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INFORMAÇÃO / HORA DA MÚSICA

TOM JOBIM - 90 ANOS
publicado em: 24/01/2017 por: Lou Micaldas

 

A Respeito de um Maestro...

Músico, compositor e ícone da música popular brasileira completaria 90 anos nesta quarta-feira (25)

Janeiro de 1927, verão carioca tipicamente chuvoso. Naquele fim de década, Cartola fundou a Escola de Samba "Estação Primeira de Mangueira", perpetuando em sua bandeira o verde da esperança e o rosa do amor. Aloysio de Oliveira criou o "Bando da Lua", grupo que fazia bonito ao lado de Carmen Miranda, aqui e nos Estados Unidos. E o Cristo Redentor, pairando sobre o Corcovado, foi inaugurado para olhar a cidade para sempre.

No dia 25 daquele janeiro, na rua Conde de Bonfim, 634, na Tijuca, nascia ANTÔNIO CARLOS BRASILEIRO DE ALMEIDA JOBIM, filho de Jorge de Oliveira Jobim e de Nilza Brasileiro de Almeida. Naquela noite chuvosa, sem que ainda se soubesse, o mundo ganhava um dos maiores músicos de todos os tempos.

Em 1931, mudou-se com a família para Ipanema. Ali, morava com seus pais, com sua única irmã, Helena Jobim, e com seus avós maternos, Mimi e Azor. Quando Tom era ainda um menino, em 1931, faleceu o pai. A ausência paterna na infância e na adolescência impôs-lhe incontido ressentimento a atuar em sua formação, em profunda relação com a tristeza e o romantismo melódico, algo transferido peculiarmente, depois, para as suas construções musicais sempre harmônicas e cheias de sentimentos. Algum tempo depois da morte do pai, sua mãe casou-se com Celso Frota Pessoa, que lhe deu muito incentivo para a vida musical, chegando a lhe presentear com um piano. Em 1940, sua mãe fundou o Colégio Brasileiro de Almeida. 

Influenciado por esses fatos, Tom iniciou seus estudos de música em 1941 (ainda não tinha 15 anos), com aulas de piano com o professor alemão Hans Joachim Koellreutter, introdutor da técnica dodecafônica no Brasil. Também foi aluno de Lúcia Branco, Tomás Terán, Leo Perachi e Alceu Bocchino. Além de piano, aprendeu a tocar violão. Chegou a cursar o primeiro ano numa faculdade de arquitetura e até a se empregar em um escritório do ramo, mas logo desistiu, decidido a ser pianista.

Registros da Vida Pessoal

No dia 15/10/1949, Antônio Carlos Jobim casou-se com Thereza de Otero Hermanny. O casamento acabou em 1977. Com Thereza, ele teve dois filhos, Paulo (em 1950) e Elizabeth (em 1957). 

Paulo tornou-se músico como o pai. Elisabeth veio a ser artista plástica e também participaria da "Banda Nova", grupo que acompanhou Tom Jobim nos últimos anos de sua carreira, atuando no coro feminino característico de seus últimos trabalhos.


Seu primeiro neto, Daniel Jobim, nasceu em 1973. Tornou-se músico e, após a morte do avô, formou, ao lado do pai, Paulo Jobim, e de Jaques e Paula Morelenbaum, o quarteto Jobim-relenbaum.

Em 1976, nasceu Dora, irmã de Daniel e sua primeira neta. Foi neste ano que Tom conheceu a fotógrafa Ana Beatriz Lontra, então com 19 anos, com  quem saiu em lua de mel, em 1978, vindo a se casar oficialmente só em 1986. Ana lhe deu mais dois filhos: João Francisco (em 1979) e Maria Luiza  Helena (em 1987). Ana Lontra também participou do coro feminino da "Banda Nova", acompanhando o marido em shows e gravações, e lançou, em 1988, um livro de fotos sobre o maestro, intitulado "Ensaio Poético".

No dia 15 de setembro de 1994, Tom viajou até Nova York para se submeter a uma angioplastia. Num dos vários exames realizados, os médicos detectaram um tumor maligno em sua bexiga e a cirurgia foi marcada para 6 de dezembro, no Mount Sinai Medical Center. No dia 8, enquanto convalescia da cirurgia, Tom Jobim teve uma parada cardíaca, às 08:00 horas. E uma segunda parada, duas horas depois, que foi fatal.

Mais tarde, em 1998, morreu, aos 18 anos, João Francisco, seu primeiro filho com a segunda esposa, em consequência de um acidente de carro no Rio de Janeiro.


Trajetória Profissional

No início de sua carreira, Tom trabalhou como pianista em casas noturnas cariocas, como "Drink", "Bambu Bar", "Arpège", "Sacha's", "Monte Carlo", "Night and Day", "Casablanca", "Tasca" e "Alcazar". Muitas vezes, revezava com Newton Mendonça, de quem se tornaria grande amigo e com quem iniciou uma bem sucedida parceria musical que gerou canções como "Desafinado" e "Samba de uma nota só", entre outras.

As andanças de Tom pelas madrugadas foram curtas, ao menos como pianista. Em 1952, foi contratado pela "Continental Discos", com a função de fazer transcrições de músicas para registro. 

Decidido a trocar a vida boêmia e noturna pela diurna, declarou: "Resolvi mudar de vida, de repente. Para ser bicho diurno, arranjei emprego na "Continental Discos. Levava a minha pastinha, com algumas partituras. Alguém cantava uma música, batendo na caixa de fósforo, e eu punha a melodia no papel". Na "Continental Discos", animou-se a compor, passando pautas alheias, como as de Pixinguinha, Assis Valente, Ary Barroso, Dorival Caymmi. O primeiro registro fonográfico de uma composição de sua autoria ocorreu em 1953, quando sua canção "Incerteza" (parceria com Newton Mendonça) foi lançada pela gravadora "Sinter" num disco de 78 rpm de Mauricy Moura. Nesse mesmo ano, Ernâni Filho gravou, também pela "Sinter", "Pensando em você" e "Faz uma semana" (com Juca B. Stockler). Em seguida, atuou como arranjador, auxiliado, no início, pelo maestro Radamés Gnattali.

O fim dos anos 1950 trouxe para Tom aproximações que renderiam frutos para a história da música popular brasileira. Em 1956, ele conheceu Vinicius de Moraes, diplomata e poeta, já famoso nas rodas boêmias. E fizeram, logo de saída, a ópera "Orfeu da Conceição", cujo título foi sugerido pelo poeta João Cabral de Melo Netto. À época, mais um novo amigo viria para a turma, e ainda trazendo um violão: um baiano cabeludo e esquisito, ninguém menos que João Gilberto. Meninos como Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra e Nara Leão acharam na batida de João Gilberto e nas composições de Tom seu lugar no mundo. Ou pelo menos no Brasil. E não era qualquer Brasil. O país que Tom revelava em suas harmonias e acordes vivia de promessas de desenvolvimento e de modernidade. O espetáculo "Orfeu da Conceição" estreou, em 25/09/1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, no mesmo ano, foi lançado o "LP" da peça. Ainda em 1956, Tom começou a trabalhar na gravadora "Odeon", como diretor artístico. Além de Vinicius, teve outros parceiros importantes. Com Dolores Duran compôs "Se é por falta de adeus", "Estrada do Sol" e "Por causa de você".

Em 1957, foi lançado, pela "Odeon", o "LP" "Carícia", de Sylvia Telles, com o samba-canção "Foi a noite", que Tom compôs com Newton Mendonça. Nesse ano, recebeu, da Prefeitura do então Distrito Federal, o prêmio de "Melhor Compositor". Compôs, com Vinicius de Moraes, a canção "Chega de saudade", que marcou o início da "Bossa Nova" e que foi lançada por Elizeth Cardoso, em 1958, no "LP" "Canção do amor demais", para o qual assinou os arranjos e a direção musical. Nesse disco -- nas faixas "Chega de saudade" e "Outra vez" --, João Gilberto aparece pela primeira vez em gravação, tocando, no violão, a batida que caracterizaria a "Bossa Nova". (Vale recordar que a "Bossa Nova" foi referida, de início, como "samba bossa-nova"). Também nesse ano, compôs a trilha sonora para o filme, de Haroldo Costa, "Pista de grama", no qual apareceu tocando piano ao lado de João Gilberto (ao violão) e Elizeth Cardoso, interpretando a música "Eu não existo sem você", de sua parceria com Vinicius. Ainda em 1958, Sylvia Telles gravou o "LP" "Amor de gente moça", contendo nove composições inéditas de sua autoria, e a soprano Lenita Bruno lançou o "LP" "Por toda a minha vida", contendo canções de sua parceria com Vinicius de Moraes. Ainda nesse ano, recebeu diversos prêmios como compositor. Entre eles, o "Microfone de Ouro", da revista "Radiolândia".

Em 1962, Tom Jobim compôs com Vinicius de Moraes uma das músicas mais gravadas em todo o mundo: "Garota de Ipanema". A partir dela, o Brasil ficou pequeno para o maestro...

Lançou, nos Estados Unidos, os "LPs" "The Composer of Desafinado Plays" (1963), com arranjo de Claus Oggerman, e "The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim (1964). Seu sucesso nos Estados Unidos foi tão grande que, ainda no início da década de 1960, teve uma versão instrumental de "Desafinado" gravada por Stan Getz e Charles Byrd, que chegou a vender um milhão de cópias.

Em 1964, foi para Los Angeles encontrar-se com Ray Gilbert, que faria as versões de suas músicas para o inglês. No ano seguinte, lançou os "LPs" "Antonio Carlos Jobim" e "A certain Mr. Jobim", pela Warner Bros, ambos com arranjos de Claus Oggerman.

Em 1967, gravou com Frank Sinatra o "LP" "Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim". Veja vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=XP64PDhcs4Y . Ainda em 1967, compôs a trilha sonora para o filme "Garota de Ipanema", de Leon Hirszman. Também nesse ano, recebeu indicação para a "Grammy".

Em 1968, venceu o III Festival Internacional da Canção (FIC), realizado no Rio de Janeiro, com a música "Sábiá" (com Chico Buarque), tirando o primeiro lugar na fase nacional e na fase internacional (sob vaias do público, que torcia pela canção "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré). Ainda nesse ano, logo depois de chegar de uma bem sucedida viagem aos Estados Unidos, gravou depoimento para o Museu da Imagem e do Som, coordenado pelo então diretor Ricardo Cravo Albin, auxiliado por Vinicius de Moraes, Dori Caymmi, Chico Buarque e Oscar Niemeyer.

Em 1969, compôs mais uma trilha para o cinema, desta vez para o filme "Os Aventureiros". A trilha foi gravada em Londres, com arranjos e regência de Eumir Deodato. Em seguida, assinou trilha sonora dos filmes "Tempo de mar", dirigido por Pedro de Moraes, filho de Vinícius de Moraes, e "A casa assassinada", de Paulo César Saraceni.

Em 1970, Jobim lançou o "LP" "Stone Flower", com arranjos de Eumir Deodato, que também foi o arranjador do "LP" de Frank Sinatra, "Sinatra & Cia.", lançado no ano seguinte, que continha cinco músicas de sua autoria.

Uma das canções mais representativas de sua trajetória como compositor é "Águas de março", cuja primeira gravação saiu em um compacto encartado no semanário "O Pasquim", em 1972. A música contaria depois com a célebre gravação que fez em dueto com Elis Regina, no disco "Elis & Tom", gravado em Los Angeles e lançado em 1974. Veja o vídeo: http://www.youtube.com/embed/srfP2JlH6ls

Recebeu, por três vezes, o prêmio da BMI - Broadcast Music Inc., como "Great National Popularity", com "The Girl From Ipanema", versão de "Garota de Ipanema", em 1970; "Meditation" (versão de "Meditação"), em 1974; e "Desafinado", em 1977.

Sua composição "Luiza" foi tema de abertura da novela "Brilhante", da Rede Globo, em 1981. É a música que se escuta de fundo neste trabalho.

Ainda na década de 1980, compôs a trilha sonora dos filmes "Eu te amo", de Arnaldo Jabor, e "Gabriela", dirigido por Bruno Barreto. Com Chico Buarque, compôs ainda a trilha do filme "Para viver um grande amor", de Miguel Faria. Recebeu o prêmio Shell na categoria "Melhor Compositor do Ano de 1982", na festa realizada na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro.

Em 1985, junto com a "Banda Nova", apresentou-se, com João Gilberto, na abertura do Festival de Montreux, na Suiça. Nesse ano, ganhou o título de "Grand Commandeur de Ordre des Arts et des Lettres", concedido pelo Governo francês, através de seu Ministério da Cultura.

Em 1986, recebeu o prêmio "Millionaired Songs", conferido pela BMI aos autores de canções que foram ao ar mais de um milhão de vezes.

Em 1987, participou do disco "Há sempre um nome de mulher", álbum duplo dedicado à campanha do aleitamento materno e do qual se venderam 600.000 cópias apenas nas agências do Banco do Brasil. A gravação foi realizada em sua própria casa, tocando apenas ao piano a canção "Luiza", registro considerado um dos seus melhores momentos como cantor. No encarte do disco, o produtor Ricardo Cravo Albin escreveu: "Tom é hoje uma coleção completa de boa parte do que ocorreu com a MPB de 1956 para cá".

Em 1990, tornou-se membro da Academia Nacional de Música Popular Americana. Foi ainda nomeado reitor e, depois, presidente do Conselho Diretor da Universidade Livre de Música, situada em São Paulo, e Doutor Honoris-Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais tarde, receberia o mesmo título da Universidade de Lisboa.

Foi homenageado, em 1992, pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira (RJ) com o samba-enredo "Se todos fossem iguais a você", título da canção que fez em parceria com Vinicius de Moraes.

Em 1996, dois anos depois da morte do maestro, Helena Jobim lançou o livro "Um homem iluminado", uma biografia do irmão. No ano seguinte, Sérgio Cabral publicou "Antônio Carlos Jobim - uma biografia".

Diversas homenagens póstumas foram realizadas, como a polêmica mudança do nome da Avenida Vieira Souto, situada em Ipanema, para Avenida Tom Jobim. Com isso, se criaria a esquina "Tom Jobim com Vinícius de Moraes", antiga Rua Montenegro, onde se situava o Bar do Veloso, hoje Bar Garota de Ipanema, muito frequentado por Tom e Vinícius e onde nasceu a inspiração para compor "Garota de Ipanema". As placas chegaram a ser trocadas, mas a família Vieira Souto apelou para a Justiça e a troca foi desfeita. Mais tarde, o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro passou a se chamar "Aeroporto Internacional Maestro Antônio Carlos Jobim", por pressão junto ao Congresso Nacional de uma comissão de notáveis, formada por Chico Buarque, Oscar Niemeyer, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Cândido, Antônio Houaiss e Edu Lobo, criada e pessoalmente coordenada pelo crítico Ricardo Cravo Albin. Nessa época, também foi criado o "Parque Tom Jobim", na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Em 2004, o crítico Ricardo Cravo Albin propôs à Associação Comercial do Rio de Janeiro que se promovesse junto ao "Aeroporto Internacional Maestro Antônio Carlos Jobim" um memorial a ele dedicado por ocasião dos dez anos de seu falecimento.

Em 2005, "The Girl from Ipanema", histórica gravação de Astrud Gilberto, ao lado de João Gilberto, Stan Getz e do próprio compositor, realizada em 1963, foi escolhida como uma das 50 grandes obras musicais da Humanidade pela Biblioteca do Congresso Americano.

Em 2012, estreou no Brasil o documentário "A música segundo Tom Jobim", de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, com roteiro de Nelson Pereira dos Santos e Miúcha, após passar pelos festivais de Nova York, Copenhagen, Santa Maria Feira (em Portugal) e ainda pelo festival mundial do gênero. Pelo conjunto da obra, foi homenageado com o "Lifetime Achievement Award", do Grammy 2012, premiação pela primeira vez conferida a um artista brasileiro.

Antônio Carlos Jobim foi o compositor brasileiro mais famoso dentro e fora do Brasil na última metade do século XX. Até hoje, seu nome é respeitado, citado, acatado e até venerado pelas novas gerações de músicos e compositores do Brasil. Embora com tanto sucesso, Tom sempre se mostrou afável e simples com as pessoas que o procuravam. Sorriso franco, roupas e cabelos sempre descuidados, ele nunca escondeu sua paixão pela vida simples. E as coisas simples de que Tom se embebeu fizeram-no também um poeta, além do grande compositor que sempre foi. Aliás, seu último grande sucesso popular -- "Águas de março" -- reflete a excelente poesia que também o habitou.

ÁGUAS DE MARÇO

 

GAROTA DE IPANEMA

Fonte: Wikipédia / Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira
Autor: Ógui Lourenço Mauri

 

 

 

 

 

 


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