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INFORMAÇÃO / REPORTAGENS

Tite foi jogador com passagens obscuras por times como Portuguesa e Guarani, mas chegou ao comando da Seleção com trabalho celebrado e metódico, que inclui presentear seus atletas com livros (Foto: Luciana Whitaker/Agência O Globo)

Treinador da Seleção gosta dos livros de autoajuda e superação

Entre quadros táticos e muitas anotações, a sala que o técnico Adenor Leonardo Bacchi, o Tite, ocupa na sede da CBF, na Barra da Tijuca, revela aqui e ali pilhas de livros. Alguns títulos relembram carreiras vitoriosas; outros, a preocupação ética que o treinador derrama em suas entrevistas sinceras e longas. Muitos deles vão parar na mão dos jogadores, categoria não exatamente conhecida por sua intimidade com a leitura.

Antes dos amistosos contra Rússia e Alemanha, em março, cada jogador convocado recebeu um exemplar de Liderar com o coração (Sextante, 2016), escrito por Mike Krzyzewski, assistente do Dream Team de basquete dos Estados Unidos e técnico tricampeão olímpico entre 2008 e 2016. O “Coach K”, como é conhecido, capitaneou uma mudança radical de mentalidade após o fracasso americano em Atenas-2004. Mais do que o trabalho de quadra, dedicou-se a entender e moldar o caráter dos indivíduos que comandava. E exaltou virtudes que o técnico da Seleção Brasileira certamente encamparia.

Mas estender o hábito de leitura aos 23 convocados para a Copa do Mundo não é fácil. Durante as últimas semanas, ÉPOCA procurou diversos jogadores para que falassem sobre os livros indicados por Tite. Apenas um, o meio-campista Renato Augusto, admitiu à reportagem: não chegou a ler nenhum daqueles sugeridos.

Romper essa barreira, que separa os jogadores da literatura, é um desafio quixotesco que Tite se impôs desde 2011. Em agosto daquele ano, quando comandava o Corinthians, Tite presentou os jogadores com um exemplar de Nunca deixe de tentar (Sextante, 1994), de Michael Jordan — no livro de 80 páginas, o Pelé do basquete narra a busca pela excelência ao longo de sua carreira. Naquela temporada, o time paulista foi campeão brasileiro. Um ano depois, conquistou a Libertadores e o Mundial. No elenco, estava Paulo André, hoje no Atlético-PR. O zagueiro, com reconhecido hábito de leitura, admitiu que nem todos embarcam na proposta de Tite. Mas valorizou o esforço do treinador para transformar os jogadores da Seleção.

“O fato de Tite oferecer essa oportunidade de leitura não a torna obrigatória. Depende da disposição de crescimento de cada um. A leitura permite isso. Os homens mais inteligentes e preparados para a vida se tornam jogadores melhores dentro de campo. E a leitura faz um bem danado: expande horizontes, te faz uma pessoa melhor e forma times mais vitoriosos.”

Tite também se preocupa em fazer carinhos pontuais. Quando sacou Filipe Luís do time para dar lugar a Marcelo, em 2016, entregou ao lateral esquerdo um exemplar de Maktub (Rocco, 1994), compilação de crônicas de Paulo Coelho sobre caminho, opções e destino. O lateral ficou sensibilizado. “Tite é uma pessoa extremamente justa. Ele me chamou, disse que me respeitava e que queria me dar um livro de presente. Isso me conquistou. A maneira como ele falou comigo me trouxe ainda mais para o lado dele”, disse Filipe Luís na ocasião.

Caso abram um dia o livro de Krzyzewski, os astros canarinhos vão deparar com um diagnóstico óbvio, muitas vezes esquecido pelos torcedores: a reunião de astros do esporte não forma um time coeso — um cenário que lembra muito a Copa de 2006, em que o quadrado mágico formado por Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo, com Robinho no banco, nunca engrenou. Tite, que tem possivelmente o melhor plantel do mundo à disposição, sabe que evitar essa armadilha é uma de suas missões. E espera que tal noção também seja absorvida por seus comandados.

O escritor Paulo Coelho, autor de Maktub, obra escolhida por Tite para presentear o lateral Felipe Luís, quando esse perdeu a posição para Marcelo na Seleção (Foto: Matej Divizna/Getty Images)

Lendário treinador do basquete americano, John Wooden escreveu Jogando para vencer, obra recomendada pelo ex-técnico da seleção brasileira de vôlei (Foto: Robert Laberge/Getty Images)

O técnico Mike Krzyzewski (à dir.) fez história ao comandar o Dream Team do basquete americano e publicou Liderar com o coração, um dos preferidos de Tite (Foto: Robert Laberge/Getty Images)

No livro que os jogadores levaram para casa, o hoje treinador do time da Universidade de Duke compartilha histórias humanas, para além do debate técnico-tático. São capítulos intitulados como “Comunicação”, “Empatia” ou “Integridade”, embalados em episódios comoventes, sabor Sessão da tarde. No capítulo sobre abnegação, um Krzyzewski furioso com o desempenho dos titulares avisa a todos que, na próxima partida, mandará à quadra um time só de walk-ons — espécie de reservas dos reservas. Divulgado o time do jogo seguinte, porém, um dos walk-ons o procura e diz, pleno de humildade: “Treinador, agradeço muito à oportunidade e à confiança, mas acho que seria melhor para a equipe se o Shelden (Williams) começasse em meu lugar amanhã...”.

Valorizar os objetivos do grupo sobre as ambições individuais é uma das lições de Tite, mas há outras. Trata-se de uma profissão que atingiu um enorme grau de conhecimento científico, e é preciso dosá-lo. Ao mesmo tempo, é necessário motivar os jogadores a obter um equilíbrio entre disciplina e criatividade. Em Guardiola confidencial, do jornalista Martí Perarnau, o técnico espanhol reconhece que seus jogadores sofrem diante do volume excessivo de orientações que recebem. Tite parece enfrentar a mesma dificuldade, tanto que, quando anunciou os 23 nomes convocados, agradeceu a todos os atletas que comandou e que o aturaram em preleções de mais de uma hora. “Nem eu me aguentaria por uma hora”, brincou. É possível que Tite recorra à literatura para, quem sabe, falar menos.

“Ler livros é um indício de que ele se coloca em estado de aprendizado, o que inspira as pessoas que estão em volta. O Tite também tem generosidade mental, que é a capacidade de repartir o que sabe, sem achar que essa atitude o diminuiria”, afirmou o filósofo pop Mario Sergio Cortella. “Identifico nele a preocupação com uma liderança edificadora.”

Autor best-seller de autoajuda, Cortella se preparava para uma palestra em um hotel de Porto Alegre, no segundo semestre de 2016, quando foi alertado sobre a presença de Tite, então já técnico da Seleção. Entre os mais de 500 ouvintes, Tite tinha em mãos um exemplar de Qual é a tua obra? (Editora Vozes, 2007), sobre gestão, liderança e ética, e queria um autógrafo. Torcedor do Santos, mas admirador do trabalho do treinador no Corinthians, Cortella fez questão de convidá-lo para um papo no camarim. Nascia ali um intercâmbio de ideias, no qual o filósofo enviava seus lançamentos à sede da CBF e o técnico frequentemente fazia comentários.

Foi assim que os quadros táticos começaram a dividir espaço na sala com outros livros de Cortella, como Viver em paz para morrer em paz (Planeta, 2017), que discute o que realmente importa na vida, e A sorte segue a coragem! (Planeta, 2018), um convite à busca interna para as razões do sucesso e do fracasso. Para os jogadores, no entanto, Tite prefere enviar livros motivacionais, mais voltados para esporte, chancelados pela aura da glória, como Liderar com o coração, que chegou por meio de um esforço de Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho, técnico bicampeão olímpico com o vôlei masculino.

“É a segunda vez que vejo jogadores de futebol usando esse livro. O meu filho (o levantador Bruninho) já tinha levado um exemplar para o Daniel Alves”, comentou Bernardinho, que escreveu a apresentação da edição brasileira. “O que o Tite faz é trazer um vencedor de outra área para inspirar os jogadores. É uma iniciativa extremamente interessante de um cara que tem a preocupação de desenvolver o lado humano dos atletas e mostrar a importância de todos. Muitas vezes as pessoas só se preocupam com o ganhar ou perder. Mas há muita coisa além. Numa Copa do Mundo, então, você precisa de muito mais.”

A busca de Tite por exemplos no esporte não deixa de ser um contraponto à estratégia adotada por Luiz Felipe Scolari, o Felipão, no triunfo da Copa de 2002, ganha no Japão e na Coreia do Sul. Naquela ocasião, o elenco foi motivado por A arte da guerra, escrito pelo filósofo e general chinês Sun Tzu durante o século IV a.C. e provavelmente o mais famoso “livro de cabeceira” de um técnico verde-amarelo. Inspiração para Napoleão e Mao Tsé-Tung, o livro parte da premissa de que questões de autoconhecimento são mais importantes para a vitória na guerra do que o simples poderio militar de um exército. Se o bélico Felipão teve tempo de reler Sun Tzu antes do fatídico 7 a 1 de 2014, no Mineirão, não se sabe.

Outro título edificante distribuído por Tite a seus convocados foi Jogando para vencer (Sextante, 2010), de John Wooden, decacampeão universitário de basquete com o time da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla). Para o americano, hoje aposentado, não são as vitórias que determinam o sucesso de um profissional, mas a consciência de que deu o melhor de si.

O livro chegou a Tite por meio do mesa-tenista Israel Stroh, prata nos Jogos Paralímpicos de 2016. A dupla se encontrou na sede da CBF após a conquista da medalha. “Estava com o livro, que havia comprado uns dois anos antes, na bagagem. Decidi levá-lo como presente, e ele disse que não conhecia”, contou Stroh. “O Wooden nunca cobrava vitória, mas, sim, alto desempenho. E gosto dessa filosofia de respeitar o adversário e o esporte, sem ser frouxo. O brasileiro é muito preocupado com a vitória, e esse livro desmistifica esse culto”, disse o medalhista.

Protagonista inteligente, Tite ecoou muito desse espírito nas entrevistas que concedeu no dia da convocação. A cada vez que alguém perguntava sobre promessa de título, preferia reforçar o esforço. “O resultado final, eu não sei, mas (o time) vai jogar muito”, repetia, arregalando os olhos, cada vez mais fáceis de ler.

Autor(a): João Pedro Fonseca
Fonte: Revista Época - https://epoca.globo.com/esporte/noticia/2018/06/o-que-tite-le-saiba-quais-livros-o-tecnico-usa-para-fazer-cabeca-de-seus-atletas.html
Colaborador(a): Silvio Menezes Sobrinho

 

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