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INFORMAÇÃO / HORA DA MÚSICA

EDITH PIAF
publicado em: 18/03/2017 por: Lou Micaldas

“Quando eu penso em minha vida, sinto vergonha de mim mesma.
Quando revejo esta mulher pequenina, que atravessa a noite com sua solidão e seu tédio, penso que fui, algumas vezes, injusta e má. Eu fui também temperamental, colérica e autoritária. A todos peço perdão. Minha vida foi absurda”.
As confissões de Piaf, publicadas na edição de O Globo de 21 de outubro de 1963, traduzem a sua complexa personalidade e espelham uma biografia marcada pela dramaticidade e pela tragédia. Desde o seu nascimento, cuja versão predominante indica ter ocorrido no meio da rua, em plena madrugada, a artista precisou enfrentar sucessivos desafios para chegar a consolidar seu nome como ícone da chanson francesa e como uma das maiores vozes do século XX.
Edith Giovanna Gassion nasceu em 19 de dezembro de 1915, no distrito de Belleville, em Paris, e teve uma infância pobre, incerta e solitária. Sua mãe trabalhava como cantora de cabarés e seu pai como acrobata de rua. A vida artística levou-os a delegar a responsabilidade de criação da pequena Edith às suas avós.
Após um curto período sob os cuidados de sua avó materna, que a submetia a maus-tratos, Edith foi entregue à avó paterna, que dirigia um bordel na Normandia.
Aos sete anos, perdeu temporariamente a visão, em conseqüência de uma inflamação na córnea. Apesar do contratempo, a cura ocorreu espontaneamente.
Em 1922, convencido por um religioso local, seu pai levou-a para acompanhá-lo nos trabalhos itinerantes que realizava;
Aos 15 anos, Edith já nutria paixão pela música e abandonou o pai para obter seu sustento cantando nas ruas de Paris. Aos 16 anos, iniciou um romance com um entregador, que a instalou num quarto de hotel. Da relação, veio ao mundo a sua única filha, Marcelle, que morreu tragicamente aos 2 anos, vítima de meningite.
A carreira artística de Edith foi impulsionada por Louis Leplée, dono do Le Gerny’s, um famoso cabaré de Paris. Leplée a descobriu cantando nas ruas e convidou-a para trabalhar no local. Foi ele quem ensinou-lhe as técnicas de palco e sugeriu-lhe a adoção de figurinos pretos. Além disso, batizou-a de la Môme Piaf, expressão que significa “pequeno pardal”, numa referência à sua baixa estatura (1,47 m).
Em 1936, Piaf gravou o seu primeiro disco pela gravadora Polydor, com boa aceitação de mercado e de crítica. No entanto, após uma infundada suspeita de seu envolvimento como cúmplice no assassinato de Leplée, Piaf passou por um período de exposição negativa na mídia e teve sua carreira abalada. Para reerguer sua imagem, procurou o compositor Raymond Asso, que assumiu o papel de seu novo mentor e modificou o seu nome artístico para “Edith Piaf”.
Seguindo os conselhos de Raymond, Piaf aprimorou seu estilo de apresentação e se tornou uma profissional de Music Hall, assumindo em pouco tempo o papel de grande vedete do cenário musical francês, difundida pelo rádio e idolatrada pelo público. No início dos anos 1940, recebeu convites para iniciar seus trabalhos no teatro e no cinema, aprendeu normas de etiqueta social e se transformou definitivamente de moleca de rua em queridinha da elite intelectual francesa.
Mesmo durante a ocupação alemã na França, na Segunda Guerra Mundial, Piaf não interrompeu sua carreira. Sua voz ecoava pelo rádio, servindo de bálsamo para o tenso ambiente das ruas e dos fronts de batalha. Em 1944, conheceu o jovem cantor Yves Montand, assumindo a condição de sua amante e mentora. No ano seguinte, escreveu La vie en rose, um dos maiores clássicos de seu repertório.
Após a Segunda Guerra, passou a excursionar pelo mundo e se tornou famosa internacionalmente. Nos EUA, conheceu o pugilista Marcel Cerdan, que viria a ser o grande amor de sua vida. A relação, no entanto, teve um fim trágico e precoce devido à morte de Marcel num acidente de avião, em 1949. Foi em sua memória que Piaf gravou a célebre Hymne à l’amour. A instabilidade emocional provocada pela perda do companheiro e as dores do reumatismo levaram-na a se tornar usuária de morfina, a se entregar aos excessos do álcool e a adotar atitudes intempestivas.
Em 1951, após retomar sua agenda e a trajetória de ascendência profissional, Piaf sofreu dois sérios acidentes de automóvel. Embora tenha sobrevivido, foram necessárias cirurgias e novas injeções de morfina, que fragilizaram ainda mais a sua saúde. Sua voz e seu talento, no entanto, continuavam inabaláveis, proporcionando ao público apresentações memoráveis no Olympia de Paris e no Carnegie Hall de Nova York.
No terreno amoroso, suas relações continuavam movimentadas.
Após um rápido romance com Charles Aznavour e um casamento de quatro anos com Jacques Pills, Piaf se envolveu amorosamente com o também cantor Georges Moustaki. Foi ao seu lado que, em 1958, sofreu outro grave acidente automobilístico, que lhe causou traumatismo craniano e debilitou de vez a sua saúde. Em suas tentativas de retorno aos palcos, teve sucessivos episódios de desmaios, sendo hospitalizada diversas vezes.
Em 1960, tomada pela sombra de todos os episódios trágicos por que passou, interpretou Non, je ne regrette rien, possivelmente o maior sucesso de sua carreira, cuja letra propõe uma reflexão sobre sua própria vida.
Em 1961, recebeu o Prix du disque de l’Académie Charles-Cros, por sua contribuição à música francesa.
Diante de um cenário musical modificado e sem condições físicas para retomar a carreira, Piaf se retirou para o sul da França, onde viveu seus derradeiros momentos ao lado do último marido, Theo Sarapo, de sua enfermeira e de seu acordeonista.
A cantora morreu em 10 de outubro de 1963, aos 47 anos, na localidade de Plascassier. A morte, noticiada pelo Globo no dia seguinte, ocorreu como conseqüência de uma hemorragia interna, após coma hepático. Seu enterro foi realizado em Paris, no cemitério do Père-Lachaise, sob forte comoção de milhares de admiradores.
Em pesquisa realizada pela BBC, em 2005, Piaf foi apontada como a 10ª maior personalidade francesa de todos os tempos.Dois anos depois, foi lançado um filme sobre sua vida, que alcançou sucesso internacional e rendeu à protagonista Marion Cotillard o Oscar de melhor atriz..
No Brasil, Bibi Ferreira foi uma das maiores propagadoras da obra de Piaf, com memoráveis apresentações teatrais. Conclui-se, logo, que assim como a tragédia, o brilhantismo também está definitivamente associado a tudo o que envolve a figura dessa “pequena” estrela. Um astro que fulge eternamente na memória, como “um hino ao amor” que não se acaba com a morte.

Fonte:.oglobo.globo.com/fatos-historicos/talento-tragedia-tornaram-edith-piaf-grande-nome-da-chanson-francesa-18321982#ixzz4bhyK1hex
 

Autor(a): Fabio Ponso

 

 

 

 

 

 


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