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PRESENTE DE NATAL
publicado em: 14/11/2017 por: Lou Micaldas

Versão e adaptação
de 
Magdalena Léa

Um gato cinzento, na cerca cinzenta, na tarde cinzenta...

- Quarenta cruzeiros e oitenta centavos! E amanhã é dia de Natal.

Maria Regina conta pela terceira vez:

- Quarenta cruzeiros e oitenta centavos!

Na tarde cinzenta, um gato cinzento, na cerca cinzenta...

E a jovem chorou.

Seus olhos nublados percorrem tristíssimos a pobre salinha no apartamento do casal, onde era visível a luta travada entre o tom de bom gosto e seus parcos recursos.

Amanhã é o dia de Natal, e ela tem somente quarenta cruzeiros e oitenta centavos!

Cuidadosamente amealhados, grão por grão para o presente de Henrique.

Ali estavam... e era aquilo apenas o resultado de tanto sacrifício?

- Quarenta-cruzeiros-e-oitenta-centavos!

Só!

Como sonhara - meu Deus! - com um presente para ele!...

Um presente!

Diante do espelho, desatou lentamente os cabelos do coque, bem presos no alto.

Uma cascata de ouro derrama-se por seus ombros, e desce além da cintura.

Havia duas coisas que eram o orgulho do jovem casal:
o relógio de ouro, herança do avô, e a bela cabeleira de Maria Regina.

Secou num gesto rápido e impaciente as lágrimas que corriam teimosas; e apanhando na nuca os longos cabelos da cor de ouro-velho, atou-os num lenço e alcançou a rua.

Andou, e andou, e ofegante parou defronte a um letreiro:

"PERUCAS - COMPRAM-SE, VENDEM-SE..."

- Quero vender meus cabelos.

- Deixe-me ver...

Maria Regina soltou-os orgulhosa.

- Trezentos cruzeiros ... senhora.

- Certo!

E, de loja em loja, ia ela apressada, buscando o presente que tanto sonhara: a corrente de ouro, de ouro trançado, que tão bem casaria com o relógio de Henrique.

Relógio de ouro, herança do avô.

- Trezentos cruzeiros! Trezentos cruzeiros!

Correu para casa, trazendo na bolsa os quarenta-cruzeiros-e-oitenta-centavos.

Trazendo no coração uma alegria e um susto.

Diante do espelho ajeitava os cabelos, agora tão curtos, e pensava e ria:

- Se Henrique não me matar logo, verá que, afinal, não estou tão feia assim... E ele dirá - quem sabe? - que pareço uma menina... que...

Mas o que poderia fazer com a triste quantia de quarenta-cruzeiros-e-oitenta-centavos?

O pequeno jantar estava pronto para os dois.

Sentou-se esperando.

Um relógio defronte, a bater compassado, e outro no peito, a bater sem compasso.

A corrente faiscando-lhe entre os dedos nervosos, e a ansiedade num crescendo... num crescendo...

Mas eis que ela escuta seus passos à porta e Henrique entrou.

Dentro da roupa surrada, seus vinte e dois anos pareciam multiplicados, pelo ar de cansaço, e quase de derrota...

Assombrado olhou-a, e ela correu-lhe ao encontro:

- Henrique meu bem... cortei-os... cortei-os para... para... para dar a você meu presente de Natal... Crescerão, tenho a certeza, crescerão bem depressa ... Fique contente, sim, meu amor? E diga... e diga: - Feliz Natal! Feliz Natal!

E as lágrimas a correrem-lhe pelas faces, e as palavras a brotarem-lhe entrecortadas de soluços:

- Não adivinha que presente tão lindo eu comprei para você?...

- Seus cabelos? Os seus cabelos, você os cortou?

Repetindo, repetindo como se não pudesse entender o que via, ele tocava indeciso os caracóis sedosos da cabeça de menino.

- Cortei! Cortei e vendi, mas sou a mesma, Henrique. Eu sou a mesma! E só por você, querido, que os vendi...

E foi então que ele voltou à realidade.

Tomando-a nos braços, beijou-a enternecido e, tirando do bolso o pequeno pacote, estendeu-o dizendo:

- Seu presente, querida! E quero que saiba que não há nada que me faça gostar menos de você.

Num grito de surpresa, Maria Regina viu aquele pente espanhol que tanto admirara na vitrine de uma loja.

Mas... e os seus cabelos? Mas... e o seu coque pesado, pesado e espesso, que se atava na nuca?

Entre lágrimas sorriu:
- Prometo - então disse - que hão de crescer bem rápido...

E Henrique que ainda nem vira seu presente!

E ela exibiu-o: a corrente de ouro trançado para o relógio, herança do avô.

- Não é linda? - indagava - andei tanto para encontrá-la... Dê-me o seu relógio, quero ver como vai bem...

Então ele deixou-se cair no sofá, as mãos dentro do bolso, e na boca um riso franco:

- Vamos guardar, meu bem, vamos guardar nossos presentes... são tão belos, mas... não podemos usá-los... agora... Eu... eu... vendi o meu relógio... Vamos jantar?

Autor(a): Magdalena Léa

 

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