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INFORMAÇÃO / REPORTAGENS

EXISTE AMOR PELO GRAFITE DE SP
publicado em: 06/02/2017 por: Lou Micaldas

Grafite na estação de metrô São Cristóvão
- Marcelo Carnaval

Enquanto João Doria cobre murais, Rio incorpora pinturas urbanas e importa artistas de rua
“A casa é sua, pode entrar”, diria um carioca, receptivo que ele só, se um grafiteiro paulistano, aborrecido com a pouca sensibilidade do prefeito João Doria à arte de rua, resolvesse aportar em solo carioca de spray e cuia. E teria ainda as boas-vindas do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que deixou as portas abertas para quem quiser trocar o cinza pelo colorido na paisagem da cidade.
— O grafite se integrou à cultura do Rio. É muito importante que, em propriedades privadas, se tenha autorização. Se não, fica algo arrogante e que tira a beleza da arte. No espaço público, desde que não seja pichação, tudo bem, se incorporou à nossa cultura — diz Crivella.

Ao que tudo indica, é um caminho sem volta. Assim como as maiores metrópoles do mundo, o Rio hoje transpira arte urbana. A popularização da street art foi sacramentada durante a Olimpíada, quando o Boulevard Olímpico foi tomado por grandes murais, como o “Etnias”, de Eduardo Kobra, que atraíram milhares de admiradores e serviram de pano de fundo para inúmeras selfies.

Novos eventos na Zona Portuária
Os curadores dos painéis que enfeitaram a Orla Conde, a carioca Andrea Franco e o paulistano Kléber Pagu, sócios da agência RUA, agora preparam novas ofensivas contra o cinzento mau humor: os festivais “Rio das Cores”, de grafites em empenas de prédios, e “Rio Chalk Festival”, de pinturas em 3D realizadas no chão, com giz. Ambos serão realizados ainda neste semestre, na Zona Portuária, e com a participação de artistas nacionais e internacionais, incluindo grafiteiros de renome de São Paulo.

— O Rio tem grandes possibilidades para a arte de rua, que são reforçadas no momento em que você começa a ter os grafites apagados em São Paulo — opina Pagu ao lembrar que, em janeiro, o prefeito da capital paulista mandou cobrir de cinza um mural de cinco quilômetros feito por 15 artistas na Avenida Vinte e Três de Maio, o maior da América Latina. — Ações desse tipo acabam fortalecendo o evento, que já estava marcado.
 

Grafite sobre Cássia Eller na Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras
- Marcelo Carnaval / Agência O Globo


Um dos paulistanos confirmados no “Rio das Cores”, Binho Ribeiro, com 32 anos de experiência com os sprays, acredita que, no Rio, há uma clareza maior sobre “a colaboração da arte urbana”:
— Os focos no turismo e no entretenimento deixam a impressão de que o Rio é mais aberto para a arte em todos os sentidos. Em São Paulo, é uma barreira a ser rompida a cada dia.

Outra participação paulistana garantida no festival, Tikka, de 30 anos de idade e 15 de grafite, chama atenção para outro predicado do Rio:
— O cenário sempre contribui para a inspiração — diz a artista, que também participa anualmente do Meeting of Favela (MOF), festival organizado pelos grafiteiros Kajaman e Carlos Bobi, que, desde 2006, levam a cultura urbana para a Vila Operária, em Caxias.
 

Gráfite em prédio na Tijuca próximo ao Maracanã
- Marcelo Carnaval / Agência O Globo

 
O paulistano Toddy, que teve um dos seus grafites apagados por Doria, diz que a “ditadura da arte que se
instalou em São Paulo vai criar uma resistência e dar mais motivos para o pessoal querer pintar” por lá. Mas grafitar no Rio, diz, “é sempre incrível”:
— O tratamento é bem diferente. Já fiz grafites dentro das casas das pessoas, dei entrevista em rádio comunitária... Aqui, em São Paulo, o pessoal ainda tem um certo preconceito, não entende muito e não cede o muro com facilidade.
Também de São Paulo, Titi Freak está passando uma temporada no Rio para grafitar as paredes externas de um antigo barracão da Mangueira, no Santo Cristo, a convite dos organizadores do festival Art Rua. Um dos pioneiros do grafite na cena paulista, Titi diz perceber a evolução que vem acontecendo no Rio ao longo dos anos.

— O espaço está bem aberto, na Zona Portuária principalmente, tanto para projetos como esse, gigantescos, quanto para um artista novo que queira pintar ali na esquina — afirma.

Gráfite do Kobra no Porto Maravilha, o maior do mundo no Guiness
- Marcelo Carnaval / Agência O Globo

Quem passa pela Zona Portuária vê que é uma questão de tempo. E que o processo, inclusive, está bem adiantado, muito por iniciativa de Andre Bretas, idealizador do Art Rua. Desde a primeira edição do festival, que acontece em paralelo à Feira Internacional de Arte do Rio (ArtRio) e traz artistas do Brasil e do exterior para expor seus trabalhos aqui, mais de 40 galpões e empenas de prédios da região ganharam grafites e cor.

— Fui algumas vezes à Art Basel (feira de arte internacional realizada em Miami) e conheci o Wynwood, bairro revitalizado por meio da arte. Achei que seria uma forma legal de transformar a Zona Portuária. Fico feliz de ter conseguido plantar essa semente — afirma Andre, comparando o cenário atual com o que encontrou há seis anos. — Tínhamos que apresentar o grafite para os comerciantes e síndicos liberarem suas fachadas. Hoje, as pessoas já sabem o que é e a maioria aprova.

Um dos grandes expoentes do ramo, o baiano Toz, radicado no Rio há mais de 20 anos, acompanhou de perto essa transformação.

— Há várias frentes sendo formadas: projetos de grandes murais, festivais de street art, artistas indo para galerias... — observa Toz, que já fez trabalhos como um painel gigante no prédio da ONU em Genebra, na Suíça, mas ainda dá valor aos pequenos prazeres. — Até hoje pinto ilegalmente com amigos nas ruas. Acho que isso que dá graça ao movimento e desenvolve a criatividade de vários artistas — defende ele, que grafitou até uma alegoria que a tradicional Mangueira levará ao sambódromo este ano.
 

Toz - Os murais do baiano, radicado no Rio há mais de 20 anos e também referência no grafite, há tempos ultrapassaram as fronteiras do Brasil. Entres seus personagens famosos está Nina, boneca com traços orientais

Defesa da liberdade de expressão
Marcelo Ment, outro talento das bandas de cá, também é defensor da liberdade de expressão.

— A ocupação das ruas é um movimento legítimo e reflexo do tipo de sociedade em que vivemos. Antropologicamente, o homem sempre se expressou nos muros — constata Ment.

O paulistano Mauro Neri, que foi preso no final de janeiro por tentar restaurar um de seus grafites apagados pela gestão de Doria, defende até que “grafite e pichação ocupem o mesmo espaço”:
— É uma linha muito tênue.
Opinião que ganha coro de Rui Amaral, um dos curadores do corredor de arte urbana que foi apagado na capital paulista:
— Não gosto de vandalismo, mas a questão não está ligada à polícia. É cultural — argumenta ele, que se dispôs a ajudar Doria, interessado agora em criar um museu de arte de rua a céu aberto.
 

Gráfite na Rua Pereira Reis em Santo Cristo
- Marcelo Carnaval / Agência O Globo


Apesar disso, no imbróglio paulistano, o prefeito determinou multa de R$ 50 mil para quem pintar monumentos e de R$ 5 mil para pichadores de muros. Em outra mão, no entanto, Lisette Lagnado, diretora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, além de crítica de arte e curadora, reforça que tanto grafite quanto pichação “são manifestações para reivindicar um espaço público”:
— Estudos sociológicos mostram que os enclaves fortificados têm proliferado em São Paulo, e os muros se tornaram um suporte de expressão pública. O que está em jogo é o que a tinta cinza encobre.

Nascido no Campo Limpo, bairro da periferia de São Paulo, e hoje artista de renome internacional, Eduardo Kobra destaca que uma das saídas para o abismo social é justamente a arte de rua:
— Tive a oportunidade de seguir o caminho das drogas, do crime. Tive que lutar contra essas propostas, muito sedutoras, e seguir o caminho da arte. O primeiro ponto é perceber que muitos artistas são de origem muito simples e autodidatas. Com incentivos básicos é possível oferecer perspectivas de vida para jovens talentosos.

Autor(a): Natália Boere

 

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