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O LADO OCULTO DA FACE
publicado em: 12/04/2018 por: Lou Micaldas

CAPÍTULO I

Samara havia acabado de chegar do trabalho. Fazia muito calor, era final do mês de outubro do ano de 1997. Vivia com sua única irmã Najla, um pouco mais velha do que ela. As duas estudaram, mas nenhuma pode concluir os seus estudos universitários pelas dificuldades financeiras que surgiram em suas vidas.

Seu pai, Sr. Mohamad Haddad, era um libanês o qual como todos os imigrantes, abandonou o seu país e o seu povo imigrando para o Brasil em busca de uma vida melhor numa terra estranha com outros costumes, outra cultura, outro idioma, deixando tudo para trás. Os imigrantes sofrem muito, pois se deparam com um mundo totalmente diferente do seu e com pouquíssimas chances de retornar um dia. E se o fazem, após muitos anos de luta, já com os cabelos embranquecidos, não encontram nada daquilo e daqueles que deixaram. As pessoas queridas já se foram, suas casas já nem existem mais... E foi o que aconteceu com ele após longos anos de muita luta, quando conseguiu juntar algum dinheiro e rever a terra onde nasceu.

O que encontrou foram somente as lembranças as quais permaneceram presentes nos mesmos lugares, intactas com tudo e com todos. Seus pais, seus irmãos, seus amigos, sua casa, seu cão fazendo-lhe festa, seus vizinhos, todos estavam lá. Parecia ouvir suas vozes, seus risos, suas comemorações com suas danças, suas brigas... O cheiro da comida de sua mãe na cozinha, seu carinho, seus afagos... Mas eram somente lembranças. Regressou ao Brasil desiludido e com as cicatrizes profundas da saudade do passado gravadas em seu mais puro sentimento. Entretanto, trouxe em sua bagagem, a leveza e a alegria de ter pisado em sua terra outra vez.

Possuía uma sociedade numa loja de frutas, com um conterrâneo. Conseguiu um bom patrimônio. Comprou uma casa, um bom carro, e podia proporcionar bastante conforto à sua família. Suas filhas puderam estudar em boas escolas... E tudo ia encaminhando de uma maneira bem confortável.

De vez em quando fazia uma viagem a uma cidade vizinha para tratar do abastecimento da loja. Sua mulher, Srª Laila o ajudava, pois além de também cuidar da administração da loja, fazia doces e salgados árabes. Em uma dessas viagens de seu marido, entrou um homem árabe de barba, bigodes, cabelos negros, procurando pelo Sr.Habib Ahmad, o outro sócio. Os dois ficaram muito tempo trancados dentro do escritório e por acaso, a Srª Laila passou por perto e ouviu a conversa. O que pode escutar a deixou profundamente preocupada. O tal homem moreno dizia em árabe: “- Pode ficar tranquilo Habib que está tudo como combinamos - partiremos ao entardecer e já está tudo depositado - a encomenda já foi despachada.” Laila ficou muito desconfiada e imediatamente tentou comunicar-se com Mohamad. Não conseguiu encontrá-lo. Rezou para todos os santos para que a sua imaginação não estivesse flutuando além da realidade. Talvez não fosse o que estava pensando. No dia seguinte ao abrir a loja com os funcionários, o caixa estava aberto e totalmente vazio. Encaminhou-se para o cofre e estava arrombado e também vazio. Passou mal e foi socorrida pelos empregados. Logo depois, chegou o Sr. Mohamad. Seu sócio havia fugido para o Marrocos, com todo o dinheiro do cofre, algumas joias, deixando-lhe somente dívidas e mais dívidas. Até mesmo o seu sigilo bancário foi violado, fato que lhe rendeu uma indenização do banco.

Depois disso, ficou gravemente enfermo e devido aos aborrecimentos, acabou falecendo por conta de um enfarte fulminante. Sua mulher com a ajuda de suas filhas conseguiu com muito esforço vender tudo e pagar as dívidas. Mas não suportando a revolta e a ausência de seu marido, também não aguentou. Foi acometida de uma severa pneumonia e faleceu no ano seguinte.

Samara e Najla eram duas moças muito bonitas e sofridas, mas já resignadas com as adversidades. Samara estava com vinte e nove anos, era magra, altura média, bem feita de corpo, cabelos escuros e olhos claros. Najla, era mais velha, tinha trinta e dois anos, um pouco mais baixa, cabelos pretos e longos, meio gordinha, mas também com um belo par de olhos, próprio de sua raça. Tentaram continuar a vida, mas com muito pouco recurso. O único bem que lhes restou foi a casa onde moravam no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro. Cada uma trabalhava em um lugar. Samara em uma butique em Copacabana e Najla em uma sapataria no centro da cidade. O que ganhavam não dava para quase nada e quando chegava o final do mês, o esforço para pagarem as suas contas era muito grande.

Samara tinha uma colega na butique que não se cansava de falar que queria ir embora para os Estados Unidos e que lá ela iria melhorar a sua vida e sair daquela situação. Chamava-se Sonia Fernandez. Não tinha muita aproximação com ela e o que sabia era que andava muito a noite, que era meio louca e que saia com muitos homens. Mas a sua vida particular não lhe interessava e sim as suas ideias. Começou a amadurecer o plano de também viajar. Vendeu o que possuía de maior valor que eram umas joias que sua mãe lhe deixou, muito contra a vontade de sua irmã, que não aceitava de forma nenhuma que fosse para outro país em companhia de uma pessoa que mal conhecia. Chorou muito e fez o que pode para que desistisse e dizia-lhe que se seus pais fossem vivos, isto lhes causaria muito desgosto e preocupação. Mas mesmo assim a decisão já estava tomada. Resolveu juntar todo o dinheiro que pode e finalmente depois de muitas dificuldades para conseguir o visto do consulado americano, preparou seus documentos e comprou a passagem.

Sonia dizia que tinha uma amiga em Nova Iorque à qual iria pelo menos oferecer-lhes um abrigo até que arranjassem um trabalho. Samara estava cheia de planos, imaginando que a sua vida iria tomar outro rumo e que o mundo era muito grande para ficar no mesmo lugar esperando o tempo passar...

Chegou o dia tão esperado. Despediu-se de sua irmã prometendo-lhe dar notícia assim que pudesse. A despedida foi longa e dolorosa, um lamento e um mar de lágrimas. Eram muito unidas, foram criadas juntas e nunca haviam se separado.
 Embarcou e foi em busca da conquista de um sonho, com a firme convicção de que tudo iria dar certo.

Quando chegaram naquele universo desconhecido e meio assustador, procuraram saber qual a melhor opção para chegarem ao local desejado. Teriam que pegar o Air Train que faz conexão com o metrô, mas para irem até a estação seria muito complicado. Quando olharam o painel, parecia um labirinto sem fim. Não entenderam absolutamente nada. Tinham que economizar os poucos dólares que levaram, mas optaram por um táxi. Foram à procura da amiga de Sonia. Ela se chamava Maria de Fátima. O endereço era em Queens (Condado de Queens). O Aeroporto John F. Kennedy onde desembarcaram, fica em Queens que é um dos cinco distritos que forma a cidade de Nova Iorque. Nova Iorque é formada por cinco distritos. Manhattan, Queens, State Island, Blooklyn e Bronx. Queens é o maior de todos e o mais populoso de alta diversificação étnica e racial, pela grande quantidade de imigrantes que ali residem. Cinquenta por cento da população é de imigrantes e é onde abriga os dois aeroportos mais importantes, que são o John F. Kennedy e o La Guardia e também onde acontecem grandes eventos esportivos entre outras coisas.

maginavam que era mais perto, mas demorou bastante para chegar. Queens possui uma extensa área. É o maior distrito de todos, e o endereço ficava no bairro de Astoria que acolhe a maior concentração de gregos e brasileiros. Finalmente depois de muito estresse e ansiedade, chegaram. Era um prédio antigo, de cor marrom daqueles que têm escadinhas do lado de fora, construção muito comum nos Estados Unidos.

Era dezembro e fazia muito frio. Estavam em pleno inverno... Sonia acionou o interfone e atendeu uma mulher. Perguntou-lhe o que desejava. Ela respondeu-lhe que tinha acabado de chegar do Brasil com uma amiga e que estavam procurando por Maria de Fátima Andrade. Em poucos segundos, ela desceu. Era uma senhora aparentando uns sessenta e cinco anos, muito gorda, loura de olhos azuis. Apareceu atrás da porta meio desconfiada e perguntou-lhes quem eram e de onde vieram. Disse-lhes que Maria de Fátima já tinha ido embora há muito tempo para a Flórida. Elas quase não entendiam o inglês, mas Sonia havia feito um curso intensivo e embora com bastante dificuldade, falava e entendia um pouco mais. Ficaram apavoradas!

- E agora? O que fazer? Perguntou-lhe se havia um quarto para que pudessem ficar pelo menos por alguns dias. Respondeu-lhe que sentia muito, mas que naquele momento estavam todos ocupados. Já ia fechando a porta, mas Sonia insistiu esforçando-se com o seu inglês básico para que a entendesse, dizendo-lhe que poderiam dormir juntas em qualquer canto, e que se quisesse a ajudariam na limpeza. Após muita insistência e inquietas para se abrigarem daquele frio e ventania insuportáveis, a Srª Sarah abriu a porta, pediu para ver os seus passaportes e permitiu que entrassem com a diária de vinte dólares cada uma, incluindo o café da manhã. Era um lugar escuro e o piso rangia quando pisavam. As levou para um quarto muito pequeno no final do corredor, no primeiro piso, onde só havia uma cama, uma pia e uma pequena janela que dava para os fundos. Por sorte, o heating estava funcionando mais ou menos e o quarto estava relativamente aquecido.

Sarah perguntou-lhes se tinham comido alguma coisa e elas responderam que não. Explicou-lhes que se quisessem poderiam incluir as refeições, mas que custaria cinco dólares por pessoa. Uma olhou para a outra e concordaram. Não havia outra escolha, pois comer na rua deveria ser bem mais caro... Acomodaram-se e foram tomar um banho. Segundo Sarah, o banheiro era coletivo e o banho não podia ser muito demorado. Tinham que economizar a água. Estavam cansadíssimas e com muita fome. Foram à cozinha, fizeram uma refeição e foram descansar...

Na manhã seguinte, Sonia foi à cozinha e lá estava Sarah preparando o café. Mandou que se sentasse e ofereceu-lhe uma xícara. Havia muffins, suco de laranja, flakes, ovos mexidos com bacon ou presunto e omelete, alimentos que estão sempre presentes no desjejum do americano. Mandou chamar a sua amiga. Quando provaram o café, era praticamente uma água quente. Elas já sabiam desde o Brasil que o café de lá era assim mesmo. Importado da Jamaica, muito fraco e que logicamente não era como o nosso... Quando terminaram, perguntaram a Sarah se ela queria que lavassem as louças, ou que varressem, enfim, queriam agradá-la de alguma forma. Concordou e aproveitando-se da boa vontade, empurrou-lhes todo o serviço possível. Inclusive uma trouxa de roupas de cama para colocarem na lavadora e o piso também deveria ser limpo. Elas fizeram toda a limpeza sem reclamar, afinal não havia outro jeito...

Após tantas tarefas e já esgotadas, vestiram-se e aventuraram-se pelas ruas geladas do bairro, para tentarem arranjar um trabalho.

Quando abriram a porta da rua para saírem, ventava muito! Um vento implacável e gelado e isso as assustou, pois vieram do Rio de Janeiro, um lugar onde a temperatura era quase sempre amena e o inverno era uma estação agradável e bem-vinda. Sentiram-se num outro planeta. Tudo era diferente. Olhavam para os prédios, para as pessoas, ouviam outro idioma, foi então que se deram conta do quanto estavam desamparadas e distantes de seu país e de sua gente... Estranharam muito a paisagem. As árvores estavam totalmente secas e sem vida e o verde era uma cor inexistente. Parecia que tudo era em preto e branco...

Por todos os bares, lojas e restaurantes que passavam perguntavam se não estavam precisando de alguém para trabalhar. Em todos os lugares que entravam, as pessoas as olhavam, balançavam a cabeça mostrando ou fingindo não entendê-las e viravam as costas.

Voltaram para casa e sentiram que a situação não seria tão fácil como pensavam. O caminho que teriam que percorrer seria muito difícil. Não conheciam ninguém que pudesse orientar-lhes e o idioma também era um grande obstáculo. A perseverança era um fator de suma importância. Teriam que enfrentar um grande desafio com profundas mudanças... Fizeram um pacto de jamais abrirem as portas para o fantasma do medo e tampouco do desânimo.

Todos os dias faziam a mesma coisa. Já havia passado quase todo o mês de dezembro e o Natal já estava se aproximando. E o dinheiro se esgotando e Sarah cobrando-lhes ... O frio era cada vez mais intenso. Nenhuma das duas possuía agasalhos e nem calçados apropriados para aquela época do ano. Usavam um casaco em cima do outro para que suportassem andar naquelas ruas geladas e o vento era o inimigo número um. A temperatura baixa se manifestava dentro de seus ossos. Era um frio que congelava tudo. Ressecava os olhos, o nariz, a boca e mal podiam respirar... Suas mãos e seus pés pareciam pedras de gelo. Era um verdadeiro pesadelo!

Continuavam a procura e já estavam acostumadas com o total descaso das pessoas dos lugares por onde entravam... Sonia não desistia, e ria de tudo. Era mais vivida e mais destemida, mas Samara lutava para que não fosse derrotada pelo desânimo. Seu dinheiro estava quase acabando e nada tinha conseguido. O frio o qual nunca haviam experimentado antes, era assustador e a falta de agasalhos, uma tortura.

Na semana seguinte começou a nevar e nem puderam sair, não só pela neve, mas pela carência de agasalhos. Sarah ofereceu-lhes alguns, e apesar de ser muito gorda, até puderam aproveitar algumas peças. Não era hora de ver o que lhes caia bem ou não. Olhavam-se no espelho e riam muito. Uma ria da outra, vestidas com aquelas roupas esquisitas e enormes... Até mesmo Sarah achava engraçado aquelas duas vestidas como dois esquimós! Mas não se importavam. O único desejo era não sofrerem tanto frio e principalmente não ficarem doentes. Isto seria um verdadeiro desastre! Estavam aquecidas e isto é o que lhes interessava naquele momento.

Finalmente parou de nevar e saíram em campo para continuarem a cruel peregrinação... O Natal já estava se aproximando e as vitrines das casas comerciais e as residências estavam totalmente enfeitadas e iluminadas com árvores artificiais e lâmpadas coloridas. As ruas cheias de gente fazendo compras com aquela alegria comum naquela época do ano.

Numa certa manhã, depois de terem andado por quase duas horas, avistaram um bar mexicano “Pancho Vila.”Entraram e foram recebidas pelo gerente. Um homem moreno de bigode, aparentando uns sessenta e poucos anos, gordo e muito simpático, tipicamente mexicano. Perguntou-lhes em espanhol de onde vieram, se tinham passaporte e que se quisessem poderiam trabalhar lá temporariamente como garçonetes, mas sem nenhum vínculo, pois eram estrangeiras e provavelmente estavam ilegais no país. Trabalhariam oito a dez horas por dia, e teriam folga uma vez por semana. O salário era baixo, mas daria para permanecerem na casa de Sarah pelo menos até que encontrassem uma coisa melhor... Aceitaram com muita alegria e começaram a trabalhar naquele mesmo dia.

Após uma semana, já estavam ambientadas e a vontade de vencer e ganhar dinheiro era tanta que as horas passavam e nem percebiam. Chegou o Natal e trabalharam muito até tarde. Quando chegaram em casa, havia um bilhete de Sarah que já estava dormindo, desejando-lhes um Feliz Natal, junto a um bolo, um assado e uma garrafa de champanhe para que brindassem. Elas eram as únicas hóspedes, pois todos haviam viajado para as casas de suas famílias. Sarah era meio rude e mercenária, mas era uma pessoa generosa e muito humana. Comeram, brindaram o Natal e a solidão, choraram muito, se abraçaram emocionadas e foram dormir.

CAPÍTULO II

Passaram-se oito meses e já estavam quase dominando o idioma. O Sr. Miguel Hernandez era um bom homem que apesar de explorá-las em demasia com tanto serviço, deixava que se alimentassem por lá sem cobrar nada e sempre lhes dava sanduíches e salgadinhos para levarem caso sentissem fome mais tarde. Era uma pessoa extremamente generosa. No final do expediente, o cansaço era tanto que quando chegavam se atiravam na cama e dormiam como uma pedra. O colchão era de mola e totalmente desnivelado. Dormiam juntas e mal podiam se mexer devido ao desconforto da cama. Mas o sono era tão pesado pelo esgotamento físico, que a noite passava e quando acordavam, já estava quase na hora de saírem novamente. Sonia, apesar do cansaço, de vez em quando saia para fazer programas com algum homem que eventualmente conhecia no bar. Muitas vezes nem voltava, o que deixava sua companheira preocupada, afinal estavam num país estranho e era muito arriscado sair com desconhecidos. Mas não adiantava conselhos. Aparecia no bar pela manhã, esgotada, sonolenta e improdutiva durante todo o dia. Às vezes chegava com roupas novas dizendo que foram presentes de um amigo... O salário que recebiam era pouco, mas como se alimentavam lá, ganhavam gorjetas e faziam muitas horas extras, dava para economizar alguns dólares, muito mais do que imaginavam. 

Certa noite, Sonia saiu mais cedo do bar queixando-se de muita dor de cabeça. Quando Samara chegou em casa, estranhou, pois, o quarto estava quase vazio. Abriu o armário e não havia nenhuma roupa dela. Levou um susto quando pegou a caixinha onde guardava as suas economias. Estava completamente vazia! Sonia havia fugido e levado todo o seu dinheiro que juntou com tanto sacrifício, suas melhores roupas e os poucos agasalhos que tinha! Chamou Sarah e ela disse-lhe que não tinha visto a sua amiga sair, e que provavelmente fugiu quando estava no mercado fazendo compras. Samara soluçava como uma criança e lamentava-se:

 - Como vou pagá-la Sarah? - fiquei sem um centavo e quase sem nenhuma roupa!

- Não se preocupe – eu espero até que possa pagar- me minha filha – fique calma..

- Meu Deus como pude ser tão ingênua? – nunca pensei que ela pudesse fazer isto comigo! – como a gente se engana com as pessoas... - ela não parecia ser ladra, mostrava ser minha amiga, agora estou completamente só... Chorou toda a noite e pensou até em retornar ao Brasil, mas com que dinheiro?

No dia seguinte, foi trabalhar, e relatou o ocorrido ao Sr. Miguel. Ele disse-lhe que há algum tempo quando fechava o caixa, vinha notando uma importante diferença. Havia outras garçonetes, mas confessou-lhe que chegou a duvidar de Sonia por certa atitude dela e que estava aguardando para ter certeza, pois uma vez a viu receber o dinheiro de um cliente e que ao invés de entregá-lo ao caixa, o colocou no bolso. Agora tinha absoluta convicção de que realmente ela era desonesta. Prometeu à Samara que iria arranjar com a sua mulher algumas roupas e também alguns agasalhos, para quando chegasse o inverno. Era agosto e ainda estavam no verão.

- “Alah!” Susurrou Samara, pois sempre que ficava nervosa, falava em árabe, a língua de seus pais. - Sr. Miguel, minha família não era rica, mas tive uma educação muita rígida e apurada - meus pais eram libaneses – somos duas irmãs e sempre nos ensinaram que as maiores riquezas do homem são os seus valores e o seu caráter - estou aqui para trabalhar e jamais tiraria o que não é meu - como ela pode fazer isto comigo? – pensei que fosse minha amiga, vivemos tantas coisas juntas...

- Eu sei e sempre percebi a grande diferença entre vocês – mas fique certa de que ela não ficará rica com o dinheiro que nos roubou – muito pelo contrário – poderá escorregar de suas mãos como sabão e fazê-la cair na lama - amanhã trarei algumas roupas de minha esposa, ela tem muitas peças que não usa mais e vocês têm o mesmo manequim - ficará muito satisfeita em poder ajudá-la.

Samara agradeceu-lhe e beijou as suas mãos carinhosamente.

Passou o tempo e Samara foi economizando, juntando as suas economias e recuperando o que Sonia havia lhe roubado. Trabalhava muito e não saia com ninguém. Seu dia de folga era para descansar e cuidar de suas coisas, suas roupas e nunca pensava em se divertir. Ficava até tarde conversando com Sarah e ouvindo a sua história que era muito triste. Seu marido foi um homem muito rico. Moravam em Manhattan, tinham uma bela casa em Miami Beach e viajavam sempre para outros países, mas ele tinha o vício do jogo e acabou envolvendo-se com marginais e sendo brutalmente assassinado quando estavam hospedados num hotel de luxo em Atlanta. Seu único filho a abandonou e só a visitava quando precisava de dinheiro. Vivia a sua solidão ali com seus poucos hóspedes, quase todos idosos e com seus dois gatos siameses e um cão... Não era rica, mas também não era pobre. O que lhe restou dava para sobreviver dignamente... Era uma pessoa de muito carisma e de muita sabedoria. Era culta, entendia de tudo e uma ótima conselheira.

Samara tornou-se a funcionária de confiança do Sr. Miguel. Trabalhava com amor e dedicação e todas as responsabilidades administrativas ficaram em suas mãos.

Havia um engenheiro porto-riquenho, que passou a ser frequentador assíduo do bar e que sempre jogava-lhe indiretas para que saísse com ele. Tanto insistiu que acabou aceitando o seu convite para irem assistir a um evento esportivo.

Começaram a namorar e seus encontros tornaram-se frequentes. Norberto Velasquez era um homem educado e meio tímido.

Altura média, moreno e um físico atlético, pois sempre praticou esportes. Veio de Porto Rico muito criança com seus pais. Morava com sua mãe e duas irmãs. Seu pai já era morto há alguns anos. Tinha 33 anos e sempre dizia que o seu maior sonho era ter um filho. Samara era um pouco mais nova, estava com quase trinta e um, mas filho não era a sua prioridade. O que mais desejava era poder abrir o seu próprio negócio, talvez um restaurante, ganhar dinheiro e quem sabe, trazer a sua irmã. Norberto sabia disso e sem que ela percebesse, estava negociando o aluguel de uma loja para que pudessem abrir um restaurante especializado em comida árabe. Sabia que ela entendia muito bem da gastronomia árabe. Aprendeu com sua mãe.

Chegou o dia de seu aniversário. Era setembro, estava completando trinta e um anos e Norberto a convidou para sair. Era um sábado, dia de sua folga. A levou a um lugar muito bonito, não muito longe e estacionou sem falar nada. Saltaram e ela perguntou-lhe por diversas vezes que lugar era aquele. Ele não respondia... Veio ao seu encontro, um senhor de cabelos brancos, baixo, de terno cinza, camisa branca e muito agradável. Os cumprimentou em espanhol e os levou para dentro de um bar simples, mas decorado com muito bom gosto, um ambiente aconchegante. Norberto perguntou-lhe se gostou, e ela disse-lhe sorrindo que adorou! Sentaram-se, ele pediu uma garrafa de champanhe e entregou-lhe uma caixinha embrulhada com papel de presente. Ela desembrulhou pensando que fosse o seu presente de aniversário... Quando abriu, não entendeu nada. Era uma chave... Norberto deu-lhe um beijo e disse-lhe que a partir daquele momento, ela poderia despedir-se do “Pancho Vila” e do Sr. Miguel o qual tanto gostava e tratar de treinar os quitutes árabes... Abriu o champanhe e ofereceu-lhe uma taça...

- Não estou entendendo – por que treinar os quitutes árabes?

- Acorde Samara! – este bar de hoje em diante é seu!

-Ela não acreditando, disse-lhe que ele estava brincando!

- Não é brincadeira – este bar é para você trabalhar – seremos sócios, menina! - um porto-riquenho criado nos Estados Unidos não mente jamais! Disse-lhe sorrindo.

- Mas Norberto, como foi fazer isto? – gastando o seu dinheiro comigo!

- É um grande prazer para mim – tenho absoluta certeza de que será um sucesso – “feliz cumpleaños!” Sempre lhe falava em sua língua, quando estava feliz.

Daquele dia em diante, a vida de Samara tomou um novo rumo, com uma nova feição e o bar transformou-se em um restaurante com nova roupagem que ficou conhecido não só pelos porto-riquenhos, mas por inúmeros imigrantes, principalmente brasileiros e árabes, pois nos finais de semana havia um show de dança do ventre e de pagode. Norberto queria se casar, mas ela achava que não o amava o suficiente a ponto de chegar ao casamento. Este era o grande problema. Entre gostar e amar há uma grande distância. Quase um abismo. Ela nutria um grande afeto por ele, mas não era amor. Ele sabia disso, mas às vezes as pessoas querem se enganar ou procuram não enxergar a verdade para não despertarem de um sonho...

Tudo estava encaminhando muito bem. Os lucros eram cada vez maiores, mas a situação de Samara já estava ficando preocupante, pois estava ilegal no país e isto poderia causar-lhe um grande problema e risco com as autoridades americanas. Já estava lá há quase dois anos... A única maneira de acertar a sua situação seria casar-se com Norberto que era cidadão americano. Foi muito difícil tomar tal decisão. Não queria magoar aquele homem tão bom, tão amoroso, que alavancou a sua vida, colocando-a num status que jamais conseguiria por conta própria. A gratidão que tinha por ele era imensurável! Jamais poderia decepcioná-lo. Telefonava quase sempre para sua irmã e ela era a favor que se casasse. Dizia-lhe que não era mais tão jovem, e o que estava esperando? Nunca encontraria um homem como Norberto...

Passou muitas noites sem dormir, pensava, repensava, fazia muitas reflexões, olhava para trás, lembrava-se de seus pais e do quanto haviam trabalhado e sofrido privações para criar suas filhas, e acabou resolvendo se casar.

Ligou para Norberto às duas horas da manhã e perguntou-lhe:

 – Você ainda quer se casar comigo? Ele ficou tão feliz e gritou dizendo repetidamente...
-“Si, si, si - mil veces si “mi amor”!!!!!!!!!!”

CAPÍTULO III

Samara foi com seu noivo ao aeroporto John F. Kennedy buscar Najla e quando se reencontraram, não queriam se largar mais! Muita emoção e lágrimas de alegria! Não se viam há muito tempo!

Desde que assumiu o restaurante, já não morava mais na casa de Sarah. Mudou-se para um lugar melhor, um estúdio como costumam chamar, simples, mas era um lugar seu, onde podia ter a sua privacidade, suas coisas, enfim... Foi para lá que levou a sua irmã.

Toda a família de Norberto estava preparando a festa do casamento. Gostavam muito da noiva e quem a ajudou na escolha de seu vestido foi a sua sogra, Srª Anita que a tratava como filha.

Finalmente chegou o grande dia. A igreja estava linda e totalmente florida. Tudo preparado por Norberto e seus familiares. A cerimônia foi linda e muito emocionante.

A recepção foi em seu restaurante e a essa altura, Samara já havia feito muitas amizades. Já estava no país há bastante tempo e era uma pessoa muito agradável e querida. Havia muitos amigos de ambas as partes. O Sr. Miguel Hernandez, sua esposa e Sarah, foram os primeiros a serem convidados. Boa música, comida árabe, muitos porto-riquenhos amigos do noivo, patrícios brasileiros e libaneses que lhes fizeram uma surpresa com um conjunto de dança folclórica libanesa, “dabke” com bailarinos que dançavam e cantavam em árabe saudando a noiva, finalizando a apresentação com uma dançarina de dança do ventre.

Samara tornou-se uma empresária e seu restaurante “MARHABAN” (que significa Olá em árabe) O nome era em letras luminosas coloridas com uma dançarina árabe em movimento . Ficou famoso e muito bem frequentado. Sua irmã Najla acabou ficando e foi morar num estúdio próximo, enquanto ela e Norberto foram para a sua nova casa que haviam comprado, no mesmo bairro.

Passaram-se três anos. Samara e Norberto viviam bem, se respeitavam, eram felizes. O único problema era que Norberto não podia ser pai. Quando casaram, fizeram exames e ficou comprovado que ele não poderia ter filhos. Isto o deixava muito triste, infeliz e de certa forma meio complexado, mas acabou se conformando. Cada um tinha o seu trabalho. Ela administrando seu restaurante com a ajuda de sua irmã e de mais vinte funcionários e seu marido comandando uma grande empresa de engenharia.

Todos os finais de semana, era apresentado um show de dança do ventre e compareciam muitos imigrantes árabes, principalmente do Líbano. Havia um rapaz alto, de bigode, moreno de olhos negros e profundos. Ele costumava ir lá todas as sextas feiras acompanhado de um homem mais velho. A primeira vez que o viu, ficou impressionada com o seu olhar e o seu jeito sedutor. A olhava de uma maneira diferente que a deixava totalmente desconectada de tudo. Seu coração batia numa frequência desconhecida à qual lhe conduzia para um mundo mágico...

Seu nome era George Fayad. Tinha trinta e sete anos e passou a frequentar o restaurante quase todas as noites. Ele morava no mesmo bairro com seu irmão, sua cunhada e dois sobrinhos. Samara sentia-se cada vez mais atraída por ele. Era extremamente insinuante, tinham longos papos, mas nunca a desrespeitou, nunca lhe fez nenhuma proposta direta, pois sabia que era muito bem casada. E ela sabia que seria quase impossível passar daquela porta para fora... Seus princípios e a educação que recebeu de seus pais, seria uma grande barreira. Seu marido era o melhor homem do mundo e jamais faria alguma coisa que o ferisse.

Era uma mulher vaidosa, mas passou a vestir-se de forma mais requintada e atraente. Usava saias justas, sapatos altíssimos, decotes, joias e quase todos os dias ia ao cabeleireiro. Estava cada vez mais bonita nos seus trinta e quatro anos de idade. 

Seu marido a elogiava todas as noites quando se encontravam em casa e sempre dizia que tinha a mulher mais linda do mundo!

Tais elogios ao invés de agradá-la a deixavam pensativa e com certa dor na consciência, apesar de sempre ter sido fiel, amiga e companheira. O que lhe doía no fundo do coração era o amor que deveria sentir por ele, mas que infelizmente não sentia. Às vezes se achava dura demais, mas pensava que a amizade e o carinho que existiam eram tão fortes que compensava a falta de amor...

Mas depois que conheceu George, compreendeu o verdadeiro significado deste sentimento. Amor é amor e amizade é amizade.

Não se podem misturar as coisas. Estava perdidamente apaixonada e enlouquecida por aquele homem. Isto nunca poderia ter acontecido! Mas... “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. Após algum tempo de longas conversas, assédio, olhares e insinuações, George passou a ser direto e a insistir cada vez mais para que se encontrassem em um outro lugar. Dizia que era solteiro e morava com o irmão, aquele que de vez em quando o acompanhava ao restaurante e sua família. Tinham uma loja de aparelhos eletrônicos em Manhattan na Rua 33 e vivia nos Estados Unidos desde os dez anos de idade, quando imigrou com seus pais, que faleceram mais tarde. Insistia cada vez mais para passarem uma tarde juntos em Newark (New Jersey) perto de Nova Iorque onde tinha as chaves do apartamento de um primo que se encontrava no Líbano. Samara ficava sempre em cima do muro, e o medo de trair seu marido a deixava com a cabeça fervendo... Por coincidência, havia um fornecedor naquele lugar e volta e meia tinha que ir lá... “Maktub”. Será mesmo que está escrito?

Sua irmã Najla já andava meio desconfiada que alguma coisa estava acontecendo. Samara não era a mesma, seus olhos tinham outro brilho, e nunca a viu tão feliz e tão requintada em suas roupas e maquiagem...

Finalmente após muitos diálogos internos e questionamentos, decidiu encontrar-se com George e avisou à sua irmã e ao seu marido que naquela sexta feira iria a Newark visitar um fornecedor e que chegaria mais tarde...

E foi naquela tarde que teve início um desvio de sua história, de suas verdades e de todos os seus preceitos. Foi naquela tarde também que conheceu o que é a plenitude do amor, fascínio, prazer, sedução e a entrega total de corpo e alma. Naquela tarde, teve a certeza de que seu relacionamento com Norberto nunca chegou perto do amor selvagem, do amor de paixão e de magia... Teve a certeza de que o que sentia por ele nunca passou de uma imensa amizade e gratidão... Gratidão. Era só isto. Mas quem pode viver com um homem só por gratidão? Pensava consigo mesma. - Meu Deus! – o que fazer agora? – sou uma mulher traidora e estou quebrando todas as regras de comportamento que aprendi em toda a minha existência! – sou covarde e mentirosa! – minha consciência está explodindo! – terei que vender uma imagem falsa daqui para frente, pois a mentira será uma constante e fará parte de minha vida com o meu marido... Meu marido, o homem mais sincero e mais doce e fiel que conheci... Sua fidelidade ficava acima de qualquer suspeita... A última coisa que faria no mundo seria magoá-lo...

Aquela tarde foi o dia mais feliz de sua vida. George era um homem muito especial. Era o oposto de Norberto em relação ao sexo.

Sabia seduzir uma mulher. Era atraente da cabeça aos pés. Seu olhar sedutor derrubava até uma pedra. A despia somente com o olhar... Nunca havia se sentido tão amada e desejada. A partir daquele dia, Samara começou uma vida totalmente nova e contava os minutos para que chegasse logo sexta feira, pois era neste dia da semana que ia ao “fornecedor” em Newark. O apartamento o qual se encontravam, era bem arrumado, com uma decoração tipicamente árabe, muitas almofadas, muitos tapetes persas pelo chão e inúmeras fotografias do Líbano, retratos de família, casamentos, etc. Mas Samara nunca entrava em detalhes para perguntar o que quer que fosse. O que queria estava lá. Era o amor de George, seu jeito atraente de ser, sua maneira de pegá-la, de beijá-la, de fazê-la se sentir uma mulher de verdade, de vira-la pelo avesso... Ele era tudo aquilo que sempre desejou. Estava amando-o com todas as forças de seu coração. Estava profundamente entregue àquele homem. Sabia que existia um grande abismo entre eles e que poderia despencar a qualquer momento. Mas não se importava. Queria viver aquele romance com toda a intensidade possível, mesmo sabendo que estava pisando num terreno escorregadio e perigoso e que tinha vendido a sua alma ao diabo... Ele era o próprio diabo do amor...

George quase não falava de sua vida particular. Só falava de seus negócios com seu irmão e dizia que teve uma noiva americana, mas que não deu certo por ele ser árabe e ela judia. Teve muitos romances, muitas mulheres em sua vida. Nunca lhe escondeu isto, mas dizia que por ela sentia um amor profundo e diferente de tudo o que havido sentido antes. Cada vez que se encontravam dava-lhe uma joia. Deixava-as nos lugares mais imprevisíveis do apartamento. Em baixo do travesseiro, no meio dos lençóis, em baixo da cama, na cozinha dentro de uma panela, na saboneteira do banheiro e ela sempre as encontrava e ficava surpresa com a sua criatividade e senso de humor... Quando chegava em casa, seu marido a elogiava e perguntava-lhe onde comprava coisas tão lindas. Ela ficava meio sem jeito e dizia-lhe que comprava numa joalheria em Newark por ótimos preços com uma moça à qual havia feito amizade. Ele se desculpava e dizia-lhe que era um tonto e que nunca lhe comprava nada... Ela sorria e dizia-lhe - Deixe para lá – estas coisas só as mulheres sabem escolher...

CAPÍTULO IV

Após seis meses de encontros, seu romance com George estava ainda no ápice do encantamento, prazer e êxtase. Seu restaurante progredia cada vez mais, com a dedicação e coordenação de sua irmã. Nadja já estava com trinta e sete anos de idade e desde que chegou do Brasil, nunca namorou ninguém. Era uma mulher atraente, vestia-se muito bem, enfim, era muito bonita. Samara não entendia por que ela nunca se interessou por homem nenhum. Era bastante assediada... Enfim... Talvez não tivesse encontrado ainda o amor de sua vida. “Maktub”...

Em um de seus encontros com George, depois de se amarem muito, ele disse que tinha que contar-lhe uma coisa muito importante e desagradável.

 - Diga logo George! – não me deixe preocupada – seu rosto não está muito alegre!

- Samara, vou ter que fazer uma viagem ao Líbano – tenho uns negócios de família para serem resolvidos, mas não demorarei muito. No máximo uns trinta dias - tenho que resolver um problema sobre umas propriedades que meus pais deixaram.
Samara não conteve as lágrimas e não falou nada. Somente o abraçou muito sem querer largá-lo como se fosse uma despedida definitiva... Pressentia algo...

Na semana seguinte de sua partida, começou a sentir-se esquisita, e teve um desmaio em seu restaurante. Sua irmã a levou ao médico imediatamente, e após o exame clínico não foi diagnosticado nada grave. O médico simplesmente lhe parabenizou, dando-lhe a notícia que estava grávida. Prescreveu-lhe um exame de sangue e mandou que voltasse. Samara quase teve um desmaio. Ficou pálida e sem saber o que dizer à sua irmã...

- Najla, pelo amor de Deus, não diga nada a Norberto! – espero que me compreenda, minha irmã – sabe que ele não pode ter filhos...

- Não é preciso falar mais nada – sei que este filho é de George - mas o seu marido precisa saber! – não vou calar-me – ele não merece isto!

- Eu lhe imploro minha irmã! – não fale nada – eu mesma o farei quando chegar a hora certa – pelos nossos pais, não faça esta maldade comigo!

Quando chegaram em casa, Norberto estava preocupado e queria saber o que houve. Najla olhou para sua irmã e disse-lhe em voz baixa, que foi somente um mal-estar passageiro e que já estava bem.

Najla agora certificava-se de que suas suspeitas não eram infundadas. Era muito perceptiva e a malícia era um componente que nunca lhe faltou. Todas as sextas feiras quando ela saia, notava o quanto ficava agitada e se apurava em suas roupas e na sua maquiagem... E percebia que George nunca aparecia no restaurante naqueles dias. Não era boba e em seu íntimo ficava satisfeita com o que via...  Até certo ponto, muito feliz... E pensou: Norberto terá que saber que a sua amada não é tão santa quanto pensa...

Mas resolveu calar-se. Em seu íntimo, ficou com pena e muito preocupada com a situação embaraçosa em que sua irmã se encontrava. Antes de qualquer coisa, a amava muito.

Samara ficou quase uns três dias em casa sem ir ao restaurante, pois sentia-se indisposta e totalmente perdida. Caiu em depressão. George havia partido e o interesse por seu marido tinha desaparecido totalmente. Não suportava quando ele se deitava ao seu lado. Sempre encontrava uma razão para apagar as luzes ou fingia estar dormindo. Ele por sua vez, também não ligava muito, dava-lhe um beijo e dormia durante toda a noite. Ela realmente não sabia o que fazer de sua vida. Sentia-se embaraçada em uma teia de aranha. Estava completamente desorientada. Norberto era desligado e vivia envolvido em seu trabalho todo o tempo.

Najla tinha o seu mundo particular e a dedicação ao restaurante era o que lhe importava. Tratava sua irmã com carinho e perguntava-lhe se estava melhor, e se já havia resolvido confessar a sua gravidez ao seu marido... Perguntou-lhe de maneira severa e meio sarcástica se George já sabia que ia ter um filho e quando retornaria. Ela respondeu-lhe que ainda não havia lhe falado nada...

Samara enviou-lhe um e-mail contando-lhe o que estava acontecendo, que as saudades eram imensas e quando retornaria. Falou de sua gravidez e que estava em desespero. Após uma semana, ele respondeu-lhe friamente que não tinha a menor ideia de seu retorno e que não poderia de maneira nenhuma assumir o filho de uma mulher casada. Não enviou mais nenhuma mensagem.

Ela compreendeu que havia caído numa armadilha cruel e angustiante. Um terrível abismo! George a seduziu e a enganou todo aquele tempo. O amor que demonstrava ter era falso, e os momentos intensos que passou em seus braços naquele apartamento de Newark, foram nada mais que uma diversão. Teria que ser forte e encarar aquela situação com maturidade e procurar não demonstrar o que sentia. Envolveu-se com ele porque quis. Seu marido jamais poderia descobrir que todas aquelas joias foram presentes de um homem e que as suas saídas eram o refúgio na busca de um amor e de uma sensação que ele nunca pode oferecer-lhe. Imaginava o quanto sofreria se soubesse. Seria sepultado vivo! Norberto não merecia passar por isto! Era um santo homem! Pensava nisto vinte e quatro horas por dia...

Ellen Friedman era uma americana divorciada de mais ou menos uns cinquenta anos que morava ao lado do restaurante. Era esteticista e fazia inúmeros tratamentos de beleza em sua própria casa. Samara era sua cliente desde que chegou lá e ficaram muito amigas. Eram confidentes há muito tempo e não tinham segredos. Numa de suas visitas ao restaurante, ela notou que Samara estava muito deprimida e pálida. Sentaram-se no escritório para tomarem um cafezinho brasileiro como faziam sempre. Samara contou-lhe tudo a respeito de George e da gravidez inesperada. De seus encontros, sua paixão, sua partida para o Líbano, seu descaso e da depressão que desabou sobre ela. Ellen aconselhou-lhe que ficasse calma e que o tempo curava todas as feridas.

Disse-lhe de forma quase maternal, que ela teria que curar esta ferida com qualquer remédio que encontrasse pelo caminho. Teria que buscar uma solução e ter muita coragem e serenidade. Não era a primeira vez que acontecia isto com uma mulher e nem seria a última. Ela mesma já havia provado desta amargura quando era mais jovem. Disse-lhe com todas as palavras:

 – Levante a cabeça e vá em frente - nunca se curve diante de um desengano ou de um desespero! A solução há de aparecer...

Já havia passado dois meses. Sua gravidez já estava quase evidente. Seu abatimento moral era cada dia maior. Mas a maturidade lhe mostrou que tinha que sair daquele quadro com a mesma maestria a qual entrou nele. Nunca pensou em nenhum momento em abortar. Desejava aquele filho mais do que tudo no mundo! Tudo aquilo residia na luta de ser forte e não valorizar o que não merecia ser valorizado.

Certo dia, Najla como sempre fazia, saiu bem mais cedo e foi para casa de sua irmã, pois todas as terças feiras, ia lá assar umas esfihas para seu cunhado que só ela sabia fazer. Coincidentemente naquela tarde, Samara não estava passando muito bem e foi mais cedo para casa, coisa que nunca acontecia, pois era sempre a última a sair.

Quando chegou, as luzes estavam quase todas apagadas. Estranhou porque sua irmã deveria estar na cozinha preparando as esfihas. Só escutava uma música lenta e romântica que vinha do andar de cima. Subiu sem fazer barulho porque quando chegava em casa tinha o hábito de tirar os seus sapatos para descansar os pés, pois usava saltos muito altos.

Quando abriu a porta do quarto, encontrou seu marido e sua irmã em sua cama se beijando e totalmente nus. Teve um choque muito grande. Fechou a porta sem que eles notassem, correu para o banheiro, muito tonta, vomitou e quase caiu no chão. Seu coração batia num compasso incontrolável. Respirou fundo procurando acalmar-se. Desceu traumatizada, sem fazer nenhum ruído e saiu para rua. Entrou num bar para fazer hora, tomou uma água e mais tarde voltou para sua casa. Quando chegou, as luzes estavam todas acesas, sua irmã na cozinha assando as esfihas e seu marido como sempre, tomando uma taça de vinho e assistindo televisão. Quando a viu, a beijou, a chamou de “amor de mi vida” e perguntou-lhe como foi o seu dia. Ela manteve a mesma postura de sempre, também o beijou e subiu para tomar um banho. Seu quarto estava intocável. Totalmente arrumado como havia deixado pela manhã. Não entendia como arranjou tanto equilíbrio emocional...

Quando desceu, a mesa para o jantar já estava posta e Najla colocou uma música árabe e começou a dançar de forma muito sensual como nunca havia feito antes. Parecia que queria provocá-la. Norberto continuava sentado no sofá, tomando vinho e a apreciava com um olhar interessado sem querer perder um só gesto. Quando a música terminou, Samara a aplaudiu com entusiasmo, dizendo que ela estava dançando melhor do que as dançarinas do restaurante. Norberto concordou e começaram a comer silenciosamente, saboreando as esfihas como nunca e bebendo vinho...

Na manhã seguinte, Samara foi procurar sua amiga Ellen para contar-lhe o que havia descoberto. Ela perguntou-lhe se tinha filmado a grande cena e ela disse-lhe que nem havia pensado nisso, dado ao nervosismo e repulsa que sentiu na hora. 

- Então amiga, mãos à obra. Na próxima terça feira, deixe-a sair para assar as esfihas e logo após algum tempo, iremos as duas, com uma câmera preparada para fazer a filmagem - somente assim, você alcançará os seus objetivos para sair deste imenso emaranhado com maior transparência e lucidez.

CAPÍTULO V

- Sempre ouvi dizer que os animais são os melhores amigos do homem. Eles têm um olhar puro e jamais nos enganam. Amam ou não. Se amarem uma pessoa, amam de verdade, mas do contrário demonstram, mostram os seus dentes, suas unhas e sabendo disso, as pessoas tomam cuidado e não se aproximam deles por saberem que poderão ser atacadas. Nunca nos enganam como o ser humano. Desconhecem a falsidade e a ingratidão... - Ah... Como eu gostaria de fugir para uma selva meu Deus! Samara pensava no silêncio de suas reflexões...

Aquela cena que Samara havia presenciado era a verdadeira traição! Questionava-se sem parar... Sua irmã querida, usando uma máscara todo aquele tempo? Por isso não se envolvia com nenhum homem! Por aquele motivo nem saia de casa. Só trabalhava, trabalhava e ia dormir com o seu cunhado! Será que não encontrou outro homem em seu caminho? Era tão bonita e atraente, tinha tudo para ser feliz e amada. Mas por que o marido de sua irmã? Ela também traiu, mas não foi com o seu cunhado. Foi com um desconhecido. Foi um lamentável precipício no qual escorregou, perdeu o equilíbrio e caiu perdendo-se de si mesma em busca de um amor que nunca existiu...

Ellen chegou cedo ao restaurante e esperaram um pouco para dar tempo dos dois pombinhos se aprumarem. Passaram-se umas duas horas e as amigas saíram à procura de cenas impróprias, indecentes e traiçoeiras.

Quando chegaram, novamente as luzes da casa estavam quase todas apagadas. O som estava ligado e tocava a canção “Corazón Partío” com Alejandro Sanz, canção preferida de Norberto quando estavam juntos. Havia duas taças de vinho sobre a mesa, pela metade. Tiraram os sapatos, subiram e lá estavam os dois gemendo e sussurrando navegando em outro planeta. Ellen deu início à filmagem enquanto Samara fotografava tudo mantendo-se mais calma desta vez, pois já sabia o que iria encontrar, mas não deixou de ficar tensa ao ver o quanto a sua irmã era falsa e desonesta e seu marido infiel e mascarado fingindo que a amava todos aqueles anos. Era repugnante... Pensava:

- Por que razão estava ainda casado comigo? Ninguém é obrigado a ficar com ninguém. O ser humano é livre e o casamento não pode ser encarado como uma prisão perpétua... Ela perguntava para si mesma...

Após a filmagem e as fotos, as amigas retornaram ao restaurante e Samara estava até mais relaxada porque aquela dor na consciência havia cessado. Seu marido não era o santo que parecia ser e não sofreria tanto, caso descobrisse que foi traído. E sua irmã, poderia ficar com ele se quisesse. Não precisaria viver de aparências e poderia retirar a sua máscara e mostrar o outro lado da face... Poderia viver a sua vida com a cara lavada... O que a machucava mais nem era tanto a falsidade de seu marido, mas a deslealdade e desamor de sua irmã... Foram criadas juntas pelos mesmos pais. Sempre foram amigas, tiveram as mesmas coisas. Tudo o que uma ganhava, a outra ganhava também. Nunca houve discriminação. O amor e o carinho que receberam de seus pais sempre foram divididos em fatias iguais.

Depois de tudo isso, Samara começou a medir os fatos, a retroceder no tempo e a fazer uma retrospectiva para entender melhor, para esclarecer com mais objetividade o comportamento de Najla e de Norberto. Todos trabalhavam demais. Tanto ela, quanto sua irmã e seu marido. No verão passado, tinham combinado uma viagem a Miami Beach para que pudessem ir à praia e descansar um pouco. Najla fingiu que não queria ir, que não poderia deixar o restaurante com os empregados, e que eles deveriam ficar um pouco sozinhos para namorarem... Afinal, nunca saiam... Norberto insistiu para que os acompanhassem dizendo que sua companhia só iria colorir a viagem...

Samara forçou a sua memória e lembrou-se de alguns episódios curiosos da viagem. Quando chegaram em Miami Beach, todas as manhãs Najla saia cedo e logo depois Norberto desaparecia. Certo dia, ela ficou sozinha na praia e eles só apareceram quase na hora do almoço... Um de cada vez. O sol estava bem forte e ela até estranhou, porque nenhum dos dois parecia ter tomado sol. Dentro de sua inocência, brincou com eles dizendo que enquanto ela estava bronzeadíssima eles continuavam brancos como uma vela... Lembrou-se também que quase todas as noites quando retornavam do jantar, ou de algum programa geralmente bem tarde, Norberto ao invés de acomodar-se para dormir, dizia que ia tomar alguma coisa no bar do hotel e que estava sem sono. Certamente ia para o quarto de sua irmã. E quanto mais procurava lembrar-se de certas passagens, mais evidenciava a traição de seu marido com sua irmã. Só agora depois do que viu, ia lembrando-se de fatos esclarecedores que a sua inocência e falta de malícia na época, lhe impediram de ver.

Quase todos os domingos quando sua irmã ia visitar-lhes em sua casa, estava sempre com a blusa meio desabotoada com os fartos seios à mostra quando Norberto estava por perto. E quando se sentava, fazia questão de cruzar bem as pernas deixando-as suficientemente descobertas, despida de qualquer timidez. Muitas vezes Samara avisava-lhe quando a sua blusa estava desabotoada e Najla simulava um susto dizendo: - Alah! - que vergonha! E a abotoava instantaneamente.

De vez em quando Samara tinha que visitar fornecedores, não só em Newark, mas em vários lugares. Tinha realmente que negociar, fazer parcerias e comprar certas coisas para o abastecimento do restaurante. Lembrou-se de uma tarde quando chegou da rua, sua irmã não estava. O restaurante estava cheio e quem estava no caixa era um dos empregados, o que muito lhe aborreceu. Perguntou por ela e ninguém sabia responder. Disseram-lhe que tinha saído para resolver um assunto e não havia dito quando e a que horas voltaria. Samara assumiu o caixa e depois de umas duas horas, ela chegou com os cabelos totalmente molhados. Surpreendeu-se, pois era muito cuidadosa com a sua aparência e jamais sairia daquela forma. Disse-lhe que foi ao cabeleireiro pintar os cabelos e que não quis esperar secar porque ficou preocupada com o restaurante. Ela estava meio sem jeito e Samara até chegou a pensar que talvez sua irmã tivesse arranjado um namorado... Ficaria muito feliz se isto acontecesse. Queria muito vê-la feliz e realizada. Afinal, não saia para lugar nenhum e vivia para o trabalho. Ficava com muita pena dela e de certa forma com a consciência pesada por ela trabalhar tanto e sem nenhuma diversão...

E quanto mais retrocedia no tempo, mais se certificava do quanto foi enganada, do quanto foi ingênua, do quanto foi ignorante e do quanto lhe faltou um pouco de malícia...

CAPÍTULO VI

Depois da filmagem e das fotografias daquelas cenas de “terror”, todo o material ficou guardado na casa de Ellen e começaram a arquitetar o dia, a hora e o momento oportuno para enviar uma cópia do filme gravado em DVD para Najla e as fotografias para Norberto em um envelope com um bilhete. Isto teria que ser feito com muita precisão e não poderia ter falhas de forma nenhuma.

Seria um plano premeditado. Há certas coisas que fazemos em nossa vida que nós mesmos nos espantamos. Samara estava planejando esta vingança, mas em seu íntimo ficava preocupada com a reação que eles provavelmente teriam. Sua irmã era o preconceito personificado. Tinha preconceito com tudo e com todos. Nunca falava em sexo, não admitia o sexo fora do casamento e quando sabia de algum caso de alguma moça que transava com o seu namorado, a rotulava de prostituta. Também não admitia o homossexualismo. Se entrasse algum casal gay no restaurante, amarrava a cara e chegava a ser indelicada. Fazia a mesma coisa com os negros e com os judeus. Isto era muito ruim para a imagem de qualquer estabelecimento. O que importava era o respeito e a boa conduta de quem quer que fosse. Discutiam muito sobre isso e chegavam a ter brigas em altas vozes.

Ellen lhe telefonou e marcaram um encontro num barzinho para combinarem quando e como iriam enviar as cópias. O aniversário de Nadja estava chegando. Ia completar trinta e sete anos. Ficou tudo acertado. Samara faria uma reunião com alguns amigos, inclusive Ellen, e durante a festa, alguém bateria na porta e entregaria uma caixa embrulhada com papel de presente com laços de fita, acompanhado de um lindo ramo de flores vermelhas e um envelope endereçado a Norberto com as fotos. Quem faria a entrega seria um rapaz amigo de Ellen, o qual morava bem distante dali. Ninguém o conhecia.

Samara combinou a festa surpresa com Norberto e fizeram tudo com o maior requinte. Ele estava animadíssimo e preocupado com o que deveriam comprar para a aniversariante. Disse-lhe que não se preocupasse. Ela se encarregaria absolutamente de tudo. Afinal sua irmã estava comemorando o seu aniversário... Era uma data muito importante. 

Encomendou um lindo bolo, tortas, doces, salgados, bebidas, e muitas flores. Comprou-lhe um lindo anel de diamante com o aro bem largo para que coubesse a gravação: “Que esta pedra verdadeira nunca se aproxime da falsa para que ela não roube o seu valor”.

Chegou o grande dia. Era um domingo, a casa estava cheia de convidados, toda florida, com música árabe, porto-riquenha, brasileira e a alegria contagiou o ambiente festivo... Sua sogra e cunhadas a ajudavam a recepcionar os convidados como se estivessem em sua própria casa. Naquele dia, ninguém falou em aniversário, e nem deu os parabéns à aniversariante, para não estragar a surpresa. Samara pediu-lhe que se vestisse melhor para irem jantar fora, como sempre costumavam fazer aos domingos. Desligaram todas as luzes e o som e quando Najla chegou, foi uma explosão de luz, música e alegria. Ficou emocionada quando viu a casa cheia de amigos lhe aplaudindo. Estava muito bonita. Vestia um modelo preto o qual a deixava mais magra, decotadíssimo e sandálias altas da mesma cor. Todos os convidados prestaram-lhe homenagem e Norberto e Samara entregaram-lhe o anel embrulhado em papel dourado. Ela ficou muito comovida quando abriu e deu-lhes um abraço, mas não chegou a ler a gravação. Já eram quase nove horas, a hora que a campainha deveria tocar. Ellen e Samara encontravam-se em cantos opostos da sala, ansiosas olhando o relógio a cada instante.

Finamente, a campainha tocou. Norberto foi atender a porta e era o amigo de Ellen usando um boné que quase escondia o seu rosto. As únicas palavras que disse foi que era uma encomenda para a Stª Najla Haddad, com as rosas vermelhas e que o envelope era para o dono da casa, Sr. Norberto Velasquez.

Norberto encaminhou-se em direção a Najla e entregou-lhe os seus presentes. Ela levantou-se e levou-os para um canto onde havia uma pequena mesa, abriu e viu que era uma fita de DVD com seu retrato na frente, mostrando somente os seus belos olhos.

Achou criativo e deixou para assistir num outro momento. Estranhou por não ter nenhum indicativo de quem era. Nem mesmo nas flores... Pensou que pudesse ser de Norberto. Até olhou para ele e piscou o olho. Ele gostava de fazer estes tipos de surpresas misteriosas. Norberto pegou o envelope e também estranhou por não ter remetente. Foi para a cozinha para abri-lo.

“Caro Senhor Norberto. Tenha mais cuidado com a segurança de sua residência. Procure fechar melhor as portas e janelas quando entrar. Lembre-se de que é um homem casado e portanto, tranque pelo menos a porta de seu quarto, quando for para a cama com a sua cunhada”  As fotos caíram no chão e quando as viu,sua vistaficou turva e só não desmaiou porque estava sentado. Ficou pálido e o suor escorria pelo seu corpo. Seu coração batia de forma descompassada, quase insuportável.

Voltou para a sala e a festa estava cada vez mais animada. Najla dançava com o Sr. Juan amigo de Norberto e Samara conversava animadamente com Lola, sua mulher. Ellen estava do outro lado também dançando e bebendo uma Piña Colada. Quando Norberto voltou, elas notaram a sua palidez e uma olhou para a outra... Certamente tinha acabado de ler o bilhete e de ver as fotos.

CAPÍTULO VII

Já era mais de meia noite e os convidados já estavam começando a se retirarem. Finalmente, saíram todos e Najla muito cansada, com os braços ocupados carregando as flores e os presentes, agradeceu aos seus cunhados, beijou e abraçou sua irmã, mas quando foi dar um beijo em Norberto, ele sussurrou em seu ouvido que tinha que falar-lhe uma coisa importantíssima, muito séria e que se preparasse para o pior. Disse-lhe que nem iria conseguir dormir naquela noite, devido ao que aconteceu. Ela o achou muito pálido e nervoso e ficou muito apreensiva - afinal, o que deveria ser, estava tão feliz na festa, tudo estava tão perfeito... Pensou no caminho para sua casa.

Quando foram dormir, Samara perguntou-lhe o que estava acontecendo – está tão calado – está sentindo alguma coisa? Ele respondeu que achava que tinha comido algo que não lhe fez muito bem – Quer que eu lhe prepare um chá? – quer tomar algum remédio para o estomago? Ele disse-lhe que não e que já iria passar...

A vingança tem um sabor doce, mas ao mesmo tempo meio amargo para pessoas sensíveis... Isto era a última coisa que Samara pensou em ter que fazer um dia. Vingar-se de pessoas tão importantes em sua vida, seu marido e a sua própria irmã. 
Na manhã seguinte, Norberto saiu cedo e nem tomou café. Ellen telefonou para saber se havia alguma novidade. Samara relatou tudo sobre seu comportamento, mas que era somente isto por enquanto.

 Estava ansiosa para encontrar-se com Najla. A essa altura, ela já teria assistido ao vídeo. Tomou o seu banho, comeu algumas frutas, vestiu-se com a roupa mais elegante que tinha, maquiou-se calmamente, abasteceu o seu carro no posto de sempre e foi para o restaurante.

Quando chegou, sua irmã estava totalmente sem maquiagem, com olheiras profundas e quase não falou com ela.

 – Mas o que tem Najla? - está doente?

– Não estou passando bem – acho que alguma coisa me fez muito mal ontem à noite.

- Que coincidência, Norberto também passou muito mal – acho que talvez os salgadinhos, sei lá... – quer que mande comprar algum remédio para você minha irmã? Ela respondeu-lhe que não e que deveria ser um mal-estar passageiro.

Naquela tarde, Najla foi para casa muito cedo. Com toda a certeza, iria encontrar-se com seu cunhado. Samara ligou para Ellen para que ficasse em alerta, pois sua casa ficava ao lado da sua. E foi exatamente isto que aconteceu. Norberto chegou primeiro e logo depois Najla entrou. Ficaram lá dentro por mais de uma hora e depois ela saiu com a cabeça baixa e com cara de choro.

Samara fechou o restaurante bem mais tarde e foi para casa. Quando chegou, Norberto estava abatido, deitado no sofá e com uma péssima aparência. Parecia que havia chegado de um enterro...

Samara perguntou-lhe se melhorou e ele disse-lhe que mais ou menos. Sentaram-se para comer algo, ele estava calado, e com um semblante de muita preocupação. Praticamente não comeu nada. Deu-lhe um beijo e foi dormir mais cedo. Ela permaneceu na cozinha, lavou as louças e foi ler o jornal. Certamente já haviam assistido a gravação, visto as fotografias e estavam sendo profundamente torturados... Agora era esperar os resultados.

No dia seguinte, quando chegou ao restaurante, Najla finalmente veio agradecer-lhe pelo anel, ainda bem abatida, dizendo-lhe que o adorou e que não precisavam gastar tanto com ela. Samara disse-lhe que ela merecia muito mais do que um simples diamante, pois nunca poderia pagar-lhe toda a gratidão de tantos anos, pois sempre foi a melhor irmã do mundo. Estava usando-o em sua mão direita, mas não comentou nada sobre a gravação.

Samara tinha e plena convicção de que o que estava deixando-os transtornados e preocupadíssimos era a incerteza de quem teria enviado aquilo... A dúvida deveria estar corroendo os dois, pois a partir daquele dia tudo mudou. Não comentou mais sobre a sua gravidez. Quando o seu celular tocava, um olhava para o outro e a desconfiança estava no ar. O mesmo acontecia quando os seus celulares chamavam. Não tinham certeza de nada. Estavam pisando num terreno minado e cada passo que davam, cada gesto, cada frase era como uma chuva de pedras. Norberto estava passando aquelas noites em claro. Mexia-se durante todo o tempo, levantava, ia beber água, ligava a televisão... Samara via claramente a aflição e a angústia estampadas em seu rosto. Ela também não tinha muita tranquilidade, pois seu sofrimento a incomodava muito e não ficava feliz com o que estava presenciando. Percebia que os dois estavam sendo massacrados pela dúvida e pelo medo e muitas vezes sentia vontade de abrir logo o jogo, pedir o divórcio e tomar um novo rumo em sua vida... Mas Ellen aconselhava-lhe que esperasse o momento certo para que nunca se arrependesse de nada.

Numa certa tarde, não havia movimento no restaurante e Samara resolveu tomar o subway e ir dar uma volta em Manhattan. Queria fazer algumas compras na famosa Macy’s, a loja de departamento maior do mundo e distrair-se um pouco. Sair por algumas horas daquela teia de aranha e daquele martírio que estava atravessando em sua vida onde só havia traição, desconfiança, incertezas e desamor.

A Macy’s ficava na rua 34 que por acaso era próxima à loja de George e de seu irmão Said. Sabia onde era, e quando passou na porta, olhou a vitrine e a curiosidade apoderou-se dela. Entrou e fingiu-se interessada em um celular. Said a reconheceu veio cumprimentá-la, perguntou por seu marido e ela perguntou por seu irmão, se ele já havia chegado do Líbano...

- Líbano? – não, ele não vai ao Líbano há muitos anos – daqui a pouco estará chegando – trabalha durante a tarde – foi ao seu apartamento em Newark e depois ia ao clube jogar tenis aqui perto. Isto foi uma grande surpresa para ela, pois jamais imaginou que ele não havia viajado e que o apartamento onde se encontravam era propriedade dele e não de seu primo como dizia. Seu irmão era uma pessoa extremamente simpática. Ofereceu-lhe café, água e balas recheadas com nozes. Conversaram muito e de repente, George chegou.

George já não representava absolutamente nada para ela. Fazia parte do passado e sua história com ele, já havia terminado. Era um livro que foi destruído pelo desencanto, decepção ou até mesmo pelo fogo... Ela era assim. Quando se desiludia com algo, não virava a página. Simplesmente a arrancava...

Quando entrou, ela fez questão de cumprimentá-lo e perguntar-lhe como foi a viagem ao Líbano... Ele ficou sem jeito e começou a tropeçar nas palavras. Samara insistia em falar de sua viagem, mas ele mudava de assunto, perguntava-lhe como ia o restaurante... Ela sorria ironicamente e respondia que tudo estava indo muitíssimo bem, cada vez melhor e que aparecesse por lá quando tivesse tempo. Despediu-se dizendo-lhe que tinha muito prazer em revê-lo e aconselhou-lhe que quando quisesse terminar um romance com uma mulher, que não precisaria viajar para tão distante usando a mentira e a farsa como escudo e que procurasse ser mais maduro. Que deixasse essas atitudes infantis para os adolescentes e que a sua adolescência já estava muito distante. Não se despediu de seu irmão, pois estava atendendo a um cliente. Despediu-se e desejou-lhe sorte em sua próxima conquista. E por último, disse-lhe que nunca se esquecesse que há certas pessoas que não foram feitas para serem usadas... Ele a pegou pelo braço disfarçadamente e a acompanhou até a calçada.

 – Samara, não vou negar que o que fiz não tem perdão – realmente fui um canalha com você, mas tive os meus motivos – você era uma mulher casada e eu tinha muito temor que um dia o seu marido pudesse descobrir tudo sobre nós – sentia-me profundamente inquieto - por isto preferi sair pela porta dos fundos antes que fosse tarde demais - não foi por covardia. E perguntou-lhe sobre o filho...

Samara virou-lhe o rosto e disse-lhe que não se preocupasse, e que filho não era para qualquer um. Disse-lhe: - Antes de ser pai, terá que ser homem, ter caráter e dignidade - saiba que a sua atitude foi um grande aprendizado para toda a minha vida – devo agradecer-lhe pela grande lição – adeus e muito sucesso. Não há mais filho nenhum. Esqueça. Cobriu a sua barriga disfarçadamente e saiu.

Naquela tarde estava se sentindo tão leve quanto uma pluma. Passou algumas horas na Macy’s, percorreu quase todos os seus onze andares, fez ótimas compras, desceu, fez um lanche e foi caminhando até Time Square para escolher algum musical. Queria assistir “O Fantasma da ópera”, mas não teve muita sorte, pois já não havia mais nenhum lugar. Os ingressos sempre têm que ser comprados com antecedência. Mas não se importou. Valeu pelo reencontro com George, pelo seu desabafo, pelo relaxamento e pelas compras que fez naquela tarde. Nada como deixar as coisas bem resolvidas...

CAPÍTULO VIII

Quando chegou em casa eram quase nove horas e Norberto já havia chegado. Não havia jantado, estava com a barba por fazer e cochilava em frente à televisão. Quando a viu chegar, perguntou-lhe em voz baixa: - Onde foi “mi amor”? – eu já estava ficando preocupado. Ela respondeu-lhe que foi dar um passeio em Manhattan e fazer algumas compras. Ele foi até a cozinha, bebeu um copo d’água e seu comportamento continuava ainda muito estranho, como se estivesse esperando alguma reação de sua mulher. Samara continuava leve, fria, alegre e aliviada...

Na manhã seguinte, nem o viu sair para o trabalho. Vestiu-se e foi para o restaurante. Najla ainda não havia chegado. Quando apareceu já passava das dez horas. Usava o anel de diamantes. A beijou e quando ela foi para o escritório, foi atrás e disse-lhe que queria perguntar-lhe uma coisa.

 – Minha irmã, sabe que adorei a festa e que gostei muito deste anel, mas quero que me diga o que significa esta frase. Retirou o anel do dedo e mostrou-lhe a gravação.

Samara respondeu-lhe que o significado era que quando uma pedra é verdadeira como um diamante, seu valor terá que ser preservado... Najla franziu a testa e respondeu-lhe que eram palavras muito bonitas e que serviam para todos, inclusive para ela... Virou as costas e foi para a cozinha. Ficou com a cara fechada durante todo o dia, descontando o seu mau humor nos empregados.

Ellen ligava sempre para saber se houve alguma reação, mas Samara dizia que o ambiente estava tenso como se fosse explodir uma bomba a qualquer momento... Ellen ria e pedia-lhe que esperasse.

Passou uma semana e durante a noite seu marido começou a passar muito mal. Samara acordou com seus gemidos e ele dizia que estava sentindo uma insuportável dor na nuca e dores pelo corpo. Ela logo o levou até o carro e foram para o hospital mais próximo de sua casa. Quando o médico o examinou, disse-lhe que estava com a pressão alta e perguntou-lhe se havia se aborrecido com alguma coisa. Ele respondeu-lhe que sim, que havia tido o maior aborrecimento de toda a sua vida. Aplicou-lhe um medicamento e só o liberou após algumas horas. Prescreveu-lhe um calmante e aconselhou-lhe que fizesse repouso, que procurasse ficar mais calmo e que voltasse para fazer alguns exames.

Quando entraram no carro, Samara perguntou-lhe qual foi o aborrecimento que teve. Ele respondeu que ela sabia e que parasse de torturá-lo. Que parasse de envenená-lo aos poucos, porque ele e sua irmã já estavam no fundo do poço, envenenados e crucificados.

- Já fomos castigados o suficiente - infelizmente não se pode voltar atrás - as coisas vão acontecendo e quando nos damos conta, já estamos afundados num pântano - não tem como se salvar – você nos ofereceu a corda para que nos enforcássemos – conseguiu o seu objetivo – estamos mortos - agora sei que foi você quem tramou tudo... - foi uma vingança perfeita.

Samara não disse nada. Preferiu calar-se e continuar a conversa quando estivesse melhor.

No dia seguinte, no café da manhã, continuaram a conversa e ela perguntou-lhe o que ele quis dizer...

 – Será que é por causa das fotos, do bilhete e da gravação? - será que é por causa da sua traição com a minha irmã? - será que é pela sua falsidade em todos esses anos que vivemos juntos? – será que é porque enquanto eu trabalhava, você dormia com ela em nossa cama? – será que é porque quando fomos a Miami Beach você escapava para deitar-se com ela? – ou será por arrependimento? - o que mais quer que eu lhe diga? – fale qual é o meu papel em toda esta sujeira... – por que não me pediu o divórcio? – poderíamos até ter ficado amigos - já que estamos abrindo o jogo, vou confessar-lhe: - Nunca lhe amei como queria – nunca houve um amor arrebatador entre nós, somente uma grande amizade - amizade e uma imensa gratidão - nunca vou negar isto até a hora de minha morte – nossa relação sempre foi de compreensão, parceria e cumplicidade - mas diante disto, você foi uma grande decepção - eu o tinha como o meu melhor amigo, acima de qualquer coisa – o amor que pensava não sentir por você, era compensado pelo grande carinho e profunda amizade e respeito que sempre lhe dediquei - éramos muito felizes apesar de tudo...

- Nunca me amou como eu desejava Samara – procurei fazer tudo que estava ao me alcance para que chegasse a amar-me um dia

– você foi e sempre será o grande amor de minha vida, mas o amor que eu desejava de você, nunca surgiu – por isso fiquei com a sua irmã – ela me ofereceu toda a paixão que eu queria ter encontrado em você... - nunca cheguei a amá-la de verdade, nunca! – foi o maior engano que cometi - quando estávamos juntos, quando a tinha em meus braços, era você quem eu abraçava, era você quem estava comigo em meus pensamentos...

Norberto chorava como uma criança e implorava-lhe repetidamente – perdão, perdão, perdão... – se não perdoar-me, serei capaz de morrer com esta mágoa em meu coração... – Não me deixe, me perdoe “mi amor” – meu coração está partido e você está dentro dele... Não poderei viver sem você.

Seu grande afeto, amizade e gratidão eram muito maiores do que o rancor, e sabia que o rancor era um veneno mortal que só fazia mal a quem o sentia. O perdoou em nome de tudo que viveram juntos. Todo o seu sucesso profissional, sua ascensão social, devia àquele homem e resolveu contar a Norberto tudo o que aconteceu entre ela e George.

- Norberto, eu o perdoo porque nessa vida, todos nós temos os nossos defeitos, os nossos deslizes – creio que existem certas atitudes que enaltecem o ser humano – e uma delas é a humildade - e neste momento, tenho a humildade de confessar-lhe que espero um filho de outro homem - sabe que não é seu e eu sei que este sempre foi o seu maior desejo desde que nos casamos e que isto seria o mais sublime de seus ideais – também errei – nós dois erramos - fui atrás de um amor que não existia e que foi somente uma nuvem passageira que me deixou cega impedindo-me de ver que o meu grande tesouro estava aqui ao meu lado – só pude descobrir isto depois de atravessar um oceano de amargura e desilusão - descobri que o amor não é feito somente de sedução, deslumbramento e êxtase - amor é muito mais do que isto - carrego este filho que é a minha maior riqueza, não importa de onde ele veio - fui buscá-lo em um caminho turvo e falso na mais profunda escuridão de minha consciência, mas Deus o colocou em meu ventre, me presenteando para mostrar-me o caminho da luz - o ofereço como o melhor presente que já lhe ofereci em toda a minha vida... - tenho a certeza que o amará como se fosse seu – agora, sou eu quem lhe pede perdão – “perdon mi amor” 

Norberto sem parar de chorar, abraçou a barriga de sua mulher e disse-lhe: - Eu o aceito como se fosse meu - o meu amor é muito maior do que o preconceito e a traição, pois nós dois tivemos culpa - nossas fraquezas poderão ser medidas com o mesmo peso, e esta criança não tem culpa de nada, ela será o nosso equilíbrio...

Najla queria ir embora para o Brasil, mas Samara não permitiu. Continuou dirigindo o restaurante com a sua ajuda. Compreendeu o seu desvio e quem sabe, até mesmo as suas carências e também a perdoou. Afinal, era a sua única irmã e o amor que tinha por ela, nunca poderia se apagar... O deslize que teve, serviu como uma grande experiência em toda a sua vida e a transformou em uma pessoa melhor, com mais visão, menos preconceito e mais maturidade.

Após alguns meses, Najla conheceu um viúvo libanês que logo a pediu em casamento. Samara ficou feliz ao vê-la realizada e com a vida encaminhada.

Sua experiência com George foi uma passagem de sua vida que a ensinou a crescer interiormente e a encarar o mundo de forma mais realista e madura e a compreender que as aparências muitas vezes nos enganam e nos fazem ver as coisas de maneira distorcidas. É o lado oculto da face. Todos nós temos dois lados. Foi uma passagem que ficou enterrada no passado...

Após o nascimento de seu filho Juan Jose, Samara e Norberto conheceram o que é o verdadeiro sentido da vida.

Com o passar do tempo, sentia que perdoar era perdoar a si mesmo...

E se você não perdoar a si mesmo, como vai ter condições de perdoar a quem quer que seja?

FIM

Autor(a): Malu Mussi

 

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