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INFORMAÇÃO / REPORTAGENS

Em seu ateliê, no Recreio, artista cria obra que retrata diferentes mazelas
vividas por crianças Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

Através de bustos de resina, Bruno Dante retrata diferentes tipos de infância; objetivo é refletir sobre temas como injustiça e impunidade

Toda obra criada pelo artista plástico Bruno Dante é baseada em sua própria observação do ser humano. Um hábito cultivado desde novo, no vaivém do subúrbio carioca, onde o artista cresceu e desenvolveu um olhar crítico sobre as mazelas da cidade. Morador do Recreio há 12 anos, ele manteve a capacidade de observar o outro na maturidade. No ateliê montado dentro de seu apartamento, trabalha atualmente em um projeto visual intitulado “ Infância ”, por meio do qual pretende levar o público a refletir sobre temas como injustiça e impunidade .

O artista vem trabalhando há um ano e meio na confecção de bustos de crianças confeccionados com resina, com 25 centímetros cada, hiperrealistas, para retratar segmentos marginalizados da sociedade.

Das sete esculturas (algumas delas duplas) que o projeto terá quando finalizado, daqui a um mês e meio, segundo previsão do artista, três já estão prontas: a de uma criança vestindo uniforme escolar com um tiro no peito — uma alusão à morte do adolescente Marcos Vinicius da Silva, de 14 anos, baleado em junho do ano passado durante um tiroteio no Complexo da Maré —; a de um pequeno indígena com metade do cocar derretido, com a qual ele quer chamar a atenção para a questão das queimadas e da demarcação de terras indígenas; e a de um menino carregando um pedregulho nas costas em vez de mochila, seu protesto contra o trabalho escravo infantil.

A vítima de bala perdida, o cocar queimado, a pedra nas costas em vez de
mochila: peças já prontas Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

— Meu trabalho tem um direcionamento muito forte para o social, algo que lance um discurso no qual eu possa falar de questões para as quais nem sei se terei respostas. Neste, especificamente, abordo os diferentes tipos de infância que existem — diz Dante, que produziu a primeira peça após a tragédia na Maré.

Após se formar em Design, o artista plástico, de ascendência indígena, portuguesa e nordestina, mudou-se para Londres, onde estudou ilustração. De volta ao Brasil, ilustrou livros infantis, confeccionou bonecos para teatro e prestou consultoria artística para a novela “Pega pega” (2017), da TV Globo. O atual trabalho, diz, ajuda a promover as reflexões que deseja propor.

— Eu queria ser literal nessa questão, fazer quase uma obra legendada. As pessoas ficam muito encantadas porque são formas bastante próximas da humana. Quando olham (para as peças), há uma atração instantânea, cria-se um vínculo, e, ao se aproximarem, elas se afeiçoam. Aí vem a puxada de tapete, a provocação, o tiro no peito, o cocar queimado. O hiperrealismo é um convite para que você observe — afirma.

Aos 37 anos, o carioca afirma já ter sido procurado por curadores de galerias para expor sua obra mais recente, embora ainda não tenha nada definido. De qualquer forma, para garantir que sua obra será vista, já tem um plano em mente:

— Pretendo começar a espalhar pôsteres tipo lambe-lambe pela cidade, com fotos dos bustos ampliados, nas próximas semanas, conforme eles forem ficando prontos.

Autor(a): Rodrigo Berthone
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Maria Clara Ribeiro dos Santos

 

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