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INFORMAÇÃO / QUE SAUDADE

ÁRBITRO MARGARIDA
publicado em: 23/03/2018 por: Lou Micaldas

Clésio Moreira dos Santos - árbitro Margarida

“Árbitro bom, pelo menos uma vez na vida, tem que sair de camburão”

Vestido sempre de rosa, Clésio Moreira dos Santos incorpora a personagem que anima as partidas de futebol que apita. O seu jeitão já lhe rendeu convites para conhecer o Brasil e outros 30 países. No início da carreira, graças à invenção, Margarida conseguiu dinheiro para ajudar a criar os 10 irmãos e a sustentar o lar, quando o pai abandonou a família. Hoje vive confortavelmente com o cachê dos jogos beneficentes que participa e do salário de colunista esportivo.

Nesta entrevista aos jornalistas Franciele Marcon e Henrique Risse, ele revelou onde encontrou inspiração para a personagem, das propostas indecentes que recebeu por conta do seu jeitão afeminado em campo e das mazelas da arbitragem no Brasil. Respondeu perguntas indigestas como seus possíveis erros em jogos de times como o Marcílio Dias e Figueirense, teceu críticas à corrupção no futebol e à falta de atuação da direção de arbitragem da Federação Catarinense de Futebol. Também rasgou muita seda para o presidente Delfim de Pádua Peixoto, de quem não fala mal. Em assuntos polêmicos, como as informações dos famosos borderôs, Margarida, sorrindo, se livrou de uma resposta mais emblemática. Para quem gosta de arbitragem e é apaixonado por futebol, vale a pena conhecer um pouco mais o Margarida e ficar por dentro dos bastidores do futebol. As fotos são de Lucas Correia.

DIARINHO: O que o levou a ser árbitro de futebol?
Margarida:
O que me levou a ser árbitro é que eu era muito ruim de bola. Eu não sabia nada, era o famoso jogador caneludo. E sempre que eu ia jogar futebol, em função da minha perebice futebolística, sobrava pra mim carregar o saco de roupa e sobrava pra mim o apito. Depois, por uma necessidade de ajudar na formação da família, comecei a pegar gosto pela coisa e comecei a apitar futebol de salão, comecei a apitar futebol amador, pra ganhar os trocadinhos de fim de semana, pra contribuir na criação dos meus irmãos, porque a infância da gente não foi nada boa. Eu tinha 11 anos de idade quando meu pai resolveu nos abandonar e a minha mãe resolveu nos criar. Então eu sou o mais velho. Com 11 anos de idade, atrás de mim, havia mais seis irmãos. A gente trabalhou bastante e eu aproveitei a oportunidade do apito pra ganhar uns trocados extras pra ajudar na criação dos irmãos, pra ajudar no sustento do lar. Foi o que me levou a ser árbitro de futebol.

DIARINHO: O senhor lembra qual foi a primeira partida que apitou?
Margarida:
Pra valer, sim. Foi em 1994, quando eu fiz a minha estreia dentro do Campeonato Catarinense da Segunda Divisão. Na época, um campeonato Catarinense de Segunda Divisão muito valorizado, muito disputado, inclusive com a presença de um dos maiores clubes de futebol de Santa Catarina, que foi o Avaí. Isso no apito, até então eu era bandeirinha. No apito eu estreei em 1994, apitando a abertura do campeonato Catarinense da Segunda Divisão, envolvendo o Avaí e o Hercílio Luz - dois times tradicionais do futebol catarinense. [E como auxiliar ou assistente?] Como assistente eu não posso precisar quando fiz a estreia. Eu comecei, eu fiz o curso de arbitragem em 1988, dentro da federação Catarinense de Futebol, que era um curso realmente, curso de árbitro de futebol.

Não esses cursinhos que hoje em dia a federação faz. Que pra formação de um árbitro tem que ter um tempo mínimo de um ano. Hoje a federação forma um árbitro de futebol em três, quatro meses. O que não dá um cacife, não dá conhecimento pra quem quer arbitrar futebol. O árbitro de futebol tem que conhecer, além das 17 regras, o Código Brasileiro Disciplinar de Futebol. Ele tem que ter um pouco de conhecimento de aptidão física, um pouco de conhecimento de primeiros socorros. Então eu fiz esse curso em 1988 e fui formado em 1989, e eu comecei a bandeirar. Tive a oportunidade de bandeirar pra grandes árbitros do futebol catarinense, como Dalmo Bozzano, José Carlos Bezerra. Em Itajaí nós tínhamos o Sérgio Montegutti, enfim, árbitros de ponta. Em 1993 eu era um assistente, e a partir de 1994 foi quando eu comecei a carreira de apito mesmo. Aí eu só apitei.

DIARINHO: Como surgiu a ideia do Margarida? O que o inspirou?
Margarida:
Esse personagem surgiu a partir de 1998, 1999. Muitos confundem o Margarida catarinense, dizendo que é um imitador do Margarida carioca. Eu posso garantir a vocês que nada tem a ver o Margarida catarinense com o Margarida do Rio de Janeiro. Até é engraçado, porque o apelido de Margarida, que eu recebi, foi de um companheiro da imprensa, hoje ele é do departamento de comunicação do Avaí, Gastão Dubois, que trabalhou na imprensa do Rio, e quando veio pra Santa Catarina ele me achou parecido fisicamente com o Jorge Emiliano. Aí ele começou a dizer: “tu é parecido com o Margarida”. Começou a rotular isso na imprensa, na época, e pegou.

Eu comecei a gostar porque eu comecei a ver vídeos de árbitros folclóricos do futebol brasileiro, como Jorge Emiliano, como o próprio Armando Marques, como o Carlos Valdir Henze, de Santa Catarina, o Morgadinho, de São Paulo. São árbitros folclóricos, pitorescos, cheios de trejeitos, e eu comecei a gostar daquilo. Então eu comecei a botar na cabeça e em prática esses trejeitos dentro de futebol amador, dentro de peladas de fim de semana, de amigos, quando não era escalado pelo federação, quando era da Segunda Divisão, quando era o campeonato Catarinense de Juniores, e eu via que aquilo chamava a atenção do público. Até então eu só usava o tradicional uniforme preto que, cá pra nós, parecia ser um manequim de funerária. Eu nunca fui favorável à cor preta na vestimenta do árbitro. Em 1994, na segunda Divisão do Campeonato Catarinense, eu tive o privilégio de apitar um clássico do futebol catarinense, tinha que ser o Margarida pra apitar esse clássico: Chapecoense e Concórdia, na cidade de Concórdia, o tradicional clássico da linguiça. Imaginem vocês, o Margarida apitando o clássico da linguiça. E foi numa quarta-feira à noite, a televisão estava gravando o jogo, e no domingo à noite tinha um programa na TV Bandeirantes, capitaneado pelo Luciano do Vale, chamava-se Apito Final. Eles tinham um quadro onde escolhiam a imagem da semana.

E eu disputei a imagem da semana com um gol, um lance de gol que ocorreu, tinha que ser no campeonato Português, em que a bola bateu nas duas traves e não entrou. Com a bandeira do Brasil sendo hasteada de cabeça pra baixo na Bolívia, e o surgimento do novo Margarida no futebol brasileiro. Isso na TV Bandeirantes São Paulo, pra todo o Brasil. Aí comecei a estourar. O sucesso.

DIARINHO: Nesse clássico que você usou pela primeira vez a roupa rosa?
Margarida:
Não. Naquela época eu tinha uma imagem masculina [risos]. Era o tradicional uniforme preto, inclusive eu usava um bigodinho à la Clark Gable [risos]. [E quando foi a primeira vez? Foi em um jogo da federação?] Não, em campeonato oficial eu nunca usei. Nem na CBF, nem na federação catarinense, nem nas outras federações pelas quais eu participei de jogos oficiais. Comecei a utilizar o uniforme cor de rosa a partir de 2002. Eu vi que o Margarida não tinha nada a ver com a cor preta que se usava. Que o Margarida era um árbitro com trejeitos afeminados. Aí resolvi mandar confeccionar um uniforme rosa, e pegou. Então eu posso dizer com todas as palavras que eu sou o precursor de colocar uma cor tão feminina dentro de um esporte tão machista que é o futebol. A partir do momento que eu comecei a divulgar a minha imagem com o uniforme cor de rosa... Hoje em dia é comum você ver um Neymar com uma chuteira cor de rosa, um Cristiano Ronaldo de chuteira cor de rosa. Times de futebol, o Atlético Mineiro tem o seu segundo uniforme cor de rosa. Eu sou o precursor da cor rosa dentro do futebol.

DIARINHO: Por conta dos trejeitos, você já sofreu algum ato de homofobia ou preconceito?
Margarida:
Não, não. Já recebi muita cantada dentro do campo, de jogadores. Mas homofobia, ataques, isso aí, graças a Deus, nunca. [Que cantadas foram essas?] Aí é um segredo de quatro estados. Mas cantadas de jogadores e torcedores já foram bastantes. [Algum jogador famoso?] Jogador bem conhecido dentro de Santa Catarina. Eu vou evitar nomes, mas uma das histórias foi quando eu dirigi um jogo Joinville e Figueirense, no antigo estádio do Joinville. Um jogador vindo do Rio de Janeiro pra Santa Catarina se engraçou com a figurinha do Margarida. Esperou a gente entrar no vestiário pra perguntar se havia a possibilidade, depois do jogo, de eu sair com ele pra jantar. Era muito comum isso na minha carreira. [Aceitou algum convite?] Não, não, nunca aceitei convite, não [risos]. Sempre deixava na expectativa [risos].

DIARINHO: Se fala muito em homossexualidade no meio do futebol, que ela existe, mas são poucos os jogadores que têm coragem de assumir. É fato ou especulação?
Margarida:
É fato! O futebol, por ser um esporte praticado por uma grande gama de homens, entre aspas muitas vezes, é comum a homossexualidade no futebol. Principalmente porque eles convivem em concentração, eles ficam o dia todo juntos e depois vão pro vestiário. E lá dentro do vestiário, minha querida, a gente vê cada coisa... Nossa mãe! [Conta um pouquinho do que o senhor viu pra gente...] Não, são coisas bonitas. Aquelas beldades, aquelas pernas todas depiladas, aquele cheirinho de cânfora. Quando eu entrava naqueles vestiários, meu Deus, dava uma vontade... [risos].

DIARINHO: Como a sua família encara essa encarnação do Margarida? Os filhos já sofreram algum preconceito na escola?
Margarida:
O Guilherme e a Mariana já eram adolescentes e não sofreram tanto. Quem sofreu um pouquinho mais foi o Pedro. Na infância dele, hoje o Pedro tem 19 anos de idade, eu me prontifiquei a ir até a escola. Ele tava sendo caçoado pelos amiguinhos, diziam que era filho do Margarida, que o pai era gay, veado. Eu fui lá na escola, pedi autorização pra entrar na sala de aula, convoquei toda a classe do meu filho pra explicar pros coleguinhas que o Margarida dentro do campo era um, e Clésio Moreira, o pai do Pedro, fora das quatro linhas, era um pessoa totalmente diferente, um pai de família, um homem. A partir daquele momento nunca mais teve nada. Mas eu sempre tive um apoio grande, tanto da minha esposa como dos meus três filhos. Até hoje os meus três filhos têm o maior orgulho de saber que o pai deles tem uma vida regrada na capacidade de fazer as coisas certas. Dentro do futebol eu muitas vezes errei, mas erros são normais dentro de uma partida de futebol. Já tive propostas pra receber propina, mas confesso a vocês que todos que me fizeram propostas pra eu receber propina, todos eles receberam o deles. Sempre contrário a eles [risos].

DIARINHO: Em relação à federação, houve alguma represália?
Margarida:
Houve sim. No início vários companheiros de arbitragem não aceitavam a maneira que eu comandava o jogo de futebol, com a minha diversão. Mas sempre fui severo nas regras. Porque não adiantava nada ser um cara cômico, um cara engraçado dentro de um campo de futebol, se eu não soubesse respeitar as 17 regras. Porque aí eu não seria cômico, não seria engraçado, eu seria patético. Aí seria uma personagem pejorativa. Então eu tive muito questionamento de companheiros de arbitragem, que achavam que eu não ia a lugar nenhum com esse personagem. Alguns diretores da própria federação também. Eu não posso reclamar do meu querido presidente, doutor Delfim [de Pádua Peixoto Filho], que pra mim nunca foi presidente, nunca foi amigo, pra mim sempre foi um pai. Foi a pessoa que mais me apoiou, foi a pessoa que apostou no árbitro Margarida e na pessoa Clésio Moreira dos Santos. Mas alguns diretores da federação, alguns companheiros de arbitragem me questionavam muito sim. [Já deixou de apitar algum jogo por conta disso?] Não, não, não. Nunca. Até mesmo porque nas minhas escalas eu sempre tinha o comando da partida na mão e eu nunca deixei a desejar dentro de um jogo de futebol. Então a questão das escalas não, até mesmo porque eu tinha as costas muito quentes lá dentro da federação.

DIARINHO: Com relação às roupas, quem as prepara? O senhor mesmo ou a sua mulher?
Margarida:
O rosa foi até uma questão de conversa da Marluce [a esposa], a Mariana, minha filha, e eu. Foi uma ideia das duas: “olha, pai, esse preto aí não tem nada a ver contigo, o que achas de um uniforme cor de rosa?” Gostei da ideia, a gente mandou fazer um uniforme simples. Fui apitar uma pelada de amigos e foi o maior sucesso. Hoje o Margarida percorre o Brasil todo, de norte a sul, de leste a oeste, e mais de 30 países. Então o uniformezinho cor de rosa do Margarida tá fazendo sucesso por aí afora.

DIARINHO: Algum auxiliar já se negou a dividir o gramado, durante uma partida, com o senhor por conta da situação?
Margarida:
Não, os assistentes, quando eram escalados pra trabalhar com a gente, eles tinham o maior gosto, maior carinho. A rapaziada que segura o pauzinho da bandeira, o pauzinho da bandeira, gente [risos]! Eu só ficava constrangido porque na época – hoje não, hoje existe vestiário anexo para que a mulher possa trocar o seu uniforme – mas na época ficava constrangido quando era escalado com uma mulher. Não tenho nada contra mulher, pelo amor de Deus. Mas eu ficava meio constrangido porque a gente tinha que trocar o uniforme tudo junto. Então geralmente eu pedia, quando era eu e outro rapaz, eu pedia pra que a gente saísse primeiro, deixasse a menina à vontade dentro do vestiário, se trocando, colocando o uniforme base, depois ela saía e a gente entrava e trocava de roupa.

DIARINHO: Verdade que o senhor toma muito calote em jogos festivos e beneficentes?
Margarida:
Já, já tomei calote. Foi um jogo em Brusque, fim de ano. E um jogo aqui em Florianópolis, também de fim de ano. Eu fico chateado porque essas pessoas promovem esses jogos festivos e levam o projeto pra um empresário, e nesse projeto eles utilizam a imagem da gente. Então a gente cobra, tem custo. Você sai da sua casa e tem gasto com combustível, com alimentação. Você acerta com uma pessoa pra receber e é chato, depois do jogo, você não receber aquilo que lhe é devido. Até já tomei, e não foi só nesses jogos festivos não. O próprio campeonato Catarinense, na minha época, também já deu muito calote.

DIARINHO: O senhor já declarou que torce pro Guarani de Palhoça. É difícil apitar um jogo quando o seu time joga?
Margarida:
Não, nunca foi difícil. Eu torço pro futebol do Guarani de Palhoça na atualidade, dentro do futebol catarinense. Mesmo porque nós somos um município da Grande Florianópolis. E aqui ou você é torcedor do Avaí ou você é torcedor do Figueirense. Outras equipes aqui da grande Florianópolis já tentaram o sucesso no Catarinense e não conseguiram. O próprio BAC, de Biguaçu, o Tiradentes, de Tijucas. E o Guarani conseguiu esse feito de retornar à elite do futebol catarinense. E eu, por ser palhocense, é claro que sempre vou torcer. Mas o meu time do coração mesmo, time que eu torço de paixão é o Flamengo do Rio de Janeiro. E a minha estreia no apito, num jogo da CBF [Confederação Brasileira de Futebol], quando eu comecei a participar do quadro de árbitro da CBF, foi um jogo que me marca muito. Foi num sábado à tarde, no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, envolvendo nada mais, nada menos, do que Inter de Porto Alegre e Flamengo do Rio de Janeiro. Confesso a vocês que eu não ajudei o Flamengo não, apesar de ser fanático. Mas o Flamengo não perdeu esse jogo, empatou em 2 a 2. [Qual garantia que o torcedor do Inter tinha que o senhor não ia dar uma ajudadinha pro seu time?] Lá dentro do campo de futebol eu tenho que preservar a imagem do árbitro e jamais, independentemente de quem fosse, e eu sempre respeitei uma das personagens mais importantes do futebol brasileiro: o torcedor. Acho que não só eu, como todo jogador de futebol, tem que ter respeito, e muito, pelo torcedor brasileiro. Porque ele é a força, ele é a razão de existir o futebol.

DIARINHO: Tivemos recentemente o escândalo da escolha da arbitragem e dos resultados de jogos acertados. O senhor acredita que isso ainda acontece no Brasil e no mundo?
Margarida:
Na Europa as manipulações de resultados foram muito grandes. Aqui no Brasil a gente teve o caso Edílson [Pereira de Carvalho]. Foi uma página negra pra arbitragem brasileira. E na Europa, agora, a UEFA, a copa dos Campeões, a própria eliminatória da copa do Mundo, dentro da Europa, está sub judice. Gente que manipulou resultado. Então, se houve manipulação de resultado, houve envolvimento de arbitragem. Porque o árbitro, se quiser fazer o resultado, ele faz e ninguém vê. E aqui no Brasil infelizmente aconteceu. Mas aqui em Santa Catarina nunca houve esse problema não.

Como eu falei no início, já tive várias oportunidades de ser manipulado. Propostas não faltaram, propostas boas, mas posso botar a cabeça no travesseiro e dormir com a consciência tranquila. Como eu falei: quando faziam proposta pra mim, eles recebiam o deles. E geralmente o que recebiam era a derrota - quem fazia a proposta. [No caso Edílson, um dos jogos que ele tentou manipular foi o Juventude e Figueirense, em Caxias do Sul, mas o Edmundo, à época no Figueirense, acabou com o jogo e ele não conseguiu manipular o resultado...] Mas quando o árbitro quiser fazer o resultado ele faz, e a maioria das pessoas não vê. Veja bem, se ele quiser fazer ele vai começar a minar a equipe com cartões amarelos, vai começar a provocar faltas próximas à grande área do adversário, vai começar a reverter situações de faltas contra a equipe. Enfim, se o árbitro quiser fazer um resultado ele faz.

[Mas a federação deveria ver, né? Se tem esses indícios, deveria haver uma cobrança, uma forma de evitar...] Veja bem, quem dirige o departamento de arbitragem das federações, aqui em Santa Catarina especificamente, quem dirige o departamento de futebol da federação Catarinense? Vamos aqui colocar o nosso peixe, apitou aonde? Quando? É uma pessoa que inclusive nem é daqui, é de São Paulo. Se não é conhecedor do assunto, o árbitro vai lá e faz e ele nem entende.

DIARINHO: Falando em federação e arbitragem, nós temos diversas denúncias de que o Delfinzinho, filho do Delfim, que é quem comanda a escala de árbitros, só escala os amigos dele ou teria até que pagar uma taxa “por fora pro árbitro ser escalado. De fato acontecesse isso?
Margarida:
Eu já ouvi, já ouvi bastante isso, mas comigo nunca aconteceu. Tenho o maior carinho pelo Delfinzinho, tenho uma amizade boa com ele, comigo nunca. Acho que tem que ter capacidade técnica, tem que ser bom. Na minha época, em que eu era árbitro de futebol, minhas escalas eu garantia com a minha capacidade, com o meu trabalho. Esse fato de uns que querem começar na arbitragem, ou que querem se manter na arbitragem, sem a capacidade técnica, isso é comum dentro de federação. São os famosos presentinhos. O árbitro que adora dar um presentinho pro seu diretor. Eu, graças a Deus, posso falar de boca cheia que um diretor meu nunca recebeu um presentinho. Pelo contrário, eu pegava presentinho deles, que eram as escalas [risos].

DIARINHO: Como era lidar com os erros? Sair do estádio satisfeito com o trabalho, mas chegar em casa e ver que errou...
Margarida:
Quando aconteciam erros de arbitragem nos meus jogos, eu nem chegava em casa pra ver se tinha errado. Dentro do vestiário, quando a gente ia tomar o nosso banho, eu já ficava cabisbaixo, já ficava chateado, ficava angustiado por saber que eu havia prejudicado, sem intenção, uma equipe de futebol. Que a gente com a consciência, com o profissionalismo, já pode fazer uma análise assim que termina o jogo: “putz, foi falta e eu não apliquei, foi pênalti e eu não dei, foi um gol e eu anulei”. Então o cara que é capacitado, que é profissional, e que tem a consciência, no próprio vestiário, já sabe. E vou dizer pra vocês: é muito dolorido pro árbitro, que tem consciência, que é profissional, que é capacitado, lidar com essa situação. [Tem algum desses erros que marcou o senhor?] Tem, por exemplo, num jogo envolvendo Joinville e Figueirense, eu era pra entrar no Guiness. Eu terminei o jogo com 12 jogadores em campo pela equipe do Joinville. Houve um erro do meu 4º árbitro, o árbitro reserva. Eu pedi que ele aguardasse a re-entrada do atleta, eu mandei o atleta que ia ser substituído entrar e ele mandou o atleta que era pra entrar, também. Ou seja, terminei um jogo com 12 jogadores. Foi um erro muito grande, esse é um dos erros que marca a minha carreira.

DIARINHO: Um erro que a torcida do Marcílio Dias não esquece foi o de 2004, contra o Joinville...
Margarida:
Quando o menino do Joinville subiu pra fazer o gol, o próprio atacante foi trancado, ele foi travado pelo jogador do Marcílio Dias. Nesse lance aí eu tenho plena consciência que acertei, que eu não errei, não. [Mas o gol legítimo era do Marcílio...] Ele fez o gol, o menino do Marcílio fez o gol utilizando o corpo do seu adversário. Ou seja, na regra 12 não é permitido utilizar a projeção do corpo em cima do adversário. Isso aí eu tenho consciência. [Na época os torcedores falaram que foi pra ajudar o Figueirense...] Não, naquela época o Figueirense nem foi campeão. [Foi campeão!] Ah, foi campeão? Tu vê que eu sou tão bom que nem lembro. Na realidade não era nem pra tá ajudando o Figueirense em 2004, era pra tá ajudando o Guarani de Palhoça, que na época também estava disputando e que tinha interesse na vaga. Mas tenho consciência de que nesse lance aí eu não errei não.

DIARINHO – Também tem uma polêmica envolvendo a final do campeonato Catarinense de 1999, que até hoje a torcida do Avaí não consegue esquecer...
Margarida:
Não consegue esquecer porque na regra 11, que é o impedimento, quando um atleta encontra-se entre a linha de fundo e a bola, sem ser marcado por um jogador, ele está impedido. O lance é que, infelizmente, na nossa imprensa esportiva, o que falta é gente capacitada para comentar arbitragem. Hoje, qualquer um comenta arbitragem. Comenta como qualquer torcedor... Torcedor não entende regras. Se o torcedor não entende, esses comentaristas que aí estão também não entendem! A maioria desses comentaristas nunca entrou em campo de futebol. Nunca usaram um uniforme. Os caras falam só baboseira. Abobrinha!

O lance do Figueirense e Avaí foi que o Regis bateu a falta, o atacante do Avaí estava na posição de impedimento e eu erradamente, numa posição de visão para o assistente, na época o Paulo Henrique de Godoy Bezerra, no exato momento levantou a bandeira e permaneceu dignamente, honradamente, corajosamente com o bastão erguido, com a bandeira erguida, indicando que aquele lance estava anulado. Eu esqueci de olhar para o Paulo Henrique e dei continuidade à jogada. Houve um tumulto dentro da área até que a bola sobrou para o atacante Adilson, infelizmente já falecido, tocar para dentro da goleira do Avaí. Eu marquei o gol e fui para o meio do campo. Os jogadores do Figueirense vieram ao meu encontro e falaram: “professor, o seu bandeirinha está indicando alguma coisa”. Eu fui lá no Paulo Henrique e ele falou: “estou há mais de uma hora com essa bandeira erguida e tu não me olhou”.

Eu falei: “o que foi, Paulo Henrique?”. Ele disse: “impedimento do jogador do Avaí”. Voltei atrás e dei impedimento. Essa foi a polêmica. Mas as pessoas que estavam comentando a arbitragem e que comentam até hoje, inclusive uma certa figurinha da Grande Florianópolis que nada entende de futebol, de arbitragem, entende muito de torcer para o time dele, foi que causou toda a polêmica e colocou toda a farofa no ventilador. Se não fosse a coragem e a dignidade do Paulo Henrique de Godoy Bezerra, eu teria cometido um grande erro, que daria o título ao Avaí. Eu ia fazer uma grande sacanagem com o Figueirense.

DIARINHO – Falam que não existe nada mais falso no futebol que os borderôs. Realmente, há diferença na prática do que é oficialmente divulgado em torcedores pagantes e os não pagantes?
Margarida:
Entra muito mais gente em um estádio de futebol do que aparece dentro de um borderô. [E para onde vai esse dinheiro?] Aí, não sei. De uma coisa tenho certeza: para o meu bolso é que não. Mas tem vários jogos aí que a gente vai olhar, a gente vê em um clássico ou em um Joinville e Criciúma, a gente vê que o estádio está com a capacidade acima daquilo que os borderôs estão indicando, estão comunicando para a federação. Eu acho até estranho que esteja entrando muita gente de graça dentro de um jogo de futebol. Dizem que entra muita gente de graça, mas enfim, esse fato é verídico sim. [Não poderia ser um acerto da federação com os times de futebol, para declarar menos público e pagar menos impostos?] Uma boa ideia.... [risos]...

DIARINHO – Tem muita corrupção no futebol? Tem muita coisa para se acertar?
Margarida:
Agora nós tivemos mais um escândalo no futebol brasileiro e estamos diante da Copa do Mundo, ano que vem. O vizinho de condomínio do presidente da CBF, José Maria Marin, estava assustado com a exorbitância da cobrança de energia elétrica do apartamento dele, solicitou uma averiguação dos valores e foram ver, tinha um gato no relógio. Foram descobrir que era do presidente do CBF. Quer dizer, o homem já levou uma medalha na entrega da Copa de Futebol Júnior no ano retrasado, escondeu a medalha, e agora faz um gato na energia?! Para nós moralizarmos o futebol no Brasil tem que começar de cima para baixo. Enquanto só tirarmos as moscas que voam e deixar o monte grande lá em cima, daí vai ficar ruim.

DIARINHO – Alguns clubes, às vezes, vetam um árbitro. O inverso acontece também: eu não quero apitar jogo desse time...
Margarida:
Olha, eu nunca tive veto não. Mesmo como falamos lá no início, o Avaí chateado comigo em 99, eu cheguei a apitar outra final Figueirense e Avaí em 2002. Apitei vários jogos do Avaí na séria B, C do Brasileiro, campeonato Sul-Brasileiro e o próprio Catarinense. Nunca teve veto. Árbitro que vier pedir para não apitar jogo daquele time é porque é um baita de um cagão. Está com medo de apitar o jogo. Eu não chamo esse árbitro de frouxo. É o famoso árbitro cagão. Porque o cara que entra dentro de campo de futebol com o poder nas mãos, o apito, com dois cartões, o amarelo e o vermelho, e uma súmula para fazer e tiver com medo de apitar?! Então vai embora. Vai cuidar de bonequinha, vai lavar roupinha.

DIARINHO – Sobre erros de arbitragem, o que o senhor acha mais grave: aquele gol do Lambert na Copa do Mundo, que a bola entrou mais de um metro, ou do Armando Marques na final da Portuguesa e Santos que ele se perdeu na contagem?
Margarida:
Ele se perdeu na conta. Mas vindo do Armando, nada é bom também. Ele foi o maior algoz que eu tive dentro do futebol brasileiro. Eu me inspirei nele, nos seus trejeitos, e quando ele assumiu o departamento técnico da CBF, a primeira coisa que ele fez foi ligar para o doutor Delfim [de Pádua Peixoto] e avisar: “Delfim, avisa para o teu Margarida aí que veado, daqui pra frente, só existe um no futebol”. Aí ele começou a me perseguir até eu sair da CBF. O Armando nunca se perdeu na contagem da penalidade, o Maradona nunca fez gol com a mão, esse lance do Lambert, são erros que infelizmente acontecem.

Eu não sou favorável à parafernália eletrônica pra tirar dúvida do futebol. Porque o mais gostoso do futebol é a polêmica. A regra mais linda dentro do futebol, que o torcedor mais odeia e a maioria do jogador odeia, é a regra 11, que é a regra do impedimento. O gostoso do futebol é o amanhã. O depois do resultado. A polêmica que gera. A polêmica gerada dentro de uma partida de futebol, ela nos causa a satisfação de dar trabalho à imprensa, dar trabalho para o torcedor discutir a semana toda. Se foi pênalti ou não foi, se a bola entrou ou não entrou, se estava impedido ou não estava impedido. A polêmica é a coisa gostosa do futebol.

DIARINHO – Por que ser árbitro ainda não é considerado profissão no Brasil?
Margarida:
O único personagem dentro do futebol profissional que não é profissional é o árbitro. O massagista é profissional; o roupeiro é profissional; o técnico, o treinador, o médico é profissional. Acho que até o gandula, que fica catando as bolas, é profissional, com carteirinha assinada e tudo. O árbitro não é profissional e cobram demais da arbitragem. O árbitro, para entrar numa federação e para entrar na CBF, precisar provar, através de um documento, que ele tem uma profissão paralela à arbitragem. Daí, cobram aptidão física, cobram conhecimento de regra, cobram um monte de coisas, e ele tem que trabalhar. Tem que se preparar física e teoricamente... Para melhorar 100% a arbitragem no Brasil, só com a profissionalização do árbitro. Claro que não vai acontecer isso porque as federações não têm interesse e, principalmente, porque os clubes não têm interesse. E mais do que nunca: porque a CBF não tem interesse. Isso daria uma despesa trabalhista muito grande para esses caras.

DIARINHO – Porque o presidente Delfim de Pádua Peixoto não sai da Federação Catarinense de Futebol?
Margarida:
O dr. Delfim não sai da FCF apenas por duas coisas: clubes de futebol profissional e ligas de futebol de Santa Catarina. São as únicas duas instituições que podem, que devem e que elegem o presidente de dois em dois anos. O dr. Delfim está lá pela sua capacidade e também porque é reeleito pelos presidentes de clubes de futebol profissional e pelos presidentes de liga das federações de futebol amador de Santa Catarina. Só por isso... Porque, se dependesse do torcedor, com certeza ele não estaria mais lá. Mas quem elege não é o torcedor. Quem elege é o presidente de liga e o presidente de clube. Se está lá, é porque está agradando os caras.

DIARINHO – Falando em preparação física. Está exagerada a cobrança em cima do condicionamento físico? 
Margarida:
Está! Se a Fifa quer árbitro veloz, que vá buscar o Usain Bolt... Estão deixando de ter árbitro técnico, árbitros capacitados, árbitros com conhecimento e experiência de regra, para colocar a rapaziada que corre. Árbitro não tem que ser velocista, árbitro tem que ser inteligente. O árbitro que corre demais é até ruim, porque atrapalha a jogada. [Quem é o árbitro brasileiro que tem capacidade para apitar uma final de Copa do Mundo?] É bem provável que não vá ter nenhum árbitro brasileiro na próxima Copa do Mundo. O Brasil não tem árbitros profissionais e a Fifa está exigindo profissionalização dos árbitros. Dentre os árbitros brasileiros temos bons nomes, como o Paulo César de Oliveira, o Héber Roberto Lopes, o Leandro Boaden, enfim, temos bons árbitros. Poucos, mas temos bons. [Quem é o melhor árbitro da atualidade?] Do Brasil, ainda continuo com o Paulo César de Oliveira, o Leandro Boaden e o Héber Roberto Lopes. São os três melhores no momento. [A gente teve uma experiência negativa com um árbitro catarinense no Brasileirão, que foi o Célio Amorim, pois aconteceram muitos erros e foi uma arbitragem confusa. Santa Catarina ainda não está preparada para ter bons árbitros apitando jogos nacionais?] O Célio é uma promessa de arbitragem. O problema é que o Celinho está dentro de uma federação de menor expressão. Se ele tivesse numa federação carioca ou numa federação paulista, ele já estaria muito mais longe. Porque essas federações, principalmente a paulista, trabalham muito com os seus árbitros, coisa diferente aqui em Santa Catarina.

DIARINHO – O que mais lhe envergonhou em campo e o que mais lhe deu alegria?
Margarida:
O que mais me envergonhou dentro de campo era quando eu ia apitar jogo de futebol e eu via a rivalidade das torcidas. As brigas generalizadas, os tumultos. Porque futebol é alegria, futebol é diversão, e a gente via pai de família, com as famílias inteiras, que iam para torcer por seu time, e as famigeradas torcidas organizadas se digladiando, colocando em risco de vida aquela família. A alegria que o futebol me proporcionou foi saber que hoje eu sou uma figura folclórica do futebol brasileiro. Hoje eu pertenço à história do futebol brasileiro. [Já apanhou dentro de campo?] Não, não. Já houve encontros, contato, mas petelecos, chutes na canela, isso nunca ocorreu não. [E já saiu correndo pra não apanhar?] Não. Já tive a oportunidade de sair dentro de um camburão. Porque árbitro bom, pelo menos uma vez na vida, tem que sair de camburão.

DIARINHO – O senhor falou da torcida organizada. A torcida organizada, ao invés de ajudar, acaba atrapalhando?
Margarida:
O componente da torcida organizada, na realidade, ele não torce pelo seu time. Ele só prejudica o clube. A torcida organizada, quando vai para um jogo de futebol, não vai para torcer. O intuito é simplesmente se digladiar com a torcida adversária. Isso acontece em Itajaí, em Joinville, acontece em Florianópolis. Está acontecendo em outras regiões que jamais imaginamos, como Chapecó, que era uma cidade tão pacata. A torcida organizada é o câncer do futebol. O verdadeiro torcedor, o torcedor que vai com a alma torcer para sua equipe, vai para torcer, para xingar o árbitro, para xingar o adversário, vai vibrar pelo gol, enfim, ele não vai lá para brigar. O futebol é a válvula de escape, a diversão, a emoção de torcer por sua equipe.

DIARINHO – Um jogo inesquecível?
Margarida:
1995, a minha estreia no campeonato Brasileiro com Internacional x Flamengo. E, principalmente, uma decisão. Eu tenho cinco decisões de campeonatos Catarinenses, uma das mais polêmicas, que eu mais guardo com carinho: 1999, o clássico maior do futebol Catarinense: Figueirense e Avaí. Duas partidas inesquecíveis.

RAIO X
NOME: Clésio Moreira dos Santos 
NATURALIDADE: Palhoça - Santa Catarina 
IDADE: 54 anos
ESTADO CIVIL: casado
FILHOS: três filhos
FORMAÇÃO: Segundo grau completo e árbitro pela Federação Catarinense de Futebol 
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: membro da Federação Catarinense de Futebol de 1989 a 2004; membro da Confederação Brasileiro de Futebol de 1994 a 2004; fundador e diretor do Sindicato de Árbitros de Santa Catarina em 1995; colunista semanal do jornal Palavra Palhocense onde escreve há 10 anos a coluna “Cartão Rosa” e árbitro convidado para jogos beneficentes e festivos.

Porque o árbitro se quiser fazer o resultado, ele faz e ninguém vê

Árbitro que vier pedir para não apitar jogo daquele time é porque é um baita de um cagão. Está com medo de apitar o jogo

O gostoso do futebol é o amanhã

Veja, abaixo, alguns vídeos com Margarida atuando no jogos de futebol:​

Autor(a): Franciele Marcon e Henrique Risse
Fonte: www.diarinho.com.br
Colaborador(a): Zeca Pizzolato

 

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