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NOVO-VELHO
publicado em: 08/12/2017 por: Lou Micaldas

"Estamos num mundo novo, onde temos um novo-jovem que se impõe, e uma nova-mulher que se liberta. Queremos, pois, um Novo-Velho.

Por que não? Um velho que se assuma e assuma o seu lugar na vida". 

Sempre que pensamos num velho, visualizamos como ele é, nunca como ele poderia e deveria ser, mesmo na mais avançada idade. Muitos são os velhos que vão até ao máximo que lhes é dado viver, prezando a vida, lúcidos e ativos. Por que, então, todos os velhos não se esforçam para serem assim? 

Os processos orgânicos degenerativos, naturais no envelhecimento, se são inexoráveis, são entretanto lentos. A natureza não se compraz em causar choques - vale repetir.

"A rampa, de tão suave, é quase imperceptível. É como o ponteiro do relógio, que não se vê andar." Assim escreveu a Marquesa de Sevigné, em carta para seu primo, que demonstrava grande medo de envelhecer, quando a Providência lhe pôs nos braços um netinho.

O processo é, pois, lento, paulatino, mas o poder da mente é muitíssimo maior do que se pode supor. Ainda não conhecemos toda a sua força, que se mantém misteriosa ante as pesquisas dos sábios. 

Mas achamos que, se a mente estiver carregada de sentimentos negativos, derrotistas, pessimistas, motivando a degeneração psíquica, esta pode acelerar a degeneração orgânica. 

O esquecimento a que relegamos os velhos, a atitude nefasta de considerá-los na "segunda infância", o tédio, a inércia, o estar-por-fora a que os condenamos, e a que eles, os velhos, se entregam, não serão mais degenerativos do que os processos naturais do envelhecimento? 

Velhice é o caminho de todos, a menos que se fique no meio do caminho. Por que então não preparar-se para ela? Muitos jovens me têm dito: "Não quero envelhecer", como se a vida estivesse em suas mãos, e acrescentam - "quero viver só até os 40 anos." 

Acham que aos 40 já terão atingido uma boa idade, uma vez que ainda estão aquém dos 20. Depois, à medida que vão se aproximando da data marcada, empurram a linha de demarcação mais para frente, e dirão: "Cinquenta anos está bom, é uma idade boa!" 

Ficam analisando os cinquentões que conhecem, que ainda consideram gente. A marcha continua, e continua o empurrãozinho para a frente: mais dez anos, e mais dez anos, aplicando o slogan de Baruch - "Velho é quem tem mais dez anos que eu."

A educação para a vida, em todas as suas etapas, devia começar no jardim de infância. Mas não. As criancinhas ouvem piadas e assistem às cenas de chacota e caçoada, falta absoluta de respeito humano e de compreensão em relação aos velhos, tanto entre seus familiares quanto pelo vídeo, em alguns desses programas pseudo-humorísticos.

Aprendem a rir do próximo e não a amar o próximo. 

Uma educação sobre a velhice lhes daria um conhecimento indispensável do que é e do que não é real no envelhecimento. Mas, que escola ensina a viver? Vivemos como podemos, batendo com a cabeça até aprender que é dura, mas quebra.

Queremos uma nova maneira de se ver o velho e uma nova maneira de o velho se ver. Estamos num mundo novo, onde temos um novo-jovem que se impõe, e uma nova-mulher que se liberta. 

Queremos, pois, um novo-velho. Por que não? Um velho que se assuma e assuma o seu lugar na vida.

Que seja atualizado, atuante, em órbita. Que considere sua idade um bem. Diante das ameaças termonucleares, do horror do nêutron e mais quantos engenhos destruidores possam ser inventados, o homem deveria ter medo era de não envelhecer.

Vamos pensar que vale a pena estar vivo ainda hoje, neste mundo que, embora não seja nenhum paraíso, é um mundo pleno de recursos para nosso conforto, nosso divertimento e nosso trabalho.

A cada passo, a Ciência apresenta algo novo em benefício da humanidade. De quantos meios dispomos hoje para defesa da nossa saúde e bem-estar?

É compreender e procurar adaptarmo-nos à nossa época, à nossa sociedade. É procurar torná-la melhor em volta de nós, dentro dos nossos limites e possibilidades. Proclamar que o mundo de hoje é um caos não resolve nada, nem para nós nem para o mundo. Melhor será não contribuir com nossa visão caótica.

"O mundo não é mais como antigamente…" - exclamou com tristeza o Imperador Jaune há… três mil anos.

"Eu creio que, antes de tudo, é preciso que todos nós aprendamos a amar a vida", sentenciou Dostoiévski, "apesar de ter sido aquele que de todos nós sofreu mais" - no conceito de Stefan Zweig.

E é ainda Dostoiévski que põe na boca de Dimitri Karamazov, o condenado inocente, este grito: "Eu triunfarei de toda a minha dor, não fosse senão para poder dizer Eu existo". E outro personagem de "Os irmãos Karamazov", Ivan, irmão de Dimitri, afirma: "A única desgraça irreparável é estar morto."

Para Dostoiévski, o que importava era viver. Mesmo no sofrimento, seus personagens louvam a vida.
Vida é prêmio. E envelhecer representa uma vitória. 

Magdalena Léa 
Poetisa e Escritora, Autora do livro 
"Quem Tem Medo de Envelhecer?"

Autor(a): Magdalena Léa 

 

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