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INFORMAÇÃO / HORA DA MÚSICA

ELIS REGINA
publicado em: 26/04/2017 por: Lou Micaldas

"Pimentinha, fica com o Berimbau de Ouro que você merece." - Vinícius de Moraes que, com Edu Lobo compôs a música "Arrastão", vencedora do 1º Festival da Música Popular Brasileira na TV Excelsior de SP, em 1965.

Elis Regina de Carvalho Costa nasceu em 17 de março de 1945 em Porto Alegre e morreu em 19 de janeiro de 1982.

Aí começa a história de amor de Elis Regina Carvalho Costa com a cidade de São Paulo, que a acolheu depois de uma breve passagem pelo Rio de Janeiro, onde tentou decolar sua carreira artística, vinda de Porto Alegre com quatro LPs de versões e boleros em que pretendiam que fosse uma nova Cely Campelo.

Em São Paulo, Elis viveu suas maiores glórias, e daqui foi para a eternidade. Miguel e Miquelim mostrarão para vocês a trajetória apaixonante desta que é a maior cantora de todos os tempos.

Nesse ano de 1965, com a música "Arrastão" Elis é presença marcante nas paradas de sucesso, juntamente com "Menino das Laranjas" e o pout porri do disco "Dois na Bossa" gravado ao vivo com Jair Rodrigues no Teatro Paramount de São Paulo.

Lança seu primeiro disco pela Philips,"Samba eu Canto Assim". Elis Regina naquele mesmo ano é contratada pela TV Record, para comandar o Programa "O Fino Da Bossa" que foi o primeiro de todos os musicais da TV, líder em audiência e o determinante para a eclosão dos grandes festivais da música popular brasileira.

O "Fino" revelou vários nomes importantes da música popular brasileira. Ali Elis recebeu e cantou com figuras lendárias da velha guarda da MPB, como Dorival Caimy, Ataulfo Alves, Lupícinio Rodrigues, Aracy de Almeida e revelações da época, como Chico Buarque, Baden Powel, Caetano Veloso, Gilberto Gil, e tantos outros.

Em 1966, lança Milton Nascimento em seu segundo disco, "Elis", com a música "Canção do Sal". Na boate Zum-Zum no RJ, Elis e Baden Powell fazem show onde lançam os afro- sambas de Baden e Vinícius, com músicas como "Tristeza e Solidão", "Canto de Pedra Preta", "Berimbau" e "Canto de Ossanha".

O programa "O Fino" permaneceu no ar até 1967.
Em dezembro de 1967, casa-se com Ronaldo Boscoli e via morar no Rio de Janeiro.

Em 1968, representa o Brasil no Festival de Midem, na França, cantando "Upa Neguinho".

Em seguida, estreia no Olympia de Paris, acompanhada pelo Bossa Jazz Trio, cantando entre outras músicas "Samba de Benção", de Baden Powell e Vinícius de Moraes, em francês, versão de Pierre Barouh. Na volta ao Brasil, vence a I Bienal do Samba com "Lapinha" de Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro.

Lança o LP "Elis Especial", com destaque para "Corrida de Jangada" de Edu Lobo e Capinam. Retorna neste mesmo ano, para uma segunda temporada no Olympia em Paris, que se estende por um mês.

Na França, Elis grava um compacto duplo onde canta versões em francês de Pierre Barouh para as músicas "Noite dos Mascarados" de Chico Buarque e "A noite do meu Bem" de Dolores Duran.

Em 1969, afasta-se da televisão passando a se apresentar em shows de teatro.

Parte para nova temporada na Europa. Em Londres, grava um LP com o maestro Peter Knight e na Suécia grava com o gaitista Toots Thielemans. Os dois discos são lançados somente na Europa.

No Brasil, lança o disco "Elis, Como e Porquê", com destaque para "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, "Nega do Cabelo Duro", de Rubens Soares e David Nasser e "Casa Forte", de Edu Lobo. Apresenta o show "Elis com Miele e Boscoli", no Teatro da Praia no Rio e no Teatro Maria della Costa em São Paulo.

Em abril de 1970, aos sete meses de gravidez, estreia no Canecão do RJ, show dirigido por Mieli e Boscoli, com músicas do disco "Elis em Pleno Verão", produzido por Nelson Mota, onde lança Tim Maia (These Are the Songs). Seu grande sucesso neste ano foi "Vou Deitar e Rolar" (Quaquaraquaquá), de Baden Powell e Paulo C. Pinheiro.

Em junho, nasce seu primeiro filho, João Marcelo, fruto de seu casamento com Ronaldo Boscoli.

Em 1971, volta à televisão para comandar o programa "Som Livre Exportação" com Ivan Lins.

Este programa revela nomes como Luis Gonzaga Jr, além de presenças como a de Caetano Veloso, vindo de seu exílio obrigatório em Londres.

Em abril lança o LP "Ela", segundo de sua carreira produzido por Nelson Motta, seu disco mais "pop", com influência marcante da soul music. Maiores sucessos: "Madalena" (Ivan Lins e Vitor Martins) e "Black's Beautiful" (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle).

Em março de 1972, estreia no Teatro da Praia, RJ o show "É Elis", dirigido por Miele e Boscoli, com arranjos de Cesar Camargo Mariano.

A crise de seu casamento com Ronaldo atinge o auge refletindo-se no show, que é retirado de cartaz antes do fim da temporada.

Este ano marca o fim do seu casamento e da fase dirigida por Miele e Boscoli. Lança o LP "Elis", com repertório impecável de onde sairam clássicos, como "Águas de Março", de Tom Jobim, "Atrás da Porta" de Chico Buarque e Francis Hime e "Casa no Campo", de Zé Rodrix/Tavito.

Em julho de 1973, já de volta à São Paulo, lança o disco "Elis", que marcou uma nova guinada na sua carreira, com músicas de João Bosco, Gilberto Gil e Nelson Cavaquinho.

Na época Elis foi acusada de excessiva técnica vocal e frieza, mas o tempo mostrou o equívoco da crítica, pois o disco permanece como um dos mais modernos.

Sua interpretação para "Folhas Secas" e "É com esse que eu Vou" são memoráveis. Nunca Nelson Cavaquinho e Pedro Caetano foram gravados com tanta sofisticação.

Em agosto, saindo de um hotel no centro de São Paulo, parte para um circuito universitário pelas cidades do interior.

No ano de 1974, respirando novos ares em São Paulo, curtindo um novo amor e comemorando o êxito de um disco muito comentado, Elis vai para Los Angeles gravar com Tom Jobim o disco que marca seus dez anos de gravadora Philips, numa produção de Aloisio de Oliveira, com arranjos de piano de Cesar Camargo Mariano e Tom Jobim e arranjos de orquestra do maestro Bill Hitchcock.

Elis dá interpretações definitivas a todas canções de Tom Jobim, fazendo de "Elis e Tom" um dos discos mais importantes da história da MPB.

Em novembro lança seu disco anual, "Elis", onde grava Milton Nascimento ("Ponta de Areia", "Conversando no Bar"), Gilberto Gil ("Amor Até o Fim"), João Bosco ("Caça à Raposa" entre outras), Lupicínio Rodrigues ("Maria Rosa") e faz um a releitura de um antigo samba de Carmem Miranda, "Na Batucada da Vida ", de Ary Barroso.

Em 1975, grávida do segundo filho, cria com o pai e o irmão a empresa Trama. No mês de abril nasce Pedro.

Em setembro, Elis e Cia. começam a ensaiar, sob a direção de Miriam Muniz, o Show "Falso Brilhante", que estréia em dezembro tornando-se um marco na história dos musicais no Brasil, com cambistas na porta do teatro Bandeirantes e ônibus de excursões de todo o país que vem a São Paulo para ver Elis contando sua trajetória musical.

O show recebe o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, como melhor espetáculo do ano.

Em fevereiro de 1976, é lançado o álbum "Falso Brilhante" com parte do repertório do show, tendo como maior sucesso "Como Nossos Pais" de Belchior. "Fascinação" (F.D. Marchetti/M Feraudy/versão Armando Louzada), que abre e encerra o show, ganha uma interpretação magistral de Elis Regina que valorizou a antiga canção, colocando-a no repertório de vários intérpretes renomados.

O show fica em cartaz até fevereiro de 1977. Depois de merecidas férias, grávida de Maria Rita, Elis participa de uma série de shows promovida pela rádio Jovem Pan, intitulada "O Fino da Música", onde lança, com a participação de Ivan Lins, Renato Teixeixa e João Bosco, entre outros, seu disco "Elis", com destaque para "Romaria" e "Caxangá".

O sonho acabou.

Elis passa a cantar o pesadelo.

O show "Transversal do Tempo", que estréia em novembro de 1977 no teatro Leopoldina, Porto Alegre, foi idealizado a partir do momento em que Elis, presa em um engarrafamento, toma consciência de uma realidade sufocante, preocupada com a destruição da natureza e com tudo que pode levar o ser humano a um estado de destruição e isolamento.

Mauricio Tapajós e Aldir Blanc encarregam-se de transportar essa ideia para o espetáculo, em canções pinceladas a dedo da autoria de Paulinho da Viola, Chico Buarque, Adoniran Barbosa, Tom Jobim e outras compostas especialmente para o show , como a própria "Tranversal do Tempo"(João Bosco e Aldir Blanc) e "Querelas do Brasil" (Maurício Tapajós e Aldir Blanc).
 
Elis canta consciente de que é a melhor cantora e dá prova disso a todo instante. Seus recursos vocais são infindáveis, suas modulações passam do grave ao agudo, do gutural ao labial, com a tranquilidade de quem está fazendo a coisa mais corriqueira do mundo.

Em sua apresentação na Itália, declarou: "Carmen Miranda morreu nos anos 50. A europa precisa entender que não somos um povo apenas de carnaval. Temos a nossa tristreza. E não vim aqui para fazer concessões. Vou cantar examente o que canto em meu país."

Depois de percorrer várias cidades brasileiras , além de Portugal, Itália e França, onde volta a se apresentar no Olympia de Paris, lança o disco ao vivo com trechos do show em 1978.

1979, morando numa casa no campo (serra da Cantareira, SP) e de gravadora nova, WEA, Elis investe no visual, tornando-se mais feminina e sensual, faz um disco onde retoma seu lado romântico e ao mesmo tempo alegre, de riso fácil.

Daí saíram: "Eu, hein Rosa!", samba de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro; grava pela primeira vez o mestre Cartola em "Basta de clamares Inocência"; faz dueto impecável com Cauby Peixoto em "Boleros de Satã", canção que lança o compositor Guinga, aqui em parceria com P C Pìnheiro. É desse disco, "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, que a música se tornou o hino da anistia.

Dedicatória: "À presença do Bituca (Milton Nascimento) e à ausência do Tenório Jr." Elis atravessa o país com o show "Essa Mulher", dirigido por Osvaldo Mendes, usando uma orquídea nos cabelos "a la Billie Holiday", cantando repertório do disco e experimentando canções novas de Tunai e Fátima Guedes para o próximo show.

No mesmo ano de 1979, apresenta-se no Festival de Jazz de Montreaux, Suiça.

1980: Os jornais de São Paulo publicam anúncio de teste para novos atores, cantores e bailarinos.

É Elis, na sua constante busca pelo novo, na criação do show "Saudade do Brasil". Esse show é resultado de um diário de viagem de cinco meses pelo Brasil todo, onde Elis anota suas impressões e fala de um Brasil que não está nas estatísticas, um Brasil não oficial, daquele que a gente tem saudades.
 
Com elenco de 24 pessoas, o show estreia no Canecão do RJ em março, com direção de Adhemar Guerra, direção musical de Cesar Camargo Mariano e coreografica de Márika Gidali. Nesse show, Elis canta canções como "Marambaia", que dedica a Carmen Costa, "Moda de Sangue", onde mostra-se cada vez mais solta no seu jeito de cantar, explorando todo seu potencial vocal; fala da saudade de um Brasil recente em "Conversando no Bar"; em "Alô Alô Marciano", encarna toda a irreverência de Rita Lee, revestindo a canção com elementos jazzisticos, e mostrando a inteligência de intérprete única numa citação/homenagem a Louis Armstrong em "Hight Society".

A grande cantora brasileira é reverenciada em todo país, mas em sua vida particular o casamento de onze anos com o maestro Cesar Mariano começa a dar sinais de esgotamento.

É lançado o álbum duplo "Saudade do Brasil", pela WEA, com a íntegra do show. O LP "Elis" ("Trem Azul") é lançado em cumprimento a um contrato assinado e rompido em seguida com a Emi Odeon.

Para seu novo espetáculo, chama seu velho amigo Fernando Faro, que dirige uma Elis leve e solta, cabelos curtíssimos, e aproveita essa fase esfuziante de Elis num show concentrado em suas interpretações: sem artifícios, mas repletas de recursos vocais.

A direção musical é de Cesar Mariano mas quem dá as coordenadas agora é Natan Marques.

A presença de sua guitarra é marcante em músicas como "Trem Azul", em que dialoga com a estrela.. Cesar Camargo Mariano já faz parte do seu passado, pessoal e profissional.

O público aplaude e delira com sua maior cantora. Elis brilha mais e mais a cada número musical, vivendo cada momento até sua última gota.

Elis despede-se de seu público, parte num " trem azul" e vai afinal, "Falar com Deus".

Assim o Brasil fica sem seu parâmetro musical. Fica o Brasil sem a sua mais bela voz. Elis se foi, mas sua presença continua cada vez mais forte em nossos corações. É a nossa estrela no céu...
 
CURIOSIDADE:
 
HISTÓRICO DA MÚSICA O BÊBADO E A EQUILIBRISTA
 
Gravada em 1979, esta música de João Bosco (melodia) e Aldir Blanc (letra), retrata uma época marcante da História do Brasil e tornou-se um hino à anistia no período final da ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. A letra é um discurso de denúncia e esperança: O “Bêbado” é a classe artística, representada pelo seu símbolo-maior, Carlitos, personagem de Charles Chaplin, com toda sua aura de liberdade e utopia. Chaplin foi um artista cujo trabalho visava as pessoas menos favorecidas e no final dos seus filmes havia sempre uma estrada e uma esperança, onde Carlitos andava em direção ao infinito. A “Equilibrista” representa aquele fio de esperança que estava surgindo, a democracia.
Aldir Blanc foi muito feliz em representar algo tão tênue e incerto quanto nossa abertura política na figura de uma equilibrista. Desta forma, ambos, a classe artística e a esperança de democracia, tinham que se equilibrar em suas “cordas-bambas” para poder atingir seus objetivos. Aldir Blanc é considerado um poeta-repórter, pois seus textos geralmente são fatos de uma época, e o discorrer desta música traz imagens deste período de incertezas. No verso “Caía a tarde feito um viaduto”, ele quer dizer que a tarde caía abruptamente, tal qual parte do Viaduto Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, que desabou em 1971. “E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos”… O “traje de luto” simboliza o estado no qual a classe artística se encontrava, na época, pela falta de liberdade de criação. Invariavelmente, todo fim de tarde sugere melancolia e tristeza, uma vez que estamos saindo da claridade do dia para a escuridão da noite. Aldir Blanc utilizou esta imagem para representar a situação na qual vivia o Brasil.
 
Além disso, sabe-se que as sessões de torturas eram realizadas nos porões do DOI-CODI durante a noite. Sem luz própria, “A lua” assume as funções de “dona de bordel”, pegando emprestado um pouco de brilho das estrelas, exatamente como faz a cafetina com suas contratadas, e também para fixar a imagem de que naquele início de noite, tal qual prostitutas, as estrelas eram de brilho falso e sem vontade de brilhar. Ainda com os olhos para o alto, há “as nuvens e o céu”. Estas imagens nos remetem ao universo da religiosidade.
 
No final da década de 1970, quando o país discutia a anistia geral e irrestrita, a igreja católica demorou a se posicionar e acabou defendendo a anistia, mas com restrições.
 
A imagem de “mata-borrão do céu” demonstra o poder político e balsâmico da igreja. Dentro do texto, o protesto contra as torturas que ocorriam na calada da noite fica evidente. Para saudar essa noite do Brasil, só se justificava se fosse na alegria etílica de um bêbado. Somente num estado de loucura se poderia reverenciar aquela realidade. O nacionalismo aparece nas entrelinhas com o Hino Nacional. “A nossa pátria, mãe gentil” abrigava as esposas e mães que choraram por seus filhos e maridos.
 
A primeira entidade organizada para lutar pela anistia foi o MFA – Movimento Feminino pela Anistia, criado em 1975. O texto também fala dos exilados, como foi o caso do sociólogo Betinho, irmão de Henfil, e relembra as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do metalúrgico Manuel Fiel Filho ao citar os nomes de suas esposas, Maria e Clarisse (grafia do registro civil), respectivamente. Este texto traz a voz de alguém que, num momento de consciência, acorda para um mundo totalmente adverso, observa o que está à sua volta, o céu da cidade, um bêbado, o cair da tarde. Tudo é estranho e triste.
 
Mesmo assim, há uma esperança que não abandona a sua missão. Por isso, pode-se vislumbrar a liberdade e sonhar com ela, mesmo quando os olhos só veem a opressão. Fica claro no texto que o desejo de liberdade sempre vai estar no coração do homem. Esta é a sua arte.
COMO NOSSOS PAIS
Compositor: Belchior

 

 
ÁGUAS DE MARÇO - 1974
Compositor: Tom Jobim

 

Fonte: www.elis.dk3.com
Colaborador(a): Zeca Micaldas

 

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