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INTERAÇÃO / NOSSAS VIDAS

BOM EXEMPLO
publicado em: 21/12/2015 por: Netty Macedo

Em 1977 fomos morar no interior do Pará, onde meu marido começou a trabalhar.
Era uma cidade sem tv, telefone, correio...
Ainda não tinha 30 anos... Nosso filho tinha um ano.

Era uma cidade que tinha mais americanos que brasileiros. Então, tinha uma escola internacional.

Nosso filho aprendeu inglês como primeira língua, e fala inglês melhor que português.

Eu havia terminado o segundo grau e não havia condições para estudar lá.

Aproveitei para ler. Li muito...

O tempo passou e tivemos uma filha em 1979.

Meu parto foi lá mesmo, o que ninguém acreditava.

Em 1981 tivemos outra filha.

Um mês depois do parto tive uma hemorragia.
Fui para o hospital local, poucos recursos, e os médicos prepararam meu marido para o pior.
Ele foi meu primeiro doador de sangue.
O Diretor da Empresa, preocupado com o que poderia acontecer, me perguntou se eu agüentaria ir para uma outra cidade.

Eu só respondi que o Deus da outra cidade era o mesmo que estava ali comigo. E sobrevivi...

O tempo passou e nossas crianças cresceram livres e soltas, subindo em árvores e tomando banho de Igarapé.

Por incrível que pareça não era um grande salário, mas meu marido é um idealista e o admiro por isso.

Quando nosso filho concluiu o segundo grau e necessitou sair para fazer faculdade, não tivemos apoio da família para recebê-lo no Nordeste. Então, por decisão dele, foi estudar na UnB.

Ficou morando na casa de uma senhora que até hoje é minha amiga.

A gente pagava, por sinal muito bem, e ele tinha de tudo.

Eu comecei a trabalhar na administração de um supermercado e foi lá que, ao pagar os funcionários, descobri um número imenso de analfabetos.

Comecei a sentir uma vergonha inexplicável e aproveitava o meu horário de almoço para alfabetizá-los.

O assunto me interessou tanto que comecei a fazer pesquisas nessa área.

Lembro-me que era um dia de eleição na cidade, meu marido era presidente de uma mesa. Um senhor, que nas eleições anteriores teve que usar um carimbo, se aproximou. Meu marido pegou a almofada e ele recusou.

Assinou e disse para meu marido que aquela alegria ele devia a mim.

Logo nossa segunda filha teve que sair para estudar.
Nós tivemos que deixá-la com o filho mais velho, já em um apartamento pequeno, pois tínhamos que ficar trabalhando para lhes dar boa educação.

Foi uma época muito doída...

Então soube de um projeto para Alfabetização dentro de uma mina de bauxita, um salário bom.

Não tive dúvidas e me embrenhei no mato para fazer o trabalho.
Encontrei cem peões analfabetos...

Quatro anos depois não havia analfabetos e 40% tinha o primeiro grau.

Esses homens gostavam tanto de mim, Lou, que me emocionava.

Ao alfabetizá-los, também lhes ensinei a tratar melhor suas esposas e filhos.

Nossa terceira filha foi estudar fora também.

Já tínhamos computador e telefone, o que nos confortava mais...

Em uma das minhas estadias em Brasília com meus filhos, minhas férias passaram a ser lavar, cozinhar e cuidar deles. Fazia isso com muita alegria. Fiz o vestibular para a Universidade Católica de Brasília, para testar meus conhecimentos e não é que passei?

Voltei para o interior do Pará e antes conversei com o Reitor para que arranjasse um meio de segurar minha matrícula.

Em 1998, meu marido precisava fazer um trabalho da Empresa no Rio e fiquei sozinha na cidade.

Terminei meu trabalho e resolvi ir para Brasília para cursar a Faculdade que seria o tempo do trabalho do meu marido no Rio.

Lou, meu primeiro dia de aula foi lindo. Meu marido e filho me acompanharam.

Mesmo sendo uma das mais velhas da sala de aula, fiz ótimos amigos e minhas notas eram ótimas.

Foi aí que veio a transferência para o Rio e não dava para manter dois endereços.
Tive que trancar a faculdade e tive direito até festa de despedida de alunos e professores.

Alguns professores me ofereceram estágio o que me daria rendimento para ficar lá.

Mas minha família precisava de mim...
Fui para o Rio ficar com meu marido e procurar apartamento.

Um dia, enquanto fazia um exame médico, a médica me perguntou de onde eu era e o que eu fazia.
Expliquei que era professora e minha especialização era Alfabetização de Adultos.
Daí ela me pediu o telefone.

À noite, recebo uma ligação de uma senhora muito educada, moradora vizinha ao Copacabana Palace, que queria conversar comigo sobre a minha profissão.
Fui até a casa dela e ela queria me contratar para alfabetizar uma moça que trabalhava com ela.

Lembro-me, Lou, que o primeiro salário que recebi dessas aulas me deu uma alegria imensa.

Aproveitei e fiz um curso de atualização de professores e consegui um estágio no Colégio Sagrado Coração de Maria. Era à noite, alfabetizando domésticas.

Logo fiquei conhecida e outras patroas me contrataram. Adoro alfabetizar...

Quando tudo parecia entrar na normalidade, veio a transferência para São Paulo, em janeiro de 2004.

Outro desgaste, pois os meninos, iniciando suas carreiras profissionais com seus empregos, não queriam vir. Também ainda não tinham condições para se manterem sozinhos.
Tive que largar tudo e acompanhar meu marido. Somos muito unidos, somos amigos, e sei que minha presença era necessária.

Fiquei dividida, mas levando a vida conforme Deus me mandou.

Não fiquei parada e aqui aprendi tricô e até vendi vários cachecóis para as amigas da minha filha no Rio.

Estar ao lado de uma pessoa que é o melhor ser humano que conheço e um profissional que não tem igual é uma bênção.

Tenho uma família linda, Lou... Gente do bem...
Nunca desejamos mal a ninguém e procuramos ajudar quem se aproxima de nós.

Todos são apaixonados pelo Rio e eu também.
"Andar com Fé eu vou, que a Fé não costuma faiá".

O Cristo, com certeza, está nos aguardando de "braços abertos".

Autor(a): Ju

 

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