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INFORMAÇÃO / MEIO AMBIENTE

 

Indicada para a pasta da Agricultura sinalizou, por exemplo, possível aumento da produção agropecuária em região de fronteira entre o Cerrado e Amazônia

O novo governo ainda nem foi empossado, mas seus recados e sinalizações na área ambiental preocupam especialistas. A declaração recente da futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ao GLOBO, de que há espaço para novos desmatamentos dentro do que prega o Código Florestal, pode ter soado como um incentivo tanto para os desflorestamentos legais quanto para os ilegais, que estão frequentemente associados.

Os ambientalistas afirmam que o avanço do desmatamento aumentará as emissões de gases do efeito estufa que outros países já se comprometeram a combater, além de ameaçar o regime hídrico. Ambos os fatores podem colocar em xeque a própria agricultura.

Alguns estudiosos avaliam que o mais recente aumento detectado do desmatamento da Amazônia — de 14%, entre 2017 e 2018 — não aconteceu por acaso, mas pela perspectiva de que Jair Bolsonaro se elegeria. Desde a campanha, o presidente eleito vinha criticando a ação do Ministério do Meio Ambiente e chegou a anunciar que o extinguiria, mas recuou da decisão. O titular da pasta ainda não foi definido, mas poderá sofrer grande influência da ministra da Agricultura.

Questionada sobre a possibilidade de haver novos desmatamentos, Tereza Cristina apontou espaços que podem dar lugar à produção agropecuária no Matopiba, região que abrange parte do Maranhão, todo o Tocantins e parte do Piauí e da Bahia.

Para o coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Márcio Astrini, o governo eleito pode esvaziar os ganhos obtidos na Amazônia desde o início dos anos 2000. Entre 2004 e 2014, o desflorestamento do bioma caiu 80%.

— O governo Bolsonaro passa a mensagem errada de permissibilidade com o desmatamento — condena. — Quando isso for colocado em prática, vai explodir o desmatamento e a violência, porque onde tomba árvore tomba gente.

Com uma área equivalente à Alemanha, o Matopiba responde por 11% da produção brasileira de soja. De acordo com o Código Florestal, o produtor rural pode desmatar legalmente 80% de sua terra na maior parte do Cerrado e 65% nos locais de transição do bioma para a Amazônia. O restante tem que ser mantido intacto a título de Reserva Legal. Atualmente, cerca de metade do território do Cerrado já foi desmatado, ação que acontece numa dinâmica quatro vezes maior do que o que vem ocorrendo na Amazônia.

‘Não é para liberar geral’

Ao mesmo tempo em que é o celeiro do Brasil, onde a maior parte dos grãos é produzida, o Cerrado também é chamado de “caixa d’água” do país, pois ali se encontram 12 bacias hidrográficas, das quais três se localizam no Matopiba. O equilíbrio é delicado. Cientistas acreditam que o desmatamento na região venha afetando o regime de chuvas e aumentando a temperatura máxima local.

Pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, Carlos Nobre indica que a alta das temperaturas compromete fortemente a manutenção de algumas culturas:

— Há uma suspeita muito forte de que o desmatamento no Cerrado está causando a diminuição das chuvas no bioma. Outro problema é o aumento da temperatura. A produtividade da soja diminui muito quando a temperatura máxima ultrapassa os 33ºC.

Para o chefe-geral da Embrapa Territorial, Evaristo Miranda, os produtores rurais deixam de produzir numa porção preciosa de suas terras para contribuir com o meio ambiente.

Segundo ele, o patrimônio fundiário imobilizado pelos produtores da região chega a R$ 269 bilhões, já que o produtor tem que deixar intactas reservas legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs), como beiras de rio e topos de montanha.

O pesquisador comanda um grupo de 15 técnicos no núcleo criado pelo governo de transição para tratar da temática ambiental. À equipe de Bolsonaro, Miranda tem fornecido um raio-X do Matopiba. Ele revela que há na região 185 mil imóveis rurais cadastrados que, juntos, preservam 22,3 milhões de hectares de vegetação nativa.

Na média, informa Miranda, os produtores usam para a agropecuária 45% do total de suas terras, deixando 55% cobertos com a vegetação original.

— Não é para liberar geral, mas há uma taxa de preservação enorme quando a agricultura só ocupa 45% das propriedades — argumenta. — O fundamental é o respeito ao Código Florestal, a lei exige 20% em parte (do Cerrado) e 35% em outra (na transição do Cerrado para a Amazônia). O produtor está preservando 55%. Isso mostra que ele não está devastando. Ao contrário, está usando menos da metade da área dele.

Autor(a): Catarina Alencastro
Fonte: https://oglobo.globo.com/sociedade/declaracoes-de-futuros-ministros-preocupam-ambientalistas-que-temem-avanco-do-desmatamento-em-2019-23273826
Colaborador(a): Tania Camargo

 

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