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FALSAS LEMBRANÇAS
publicado em: 14/11/2017 por: Lou Micaldas

Tanta gente se queixa da vida vazia! 
Vida vazia? Calúnia. 
A gente é que é vazia. 
A vida é sempre cheia.

Que nos impede de sermos felizes?

Confúcio disse: "Enfeitamos de ouro e pedras preciosas nossas lembranças".

A supervalorização do que não temos, ou já perdemos, é uma fixação "no meu tempo..." A gente põe o olhar lá longe e vê... o que quer, nem sempre o que realmente aconteceu. O "meu tempo", que ficou lá atrás, onde eu deixei cair minha âncora, agora, na distância, parece lindo. Tudo que aconteceu foi maravilhoso.

Entre tantas maravilhas, soltei minha âncora e lá estou eu ancorada no passado.

"Recordar É VIVER". Sim, e reviver. A recordação pode funcionar como uma TV onde a gente focaliza o canal que quer. Precisamos, entretanto, controlá-la, pois a TV altera as imagens dando-lhes um colorido tantas vezes falso. 
O botão precisa ser manejado para dosar as recordações.

Assim é bom e benéfico o efeito de recordar. Lembramos com carinho, com doçura, pessoas e momentos que passaram por nossa vida como um filme.

Cuidado, porém, para que não se torne vício, um LSD em viagens para trás.

Não volte. Pense, lembre, conte a alguém, mas em seguida engrene no hoje, no agora.

Para que isso aconteça é preciso ser sincero consigo mesmo. Quando se diz: "no meu tempo...", conta-se logo uma história em que se foi um grande herói. Convém virar o botão, mudando o canal e consultando o Ibope, lembrar dos foras. Quem pode dizer com firmeza que nunca os levou?

Homens dizem a seus filhos: "Eu quando era da sua idade, era o dono das beldades de toda a vizinhança, quiçá do mundo." E o garotão se estarrece. "No meu tempo... fui o melhor aluno da classe, o melhor jogador de "pelada", o melhor isto ou aquilo, o melhor machão..."

Por outro lado, a mamãe, a vovó também apelam: "Eu, na sua idade, estava 'assim' de fãs. Era só escolher. Nos bailes, não parava de dançar. Todos os rapazes queriam dançar comigo". E elas fecham os olhos para ver melhor. Infalivelmente vem o estribilho: "Hoje é que eu não sou mais nada, já estou murcha, velha..."

Assim, à distância, "a mocidade é um mar de rosas". E... os espinhos? Pergunte aos jovens que estão de corpo inteiro mergulhados neste mar de rosas.

Não volte. Acompanhe o tempo dentro do tempo. Entre em órbita para não se perder no espaço. O meu tempo? O meu tempo é hoje, agora. Enquanto estiver viva é meu tempo. E oxalá o tempo esteja ainda me dando tempo. A marcha é para a frente.

A determinação de conservar tão jovem quanto possível, e pelo maior tempo possível, nasceu em Maurice Chevallier por volta dos 30 anos: "Vivo para o presente e delicio-me com cada dia que me é dado viver".

Circulo Vicioso: Tristeza-Velhice

Quanto mais triste, mais velho; quanto mais velho, mais triste... E lá vai o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Aliás ao longo de todo este assunto, vamos deparar com diversos círculos viciosos.

A tristeza é uma doença grave e contagiosa, cujo prognóstico é o envelhecimento precoce e a morte. Não há vacina, nem pílula, nem pomada, nem cirurgia, nada que a previna ou cure. É veneno, é tóxico, é vício.

Inimiga número um de qualquer indivíduo, homem ou mulher ela arrasta, arrasa, derrota. É erva má. Arranque-a pela raiz e plante, em seu lugar, outra que é seu pólo oposto: a Alegria.

Cultive esta planta maravilhosa, regando-a todos os dias e protegendo-a contra a invasão da erva daninha da tristeza.

Melancolia traz a inércia, a ociosidade, a avareza, tudo negativo. As mulheres tristes tornam-se matronas de corpo e alma. Os homens tristes, quando aposentados, tornam-se velhos resmungões.

Pessoas tristes moram em casas tristes, onde falam baixinho, vestem-se de escuro, e ninguém sabe dar uma boa gargalhada. São chamadas, por engano, de pessoas sérias.

Sérias não, tristes mesmo. Almas de luto da vida, da alegria de viver, apesar de um mundo de belas coisas a sua volta. 
O que é que perderam? Com o envelhecimento, só se perde mesmo a capacidade de procriação, mas queríamos nós, mulheres, procriar ainda, junto com nossas filhas e netas?

Tristeza é a preparação para o campo de solidão. Alegria se aprende.

Como se comporta o triste? Quando a gente está triste logo diz... "quero ficar sozinho". Fecham-se as janelas para que não entre claridade, a luz, que são sinônimos de alegria... Não queremos que ninguém nos fale, que façam ruídos. Desligamos o toca-discos, ou o rádio, ou a televisão, e nos afundamos de corpo inteiro no... poço da solidão. Pior: se alguém nos procura, transmitimos o nosso vírus nefasto.

Se fazemos uma ligação inadvertida para alguém neste estado calamitoso, logo ouvimos aquela voz de além-túmulo que diz "a-lôôôô..." Que temos a fazer? Uma coisa só: um rápido "é engano", e clique desligar.

Se dermos corda vamos curtir a tristeza do outro, que tem esse rato como prato do dia. A voz chorosa nos contará inúmeras coisas azedas, amargas. Suas queixas são pungentes, a pessoa se diz arrasada e inconscientemente nos arrasta.

Que podemos fazer? Chamá-la para que estrague o nosso dia? De que serve para ela dividir sua tristeza comigo?

Serei mais uma pessoa triste, na melhor das hipóteses, pois, se eu vivo com outros, seremos mais duas, três, quatro, quantas encontrar no meu mau dia. Não é contagiosa? Onde estará o benefício de que uma epidemia se alastre? Não se costuma isolar o paciente transmissor do mal?

Há sim, em nós, a tendência a cultivar o que nos aborrece. Claro está que não falamos aqui em desgostos devido a golpes da vida, desgraças e infelicidades reais. Falamos na tristeza vaga, daqueles que, não tendo motivos, têm o complexo de coitadinhos. A autopiedade é o que cultivam. Adoram que alguém fique com muita peninha deles. Sai de perto.

Acontece, sim, que algumas vezes se fique aborrecido. 
Que se deve fazer?

Se já sabemos como é o programa do triste, façamos o contrário. Constato: estou triste. Abro as janelas, o fluxo de luz já me animará. Ponho a tocar aquele disco bem maluco, que grita e faz um barulho dos infernos, isto me ocupa a mente e varre de lá o pensamento ou o sentimento que me entristece. Pego o telefone e ligo para aquela amiga alegre, festiva, que está sempre pronta para um bom programa.

E é com esta que eu vou. Não para aborrecê-la, mas para que ela me contamine com sua alegria. Nada lhe digo, é claro, da minha tristeza. Assunto tabu. Conto-lhe uma boa piada de papagaio, e ela me conta outra em troca. E para onde foi minha tristeza? O vento levou...

Tanta gente se queixa da vida vazia! Vida vazia? Calúnia. A gente é que é vazia. A vida é sempre cheia.

Nosso enriquecimento está em fazer programas, criar novidades, promover coisas, fazer planos, sonhar, meter-se em aventuras.

O "sempre foi assim" já está atrasado em mudar. Estagnação é que faz a água podre. Vale a pena até trocar um erro velho por outro erro novo.

Magdalena Léa
Poetisa e escritora Autora do livro 
"Quem tem Medo de Envelhecer?"

Autor(a): Magdalena Léa

 

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