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DOMINGO DA VIDA
publicado em: 14/11/2017 por: Lou Micaldas

Sejamos, com a nossa ciência de viver, um exemplo para os que vêm atrás de nós.

Deus criou o mundo em seis dias, e no sétimo descansou. O homem vem criando, desde aí, todas as complicações e ainda não descansou.

As belas coisas e as mais necessárias nos são dadas de graça: o sol, que nasceu para todos; a água, que jorra das fontes, pura e límpida, antes de os homens a poluírem; o ar, que é Vida, mesmo cheio de fumaça e poeiras poluentes; as frutas, que as árvores nos oferecem estendendo seus braços de galhos.

Na alegria de ver, há os belos panoramas para todos os gostos, do acadêmico ao concreto, passando pelos impressionistas, expressionistas e abstracionistas.

Nunca um pôr-do-sol igual a outro. Nunca um luar como outro. O espetáculo do mar, manso e revolto, sempre novo para o prazer dos olhos. E o verde, destemido e teimoso, que luta com o cimento armado pelo título de campeão na peleja entre a selva de pedra e selva vegetal. A beleza da fauna e da flora. O perfume das flores. O canto dos passarinhos. A maravilha do nosso mundo multicolorido.

Todas as belezas das Vida e todas as riquezas da Vida, para os nossos cinco sentidos: a audição, a visão, o paladar, o tato e o olfato.

Epicuro era um velho filósofo grego que ensinava ser o prazer o bem supremo do homem. Considerava que se deveria empregar todos os esforços para obtê-lo. Não se referia, como o acusavam, somente ao gozo sexual, mas sim à busca de tudo que pudesse proporcionar prazer e alegria. Suas ideias muito influenciaram Voltaire, Diderot, Buffon e outros sábios pensadores.

Os bichos usam o instinto, o discernimento que possuem, no sentido de realizar seus impulsos e desejos naturais, com caçar para comer, distinguir o bom do nocivo, do perigoso. O homem usa sua inteligência para, ao contrário, se contrariar. Conquista, com sua capacidade, inteligência, energia e vontade, o direito de ser infeliz. E chamamos burro ao burro? Basta pensar que o homem é o único animal para o qual a Vida é problema.

O homem traça com um giz um círculo em torno de si próprio, e chora por estar preso. Por que não apaga, com os pés, aquela limitação que ele se deu? Aquela limitação de dimensões mesquinhas, de sua atuação na Vida, que ele mesmo traçou medindo, pesando, rotulando, estabelecendo regras, normas, padrões? E luta, para amoldar-se, ajustar-se num espaço tão cruel como íntimo, tão inútil como capaz de gerar sofrimento e causar frustrações?

Antes de gritarmos pela liberdade dos povos, gritemos pela liberdade individual, e estaremos a caminho da liberdade dos povos.

Vivemos encarcerados em nossos preconceitos, falsos conceitos, tradições, regras que tanto nos infelicitam. A eles vivemos agarrados, por hábito, por vício, por serem eles uma herança que nos ficou dos antepassados, com o compromisso de passá-la aos descendentes.

Por que não cortar, agora e aqui mesmo, esta cadeia que se vem alongando através dos tempos, até nós? Que ao menos não vá além de nós.

A velhice é o domingo da vida

Um ser humano que evolua normalmente nasce, cresce, procria, descansa e termina contemplando sua trajetória, não desperdiçando tempo, não se desgastando com os sofrimentos inúteis e estéreis. Se tudo fez para conservar a vida, é óbvio dar a ela seu alto e justo valor.

E então, missão cumprida, todos temos direito ao nosso domingo de lazer.

Domingo é dia de alegria, de recreio. Podemos pôr, dentro do nosso domingo, tudo que quisermos. Ele é nosso.

Podemos prolongar este fim de semana pelo processo de valorizar cada minuto, que o tempo é como água entre os dedos da mão. As tarefas terminaram. Limpemos as mãos e vamos ocupá-las só com aquilo que queremos, que gostamos de fazer.

Pessoas há que não fazem nada por simples prazer. E o princípio básico do lazer é a livre escolha.

Há pessoas que acham que nasceram para cumprir obrigações. Grande número delas, homens e mulheres, sentem-se culpados quando estão apenas se divertindo. É comum ouvir-se: "A conversa está muito boa, mas preciso ir cuidar de coisas mais úteis". Haverá coisa mais útil que uma boa conversa? Ou uma boa brincadeira? Ou qualquer tipo de diversão, que tanto nos alivia das tensões e preocupações diárias, tornando-nos bem-dispostos, descontraídos, em plena forma?

Mas é comum encontrar-se quem, compulsivamente, sinta a obrigação das obrigações. Parece-lhe que alguém o está vigiando para gritar-lhe: "Vai trabalhar, vagabundo!" Sente-se culpado. Seu exagerado senso de responsabilidade não tolera alguns momentos de dolce far niente. Pessoas assim são masoquistas do trabalho.

Vamos viver nosso domingo. Não deixemos que ninguém nos roube este precioso tempo que é nosso.

Não nos imponhamos deveres por medo de estarmos errados. Errado é ser infeliz. Não devemos nos agarrar a ideias retrógradas, e sim adotar novas soluções para novos problemas. O mundo não é o mesmo, as soluções não podem ser as mesmas. Digamos, com o Almirante Hart, esta bela oração, plena de sabedoria e humildade:

"Senhor, dai-me serenidade para suportar as coisas que não posso mudar; força para mudar as que posso e devo mudar; inteligência para distinguir uma coisa de outra".

Tracemos um plano para dar liberdade, a fim de podermos recebê-la em troca. Sejamos, com a nossa ciência de viver, um exemplo para os que vêm atrás de nós.

É o domingo da vida!

Domingo que é dia de sol. Sol que é luz do espírito, da sabedoria. Vamos abrir as janelas, abrir os olhos, abrir o coração para que entrem luz e calor.

A vida é bela e merece ser vivida.

E perguntemos como Lucrécio, filosofo grego: "Por que não sair do banquete da Vida como um conviva saciado?"

Meus amigos ponham a Vida numa bandeja, e sirvam-se.

Magdalena Léa
Poetisa e escritora, autora do livro 
"Quem tem Medo de Envelhecer?"

Autor(a): Magdalena Léa

 

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