós vamos vencer"...
ZAGALLO: Ele foi lá dentro do gol, pegou a bola e veio com a bola embaixo do braço, caminhando lentamente. Todo mundo ficou "por conta" porque ele vinha lentamente. Ali ele estava dando um sinal de que tinha fé, que nós íamos ganhar, com aquela tranqüilidade toda dele.

LOU: E acalmando o time também.
ZAGALLO: Acalmando. Mas houve passagens interessantes na Copa de 58. No último jogo, choveu 5ª, 6ª e sábado. No domingo melhorou. E os suecos sabiam que o Brasil não gostava de jogar com chuva, porque o campo ficava encharcado. Aí, o que eles fizeram? Como se faz com o tênis, quando chove, cobre-se a quadra pra não encharcar. Eles cobriram o campo todinho com uma lona de 100 metros. Cobriram para que a chuva não tivesse essa penetração. Veja só a cultura de um país: jogando uma final e querendo ganhar, mas querendo ganhar dentro de uma gentileza; do futebol arte, que se jogaria na grama seca, não num lamaçal. E, de fato, a lona protegeu muito, e apenas a grama ficou umedecida, tanto que não tinha poça, não tinha nada. E nós nos consagramos, acabando por sermos campeões do mundo. E tive até a felicidade de fazer um gol, o quarto gol, além de dar o passe pro Pelé pra fazer o quinto.

LOU: E aconteceu que os próprios suecos, que perderam o título, aplaudiram de pé.
ZAGALLO: É, era uma cultura diferente. Eles olhavam ali o espetáculo, o que estava acontecendo, claro que torcendo pelo seu país, mas dando a entender que os aplausos seriam para o melhor, e o melhor era o Brasil naquele momento.

LOU: Você não acha que esse patriotismo, esse amor puro pelo futebol ficou muito prejudicado, porque os jogadores ficam tão preocupados em se exibir como produtos a serem comprados, que perdem aquela garra, por exemplo, "da era Didi", pela camisa da seleção em busca do mercado na Europa?
ZAGALLO: Não... O futebol do passado era um futebol mais bonito, era um futebol mais arte, porque havia mais espaço pra se jogar. Hoje, a evolução física trouxe uma situação bem diferente. Ela diminuiu os espaços. Então, encurtando os espaços, há muitos choques entre os jogadores, há uma marcação bem diferente. Agora, em relação ao merchandising, ao marketing, isso não atrapalha, porque ele faz publicidade na hora que tem o horário disponível pra aquilo.

LOU: Perguntei o seguinte: pra não perder o contrato com a marca do produto que ele anuncia, a preocupação do jogador em fazer bonito em campo não seria maior do que a garra de vencer jogo?
ZAGALLO: Não, não... Eles entram em campo conscientes... Claro que não se ganha sempre, perde-se também. Mas eles entram conscientes que o verdinho-amarelo mexe lá dentro. É como se fossem amadores, mesmo ganhando todas as fortunas que eles ganham. Eu posso passar isso, porque Parreira e eu fomos à Europa, conversamos com os jogadores, 94, 93, antes da Copa do Mundo, e eles gostariam de vestir a camiseta de qualquer maneira. Claro que vestir a camisa valoriza pra um contrato depois, mas eles deram sangue, suor e lágrimas por essa camisa. Às vezes é um pronunciamento mal dado. É má interpretação de alguém da imprensa, é a torcida que diz que fulano é mercenário, mas não é nada disso. Na hora bate o patriotismo dentro de cada um.

LOU: Que maravilha você dizer isso, muito bom! Agora, voltando a falar de amor. Como você começou a namorar sua esposa, como foi que você a conheceu?
ZAGALLO: Conheci minha mulher numa festa pré-carnavalesca. Num baile de confetes no América Futebol Clube. Ela ia às quintas-feiras. Ela nem era sócia, mas o pai de uma colega dela do Instituto de Educação levava as duas. E eu a conheci justamente num baile desses. Acabou a festa e ficou por isso mesmo, não pedi telefone nem nada. Até que houve o Baile de Gala e ela apareceu novamente com a colega do Instituto de Educação. E ali, naquele dia, eu novamente falei com ela. Eu tinha até uma namorada na época, mas acabei me encantando por ela. Como não tinha caneta pra me dar o telefone, ela escreveu com o batom num retrato, e hoje já fiz bodas de ouro, de modo que foi um namoro que deu certo na minha vida.

LOU: Que beleza. É bom saber que ainda existem casamentos que dão certo... Ah, qual a verdadeira história desse alvoroço de 74, com a imprensa e o Pelé? Você implicou com o Pelé, teve alguma coisa assim?
ZAGALLO: 74? Imprensa?

LOU: Tá na Internet... Sabemos que na Internet tem muita coisa errada, muita mentira..., mas você nunca implicou com o Pelé?
ZAGALLO: Não... Não...

LOU: Talvez você, como técnico, tenha chamado a atenção dele, coisa assim...
ZAGALLO: Não. Em 70, quando assumi a minha função de técnico, eu substituí o Saldanha. E o Saldanha tinha dito que o Pelé estava cego, não sei se você se recorda disso, e, quando eu entrei, ele, o Pelé, botou a mão no meu ombro, nós já tínhamos sido jogadores juntos, e ele falou: "Zagallo, você pode me botar até na reserva, mas não faça uma sacanagem comigo" - talvez pelo que o Saldanha tinha dito que ele estava cego. Então houve essa passagem comigo e com ele. E no final da Copa de 70, ele me abraçou e disse: "precisávamos estar juntos para sermos tri-campeões do mundo".

LOU: Porque em 66 você não jogou...
ZAGALLO: Na Copa do Mundo de 66, lá na Inglaterra, eu já tinha parado de jogar e ele estava jogando na Seleção Brasileira.
Nós nos juntamos em 70, quer dizer, o acaso fez com que nós dois estivéssemos juntos. Não houve problema algum. Houve uma ocasião em que eu o tirei do time só pra ver o reserva dele jogar. Mas não houve problema, nunca impliquei nada com o Pelé. Ao contrário. Eu só o elogiei, tive a felicidade de jogar junto com ele. Aliás, eu sempre mexo, digo que não fui eu que joguei com ele, porque sou mais velho; ele é que jogou comigo. Mas em termos de jogador excepcional nós temos que apontá-lo sempre como o maior jogador de todos os tempos do futebol brasileiro.

LOU: Eu gosto desses esclarecimentos porque o assunto fica registrado em nosso site.
ZAGALLO: Não tenha dúvidas. Em 74, também o que aconteceu foi uma reunião dos jogadores pra não falar com a imprensa, porque houve um problema de uma saída de barco, na Escócia, mas foi num barco público, onde também tinha moças. Então, um jornalista bateu uma foto, e publicou, dizendo que nós estávamos passeando e inventou um negócio... E a mulher do Luiz Carlos Pereira viu a foto, e, quando ele ligou pra conversar com ela, ela disse: "Você está falando uma coisa e faz outra". Então os jogadores se reuniram e adotaram um sistema de silêncio contra a imprensa. Isto aconteceu em 1974. Mas nunca houve nada com o Pelé. E o Pelé nem estava nessa Copa.

LOU: Quem foi que lhe deu o apelido de Velho Lobo?
ZAGALLO: Foi a própria imprensa.

LOU: Por quê?
ZAGALLO: Porque muita gente lá no exterior, até no México, pensava que eu era um animal, né? Um velho lobo...

LOU: Como assim, lobo na ferocidade de ganhar, de comandar, de treinar?
ZAGALLO: O meu nome é Mario Jorge Lobo Zagallo, entende? Mas muita gente pensava que Lobo era um apelido. Muita gente me chama de Zagallo. Mas de vez em quando sai o Velho Lobo...

LOU: E como é o nome do seu pai?
ZAGALLO: É Haroldo Cardoso Zagallo. E o nome de minha mãe é Maria Antonieta Lobo Zagallo.

LOU: A respeito daquela Copa de 2006. Você e Parreira sofreram com uma série de críticas, não foi? Como é que você lidou com essa situação, com esse sentimento? Porque deve ter sido muito difícil... Quando se ganha é o herói, quando perde é crucificado.
ZAGALLO: O problema desse movimento foi pós-Copa. Antes não, porque a seleção ganhava tudo. Ganhou a Copa das Américas, a Copa das Confederações, ganhou da Argentina lá na Alemanha e ganhou da Alemanha lá na Alemanha. Todas essas vitórias trouxeram problemas pra nós, porque veio o grande favoritismo. Essas coisas partiram até da Europa. E a imprensa publicou que nós éramos os favoritos, o quadrado mágico, essas coisas... Essa onda acabou trazendo conseqüências ruins, por mais que nós da Comissão Técnica trabalhássemos a fim de desmitificar essa situação de grandes favoritos, e de fato isso acontecia a toda hora, na rua... Ah! nós já ganhamos.... E nós dizíamos: não é por aí... Mas a todo instante a história era essa. E acabou atingindo o time, não tenha dúvidas quanto a isto.

LOU: Tinha muito menino novo, mas os mais velhos não souberam segurar a onda?
ZAGALLO: O favoritismo nos atingiu. E acabamos não jogando uma boa Copa e acabamos perdendo. E você sabe perfeitamente que no futebol, quando se ganha, é elogiado, quando se perde, é burro, não fez as coisas certas. Mas estamos preparados e habituados pra tudo isso. Não foi a primeira Copa, não foi a primeira vez, não foi a segunda. Ganhamos tantas, perdemos também, mas ganhamos mais do que perdemos, essa é que é a realidade.

LOU: E tem também uma coisa que nunca me esqueci. O Pelé, que era o ídolo máximo, uma vez foi vaiado. Não sei se foi no Maracanã.
ZAGALLO: Mas isso acontece, acontece com qualquer um, até com o maior jogador do mundo, como você acabou de citar. Porque futebol é paixão. Se você faz uma boa jogada, você é aplaudido; se você, na jogada seguinte, perde uma bola, você acaba sendo vaiado naquele momento. Então, futebol é paixão.

LOU: Acho que o nosso povo tem muito disso: ele tem o poder de colocar a pessoa lá no alto; mas, de repente, tem também o poder de derrubar.
ZAGALLO: Mas isso não vai mudar nunca, isso é desde o passado até o presente, e no futuro, será sempre assim. Principalmente no futebol.

LOU: E o Dunga? O que você está achando do Dunga?
ZAGALLO: O Dunga pegou uma seleção, foi convocado pelo presidente Ricardo Teixeira, pegou um momento muito difícil, porque o pessoal de 2006 está praticamente saindo, a Copa 2010 é daqui a quatro anos e o nosso time está um pouco envelhecido. Então ele tem de fazer um novo preparo. Claro que ele vai ter alguns jogadores da Copa do Mundo, mas o mínimo possível. E ele começou com sorte. E isto é importante, fundamental na vida de cada um de nós. Começou ganhando; não perdeu até agora, ele está podendo fazer experiências, porque se tivesse perdido já o estariam chamando de burro, de tudo quanto é maneira... isto faz parte da vida do treinador. O treinador é um ponto de interrogação. Você vê, mesmo dentro de um campeonato, como é que é. Trabalha 20 dias, perde, sai, entra outro e assim vai. Mas falando do Dunga, ele está fazendo um excelente trabalho. E tem tempo adequado. Veja as vitórias que conseguiu; ainda tem um amistoso pela frente. Tá escolhendo novos jogadores, depois ele vai entrar na fase da Copa América, eliminatórias, e aí é que ele vai começar a botar a base que ele imagina, que ele supõe, pra poder arrumar o time pra Copa do Mundo.

LOU: O aplauso fortalece a pessoa. E o Dunga vem sendo muito aplaudido.
ZAGALLO: Ah, sim. É sempre melhor você ser elogiado do que ser vaiado. Mas o Dunga é uma pessoa de personalidade, de moral. Ele foi um líder como jogador, e vai ser um líder como técnico. Claro que futebol é resultado. Nós estamos falando agora, e espero que continue com as vitórias, que dêem tempo de trabalho pra ele, porque futebol é tempo. O problema é que a imprensa não tem muita paciência, e o torcedor vai junto com aquilo que está sendo falado. Mas eu espero que ele vença nessa jornada.

LOU: Mas o Dunga também sofreu muita crítica, porque diziam que ele era um tanque, que ele não se movia...
ZAGALLO: Ahhhhhh!!!! Isso foi na Copa de 90. A "Era Dunga". Falavam que ele não tinha condições de jogar e tudo, e nós acabamos com esse mito. Quando eu digo mito, mito na situação da colocação negativa. E nós o colocamos como mito verdadeiro, porque o convocamos pra Copa de 94. Ele foi tetracampeão do mundo, deu a volta por cima e mostrou quem era. Deu a resposta dentro de campo.

LOU: E você gritou de lá: Tiveram que nos engolir!
ZAGALLO: Foi isso aí. É uma frase que ficou na memória do povo. Ela começou em 97, quando eu estava disputando a Copa América. Dois jornalistas de São Paulo que me avisaram que estavam fazendo onda contra mim, pra botar outro treinador na seleção. E eu não podia dar resposta alguma, porque tinha vários jogos e eu só tinha que esperar chegar a uma final. E tive a felicidade de chegar à final e ganhar na final. Então nós ganhamos a Copa 97. Eu não preparei nada, não. Aquilo saiu assim, feroz.

LOU: Deu pra notar.
ZAGALLO: Saiu assim, feroz. Mas, depois, foi uma coisa gostosa. A criança, o jovem, o adulto, todo mundo gostou da frase "vocês vão ter que me engolir!"

LOU: Você também não acha que esse bairrismo é uma coisa ridícula? Porque não importa se o técnico seja de S.Paulo ou Rio Grande do Sul, ou Rio de Janeiro, ou do Acre; o que importa é que o técnico leve o Brasil pra frente...
ZAGALLO: É claro, eu sou do mesmo ponto de vista. O bairrismo não leva a lugar algum. Mas agora tá menor, mas ainda existe.

LOU: Quando você começou a entrevista, você falou uma coisa muito importante. Que aos 11 anos, você já pensava alto, por isso você chegou até onde chegou e hoje está aí com essa força toda, superando as dificuldades da vida.
ZAGALLO: É. Não tenha dúvida.

LOU: E como você pensa alto, isso me leva a outra pergunta. Qual é seu plano pro futuro?
ZAGALLO: Olha, eu acho que eu já sou um futuro. Não tenho mais nada pra pensar pra frente. Pra frente é o que Deus me der, o que tiver que acontecer, porque eu já estou com a idade avançada. A minha vida, pra técnico, já atingiu um limite alto. A gente nunca deve dizer que não, mas, eu quero seguir a minha vida, agora normal. Vivi o futebol a minha vida toda. Então, se tiver que fazer alguma outra coisa será dentro do futebol.

LOU: Mas, agora, fora do futebol, você está gozando o prazer de poder, por exemplo, ir a uma pizzaria, onde o encontrei, comendo pizza junto com a família. Isto é um dos prazeres da vida, porque antigamente você não gozava dessa liberdade.
ZAGALLO: Não tenha dúvida, porque futebol tira muito a liberdade. Até na educação dos próprios filhos, porque você fica muito longe dos filhos; a esposa passa a ser a mãe e o pai, ela é tudo, na verdade. E agora é que eu posso aproveitar mais um pouco, como encontrar você numa pizzaria, saindo agora pra ir ao teatro, cinemas, tendo o meu domingo como eu não tive durante muito tempo. Pude viajar recentemente, quer dizer, posso aproveitar um pouco mais a vida.

LOU: Esse é um grande Projeto.
ZAGALLO: É isso aí...

LOU: A gente sempre termina a nossa entrevista pedindo um recado pros VelhosAmigos.
ZAGALLO: Eu acho que eu posso dar o meu próprio exemplo, a minha vida esportiva, como um fator positivo na vida daquelas crianças que estão começando a vida no caminho errado. O futebol pode trazê-las pro bom caminho. Eu acho que esse exemplo de ter sido um jogador, que passei a minha vida toda dando bons exemplos. Acho que é o suficiente, é o bastante para que eu sirva de exemplo pra essa garotada. Não gosto nunca de falar na primeira pessoa, mas você começou falando e eu segui o que você falou.

LOU: É importante que, em determinados momentos, você fale na primeira pessoa. É sinal de que a sua auto-estima está em alta, senão você não seria um vencedor. Parabéns, Zagallo.
ZAGALLO: Obrigado, um abraço. Foi um prazer ter conhecido você na pizzaria, e hoje dando uma entrevista aqui pra você e para os "Velhos Amigos".

 

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